sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Lixo Extraordinário

Nome original: Waste Land
Diretor: Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley.
Ano: 2010
País: Brasil / Reino Unido
Elenco: Vik Muniz.
Prêmios: Amnesty International Film Prize e Panorama Audience Award no Festival de Berlim, Melhor Documentário no Festival Internacional de Seatle e Prêmio da Audiência de Melhor Documentário (Cinema Mundial) no Festival de Sundance.
Lixo Extraordinário (2010) on IMDb


É muito difícil escrever sobre um retrato tão impactante. As emoções que ele nos causa são as mais profundas dentro de um poço de sentimentos soltos num submundo que criamos dentro de nós. Vive-se para morrer. A sobrevivência é a dolorosa passagem de um estado físico vivo à um estado de putrefação, onde nossa alma é liberta através dos gazes que nós, lixos, exalamos à todo momento. O lixo que criamos é a extensão morta de nossas vidas. É o melhor retrato do que realmente somos e exatamente para onde vamos.

Mas o extraordinário é que em um lugar sem vida, só com almas dentro de corpos inanimados buscando uma sobrevida nesse mundo. Os que lá habitam já não ouvem, não cheiram, não sentem mais nada. Estar alí é uma exclusão voluntária de um Estado que já lhes excluiram. Este cemitério de vida morta é o Aterro do Jardim Gramacho, o maior aterro do mundo em quantidade de lixo. Os urubus à procura de alimento, dividem o espaço com esses seres invisíveis que lutam por qualquer objeto que traga um pouco de humanidade e reflexão para sentir-se vivo. Percebemos que alí há mais vida do que nos palácios governamentais, casarões imperiais expalhados pelo mundo. No Gramacho a luta é diária, lutando com garra e querer viver é a arte dos catadores de material reciclável. Mas a arte mudaria o modo de entender onde essa batalha interminável, finalmente, acabará.

Vik Muniz no Aterro do Jardim Gramacho
Vik Muniz é o maior artista plástico brasileiro da atualidade e um dos mais influentes no mundo. E o que essa luta da sobrevivência no Gramacho teria a ver com arte moderna? Absolutamente nada, até Vik vislumbrar um novo projeto. A idéia vai além de transformar material reciclável em arte. É transformar catadores em pessoas visíveis, seres humanos reais, transformadores da própria vida e artistas, que seja, por pelo menos um dia. Vik tem uma biografia invejável e pouco comum no mundo elitizado das artes. Viveu uma infância pobre, sem luxos, sem conhecer museus. Hoje, ao lado de Jean-Michel Basquiat, são os maiores expoentes de que a arte é universal: todos fazem, todos vêem, todos entendem. Você também pode. Os catadores do aterro também podem e fizeram. Aprecie sem moderação.
 
A partir da premissa, estamos diante de alguns personagens surreais, escolhidos e conduzidos por Vik e seu assistente Fábio à uma experiência maravilhosa, transformando o dia a dia dos que não viam futuro, não viam vida naquele lugar. A transformação é gradual, passo a passo, selecionada, tirando escombros de sacos cheio de restos, cavando até encontrar um luz no fim do túnel, ao subir no andaime e ver que cada um deles deixou de ser apenas um ponto no meio daquela cidade do lixo e passou a ser uma obra de arte. Vik é mostrado de forma imaculada, com muita inteligência e sabedoria, entendendo cada passo que dava, com cautela e buscando apenas o benefício da Associação dos Catadores. E não deve ser diferente disso. Vik é um orgulho nacional.







Se Jorge Furtado revolucionou o documentário mundial, abrindo os olhos à questão do lixo com “Ilha das Flores”, aqui Vik vai além. Nos mostra uma solução, um meio, um ideal aos catadores de lixo do Jardim Gramacho. É uma espécie de “Nascidos em Bordéis” dentro da “Ilha das Flores”. “Lixo Extraordinário” é uma biografia definitiva não de Vik Muniz, mas sim de cada ser humano, representando Tiões, Irmãs, Zumbis, Isis, Valteres... É arrebatadora a sensação causada por “Lixo...”. Um projeto estupendo. É ver beleza e profundidade onde pensamos só haver morte e barbárie superestimulado pelos sons criacionistas de Moby. É obrigatório vê-lo para entender melhor como não somos nada e que um dia, lixo viraremos. É reconhecer o trabalho de pessoas invisíveis. É ver a vida como vida, não como preparação da morte. Do lixo vim e ao lixo retornarei, mas que seja um lixo extraordinário.

Explore essa experiência: vai mudar seu conceito de vida.

Site Oficial 
Site de Vik Muniz

Vitor Stefano
Sessões

8 comentários:

  1. O artista plástico Vik Muniz tem um trabalho difícil de adjetivar (Risos). Mal posso esperar para ver este documentário.

    Leandro Antonio
    Sessões

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  2. O filme é lindo!!! Vai muito além do ILha das Flores que é ótimo... O Lixo Extraordinário fala de arte, exclusão, lixo, humanidade, ser humano, preconceito...

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  3. Sem dúvida o melhor documentário que já vi!

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  4. FICAR SEM PALAVRAS JA DIZ ALGO CERTO? RS
    VIK MUNIZ CONSEGUIU FAZER UM DOCUMENTARIO SOBRE UM ASSUNTO DELICADO E DESAGRADAVEL, FICAR INTERESSANTE, PERFEITO PARA REFLEXOES POSITIVAS, E COM TOQUE DE VIK, QUE É SEMPRE COLORIDO E BOM.
    SEGUIR AS ATITUDES DE VIK, É A META DE 2011, POIS AJUDAR O PROXIMO, É AJUDAR A SI MESMO.

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  5. Eu gostei e me emocionei com o filme...
    Mas fiquei o tempo todo pensando que esta história na mão de um bom diretor poderia resultar numa obra-prima, o que não é o caso.
    Os diretores se preocupam em apresentar e inflar o ego do Vik e se apoiam em alguns bons depoimentos dos personagens, parece que o roteiro aconteceu, nada foi muito elaborado.
    É um documentário que se atém a documentar, mas poderia ter sido mais que isso.
    Achei a abertura com o programa do Jô um erro, mas enfim... entre mortos e feridos, salvam-se todos. As histórias dos catadores são simples e emocionantes, não há como não gostar do filme.
    Abs!!!

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  6. Faz jus ao nome do filme ,realmente extraordinário.Vick mostrando a incrível capacidade que a arte tem de transformar. Transformar matéria em ideia, vergonha em orgulho, ilusão em sonho. As imagens do aterro sanitário e as profundas conexões humanas estabelecidas num lugar tão rudimentar conseguem sensibilizar o espectador sem apelar para o drama barato. Mostra os trabalhadores de lá como pessoas como quaisquer outras, com personalidades e atributos únicos.

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