sexta-feira, 29 de abril de 2011

Abraços Partidos

Nome Original: Abrazos Rotos
Diretor: Pedro Almodóvar
Ano de lançamento: 2009
País: Espanha
Elenco: Lluís Homar, Penélope Cruz, Blanca Portillo, José Luis Gómez, Tamar Novas, Rubén Ochandiano, Lola Dueñas, Rossy de Palma e Chus Lampreave.
Prêmios: Melhor Longa Internacional no 33º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (Prêmio do Público) e Goya de Melhor Trilha Sonora para Alberto Iglesias.
Abraços Partidos (2009) on IMDb

Ode ao cinema! Ode à paixão! Ode à si próprio!


Assim é o novo filme de Almodóvar. Você que já conhece o estilo e as temáticas do diretor, sabe que ele é craque em decifrar as mulheres, mas agora em Abraços Partidos, ele consegue o impensado. Um homem está no centro das ações e ele esmiuça cada pensamento e a visão masculina. Obviamente falarão de Penélope Cruz na pele de Lena, por seu charme, beleza, sua ótima atuação e pelo prestígio que vem conseguindo nos últimos anos (principalmente por suas participações nos filmes do espanhol). Porém é Lluís Homar que tem o maior papel da película, e o faz muitissimo bem. É um filme sobre relações pessoais e, como sempre, de paixão.


"Garotas e Maletas" é o nome da produção que acontece dentro de "Abraços Partidos", claramente inspirado no primeiro sucesso internacional do diretor, "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos". E a arte imita a vida. Em 'Conversas com Almodóvar', o diretor conta que para conseguir dinheiro para a produção do filme "Maus Hábitos", um grande empresário espanhol, em crise no casamento, só o financiaria se a sua esposa fizesse parte do filme. Assim como o possessivo Ernesto (José Luis Gómez) com a bela Lola. Em Abraços Partidos substitui-se Almodóvar por Mateo e Maus Hábitos por Garotas e Maletas. Para quem ama cinema vai amar ver as relações que acontecem por trás das câmeras, as mais belas e as mais pervesas. E perceber que Pedro está na tela, se expondo para o mundo ver. Cada vez mais elementos autobiográficos vão aparecendo na tela. Mateo ou Harry, neles Almodóvar aparece para nós como se estivesse olhando para o espelho.

Um acidente. A cegueira. Não estamos em "Ensaio sobre a Cegueira" porém assim como Meirelles, Almodóvar conseguiu fazer um bom ensaio dessa ausência de sentido. De perspectivas diferentes, de ângulos diversos, mas que angustia só de pensar em não ver. "Abraços Partidos" demora a engrenar (talvez meu olhar fanático me engane dizendo que engrenou de fato), talvez pelo excesso de elementos, uma montagem não clara, uma quantidade de elos com a homenagem que prestou ao cinema, por um certo perturbamento diferente das suas ultimas películas. É um filme de um capricho enorme, com cenas antológicas, mas é aquele belo em busca de uma complexidade que não se concretiza (ou concretiza até demais?). Há um quê de Tarantino em "Abraços Partidos" pela constante busca de referências, numa busca por sí próprio e de um cinema que parece ter morrido dentro dele. Uma certa melancolia ao ver o passado kitsch, ao ver a verdade dos atos já cometidos. A maior sensação de cinefilia e de Penélope está lá e não há maior sensação de cinefilia do que ela a todo momento com trejeitos que relembram Audrey Hepburn.


Desde que vi o filme não consegui revê-lo. Talvez a certeza da falta de força me faz pensar em deixar a boa impressão inicial para sempre em minha mente. Acho que já passou da hora de ver e tirar essa mácula da minha vida. Espero surpreender-me e amar cada vez mais o cinema almodovariano. De tanto ouvir falar que é este é um Almodóvar menor, vou me isolar e ver o melhor filme do Almodóvar: "Abraços Partidos".

