quarta-feira, 31 de março de 2010

Sherlock Holmes

Nome Original: Sherlock Holmes
Diretor: Guy Ritchie
Ano: 2009
País: EUA / Alemanha
Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdams e Mark Strong.
Prêmio: Globo de Ouro de Melhor Ator em Musical/Comédia (Robert Downey Jr.).
Sherlock Holmes (2009) on IMDb


Holmes, Sherlock Holmes. Filme ruim. Sobretudo para quem está acostumado com a literatura hábil do Sir Arthur Conan Doyle. Os leitores com certeza estranharam um Sherlock tão jovial e, pasmem: lutador... Os idealizadores do longa imaginaram que poderiam transformar um astuto detetive em um bonitão aventureiro. O que sobrou foi uma trama fraca que não consagrou nem os caracteres de filme de investigação nem tão pouco de filme de ação.

A astúcia e raciocínio lógico, assim como o clima de investigação foram porcamente substituídos por efeitos especiais exagerados e cenas desnecessárias. Uma superprodução que sinceramente não provocou a surpresa e atrativos desejados. Não é possível identificar Holmes, não é possível reconhecer Watson, Lestrade. Tudo estranhamente calculado para agradar todos os públicos, para ser um investimento seguro. Creio que muitos sherlockianos possam terem sentidos ofendidos com essa ‘tentativa’ estranha.

Não há tanto o que dizer. Ótimos atores reunidos, figurino interessante, belas imagens, embora muito escuras, trilha sonora razoável, mas o que importa mesmo, a história, deixa a desejar. O flerte com o ocultismo e a trama sem densidade são nada mais do que intenção de deixar o filme mais interessante.

Assim, não considero um filme recomendável. Se quiser um filme com conteúdo, opte por algo mais clássico, se quiser um filme de ação opte por algo mais claro.



Mateus Moisés
Sessões

terça-feira, 30 de março de 2010

Dossiê Claudio Assis

"Imbecil! Você é um escroto. Fodam-se vocês todos. Eu falo o que eu quiser falar. Tomem no cu".

Desse modo Claudio Assis em 2004 se dirigiu a Hector Babenco. Porque? Porque Babenco venceu como melhor diretor com seu globowoodiano 'Carandiru' no Grande Prêmio TAM de Cinema Brasileiro daquele ano, enquando Claudio concorria com seu ótimo 'Amarelo Manga'.

Cláudio Assis é assim. Um homem de palavra, de opinião formada e forte. Não se rebaixa, apesar da baixaria, tem um estilo próprio de fazer o cinema, sempre agregando elementos da cultura pernambucana em seus projetos. O pernambucano não apenas xingou Babenco, ele se rebelou contra um cinema de aparência e de bom-mocismo que estava tomando conta do cinema desse país. Claudio faz filmes para poucos, talvez para ninguem além dele mesmo. E mesmo assim o faz com grande qualidade, apelo social e diversisdade cultural. Ele recoloca o cinema nordestino em um patamar de grande qualidade de onde já vieram gênios como Glauber Rocha.

Sua filmografia não é longa. São apenas 2 longas metragens lançados ('Amarelo Manga' e 'Baixio das Bestas'), porém eles tem uma força que já merecem destaque na história da produção audio visual brasileira. São os curta/médias/documentários feitos pelo pernambucano: 'Henrique, um Assassinato Político', 'Soneto do Desmantelo Blue', 'Opara, Tão Grande Quanto o Mar', 'Texas Hotel', 'Vou de Volta' e 'Um Passo a Frente e Você Não Está Mais no Mesmo Lugar'. Tambem já fez participações em filmes como ator, por exemplo em 'Madame Satã'. É um artista multifacetado de uma única face: o cinema pernambucano!

A intensidade de Claudio é tão grande que artistas de outros ramos, como Paulinho do Amparo, lider da Banda 3 Et Records entre outras representações artisticas, criou o mini-curta de animação, intitulado como trailer de 'As Mortes de Claudio Assis' que mostra a personalidade de nosso homenageado com humor e sarcasmo.


O primeiro longa do diretor, 'Amarelo Manga' causou muita polêmica pois desestruturou o cinema que estavamos acostumados a ver. Uma abordagem direta, com uma temática do dia a dia, grande elenco e um roteiro de causar náuseas. No bom sentido, pois nos abre a mente para os problemas que a periferia sofre, além de termos que ter um estômago forte para aguentar ver a crueldade do ser humano estampada na tela grande. Com Matheus Nachtergaele, Jonas Bloch, Dira Paes, Chico Diaz e Leona Cavalli em interpretações premiadas e memoráveis, além de uma trilha sonora marcante. Um filme cru, mas com muita força. Esse poema define bem o que é 'Amarelo Manga'.
"O ser humano é estômago e sexo
E tem diante de si a ordem
de ter obrigatoriamente de ser livre
Mas ele mata e se mata
com medo de viver
Por isso meus olhos estão cegos
para não enxergar as falhas desses pecadores
Meus ouvidos escutam uma voz que diz
Padre, morrer não dói
Estamos todos condenados
Eternamente condenados
condenados a ser livres"
A poesia faz parte do cinema assissiano. Em 'Baixio das Bestas' também temos alguns momentos poéticos, além de ser um filme mais complexo, pelo roteiro e pela narrativa. O filme conta novamente com as ótimas presenças de Matheus Nachtergaele e Dira Paes, acompanhados agora de Mariah Teixeira, Fernando Teixeira e Caio Blat, de Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos. Houve um certo amadurecimento cinematográfico de Assis. Apesar da temática difícil (abuso de menores) Claudio consegue com uso de simbologismos mostrar ao que veio com 'Baixio'. A presença marcante do maracatu na película é um desses simbolismos que amenizam a dureza da abordagem. O Maracatu Rural é uma representação folclórica pernambucana onde os Cablocos de Lanças dançam a música ritmada com tambores. Uma força que só o Pernambuco tem e que Claudio Assis não poderia deixar de fora.


Ambos são filmes complexos, difíceis e regionais, porém a abordagem de temas de nossa sociedade mereçam que um cineasta como Claudio Assis mostre-nos claramente a realidade que nos é encoberta. Que toda essa força que ele tem, gere muito mais filmes que nos pegue pelo estômago e deixe claro que tudo não é nada e a terra é apenas um lugar para o qual um dia voltaremos, se tivermos sorte. A mando de Claudio, Mateus Natchergale quebra a quarta parede e diz: "Sabe o que é o melhor do cinema? É que no cinema tu pode fazer o que tu quer”. E com Claudio Assis na direção pode. Sou fã de seu trabalho e agora temos que esperar por 'Febre do Rato'.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 29 de março de 2010

A Fita Branca

Nome Original:Das weisse Band - Eine deutche Kindergeschichte
Diretor: Michael Haneke
Ano: 2009
País: Alemanha/Áustria/França/Itália
Elenco: Christian Friedel, Leonie Benesch, Ulrich Tukur, Ursina Lardi e Burghart Klaußner.
Prêmio: Palma de Ouro, FIPRESCI e Cinema Prize of the French National Education System em Cannes, Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Não Inglesa e Melhor Roteiro, Diretor e Film do European Film Awards.
A Fita Branca (2009) on IMDb

Estou diante do melhor filme de 2009. Falo sem medo de errar, pois certamente vi um dos melhores filmes da década. Uma obra que beira a perfeição por sua qualidade em todos os aspectos. Tem atuações precisas, um roteiro ótimamente tramado e denso, além de o branco e preto dar uma grandiosidade para a fotografia. A beleza fílmica nos remete à 'A Lista de Schindler', porém ouso dizer que 'A Fita Branca' é ainda melhor. Há uma simbologia incrível e se eu fosse você, não perderia a chance de ver esse espetáculo cinematográfico.

Quem conhece outros filmes de Haneke sabe que nada é esclarecido ou escancarado como a verdade absoluta. Ele nos dá margem para pensar como quisermos, só nos dá as cartas e nós jogamos conforme nossa mente permite. Com o seu último filme também é assim e podemos captar mais uma nuance que já é uma marca registrada do diretor: as crianças não são puras como o mundo gosta de pensar. Em Caché e Violência Gratuita, seus filmes mais conhecidos por aqui, nos mostram claramente que jovens e crianças são capazes de atrocidades maiores até que adultos. Mas sempre há um porquê, e nem sempre explicado.

Em 'A Fita Branca' as crianças voltam a ser o centro das atenções. Sim, vivemos em um momento de pré-guerra em um vilarejo no interior da Alemanha. Uma série de casos extraordinários (mortes, acidentes e atrocidades com crianças e deficientes) acontecem sem ter um motivo claro, mas há um indício, sempre há crianças ao redor. Os fatos são contados pelo professor da escola já velho, relembrando a sua presença naquela vila quando tinha por volta dos 30 anos. Tudo que ele faz é nos detalhar as consequências de atos que ficaram sem explicação. Mas não é necessário explicar, a História está nos livros e já conhecemos.