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O Pecado de Hadewijch

Nome Original: Hadewijch
Direção: Bruno Dumont
Ano: 2009
País: França
Elenco: Julie Sokolowski, Karl Sarafidis, Yassine Salime, David Dewaele, Brigitte Mayeux-Clerget, Michelle Ardenne, Sabrina Lechêne.
Prêmios: Critica Internacional (Fipresci) no Festival de Toronto
O Pecado de Hadewijch (2009) on IMDb


“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem.”
Hebreus 11.1


Refletir sobre fé é tema delicado, desconfortante.O dogma é um acalanto, um colchão macio onde podemos descansar. Falar a respeito de fé é menos constante no cotidiano que dialogar religião, por exemplo. Buscar a fé põe-nos diante do conforto e do sentido que “o pensamento mágico” representa na vida humana. E, investigar, matutar ou abandonar o pensamento mágico é almejar emancipação do “medo”. Almejar emancipação do medo é a vertigem absoluta, é colocarmo-nos diante de nós mesmos, diante de nossa pequenez.

Uma temática áspera em um filme duro, de silêncios, introspecção e inquietação. O “Pecado de Hadewijch” nos causa a vertigem, pois nos afronta, mete-nos diante da pequenez e cinematiza que o estado mais próximo do Invisível-Perfeito é o desequilíbrio, ou a loucura diagnosticada. Em outros termos, quando a luz mostra um pequenino raio já não se pode ter consciência para decodificar as situações, é um tombo súbito que resulta em amnésia. Já não há mais elos. O pecado é querer amar demais ao Invisível-Perfeito. Amar o divino detendo apenas perspectivas humanas.



O cachorro late ao som do trovão e o menino e a menina que estão dentro de nós perguntam-se apavorados sobre o que está acontecendo. É o terror infantil diante daquilo que não controlamos. É a lida com o medo, a lida com a negação do desejo, com a dor.

Fecho os olhos na intenção de enxergar o invisível, receber a graça de sentir o não sensível, quando me aproximo ou instintivamente chego lá - sou tomado por um torpor, por uma sensação que não é sensação, um almejado transe. O que é isto? Isto é fé? Não, ainda não.


Leandro Antonio
Sessões

Agradecimentos a Valerio Arcary que me explicou o que era pensamento mágico e a Elvis Luis que me acompanhou na sessão.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O Círculo

Nome Original: دايره‎ (Dayereh)
Diretor: Jafar Panahi
Ano: 2000
País: Irã, Itália e Suiça
Elenco: Nargess Mamizadeh , Maryiam Palvin Almani, Mojgan Faramarzi, Maedeh Tahmasebi
Prêmios: Leão de Ouro, Prêmios da FIPRESCI, Unicef, OCIC Award - Honorable Mention e Sergio Trasatti Award do Festival de Veneza e FIPRESCI Film of the Year no Festival de San Sebastián.
Dayereh (2000) on IMDb


Roda roda roda. Sai do lugar, mas o fim é sempre o mesmo. Considero o cinema iraniano um dos mais difíceis do mundo. Não que as temáticas sejam complexas e mirabolantes ou mesmo são dotados de narrativas incomuns e nunca vistas, não. O cinema iraniano é complexo por um único motivo: a cultura é totalmente diferente do Ocidente. Não temos base, não nos vemos lá apesar de estarmos em plena era da comunicação, da facilidade da informação e do conhecimento global. Mas o Irã não nos trás nenhuma referência que tenhamos o mínimo contato. Apenas sabemos que as mulheres usam burcas, só. O cinema é uma arte universal e amplamente disseminada e ver os costumes e a cultura através da tela grande é um dos melhores aprendizados que podemos ter, devendo filtrar bem para não cairmos apenas nos clichês e nos estereótipos. O cinema vai além, não é? Infelizmente por trás daqueles véus, há muitas histórias que não podem ser contadas. Mas no cinema pode, mesmo que sejam em nuances.