Pais ignorantes, filhas abusadas, mães desmoralizadas, famílias enormes e destruidas, uma sociedade baseada em homens que não prezam pelo amor e sim pela disciplina, o mundo só poderia ter conhecido os regimes direitistas. O nazismo não nasceu apenas na imaginação de Hitler, nasceu em cada criança que não teve infância e vivia por conta de um regime rígido em sua própria casa, na escola e até na Igreja. A punição era a forma de endireitar, literalmente direitar. É melhor abrirmos os olhos e não perdermos a noção de liberdade e de caráter, senão acabaremos em um novo regime ditatorial, mais forte e indestrutível. De nada adianta colocar uma fita branca no braço de seu filho para ele se lembrar da pureza, se não há pureza na sociedade. Pais, professores, padres, políticos e famosos midiáticos só sabem o que é pureza quando crianças, pois o mal já está instalado na mente da maioria dos humanos. 'A Fita Branca' nos mostra elementos históricos porém, o mal é uma erva daninha que dificilmente conseguimos dizimá-la e não é uma fita que a matará. O mal está em nossas mentes. O filme é uma obra-prima de Haneke e do cinema mundial.

Vitor Stefano
Sessões

Cinema Indiano entrevista: Beatriz Seigner - Diretora de Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano


Na postagem anterior, Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano, anunciei que reproduziria no Sessões esta bela entrevista postada em novembro do ano passado pelo blog Cinema Indiano com a diretora do filme, Beatriz Seigner. Seguem as palavras de Ibirá Machado e a conversa que rolou entre ele e Beatriz:

O filme teve excelente recepção na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e esteve entre os finalistas para o maior prêmio da Mostra.

Ela gentilmente topou responder a algumas perguntas que fiz, e o resultado vocês podem conferir aqui. Ela conta como foi o processo de elaboração do roteiro, como o apoio com a equipe indiana foi fundamental - sobretudo com a mão de Santosh Sivan - e declara gostar de Taare Zameen Par, dentre outros filmes.

E preciso dizer, mesmo sem ter pedido permissão, mas Beatriz tem apenas 25 anos de idade. Digo principalmente como incentivo a todos, e uso o "apenas" como prova de que com determinação somos capazes de realizar aquilo que queremos, sabendo onde meter a cara, ou tirar o corpo no momento correto. Com poesia e filosofia, essa entrevista com Beatriz Seigner fala muito mais do que as poucas perguntas que fiz.

Cinema Indiano: Fiquei sabendo que a ideia de fazer um filme na Índia surgiu mais ou menos por acaso, durante um almoço, quando você contou sobre sua viagem para esse país. Mas como foi que o roteiro em si configurou-se? Como surgiu a ideia de Bollywood?

Beatriz Seigner: Então, eu já havia morado na Índia em 2003 já com a ideia de fazer um filme que unisse Brasil e Índia, e estava fazendo um documentário sobre os valores e tradições que estão desaparecendo com o rápido processo de Ocidentalização da Índia, e vários atores, amigos meus, vinham me perguntar como poderiam ir para Bollywood participar de algum filme. Até que uma hora deu o click, e eu falei com a Lorena, na fila de uma peça, sobre fazer um filme chamado Bollywood Dream ( o nome veio junto com o click - nome em inglês pois era um sonho estrangeiro), sobre três atrizes que queriam ir para a Índia para tentar a sorte na indústria cinematográfica de lá e experimentariam os contrastes destas mudanças com as quais eu estava tentando lidar. E a Lorena na hora disse que havia outra amiga dela, a Paula Braun, com quem havia feito O Cheiro do Ralo, e que toparia uma aventura destas.

Acho que naquela mesma semana nos sentamos para almoçar e então perguntei o que cada uma estava com vontade de viver, quais perguntas queriam trazer para os personagens/roteiro. A terceira personagem seria eu mesma aos 18 anos quando fui para lá pela primeira vez. E depois passei esta personagem para a Nataly, pedindo para que ela a tornasse sua com seus próprios questionamentos. E assim começou o processo de desenvolvimento deste roteiro tal como ficou no filme. Isso foi no final de 2006. Encontramos o Ram Devineni, em março de 2007 na Cinemateca Brasileira, que se tornou nosso produtor, e desenvolvi então este roteiro, colocando estas personagens nas situações que eu achava pertinentes para expressar as contradições que passamos neste momento de globalização e hegemonia cultural - por exmeplo o questionamento entre eterno e efêmero no festival do Ganesha, o contraste entre a dança clássica indiana, cheia de significados por trás de cada gesto, e a dança bollywoodiana, o encontro entre culturas no albergue/jazz piano bar onde convivem instrumentos/músicas ancestrais com ritmos e misturas contemporâneas, os pequenos ritos que estão desaparecendo - por exemplo os mandalas "kolans" que são feitos na frente das casas com pó branco para "organizar o universo" - coisa que cada vez fica mais raro nas grandes metrópoles pela falta de tempo em que vivem seus habitantes - e por aí vai.
Foram quatro anos de pesquisa prévia, depois dois anos desenvolvendo este roteiro, e no começo de 2008, fui para lá para ver os estúdios da família do Ram, e as mudanças que tinham acontecido na Índia em 5 anos, e o roteiro ganhou outro salto qualitativo. No final de agosto de 2008 fui para lá fazer a preprodução, e as meninas chegaram no começo de setembro para filmarmos.


CI: Houve alguma mudança no roteiro depois que as dificuldades reais foram enfrentadas?

BS: Muitas. E isso é uma delícia. O roteiro é bom para que se haja um condensamento daquilo que se quer falar/experimentar, uma costura, que as coisas não se percam, pois na hora da ação são muitas forças puxando para direções distintas e é muito fácil perder a coerência de tudo. Eu não queria que o filme fosse um relato de viagem de pessoas vislumbradas consigo próprias, nem uma conversa de bar que não chega a lugar nenhum. Queria propor mudanças e colocar em cheque certos valores modernos. Queria dividir perguntas, principalmente aquela que tanto nos fazem na Índia: "Ao que você pertence, irmão?", pois sinto que cada vez menos pertencemos a alguma coisa neste mundo líquido moderno, inclusive nem a nós mesmos, uma vez que ser íntegro, só fazer aquilo que se acredita ético - no sentido Espinozano do termo, ações que nos trazem felicidade eternas e não efêmeras -, parece ser ingênuo nos dias de hoje.

Quis olhar para o passado, numa sociedade onde ainda se encontra estes valores sendo discutidos nas ruas, para questionar de alguma maneira os caminhos que estamos escolhendo para nosso futuro em termos de humanidade. Mergulhadas nos personagens destas três atrizes, que também estão em buscas - errantes, confusas. Com a palavra pertencer surge o questionamento de identidade, de pertencimento coletivo, das várias camadas de condicionamentos sociais, culturais, familiares, geográficos e temporais a que estamos submetidos. Surge nossa identidade em construção como brasileiros no espelho de outra cultura estrangeira. E este vira o centro do furacão/jornada destes personagens.
Muitas coisas foram se transformando durante as filmagens, principalmente no modo como filmamos, interagindo com as pessoas realmente nas ruas, porque queríamos que tudo parecesse ocorrido ao acaso, "por coincidência" e sorte, mas essa essência, este fio condutor, continuou o mesmo. E isso só foi possível porque tínhamos um roteiro e uma pesquisa elaborada por cerca de 7 anos, que nos deixou livres para improvisar nas situações que existem de verdade com segurança. Como jazz, busca-se o evento, o acontecimento apenas possível naquele momento com aquelas pessoas naquela situação, sobre uma chave já combinada de antemão com todos os músicos presentes. Daí, consegue-se dar alguns voos livres, entre os galhos de pousos nesta estrutura.

CI: Eu achei bem interessante a sutil presença de Bhavana Rhya, dando o tom do choque cultural vivido por cada uma. Como veio essa ideia?
BS: Ela é minha professora de Odissi desde 2002. Foi com ela que esta paixão pela Índia e sua cultura começou. Essa ideia do contraste entre aquilo que se dançava há milhares de anos, as histórias que se contava através da dança, os questionamentos a que se propunham com aqueles movimentos, "dançar para fazer os deuses dançarem e assim exercerem suas funções" e aquilo que se dança hoje, é de certa forma a raiz de todo o resto.
Quando as pessoas na Índia vêem aquela sequência nas cavernas imediatamente elas falam "ah, elas voltaram no tempo!".

CI: Você já tinha visto algum filme indiano antes de fazerem O Sonho Bollywoodiano?

BS: Sim, muitos.

CI: Suponho que hoje já tenha visto alguns. Que reação teve com o primeiro que viu? Gostou de algum em particular?

BS: Achei muito engraçado. O primeiro que vi num cinema lá era uma versão indiana daquele filme hollywoodiano A Rocha. O mais divertido era a reação das pessoas avisando o mocinho ou o vilão que a mocinha ainda estava viva, estava atrás deles e etc...
Gosto do Taare Zameen Par, que representa bem o momento de mudança que passa Bollywood atualmente, e de vários outros filmes indianos que não seguem a fórmula nem a estética Bollywoodiana, em particular gosto de mais dos filmes de Satyajit Ray e os do Santosh Sivan.

CI: De volta ao filme, quanto tempo vocês passaram na Índia? Fizeram algum preparo anterior à viagem ou foram para lá da mesma maneira que chegam as personagens?

BS: Eu fiquei lá por 12 semanas e as meninas por 8. Sim, muitos preparos da minha parte. Até agora para finalizar o filme já foram 4 viagens até lá.

CI: O que mais a impressionou lá?

BS: Puts, tive que fazer um filme inteiro para conseguir expressar isso! :)

CI: Para um ocidental, fazer um filme na Índia está longe de ser a coisa mais fácil do mundo. As coisas pioram por vocês todas serem mulheres. Quais foram as maiores dificuldades que vocês enfrentaram?

BS: Acho que para qualquer projeto cinematográfico que se queira fazer, a chave principal, e talvez o mais difícil e importante, seja encontrar os pares certos para se realizar aquilo que se quer. Pessoas que estejam afinadas estéticas e ideologicamentes. Quando encontramos a equipe que tinha os mesmos gostos, ousadias e princípios que a gente, tudo começou a se mover de maneira orgânica, e ficou mais fácil suportar o trabalho pesado e os percalços do caminho. Pois parece fácil, parece tudo coincidência, mas é tudo puro suor e trabalho meticuloso, repetitivo, artesanal, para que tudo pareça ao acaso como a vida. Passamos por muitas situações limites, de esgotamento físico e mental, e sem dúvida foi uma tarefa hercúlea para todos nós. 99% das probabilidades era que não fosse dar certo, que saíssemos de lá sem um filme. Nos agarramos naquele 1% que era nossa intuição que nos dizía que tínhamos um propósito no qual acreditávamos, e que custasse o que custasse, íamos com a experiência até o fim.

As dificuldades foram muitas, mas minha maior alegria agora, é quando ouço alguém que viu o filme dizer que dá vontade de pegar uma câmera e meter as caras para fazer algo que acredita também. Fui muito instigada nesta empreitada por aquele poema do Goethe que diz que "coragem contém genialidade, poder e magia em si" e que quando a pessoa se compromete de verdade com algo, uma série de encontros que ninguém poderia prever acontecem, e cada encontro traz consigo uma mão daqui, outra dali, e quando você percebe a coisa está se realizando em frente aos seus olhos.

Muitas vezes quando eu apertava o botão "rec" da câmera me parecia que eu estava recordando uma cena que eu havia escrito mas que na verdade já estava acontecendo em algum lugar, e que eu tinha voltado para um momento no tempo antes da realização do roteiro e estava apertando ali, com as atrizes, o botão "recordar". E a Índia é o lugar ideal para que todos os seus conceitos de tempo, espaço, limite, inconsciente coletivo venham à tona e sejam questionados.
Dificuldades? Ah, tantas. Mas já nem me lembro direito delas. Pois nenhuma delas chegou de fato a nos imobilizar. Como dizia F. Pessoa: "Fazer das quedas passos de dança".

CI: Vocês fariam algum filme de Bollywood, mesmo se fosse apenas para aparecer em alguma cena de dança, como querem as personagens?
BS: Fizemos isso para conseguir filmar dentro de sets de filmagem de outros filmes de verdade. Mas com o puro propósito de realizar nosso filme.

CI: Para fazer esse filme vocês contracenaram com pessoas importantes no meio tamil, além de ter tido o apoio de Santosh Sivan, que tem forte projeção não só na indústria tamil, mas também em Bollywood. Vocês tinham consciência da importância deles? Como foi o trabalho com essa equipe indiana?
BS: Sim, Santosh virou nosso grande amigo e produtor executivo de nosso filme. A primeira equipe com que trabalhamos não deu nada certo, pois tínhamso estéticas diferentes, eles gostavam de glamour e eu acho humilhante qualquer pessoa que precisa de glamour para se olhar no espelho. Eles queriam heroínas e eu queria seres humanos. Eles queriam planos explícitos e eu queria filmar pelas sombras, entre cabides, deixar muita coisa fora de quadro, câmera na mão, iluminação natural, para que tudo parecesse captado ao acaso, quase como um documentário, ou reality show.

Queríamos andar na fronteira onde todos estes estilos borram uns aos outros, onde todas estas limitações tornam-se ilusórias. Queria improvisar e fazer planos sequências, e para eles isso era horroroso. Então depois do primeiro dia de filmagem desistimos de dar murro em ponta de faca e fomos atrás de pessoas com maior veia experimental e que pudessem nos ajudar a ir na direção que queríamos. Foi quando o Santosh entrou no nosso barco e nos mandou os assistentes dele para nos ajudar em definitivo. E os percalços daí em diante ficaram mais fáceis de serem transpostos, pois estávamos todos na mesma sintonia, indo na mesma direção.

CI: Eu comentei na minha crítica que algumas dificuldades vividas pelas personagens foram semelhantes ao que eu mesmo vivi lá (a reserva no hotel, o trem errado etc.). Houve alguma inspiração real para isso?
BS: Claro, sempre. A paixão pela realidade, e a transcendência dela através da subjetividade humana, é o que nos dá tesão nesta arte.

CI: Por fim, o que vocês trazem hoje na bagagem depois dessa experiência?

BS: A própria experiência desta realização, e a delícia das amizades e encontros que este filme proporcionou.


É isso aí, pessoal! Muito obrigado ao Ibirá Machado por esta cessão aqui no Sessões.

Leandro Antonio
Sessões

domingo, 28 de março de 2010

Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano

Nome Original: Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano
Direção: Beatriz Seigner
Ano: 2009
País: Brasil / Índia
Elenco: Paula Braun, Lorena Lobato e Nataly Cabanas
Estreia prevista para outubro de 2010.
Bollywood Dream - O Sonho Bollywoodiano (2010) on IMDb

Rola no SESC Pompeia até 04 de abril, a exposição Urban Manners 2, para quem gosta de arte contemporânea e quer saber um pouco do que acontece na cena indiana é uma boa oportunidade. Na última quarta-feira, lá estive para assistir ao filme Bollywood Dream.
Tatear mundos pouco conhecidos ou desconhecidos completamente é sempre mais recompensador na presença de alguém já chegado, ou seja, marcar um cinema é sempre uma boa desculpa para encontrar amigos. Por isso, agradeço a minha grande amiga Vilmara pela companhia durante esta sessão.



Na platéia, além de nós também é necessário registrar que estavam presentes a diretora e uma das atrizes protagonistas do filme Beatriz Seigner e Lorena Lobato, o jornalista Franthiesco Ballerini e Ibirá Machado de quem falarei mais adiante. Todos eles propuseram e participaram de um bate-papo entre os presentes. Saí de coração partido por não poder ficar até o final, pois aqui em São Paulo, os coletivos só rodam até uma hora determinada e não pude tomar tanto sereno. Mas, uma fonte segura me confirmou que vi quase tudo.

Bollywood Dream foi uma grata surpresa. Um filme de concepção simples: Três atrizes brasileiras que sem muito lenço ou documento vão tentar carreira na maior indústria do cinema mundial. As personagens têm a experiência do confronto, do choque e da aproximação cultural, do antigo e do novo, enfim a dor e a delícia que, muitas vezes, só sentidos dos forasteiro(a)s podem perceber.


Durante a conversa pós-filme, o também blogueiro Ibirá Machado (não disse que ia falar dele) deixou escapar um comentário sobre seu trabalho em um blog sobre cinema indiano – http://cinemaindiano.blogspot.com/ – naveguei por lá e recomendo veementemente. Coisa boa de se ver! Pedi a ele a autorização para transcrever aqui no Sessões, a ótima entrevista que ele realizou no final do ano passado com a diretora de Bollywood Dream, a resposta foi positiva e a entrevista seguirá na próxima postagem, aliás o vídeo acima também foi copiado de Cinema Indiano. Em um futuro breve, o Sessões trará Ibirá Machado como nosso entrevistado. Aguarde!
Viva ao cinema que se faz na Índia!

Leandro Antonio
Sessões

Meu irmão é filho único

Nome Original: Mio fratello è figlio unico
Direção: Daniele Luchetti
Ano: 2007
País: Itália / França
Elenco: Elio Germano e Riccardo Scamarcio.
Prêmios: David di Donatello de Melhor Ator (Elio Germano) , Edição, Roteiro, Som e Atriz Coadjuvante (Angela Finocchiaro).
Meu Irmão é Filho Único (2007) on IMDb

A idéia central de Meu irmão é filho único é a fraternidade.Fraternidade não entendida como a fraternité do século XVIII da revolução francesa que guilhotinava em nome de uma pretensa igualdade entre os homens,mas uma fraternidade menos ideal,mais visível e extremamente mais tocante.

Com efeito, é na relação, sempre agressiva entre Accio (Elio Germano) e Manrico(Ricardo Scarmacio) que se estabelece essa noção de fraternidade real entre os irmãos.

Existe entre quaisquer irmãos a noção de que algumas coisas têm que ser resolvidas na força. Eu,por exemplo,perdi a conta de quantas vezes já bati no meu irmão porque ele me desobedecia ou não se portava com respeito,atualmente não é mais necessário ele cresceu.... e como ensinavam os antigos: “Em conversando tudo se resolve...”.