“O Círculo” vai além de uma roda gigante que roda e não sai do lugar. Vemos na tela uma sucessão de mulheres divididas em capítulos e com histórias parecidas. Cada uma com seu drama mas todas sob a influência do medo de viver naquele país. Vemos um país de homens e de mulheres submissas, sem direitos. Um ser humano sem direitos é menos do que uma ovelha sem seu pastor, andando livre pelo pasto. Viver com a sombra do medo é a pior tortura que os humanos poderiam ter. Não me venham falar em direitos humanos, a liberdade é um direito da vida. Soltem os pássoros, deixem os animais livres, abram as porteiras, libertem os presos, tirem as burcas, andem nus à frente do palácio de Ahmadinejad . Nossos dramas são inócuos quando vemos que há tanta podridão como essa no mundo. Gritos de “LIBERDADE! LIBERDADE! LIBERDADE!” são comprimidos e perdidos dentro do peito escorado pelas armas da ditadura.


Jafar Panahi está preso por sua voz. Por conta do cinema. O cinema fez um prisioneiro. Não no sentido lúdico, as jaulas da prisão obscuras são verdadeiras e cheiram esgoto. O limbo das paredes se misturam à pele e transformam o bicho homem em túneis subeterrâneos cheios de ratos e baratas. A busca pelo dinheiro faz das mulheres se prostituem e vendem os filhos, em rainhas da liberdade. Contraverter sua própria essência em prol da busca pela liberdade faz delas mártires silenciosas em busca de explicações do que a mente humana, condicionada pela própria cultura, é capaz de fazer. Gritos mudos saem aos montes nos becos de Teerã.

“O Círculo” não me agrada como cinema puro. Há muitos cortes, uma narrativa dispersa e lenta, atuações sem brilho. Mas é exatamente o brilho de não tê-lo que incomoda, que força nossa mente a buscar explicações do inexplicável. A arte é universal, mesmo que seja regional. O cinema iraniano é um tapa na cara dos Aialotlas, escarra no Ahmadinejad, destrói os costumes arcaicos, olha pro futuro, mas o passado e o presente ainda estão lá e é de lá que querem fujir. Nesse caso a fuga é a melhor saída. O aborto é necessário para dar vida às mulheres por baixo dos véus que cegam e prendem.

Vitor Stefano
Sessões

P.S.: Esta é uma expressão de solidariedade do Sessões ao diretor Jafar Panahi que está preso por conta de sua expressão cinematográfica e política. Continue fazendo seu cinema “obsceno”, enfrentando de frente o Governo e exibindo ao mundo, do seu jeito, o que é a realidade do seu país.

P.S.2 : Talvez de nada valha, mas assinei uma petição pela libertação do diretor Jafar Panahi. Assine também - http://www.petitiononline.com/FJP2310/petition.html

sábado, 16 de abril de 2011

A Lagoa Azul

Nome Original: The Blue Lagoon
Diretor: Randal Kleiser
Ano: 1980
País: Estados Unidos
Elenco: Brooke Shields, Christopher Atkins, Leo McKern
Prêmios: Indicação ao Oscar de Melhor Fotografia e indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator Revelação (Christopher Atkins).
A Lagoa Azul (1980) on IMDb

A Lagoa Azul (The Blue Lagoon, 1980), dirigido pelo americano Randal Kleiser, não faz parte da galeria de filmes atemporais. E isso, definitivamente, não é bom. Explico: as obras realmente de valor, ou seja, as reconhecidas por sua grandeza artística, por seu engenho, são justamente aquelas que não se modificam com o tempo. E A Lagoa Azul mudou muito. E, infelizmente, para pior. Tornou-se (para mim) um arremedo do romance de aventuras Robinson Crusoé, escrito pelo inglês Daniel Defoe em 1719. Há, porém, outra hipótese: a de eu ter mudado radicalmente desde a pré-adolescência, certamente para pior, e me tornado um adulto idiota e exigente.