Pois bem, Manrico,o mais velho,apesar de bater muito em Accio,era o único a visitá-lo no seminário e foi o primeiro a fazê-lo pecar:Levara-lhe uma foto de uma atriz sensual para o irmão caçula que não se agüentando caiu em tentação muitas vezes.

Aqui, somos apresentados a um segundo nível de relação.Manrico dá a foto a Accio para que ele se torne uma pessoa normal,isto é,abandone aquela vida falsa da religião,e alega que na verdade Jesus era um revolucionário que os romanos crucificaram.

Manrico,de esquerda,resumia seu ideário: “Tudo baboseira o homem descende do macaco,entendeu?”

Estamos em meio a crise dos mísseis em cuba (1962),o professor do seminário explica que a terceira guerra mundial está prestes a acontecer e que para tanto é preciso que se reze.O garoto sai e debaixo de chuva pede para que deus converta Krushev e os comunistas.

Existe no meio deste conflito natural entre irmãos um agravante que pouco a pouco vai tomando forma. O caçula(Accio) começa a desenvolver interesses que conforme sua personalidade desembocam em uma visão fascista de mundo.Ou seja ele tem apego pelas verdades eternas,sabe latim,ama a pátria,fala em honra da nação e etc.De sorte que,quando vemos está se filiando ao partido fascista italiano.A vida dos irmãos se desenvolve entre murros e cascudos como tem que ser. Até que um dia bate à porta Francesca(Diane Fleri):
A mulher mais linda que eu já vi. Por essa eu escreveria um livro mais legal do que La Solitudine dei Numeri Primi e atiraria sem dúvida outro duomo na cara do Berlusconi sim. Faria sem pensar duas vezes.

Essa garota desequilibra a relação entre os irmãos na medida em que se aproxima de Accio que embora fascista é uma pessoa divertida de se brigar.Trazendo a questão do amor.

O filme brinca com essa noção de irmandade, política e amor com muita consistência e o que é mais importante sem deixar de lado o lado cômico da vida.

Um filme que sem apagar a unidade principal deixa resvalar um concerto de Beethoven, todo o ideário socialista e fascista,os acontecimentos de maio de 68 na França,o julho de 68 na china e o agosto de 68 na Tchescolavaquia enfim um filme com um plano de fundo histórico muito bem construído.

De volta à película,Manrico se envolve cada vez mais em sua luta pelo povo e passa a ser perseguido. Daí para frente há que se assistir ao filme.

O filme chama atenção pela beleza das imagens. A dramatização de algumas passagens, por exemplo, a cena do grito e o choro na praia....Um grito seco,um choro reprimido.O ideal a se atingir é exatamente esse.Se entendo o cinema como arte é só quando essa arte(cinematográfica)não permitir que a mesma beleza artística seja expressa de outra forma.Isso é o que eu busco no cinema,uma situação em que a palavra escrita não seja o suficiente para escrever ou descrever o que se sente com a imagem.

Em último, mas não menos importante, a atuação absurdamente boa dos irmãos,sobretudo Accio é de dar medo e o filme encanta pela capacidade de passar a alma de um povo,a italianidade.

Fernando Moreira dos Santos
Sessões

quinta-feira, 25 de março de 2010

A Carta

Nome Original: The Letter
Diretor: William Wyler
Ano: 1940
País: EUA
Elenco: Bette Davis, Herbert Marshall, James Stephenson.
Prêmio: Indicado para 7 Oscars.
A Carta (1940) on IMDb



- Vó, vamos ver um filme? É com a Bette Davis, conhece?
- É uma que é sempre má nos filmes?
- Ah, pelo pouco que conheço, acho que a sra. sabe quem é.
- Eu gosto muito dela!
- Então vamos ver 'A Carta'.

E logo se consuma. Em menos de 2 minutos de filme uma mulher imponente, com um revólver em punho, atira em um homem que cai pela escada, até o tambor descarregar completamente. Talvez uma das melhores primeira cenas da história do cinema. E pois é, ela é má mesmo, mas não, ela matou um homem que a molestou. Justo, uma mulher de coragem, forte e com atitude apenas se defendeu. Seu marido e seus empregados acreditam piamente em vossa explanação, e não tinha como não crer. Sua explicação foi tão detalhista, com fibra, olhando nos olhos, uma força tirada do âmago. Davis consegue impor à personagem, esposa de um fazendeiro de borracha no interior da Ásia uma leveza e ao mesmo tempo uma potência nuclear.

Porém no decorrer da película ela vai de indefesa a adultera e assassina. A vida não aguentou tanto sofrimento e a vingança foi retumbante. Essa era ela, capaz de tudo por um amor. Até matá-lo por não suportar o ciumes que já a matava por dentro. O desenrolar da história é bem regrado, e como sempre, o branco e preto dá um ar de nostalgia e de qualidade de fotografia insuperável. A direção de Wyler, parceiro de Davis em outros projetos, fazem com que todos os coadjuvantes sejam também atores principais, com papéis decisivos e de grande apoio para que a grande estrela brilhasse.

Não conheço muito sobre Davis e não sou um grande conhecedor de cinema de suspense, muito menos de clássicos. Mas 'A Carta' é uma aula de suspense, com um quê de noir e uma aula de interpretação de uma dama que consegue com um olhar desarmar todos os homens. Bette Davis era polêmica fora das telas e isso reflete bem sua personalidade na tela. Você pela atuação consegue ver que há um ar de loucura naquele ser. Uma diva que nunca será esquecida!

"With all my heart I still love the man I killed". Ela seria capaz de tudo isso, e muito mais!

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 22 de março de 2010

Saliva

Nome Original: Saliva
Diretor: Esmir Filho
País: Brasil
Elenco: Gabriel Cavicchioli, Hellen Vasconcelos, Mayara Comunale
Prêmios: Melhor Filme no Festival Cultura Inglesa 2007; Melhor direção no Festival de Gramado 2007; Prêmio aquisição Canal Brasil no Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2007; Melhor Curta no Festival Internacional de Filmes de Cataluña 2007; Melhor Curta no Festival Tudo Sobre Mulheres 2007.
Saliva (2007) on IMDb


A transição da infância para a adolescencia pode ser um momento muito traumatizante. A ânsia pelo primeiro beijo, para uma menina de 12 anos é uma conquista, uma descoberta, um temor e um sonho. Esse ótimo curta dirigido pelo consagrado Esmir Filho traz à tona todas essas preocupações que atormentam os semi-adolescentes que anseiam pela primeira troca de saliva com outra pessoa.

Não ache que o curta trará apenas pensamentos românticos de uma menininha imaculada, trará à tela o sentimento vivido. Não é só o beijo, é a sensação de estar sendo consumida e tomada pela baba alheia. E todos aqueles rituais de ensaio em espelhos, papel, box do banheiro até o ato consumado. A sensação é de que todo o treino valeu a pena para estar dentro de uma piscina de amor. Piscina cheia de saliva. Um relato real e sensível de um momento tão importante de nossas vidas.

Vejam esse ótimo curta-metragem, e lembre-se de vosso primeiro beijo.

Vitor Stefano
Sessões

Uma Garota Irresistível

Nome Original: Factory Girl
Diretor: George Hickenlooper
Ano: 2006
País: EUA
Elenco: Sienna Miller, Guy Pearce, Hayden Christensen e Jimmy Fallon
Sem Prêmios
Uma Garota Irresistível (2006) on IMDb

"Nos anos 60, alguém me fascinou mais que qualquer um que eu já conhecera. A fascinação que vivenciei deve ter sido muito parecido com um certo tipo de amor." (Andy Warhol)


Você certamente já ouviu falar de Andy Warhol. Mas pode ser que não tenha ouvido sobre Edie Sedgwick, porém ela foi uma das maiores parcerias que o multi artista teve durante sua carreira. East 47th Street em Manhattan (NY) era o endereço da famosa Factory de Warhol, onde o comum virava mágia, onde objetos do dia-a-dia viram moda pop e onde Edie deixou de ser a socialite e filha de família abastada (e problemática) a modelo, atriz e a Warhol's Superstar. Porém lá também se deu a sua queda, do glamour ao vulgar!

Sou totalmente leigo no que diz respeito a arte de exposições, e, obvio da arte pop de Warhol. Conhecer a lata de sopa, sabão em pó, Marylin em sequência não é conhecer o que fez o gênio de rosto manchado e cabelos loiros/brancos. Em 'Uma Garota Irresistível' você consegue ter uma boa noção do que ele era capaz e o que ele conseguiu fazer com Edie. Como ele dizia que todo mundo terá 15 minutos de fama, Edie conseguiu mais do que isso, mas ela viveu 50 dentro dos 28 que viveu, até a overdose tirar sua vida. Andy a transformou em tudo que ela queria ser, uma grande estrela, e assim viveu os melhores anos de sua vida. Uma estrela tão grande que não conseguiu ficar apenas no céu. Subiu, subiu... Até apagar - triste, drogada, depressiva e prostituida. E Andy foi um diretor desbravador. Um diretor de filmes B de grande categoria. Veja abaixo uma de suas produções, dirigindo a linda Edie Sedgwick.



No filme vemos Sienna Miller como a Srta. Sedgwick, um papel que lembra muito a louca desvairada (em menor escala) que ela interpretou em Alfie - O Sedutor. Ótima atuação de uma linda atriz que incorporou a personagem. O filme é praticamente uma junção da história através dos filmes que Warhol dirigiu. Por falar nele, Guy Pearce é Warhol. Perceba no trailer a perfeição de maquiagem, voz e trejeitos do ator, que nos remetem ao artista que na época vivia numa corda entre a genialidade e a banalidade. Caiu para o primeiro lado.

Essa postagem é uma homenagem a um dos nomes mais importantes e influentes da década passada que terá sua exposição, Mr. America, na Pinacoteca de São Paulo de 20 de março a 23 de maio de 2010. Uma ode ao cineasta e pintor que a maior figura do pop art.

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 19 de março de 2010

Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos

Nome Original: Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos
Diretor: Paulo Halm (para reler a entrevista com o diretor, clique aqui)
Ano: 2010
País: Brasil/Argentina
Elenco: Caio Blat, Maria Ribeiro, Luz Cipriota e Daniel Dantas
Prêmio: Melhor Filme, pelo Juri Popular do Festival de Santa Maria da Feira (Portugal), Melhor Ator (Caio Blat) e Melhor Edição de Som no Festival de Goiania)
Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos (2009) on IMDb


Alguns sabem que passo por uma crise produtiva. Não consigo escrever mais meus textos como gostava. Não pinta inspiração, falta criatividade. Não, eu não me chamo Zeca. Não, eu não tenho quase 30 anos. E não, não estou na quinquagésima página de um livro e nem é a minha pretenção. Hoje não, mas talvez não seja má idéia para o futuro. Quem sabe quando eu tiver quase 30. E quem sabe esse texto não seja um divisor de águas de minha crise. Pois não há pintor sem quadros, não há cineasta sem filme e não há escritor sem texto.
O longo nome do filme nos dá uma sensação de estar pisando em campo amigo, de saber o que está para acontecer e conseguir enxergar que situações da ficção são totalmente táteis e reais. Não há como definir só um gênero para o 'Histórias...'. É uma comédia, com fundo dramático, pitadas de erotismo, embebido em uma curta animação e um aroma de história real com intrigas familiares e dilemas do dia a dia. Paulo Halm, famoso por ótimos roteiros, consegue atingir um feito que poucos conseguiram. Um debut em grande estilo na direção com um filme agradável, inteligente, sufocante e verdadeiro. Um filme de grande diversisade e que agradará a todos.

Caio Blat na pele de Zeca é o narrador. Zeca é um adulto com espirito de jovem irresponsável, que como diz seu pai, só pensa em buceta. Mas acho que poderia melhorar essa frase, colocando o cigarro dentre as coisas que ele só pensa. O cigarro tem um papel importante no filme, ele nos leva para dentro da película e nos remete a um estado de claustrofobia, o qual Zeca está vivendo. Dúvidas sobre a vida, sobre trabalho, sobre o pai e sobre quem foi um dia. Talvez o que mais Zeca queira, além de fingir que tenta se matar, é saber quem ele será amanhã.

Não bastasse os seus problemas, há outro problema. Mulher. Seu pai logo lhe alerta: "Mulher e problema é praticamente um pleonasmo". Todas as confusões que Julia, sua esposa e Carol, a melhor amiga lhe causam não aliviam em nada a crise de Zeca. Um suposto triangulo amoroso, que só exist na mente fértil do homem da(s) relação(ões). Zeca em momentos encarna Woody Allen, um homem torturado em crises amorosas que parecem interminaveis. Há DRs que parecem brigas que você já teve um dia com namorada, ficante, amante ou mulher. São tantas reviravoltas, loucuras e até bizarrices, que Zeca talvez tenha finalmente crescido, tentado levar a vida a sério, superando a sua crise dos 30 e ouvido seu pai dizer: "Senta a bunda na frente do computador e termina essa porra desse livro".

Halm conseguiu tirar de Blat uma atuação complexa e muito competente, digna de um protagonista. Foi muito bem acessorado por sua mulher (da vida real) Maria Ribeiro e pela bela atriz argentina Luz Cipriota. Daniel Dantas dá um show de performance como o pai frustrado. O filme é ótimo, desde a trilha sonora, locações, fotografia, iluminação, portanto, não percam. A única tristeza, não foi causada pelo filme, mas sim por um cinema de 125 lugares e apenas 13 ocupados. Uma obra de ótima qualidade, não pode não ser visto. Não deixem de prestigiar o cinema nacional, pois somos capazes de ótimas produções, como essa de Paulo Halm! Obrigado e parabéns diretor. Só como lembrete, reverenciar a ótima trilha desse ótimo filme, principalmente pela maravilhosa "Nature Boy" na voz de Caetano Veloso.
Acho que minha crise ainda não foi superada. Mais um texto sem grande impacto, sem graça e insonso. Mas o filme merece ser comentado e divulgado! Embebede-se com o curta animado que conta a história de 50 páginas de Zeca. E que o romance que ele escrever dure mais que 50 páginas, pois as histórias de amor, duram apenas 90 minutos.


Vitor Stefano
Sessões

P.S.: Essa postagem também pode ser visto no site oficial do filme. Para conferir, clique aqui.

quarta-feira, 17 de março de 2010

P. S. Eu Te Amo

Nome Original: P.S. I Love You
Diretor: Richard LaGravenese
Ano: 2007
País: EUA
Elenco: Gerard Butler, Hilary Swank, Lisa Kudrow.
Prêmio: Melhor Atriz no Irish Film and Television Awards.
P.S. Eu te amo (2007) on IMDb



17 de março é comemorado o St. Patrick Day. Acho que todos sabem, talvez não saibam qual o santo, qual o dia certo, mas sabem que um dia no ano as pessoas se vestem de verde e vão aos Pubs encher o caneco. Pois é. É hoje o dia! E para comemorar um filme que não é uma produção irlandesa, porém passa boa parte lá, com imagens de deixar o queixo caido de uma beleza natural que nos faz pensar em largar tudo e tentar a vida nos campos da Irlanda. Quem sabe? Talvez seja, no futuro.

Talvez às garotas o grande atrativo nem seja a vida de pubs, mas sim Gerard Butler no papel de Gerry, um irlandes charmoso e encantador (às vezes com toques angelicais) e o par romântico perfeito com Holly (Hilary Swank). Sim, é um filme romântico, mas é diferente do restante de mela cuecas que aparece por aí. O casal não existe mais. Só resta Holly e a memória de Gerry em cartas que aparecem como em um passe de mágica. Mas, sabendo de seu estado terminal, Gerry fez tudo o possível e o impossível para mantê-la ativa e não desanimar. Esse amor impossível, torna-se uma linda declaração de amor a si próprio, onde a real intenção de Gerry é fazer com que Holly supere e viva a sua vida.

O ponto alto é a viagem à Irlanda, terra natal do marido, que acompanhada de duas amigas, encontra os sogros, visita lugares lindos, e relembra como foi conhecer seu marido, ao acaso no meio de um parque enorme (e mais uma vez, lindo) e depois, como por destino, encontra o bar que seu amor toca. Com uma Guinness na mão, ouvindo um rock irlandês em um pub. O sonho de qualquer mulher. E de qualquer homem. Unir o útil ao agradável. Os pubs tem uma atmosfera única, que alia o escuro, boa música, bom chopp e um certo ar de taberna.

Aproveite a data com quem você ama, ou permita-se encontrar o seu par perfeito, à la Gerry e Holly. Inspire-se. Eu já encontrei e aproveitarei o dia junto, e você? E não se esqueça, faça um brinde a St. Patrick e ao Sessões, seja de Guinness, Wexford, Erdinger ou com uma Heineken. E além do ótimo filme, P.S. nos dá uma ótima trilha sonora, perfeita para a data. Entre elas, Love You 'Till The End do The Pogues. Combina bem com a data. Boa comemoração do dia de São Patricio!



Vitor Stefano
Sessões

P.S.: Eu Te Amo!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Entre os Muros da Escola

Nome Original: Entre les Murs
Diretor: Laurent Cantet
Ano: 2008
País: França
Elenco: François Bégaudeau, Boubacar, Burak, Agame, Esmeralda, entre outros.
Prêmios: Palma de Ouro de Cannes 2008 e Melhor Roteiro do César 2009.
Entre os Muros da Escola (2008) on IMDb


Quando dizem que o Brasil tem um péssimo sistema de ensino, depois de ver 'Entre os Muros da Escola' percebemos que isso é uma epidemia mais contagiosa que a Gripe A. Se até a França, que é reconhecida como um exemplo a ser seguida e com grandes faculdades como a Sorbonne, sofre com um apagão na educação, imagine o resto do mundo. Certamente é muito melhor do que a maioria dos sistemas pelo mundo, inclusive o nosso, mas não é um caso de sucesso como a saúde visto no documentário 'S.O.S. Saúde' de Michael Moore.