Vejamos:



O filme em questão tem o seguinte roteiro: após naufrágio, dois primos ── um menino e uma menina ── e um velho beberrão, o cozinheiro do navio afundado, passam a viver em uma ilha deserta. Lá, graças principalmente ao conhecimento de vida do velho, as crianças sobrevivem e adquirem habilidades para sua subsistência: aprendem a pescar; a cozinhar; a selecionar frutas para consumo; a fazer belos e eficientes nós, usados nas mais variadas situações, úteis ou fúteis, como, por exemplo, para construir uma cabana, auxiliar no carregamento de alimentos, prender os cabelos ou simplesmente ajustar um vestido, aprimorando o seu caimento. Pois bem... pouco tempo depois, o beberrão morre, acontecimento que abre caminho para que os dois pombinhos possam finalmente se virar sozinhos naquele pequeno paraíso. Richard (Christopher Atkins) e Emmeline (Brooke Shields) gozam, de fato, longos anos de felicidade conjugal, aproveitam ao máximo as maravilhas do amor, até o dia em que o filho deles, um garotinho saudável e louro como o Sol, engole, por engano, a frutinha do “sono eterno”. Consternados, seus pais decidem acompanhá-lo naquele sono tranqüilo, profundo, perpétuo ── bem ao estilo de Romeu e Julieta.

Robinson Crusoé: após naufrágio, um homem (cujo nome intitula o livro) passa a viver em uma ilha deserta. Lá, graças ao seu conhecimento de vida, sobrevive e luta todos os dias em busca do seu bem-estar. Contribuem para isso, além do “bom selvagem” Sexta-Feira (que aparece na aventura de Defoe somente anos mais tarde), a inteligência, a determinação, a excepcional noção de organização de Crusoé e, claro!, uma ou outra ferramenta da embarcação naufragada.

A seguir, algumas diferenças entre as duas histórias:

Em A Lagoa Azul a atmosfera é carregada de romantismo, de inocência e de beleza. A ilha é um lugar absolutamente lindo. Os protagonistas são jovens e belíssimos. O céu, a Lua e o Sol são verdadeiras obras-primas. As frutas são brilhantes e anatomicamente perfeitas. Os animais (todos, de peixes a insetos) são uma gracinha. A cabana, então, mereceria destaque na revista Casa e Jardim. Enfim... tudo é lindo de morrer! ── como num filme água-com-açúcar de Hollywood. Possivelmente influenciado por esse mar de “bom gosto”, o diretor resolveu tratar com delicadeza extrema, incomum, um dos períodos mais difíceis da nossa vida: a passagem da infância para a adolescência. E é justamente esse exagero, essa delicadeza excessiva, esse cuidado de vovó, que torna A Lagoa Azul um filme comum. As descobertas físicas e emocionais das personagens principais beiram a pieguice. E só perdem em pieguice para a própria ilha, digna da capa de Caras.

O romance Robinson Crusoé, ao contrário, notabiliza-se pela sobriedade e praticidade. Durante os 28 anos, dois meses e 19 dias em que o protagonista da aventura ocupa “provisoriamente” seu novo lar, ele não mede esforços para melhorar suas condições de vida. Com a finalidade de proteger seu corpo e seu espírito, empenha-se em muitos afazeres, tais como: a caça, a pesca, a elaboração de instrumentos que o auxiliam em suas tarefas diárias, a construção de sua moradia. Além disso, torna-se agricultor e até pastor de caprinos (cria alguns bodes e cabras na ilha); e, nos momentos de aperto na alma, lê a Bíblia. Tudo extremamente simples e prático.

Apesar de análogos, os principais assuntos tratados em A Lagoa Azul e em Robinson Crusoé têm abordagens bastante distintas.