O merecido vencedor da Palma de Ouro 2008 traz para dentro dos muros problemas que costumeiramente ficavam do lado de fora e eram minimizados com a educação do lado de dentro. A França foi, assim como Portugal, um grande dizimador de povos e deixou muitas colônias por onde destruiu, como os argelinos, maleses, costa-marfinenses, antilhanos, marroquinos, senegalezes, entre muitos outros que hoje se dispersam em guetos pelas periferias de todo país comandado pelo marido de Carla Bruni.

Toda essa diversidade dentro de uma escola, seja nos corredores, no patio ou na sala de aula, gera inúmeros conflitos entre os alunos e consequentemente com o corpo docente. O professor François sofre para amenizar divergencias culturais, religiosas ou de opinião. Cada vez mais percebe-se que a educação que deveria vir de casa está nula e uma geração está se perdendo, entrando para um caminho sem volta. É muita energia gasta com nada. O respeito não existe mais. Os professores são tratados como lixo na selva que virou a sala de aula, povoada por animais irracionais sem adestramento. Infelizmente a utopia de 'Ao Mestre com Carinho' não se encaixa no filme nem na vida real. Ser professor hoje em dia é uma batalha. Cada vez mais perdemos os valores, o respeito e a moral, agora estamos perdendo a vontade de aprender. Talvez isso seja pior que um novo Napoleão.

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 9 de março de 2010

A Queda do Império Romano

Cadê o cinema italiano com glamour e com tanta produção de grande qualidade? Porque os filmes italianos não tem mais a mesma quantidade e qualidade de anos atrás? Cadê os novos Antonioni, Scola, Fellini, De Sica? Porque o cinema italiano morreu? Morreu?



Talvez você me diga que temos nos últimos tempos ótimos filmes italianos como 'A Vida é Bela', 'Cinema Paradiso' e 'O Quarto do Filho' e diretores maravilhosos como Bernardo Bertolucci, Roberto Benigni, Giuseppe Tornatore e Nanni Moretti. Infelizmente não há muito mais do que isso, vindo do país que já foi referência em todo o mundo. Parece-me que esse espaço, que antigamente era disputado com o cinema francês, hoje é totalmente dominado anos-luz a frente pelo país de Godard e Truffaut.

A Itália teve o auge de seu cinema no pós guerra. Teve grande êxito com suas comédias, porém no país da bota havia também espaço para o retrato de uma sociedade em crise. Aí apareceram obras-primas que até hoje são consideradas os ápices do cinema mundial, como '8 e 1/2' e 'A Doce Vida' de Fellini, 'Ladrões de Bicicletas' de De Sica, 'A Aventura' de Antonioni e 'Roma, Cidade Aberta' de Luchino Visconti, entre muitos outros que são grandes clássicos e representam o Neo-Realismo Italiano. Houve também a época conhecida por western spaghetti, que deixou marca com Sérgio Leone. Fazia-se ótimo cinema comercial e de arte. Não podemos esquecer de Mario Monicelli e suas comédias da vida real. Tempo bom que não volta nunca mais.

Os anos 80 foi quase um abismo cinematográfico, no que diz respeito ao cinema comercial que apenas foi salvo pelo lindissimo e, merecidamente, cultuado 'Cinema Paradiso' de Giuseppe Tornatore, que recentemente lançou 'Baaria'. Veja cena final, marcante aos que já assistiram essa ode ao cinema. Um marco (quase) único dessa década.


A partir dos 90, houve uma certa melhora, com obras como 'O Carteiro e o Poeta' e com o grande trunfo de 'A Vida é Bela', onde Roberto Benigni consegue fazer da guerra uma comédia, vencendo quase todos os prêmios que concorreu, merecidamente. Será lembrado para sempre ao lado dos grandes. Mas foi muito pouco para a retomada ao topo do cinema.

Até os atores do país banhado pelo Mediterrâneo sumiram dos grandes eixos. Hoje a atriz italiana mais conhecida é Monica Belucci e é inegável a sua beleza, porém não pode-se dizer o mesmo sobre seu talento. Não existem mais atores como Marcelo Mastroianni e Sophia Loren, que além de serem lendas do cinema italiano, são estrelas mundiais. Há duas películas recentes que deixam essa deficiência muito clara: 'Não se Mova', onde Sergio Castellitto dirige e interpreta. A peronsagem principal é a esplêndida Penélope Cruz, queridinha de Pedro Almodóvar e 'Chá com Mussolini' que é estrelado por Cher e Judi Dench. Aí percebemos que os astros de outrora deixam saudades.



Os únicos cineastas italianos que me chamam atenção atualmente são Bernardo Bertolucci e Nanni Moretti. Bertolucci foi capaz de fazer grandes obras, até primas como 'O Último Tango em Paris', porém não mais exclusivamente na Itália. Radicado nos Estados Unidos e Inglaterra ele fez suas maiores obras: 'O Conformista', '1900' e o consagrado 'O Último Imperador', vencedor de 9 Oscars, inclusive melhor filme e diretor. É o diretor italiano de mais prestígio dos últimos anos, sem medo de arriscar e de peregrinar por gêneros diversos. Tem também em sua filmografia os ótimos 'O Pequeno Buda', o quase épico 'O Céu Que Nos Protege' com John Malkovich e Debra Winger, 'Beleza Roubada' com a linda Liv Tyler e 'Os Sonhadores', sua última produção. Infelizmente (ou felizmente) parece que ele já um diretor do mundo e cada vez menos italiano.

Já o ator e diretor Nanni Moretti se especializou em dramas pessoais. Fez muito sucesso com filmes de arte e venceu prêmios como Leão de Ouro em Veneza com "Sogni D'oro", Urso de Prata em Berlim com "A Missa Acabou" nos anos 80. A partir do aparecimento do primeiro ministro Silvio Berlusconni, tornou seu cinema uma voz política contra o novo Mussolini. Com muita densidade levou a Palma de Ouro por "O Quarto do Filho", com muito sarcasmo e dramaticidade superou relacionamentos e criticou arduamente o primeiro-ministro em "O Crocodilo". Silvio Berlusconni, também muito criticado no ótimo documentário "Viva Zapatero" da comediante Sabina Guzzanti, certamente tem um tanto de culpa pela decadência do cinema em seu país. Com medidas de diminuição da liberdade de imprensa, o 'dono da Itália' faz-se presente como um ditador e inibidor da liberdade de expressão. Moretti quase sempre atua em seus próprios filmes e, tal qual Woody Allen, faz, em geral, a si próprio nos filmes. Por conta disso, seus filmes tem muito de autobiográfico, criando um estilo próprio e único no, hoje, pobre cinema italiano. Nanni é meu diretor italiano preferido hoje em dia. Quem ainda não conhece, procure. Mas falta muito pra chegar no topo. Muito mesmo...



Porém talvez não seja essa a discussão e sim o sumiço de filmes do país da macarronada. Espero que seja uma loucura de minha cabeça e que recebamos vários comentários contrários, demonstrando que o cinema italiano está em grande fase, só não chega ao Brasil por problemas de distribuição. Num mundo globalizado acho impossível isso ainda acontecer, mas espero estar errado. Vemos, atualmente, muito mais filmes de países com muito menos tradição, como produções iranianas, argentinas, japonesas ou espanholas do que italianas no Brasil. Certamente houve um crescimento dessas e de outras produções audiovisuais no mundo, mas a italiana parou no tempo.

É triste que uma das maiores culturas cinematográficas da história se reduza a tão pouco. Ainda mais triste quando vejo que Tinto Brass se utilizará das técnicas usadas em "Avatar" e será o primeiro diretor a dirigir um filme pornô em 3D. Talvez as lágrimas sejam o melhor modo de demonstrar que a queda do império romano é iminente e sem as megalomanias e bizarrices de "Calígula". Os últimos filmes genuinamente italianos que chegaram por aqui e fizeram um bom sucesso foram: "Estamos Bem Mesmo Sem Você" de Kim Rossi Stuart, "Meu Irmão é Filho Único" de Daniele Luchetti, "Vermelho como o Céu" de Cristiano Bortone, "Gomorra" de Mateo Garrone e "Caos Calmo" de Antonio Luigi Grimaldi. Espera-se mais da terra dos imortais Antonionni e Fellini. Eu espero.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 8 de março de 2010

Sessões entrevista Laís Bodanzky

Laís Bodanzky é a melhor diretora brasileira da atualidade. Foi capaz de obras maravilhosas que deixaram marca no cinema nacional como 'Chega de Saudades' e 'Bicho de Sete Cabeças'. Agora lança 'As Melhores Coisas do Mundo', com estréia prevista para 16 de abril de 2010, inspirado no livro 'Manos' de Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto. Ela convesou com Sessões sobre Leis de Incentivo, Preconceito e, obviamente Cinema. Acompanhe a entrevista abaixo:

Sessões: Queria que você contasse um pouco se você acha que tem muito preconceito ainda com mulheres dirigindo e como você vê este campo atualmente.
Laís Bodanzky: Na verdade eu não sinto preconceito. Do público ou da equipe?