Vejamos:



1A)No filme de Randal Kleiser não existe a solidão de fato, isto é, a ausência física do outro. Não significa, porém, que em certos momentos o sentimento de solidão não preencha o coração dele (Richard) ou dela (a estonteante e miraculosa Emmeline, que no decorrer da história conseguiu a façanha de manter o penteado impecável); 2A) O casal está tão feliz em sua ilha, tão feliz, que não deseja mais abandoná-la para voltar à civilização. Eles e o seu filhote ── o menino-Sol ── se bastam naquele pedaço de mundo generoso; 3A) A ilha deserta e todos os acontecimentos são romanceados, enfeitados, embelezados; 1B) O personagem principal do livro de Defoe é um solitário, apenas deixando essa condição após 26 anos, com o “aparecimento” de Sexta-Feira na história; 2B) Crusoé jamais desistiu de partir, de abandonar sua ilhota e voltar à civilização; 3B) Robinson Crusoé demonstra que para superar grandes adversidades, o ser humano precisa de pelo menos três qualidades: ser dotado de inteligência privilegiada (inclusive emocional), de determinação incomum e de senso de organização (ou de capacidade de planejamento, se você preferir uma expressão atual). Reflexão preconceituosa? Ultrapassada? Talvez. Genial? Visionária? Quem sabe. Depende do ponto de vista de cada um. Entretanto, nunca é demais lembrar que Daniel Defoe escreveu esse romance de aventuras há quase 300 anos.

Concluindo...

Eu era um jovenzinho ingênuo quando vi A Lagoa Azul pela primeira vez, na tevê, no início da década de 80. E gostei bastante. Fiquei impressionado sobretudo com a beleza e a doçura da Emmeline, a moça do penteado impecável. Outro aspecto que me impressionou foi perceber que mais pessoas no mundo passavam por aquele período de descobertas. Foi bacana saber que eu não era o único. Quando o filme da Emmeline passou aqui no Brasil, eu também era um “descobridor” dessas sensações. Por isso, talvez o mais justo seja jogar fora o termo "arremedo" e preservar as lembranças advindas de A Lagoa Azul, inclusive suas belezas desmedidas e seu sentimentalismo hollywoodiano, pois elas existiram, de maneira significante ou não, em uma fase importante da minha vida. Mas isso já passou. Não posso dizer o mesmo de Robinson Crusoé, livro cujos ensinamentos práticos e narrativa envolvente ainda carrego comigo, tanto no que diz respeito ao modo de viver do protagonista de Defoe, expressão de sobriedade e determinação, quanto pelo simples prazer da leitura de uma história extraordinária, engenhosa como poucas e de incontestável valor literário, que tem comovido a todos, de crianças extremamente ingênuas a adultos idiotas e exigentes, desde que foi escrita ── comprovando, assim, sua grandeza artística e, conseqüentemente, sua atemporalidade.

Paulo Jacobina
Sessões

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Rabia

Nome Original: Rabia
Diretor: Sebastián Cordero
Ano: 2009
País: México, Espanha e Colômbia
Elenco: Martina Garcia e Gustavo Sanchez Parra.
Prêmios: Prêmio Especial do Juri no Festival Internacional de Toquio e Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Fotografia no Festival Internacional de Guadalajara
Rabia (2009) on IMDb


Logo de início vemos duas práticas impensadas e intempestivas: ver dois mecânicos cortejando sua namorada, com termos de baixo calão, ofensivos à puritana, é de causar raiva. A reação é de força e destruição aos ofensores. José Maria pagaria por esse ato. Funcionário da construção civil, primeiro já é repreendido por estar fumando ao invés de trabalhar, dizendo que a Espanha não é seu quintal. Uma clara demonstração de xenofobia, comum, corriqueira e lamentável. Já não bastando ser chamado a atenção, J. Maria recebe o engenheiro responsável que lhe dispensa por conta da agreção ao mecânico, além de fazer outros comentários sobre Rosa. A raiva toma conta, esbugalha os olhos e num ato impensado golpeia seu superior de forma fatal. Em construção civil nenhum acidente é acidental. O que lhe resta é fugir. Mas e Rosa? Rosa terá que se viver sozinha, mas Maria sempre estará perto. De uma forma ou outra.

Rosa é a empregada doméstica de uma casa grande, da alta classe espanhola. Um casarão com diversos imóveis, e com o crescimento da família e cada um tomando seu rumo, foi ficando grande demais para dois idosos. Colombiana, Rosa foi para a Espanha com a intenção de mudar de vida. É muito bem tratada pela patroa. Com a polícia atrás de José Maria, a polícia investiga, questiona, porém Rosa diz não saber qual é o paradeiro de seu namorado. Mente, pois ele esteve com ela na casa dos patrões enquanto eles estavam viajando para a Inglaterra. Mas ninguém, além dos dois precisa saber disso. Mas o paradeiro de José é realmente desconhecido. Mesmo estando muito perto. O sótão da mansão é seu esconderijo. Ele ouve tudo, sabe de tudo, mas sua voz não pode ser ouvida. Um verdadeiro fantasma. O som de seu silêncio é sua punição.



Tão perto e tão longe. Não haveria como José Maria sair ileso de tal escolha. A clandestinidade faz com que sua existência para a sociedade seja esquecida. Uma atitude instintiva que pode marcar um homem para sempre. Rosa não está só e uma conexão sempre a unirá à José Maria. Um filme denso, cativante e com atuações precisas. Produzido por Guilhermo del Toro e do mesmo diretor de “XXY”, agora fez um filme comercial com muita qualidade e apesar da monotonia das locações, o enredo cheio de nuances de suspense, aliado à casos graves de xenofobia e exclusão num mundo onde quem está excluído, mora cada vez mais perto de quem quer higienizar seu espaço. Os ratos sempre estarão por perto.

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Amor Sem Escalas


Nome Original: Up in the Air
Direção: Jason Reitman
Ano: 2009
Elenco: George Clooney, Ver Farmiga e Anna Kendrick
Prêmios: Bafta de Melhor Roteiro Adaptado e Globo de Ouro de Melhor Roteiro.
Amor sem Escalas (2009) on IMDb

Voando se foi. A vida no ar é a mais emocionante, perigosa e querida. O sonho de Ícaro tornou-se real e viver flutuando, vendo o mundo por uma ótica diferente, está concretizado. Ícaro pensou bem na beleza da visão, porém não pensou na solidão que é viver só num mundo onde as únicas companheiras fiéis são as nuvens. Nem os anjos são inspiração para enfeitar esse mundo isolado e cinza, como as nuvens em dias chuvosos.

A profissão de Ryan Bingham é um dos mais ingratos, mas ele a faz com perfeição e calma. Demitir pessoas tornou-se a melhor opção de vida para quem não quer compromisso, rotina ou um lar fixo. E tudo isso só seria possível viajando para todos os cantos dos Estados Unidos destruindo sonhos, aniquilando famílias e acabando com vidas de trabalhadores que só queriam manter seus empregos em uma empresa a fim de uma aposentadoria gorda no final da vida profissional. Mas a idade chega e a inovação também. A contratação da jovem Natalie Keener para implantar um novo sistema para demitir causa pânico com a possibilidade de não conseguir mais a liberdade que tanto almejou. Só um macaco velho no que faz para conseguir arrastá-la para ver na real como a função de demitidor deve ser feita.


Ao ver o absurdo de contratar uma empresa para demitir seu empregado, percebemos que o sistema empresarial está completamente corrompido, sem vida, sem vergonha na cara, sem caráter. Apesar da ficção, sabemos que atitudes muito piores acontecem a cada segundo, sem que nos demos conta. Mas Ryan só faz seu papel. O papel de um solteirão, bem de vida, solteiro. A máxima de solteiro sempre, sozinho nunca, aplica-se aqui também quando vemos a bela e descompromissada Alex que em encontros casuais fazem o casal parecer completar bodas de prata. Um relacionamento aberto, sem cobranças e sem rotina. A perfeição dos relacionamentos sem um compromisso. A liberdade é o êxtase da vida. Mas quem a quer? Quem não quer ter a liberdade de ter alguém para se prender? Quem não quer a liberdade da vida dividida? Quem não quer?