S: Então, por não haver muitas diretorAs mulheres fazendo filmes. O Oscar nunca premiou uma mulher como melhor diretora. Parece um tabu. Queria saber o que você acha, se você acha que é isso mesmo? Como você sofre isto ou não chegou a sofrer este tipo de preconceito.
L.B.:
Bom, não. Acho que se eu sinto isto, às vezes, é muito sutil. Porque o preconceito, às vezes fica no subtexto, não é tão claro. Então deixa dúvida, "Será que é? Será que não é?". Às vezes não é só a questão de que eu seja mulher ou não, é ser mulher somada a outras coisas. Em relação ao Oscar nunca ter premiado uma diretora, claro que tem um número muito maior de diretores do que diretoras, então matematicamente a chance de uma mulher é menor, mas ao mesmo tempo o momento das mulheres na direção está num crescente. Mas é um crescente que ainda é igual ao espaço da mulher na sociedade como um todo. E de uma certa forma, a sociedade vai absorvendo isto e veja os seus primeiros sinais de reconhecimento. Se isso não aconteceu ainda com o Oscar, uma hora naturalmente isto vai acontecer, e é um fato que tem de ser ressaltado sim, não é para deixar passar batido, não. É uma conquista. Assim como, por exemplo no cinema brasileiro, eu admiro muito Tizuka Iamazaki, que foi a primeira mulher a dirigir que depois do Cinema Novo. Um cinema dominado pelos homens, por uma turma, com um olhar masculino muitas vezes, onde sempre teve a mulher a musa inspiradora, tratada com um jeito distante, não participativo. A Tizuka foi uma primeira mulher a quebrar isso, muito forte, muito parruda. Agora, isto não significa que toda mulher tem que ter esta característica forte, parruda para enfrentar o mundo. Não é isso. Claro que a primeira a ganhar um Oscar, que é um lugar de mercado, envolve muito dinheiro da indústria cinematográfica, com certeza, será uma mulher muito forte. Que deixará um marco e, normalmente a partir daí, abrirá um caminho para outras diretoras. Eu me sinto, por exemplo, fazendo cinema com mais tranquilidade do que com certeza a Tizuka fez, quando ela fez 'Gaijin - Os Caminhos da Liberdade'. Eu faço cinema com tranquilidade porque existe a Tizuka. Então eu não sinto tanto preconceito, talvez ela tenha sentido. Então, ela é a verdadeira guerreira.

S.: Ela foi uma desbravadora!
L.B.: Isto, desbravadora exatamente. E isso não acontece só no cinema como em todas as àreas, conquista da mulher no mercado de trabalho, tão dedicada quanto os homens e ter o seu trabalho tão reconhecido quanto o dos homens de igual para igual. Isso cada vez mais vai se tornando natural, mas é uma conquista mesmo, é uma transformação da sociedade, um tranformação do comportamento, da estrutura familiar. A sociedade está sempre em transformação. E uma transformação significativa é esta, a mudança da estrutura familiar e a mulher no mercado de trabalho e sabendo que ela tem... de igual para igual, não tem essa conversa.

S.: Antes de focar nos seus filmes, quero saber de você, qual sua opinião sobre as leis de incentivo ao cinema no Brasil, em geral?
L.B.: Eu acho fundamental para manter a nossa indústria, para manter a máquina realmente funcionando e girando com a diversidade necessária. O cinema de um país é na verdade a memória audiovisual de um país. Isto fica registrado ou guardado na cinemateca, hoje na internet. Então isto é um registro da nossa memória, é quem nós somos e como nós pensamos. A Lei do Audiovisual garante que esse registro (não só o entretenimento e o cotidaino das pessoas) seja amplo, não seja de uma nota só, que corresponda de fato a diversidade da nossa sociedade. Então, um dos principais motivos por que eu defendoa lei de incentivo é que ela garante esta pluralidade. Várias possibilidades no documentário, na ficção, em um filme infantil, filme experimental, filme que quer dialogar mais direto com o público, ela dá este espaço para que todo mundo tenha esta forma de expressão. Claro que a Lei do Audiovisual ela hoje, eu acho que é uma lei bem madura, porque ela sofreu muitas críticas da própria classe cinematográfica, a gente tem a Ancine que é uma agência reguladora que faz muito bem o seu papel. Acho que o Brasil com a Lei do Audiovisual tem um estímulo para sua indústria que nos torna um país pró-cinematográfico também.

S.: Primeiro sobre o 'Bicho de Sete Cabeças'. Como foi uma estreia com um filme tão arrebatador em prêmios crítica e público? Como foi a ideia? Já vinha amadurecendo? Foi muito tempo de pesquisa? E como foi a escolha do Rodrigo Santoro para protagonista?
L.B.: Na verdade esta consciência sobre o significado do filme eu tenho mais agora de que na época. Na época ele foi bem recebido pela crítca, pelos festivais, pelo público, mas não acredito que tenha sido uma coisa tão arrebatadora como você está dizendo. Eu acho que é um filme que tocou as pessoas na época do lançamento, mas a diferença é que ele continuou tocando independente do lançamento. Tem gente que assiste o filme hoje pela primeira vez e se emociona tanto quanto. Um filme atemporal. Acredito que a força dele é a longo prazo. Agora eu consigo enxergar isto e entender. E eu fico muito feliz, para falar a verdade. Quem não ficaria? Mas era um filme que naquele momento tinha um risco grande, pois foi muito difícil conseguir apoio para ele. Mas ele tem o frescor de um primeiro filme não só meu, mas de toda uma equipe, uma geração, meus colegas de trabalho que também estavam ali fazendo cinema pela primeira vez, longa. Assumindo posições estratégicas dentro da equipe pela primeira vez. Inclusive o Rodrigo, que mesmo com o nome muito importante que ele já tinha na época , ele pisou num terreno que ele desconhecia completamente e ele sabia também de que o filme estaria nas costas dele. E ele veio consciente disto e muito sério com o trabalho para dar conta do peso desta estrutura. Na verdade, a escolha do Rodrigo não foi pelo nome dela, mas pelo talento dele que eu reconheci não exatamente pelas novelas, mas por um trabalho específico 'Hilda Furacão'. E quem me abriu o olho foi o Paulo Autran, que havia lido o roteiro e tinha trabalhado com ele na minissérie e falou que ele era um garoto muito talentoso e inteligente que combina com esse personagem. Aí eu fui assistir, porque eu confesso que quase não vejo TV, eu não sabia quem era o Rodrigo, então eu o conheci em 'Hilda Furacão', e ali eu entendi quem era o Rodrigo e vi que ele seria a pessoa perfeita para o personagem e fiz o convite.

S.: E se Paulo Autran falou assina embaixo, né?
L.B.: Também porque eu sempre admirei o Paulo e ele é uma pessoa muito importante na minha vida.

S.: Teve uma mudança muito grande para o estilo de Bicho pra Chega de Saudade. São filmes totalmente diferentes. Como foi esta mudança “brusca” e como você viu o público que admirou 'Bicho de Sete Cabeças' e que depois viu 'Chega de Saudade'?
L.B.:
Eu acho que são públicos totalmente diferentes. Às vezes coincide, outras vezes não. E cinema também é feito de segmentos. Você tem um filme feito para aquele segmento da sociedade ou para outro. O 'Chega de Saudade', nitidamente, é um filme feito com um foco específico de público.E de fato um público bem diferente do 'Bicho de Sete Cabeças'. Então, eu entendo na verdade como um cineasta que faz aquele filme ou faz um outro e de uma certa forma a expectativa era “Um Bicho de Sete Cabeças 2”, provavelmente. O que para mim não seria um enriquecimento profissional. Poderia ser um sucesso também, mas eu como cineasta procuro também desafios para mim. E, o 'Chega de Saudade' é um filme muito mais complexo que o 'Bicho de Sete Cabeças' e eu aprendi muito fazendo-o. Eu acho um filme muito mais maduro na construção das suas personagens, na sutileza da construção do roteiro do que o Bicho que tem uma estrutura um pouco mais nítida, límpida e explícita. Já o Chega não, ali é um bordado, um mosaico muito bem costurado e deu muito trabalho para fazer isso. Aprendi muito e acho que o meu aprendizado no Bicho e fui para o Chega com um desafio maior e eu sinto que a somatória destas minhas duas experiências agora está nas Melhores Coisas, que é também um filme diferente dos dois, mas que eu também sinto como mais um passo na frente. Sinto que amadureci com estas experiências. São desafios diferentes, mas conquistas diferentes, mas com conquistas.

S.: Um dos nossos colabores, Leandro Antônio, é um muito fã de Elza Soares. Como foi trabalhar com ela?
L.B.: Foi incrível! Por que a Elza ela é uma trabalhadora. Não tem tempo feio, não tem preguiça. Uma pessoa que ama a vida! E em 'Chega de Saudade' o tema também é esse. Como dialogar com a vida que caminha e ao mesmo tempo caminha para um fim em queum certo momento o corpo já não aguenta mais, mas a mente está totalmente fértil. E como sentir-se vivo, sentir-se feliz, a busca e o desejo pela vida. O 'Chega de Saudad'e para mim a tradução é: são pessoas que frequentam o salão porque desejam a vida. A vida não é fácil, a vida tem problemas, tem seus dramas. Mas você pode escolher se você quer fingir que nada existe e ficar em casa e ligar a TV, ou você vai pra vida real e diz que está pronta pra o jogo para o que der e vier, coisas boas e coisas ruins, mas você ali de fato está vivo. As pessoas que frequentam o salão de baile são as que querem viver todos os papéis, avida está ulsando nas veias e a Elza representa exatamente isso. Eu fiquei muito emocionada quando a conheci. Pelo trabalho dela eu já a tinha encontrado ao vivo e na época do roteiro que eu conversava com o Luiz (Bolognesi) eu citava muito a Elza. Então além de ser uma grande cantora, ela é uma pessoa, uma personalidade muito significativa.

S.: Agora sobre 'As Melhores Coisas do Mundo'. Já sabe quais são as melhores coisas do mundo?
L.B.: São muitas, podemos fazer uma lista!

S.: O título 'As Melhores Coisas do Mundo' pode remeter a 'Todas as Mulheres do Mundo', de Domingos de Oliveira. Há alguma relação?
L.B.: Não, foi uma coincidência. O título também me surpreendeu, por que a gente escolheu seis títulos e colocou no site da Warner para uma votação. O público votou e ganhou disparado 'As Melhores Coisas do Mundo'. Eu mesma fiquei assustada, pensei: Que loucura o título que ganhou. E na hora que ganhou eu parei para pensar: "É tão engraçado", aquela coisa óbvia que quando alguém aponta, você diz: "É claro, por que eu não pensei nisto antes?". O título combina, na verdade, com filme que retrata o universo adolescente. Na adolescência a gente vive extremos, tudo é muito absoluto, ou é o melhor ou é pior, não tem meio termo e por isso eu faço a brincadeira: tudo é uma grande tragédia ou uma grande alegria. O grande amor é o grande amor da sua vida. Tudo é torto e a sensação é de que o mundo vai acabar amanhã. A sensação é de urgência. Então, este título era uma frase que já estava no roteiro, sempre existiu, e não é à toa que tanta gente se identificou com ela.

S.: Como foi a emoção de ver 'As Melhores Coisas do Mundo' pela primeira vez?
L.B.: Na verdade eu assisti lá no Cine Color, que é o laboratório, é o melhor lugar para assistir um filme, pela qualidade da imagem, pela qualidade do som. Então eu não podia ter recebido o filme de maneira melhor, com a qualidade máxima que ele tem. Eu mesma não tinha assistido ainda com imagem e som juntos. Foi a primeira vez. Eu havia assistido ainda no off line , tudo com baixa qualidade. Ontem quando assisti pela primeira vez, eu senti que o filme tem tônus, foi esta a sensação que eu tive: Um filme com tônus. Ele é forte, digo tecnicamente mesmo, além da história ser forte, ele tem um impacto visual e sonoro que deixa o filme com tônus e foi esta a sensação que eu tive.


Um dia após a Academia premiar a primeira mulher com o Oscar de Melhor Diretora para Kathryn Bigelow por 'Guerra ao Terror' e no dia Internacional da Mulher, uma entrevista com nossa diretora mais competente é um singela homenagem do Sessões às mulheres. Laís representa muito bem a mulher, o cinema e as melhores coisas do mundo. Parabéns e muito obrigado Laís, e a todas as mulheres desse e de outros mundos!

Muito obrigado!

Sessões

sexta-feira, 5 de março de 2010

Bastardos Inglórios


Nome original: Inglorious Basterds
Diretor: Quentin Tarantino
Ano:2009
País: EUA e Alemanha
Elenco: Brad Pitt, Christoph Waltz, Eli Roth, Diane Kruger, Daniel Brühl, Mélanie Laurent
Prêmios: Cannes de Melhor Ator e Bafta, Oscar e Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Christoph Waltz.
Bastardos Inglórios (2009) on IMDb


Um dos episódios recentes da história da humanidade que mais chocaram foi, sem dúvida, o massacre dos judeus na Europa pelos Nazistas no período da segunda guerra mundial.
Desde então, esta mesma história nos invoca a memória de um povo judeu frágil, indefeso, violentado e sem condição alguma de defesa ou contra ataque.

Muitos filmes já abordaram esta mesma característica mas em Bastardos Inglórios, Quentin Tarantino traduz o ódio dos judeus ante ao ódio dos nazistas. Propõe o pagamento na mesma moeda e mostra que os judeus também tinham sangue nos olhos.

Nesta produção, que concorre ao Oscar de melhor filme, Brad Pitt comanda uma equipe de judeus americanos que tem como missão perseguir e massacrar nazistas na Europa. E para isso, o grupo não economiza em crueldade e violência. A ordem é: não basta matar nazista, tem que humilhar, provocar dor, desespero e escalpelar, tirar o couro da cabeça.

Interessante notar a pegada Tarantinesca numa história que, por suas características (filme de segunda guerra), poderia não permitir a introdução de elementos de cultura pop tão presentes em suas produções anteriores.

Mesmo tocando em um tema e uma época bastante particular, é possível notar um quê de Kill Bill, Pulp Fiction, Cães de Aluguel. Ao mesmo tempo que é sério, é também sarcástico, cômico, dramático, irônico.

Sua trilha sonora dá aquele tom rockabille, surf-music que é outra marca registrada de Tarantino. E não faltam aquelas cenas famosas do diretor em todas suas produções, quando um grupo de inimigos se encontram num mesmo espaço e tempo e todos apontam armas para a cabeça de todos.

Tudo faz parte de um universo propositalmente exagerado. Trata-se de uma obra de ficção que pode ser levada em consideração, porém não deve ser levada muito a sério. Afinal, os alemães não perderam a guerra por causa de um incêndio numa sessão de cinema. Hitler não foi morto numa emboscada e crivado de balas feito um queijo suíço. E os judeus também não eram tão cruéis assim, não é?
Será?

Carlos Nascimento
Sessões

terça-feira, 2 de março de 2010

JCVD


Nome original: JCVD
Diretor: Mabrouk el Mechri
Ano:2008
País: Bélgica, França e Luxemburgo
Elenco: Jean-Claude Van Damme
JCVD (2008) on IMDb
Having hard times in this crazy town
Having hard times, there’s no love to be found
!”

Socos, pontapés, chutes, rasteiras, murros, fogo, explosões, cotoveladas, granadas, facadas, ação, missão cumprida, mocinha salva, set de filmagem, diretor asiático, reclamação das tomadas longas e dos recursos disponíveis para o filme, desinteresse por parte das exigências do ator.

Basicamente este é a metalinguagem inicial de JCVD filme em que o ator interpreta a si mesmo com a direção do Franco Argelino Mabrouk El Mechri. O filme,no entanto, retrata a Decadência,o Declínio e uma certa reflexão sobre a vida. O “músculo de Bruxelas” de filmes de ação da década de 80 que pululam nas sessões da tarde consegue expressar artisticamente o seu fracasso como ator, pai, lutador e como homem.

O discurso narrativo agrada muito por jogar com a idéia de vida real e vida artística de Jean Claude Van Damme, isto é, do lado da realidade, temos um ator em dificuldades financeiras, com problemas judiciais referentes a guarda de sua filha, além de constantemente perder papéis para Steven Seagal, pelo lado da ficção, a confusão em que se mete quando volta ao seu país (onde é considerado herói nacional) por ser tomado por um dos ladrões que roubavam o correio quando ele vai em busca de dinheiro para pagar os custos judiciais. É notável a relação estabelecida entre a idéia de autobiografia e sátira,simultaneamente à criação e à “realidade mágica” do cinema.

O filme atinge o ápice da criatividade artística no monólogo “acima do set” que faz um corte na história. Do nada o filme é interrompido por um desabafo no qual o ator discorre sobre coisas triviais da vida: Família, infância, pobreza, amor, solidão, drogas, alcóol, enfim uma fala existêncial, um belo "o que eu me tornei e o que fiz da minha vida?" com direito a lágrimas e tons de angústia.

É neste ponto,ainda em que há a quebra da quarta parede. É um conceito que vem do teatro, por ser o palco formado por três paredes mais a parede pela qual o público assiste ao espetáculo. Não é a primeira vez que é usado no cinema. Em o Show de Trumam o protagonista derruba a quarta parede que o separava da platéia. A finalidade desta técnica é fazer com que o público participe mais ativamente da história e foi criada por Bertold Bretch para se contrapor à teoria de Constantin Stanislavski.

Outro ponto significativo são as músicas de Curtis Mayfield e Solomom Burke que dão um certo espiríto para a narrativa,de fracasso é verdade,mas a vida não é feita só de vitórias as vezes perdemos e temos de ser fortes o suficiente para levantar e seguir em frente.JCVD ensina que a vida é feita de altos e baixos,de socos e pontapés, de risos e choros,de vitórias e derrotas,muitas derrotas,mas,ensina também que o importante é o levantar-se,é o resistir e seguir lutando.Neste sentido todos temos um pouco de JCVD em nós.Não fizemos e não faremos tudo o que gostaríamos de fazer.

Quoi faire?
C'est la vie.

Fernando moreira dos Santos
Sessões
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