Apesar da vida aparentemente perfeita, Ryan começa a ver o mundo passar por debaixo de seus olhos sem ao menos entender do que a vida é feita. Estar num mundo só, sem ninguém, não vale de nada. Grande atuação de George Clooney como protagonista desse filme sobre o limbo de estar solitário em sintonia com as ótimas coadjuvantes Vera Farmiga e a jovem Anna Kendrick. Apesar de ter um desfecho claro e obvio o filme trás Jason Reitman de volta à tona com outro tema que deixa o absurdo natural. Após um grande início com longas com “Obrigado por Fumar”, e do premiado, porém esquecível “Juno”, com “Amor Sem Escalas” ele consegue aliar um grande roteiro a atuações precisas em imagens que marcam e nos fazem imaginar o que é viver atrás de uma vida e quando a tem, não ter com quem compartilhar. Piegas, mas reflexivo.


Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Gran Torino

Nome Original: Gran Torino
Diretores: Clint Eastwood
Ano: 2008
País: EUA/Alemanha
Elenco: Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang.
Prêmios: Melhor Filme Estrangeiro no César, David di Donatello, Academia Japonesa de Cinema, Cinema Writers Circle Awards, Fotogramas de Plata, Hochi Film Award, Mainichi Film Concours, prêmio dos leitor no Kinema Junpo Award e no Blue Ribbon Awards; Melhor Diretor no Kinema Junpo Award; e Melhor Filme no UFCA Award
Gran Torino (2008) on IMDb



Neste eletrizante e dramático filme dirigido e estrelado por Clint Eastwood, o veterano de guerra, Walt Kowalski, está velho e só. Depois da morte de sua esposa, restou-lhe a amargura de um cotidiano difícil. Seus filhos se perguntam o que vão fazer com o velho, agora que a mãe morreu.

Por outro lado, a vizinhança do seu bairro mudou – agora Kowalski tem que conviver com estrangeiros asiáticos, negros e com toda a variedade de etnias, pessoas que ele despreza.



Walt mantém intacto seu Ford Grand Torino, exemplar raro dos anos 70, que ele mesmo ajudou a construir (trabalhou por 50 anos na fábrica da Ford) assim como a manutenção da casa e de suas lembranças. Com sua latinha de cerveja na mão, assiste perplexo a transformação do bairro eu um local dominado por gangs.

A história ganha força quando o garoto Thao, forçado pelos gangsters de sua etnia, tenta roubar o Grand Torino. De maneira indesejada e involuntária, Walt passa a ter um convívio próximo com essa gente que tanto odeia. O velho durão e preconceituoso, com o tempo, vai quebrando a rigidez e se vê amigo dos japas, principalmente do tímido Thao.

Kowalski é valente e, para proteger seu pupilo, decide enfrentar os gangsters. Sua ação, é claro, não resolve o problema, pelo contrário, atiça a ira dos vagabundos.

O roteiro bem amarrado mantém o expectador fixado no enredo e esperando pelo seu desfecho, que é surpreendente.

A produção trata não apenas de xenofobia, negação a etnias diferentes baseada em preconceito, mas como estas barreiras são facilmente transpostas com um mínimo de tolerância. E vai mais além. Desenvolve um retrato bastante fiel da atual sociedade norte-americana, com sua formação variada decorrente do intenso processo imigratório das últimas decadas.



Carlos Nascimento
Sessões

Amor?

Nome Original: Amor?
Direção: João Jardim
Ano: 2010
Elenco: Lília Cabral, Eduardo Moscovis, Letícia Colin, Claudio Jaborandy, Silvia Lourenço, Fabiula Nascimento, Mariana Lima, Ângelo Antônio e Julia Lemmertz.
Prêmios: Prêmio do Júri Popular e do Prêmio Vagalume no Festival de Brasília.
Amor? (2011) on IMDb


Não sei o que acontece comigo. Parece algo instintivo, pactual, uma loucura mesmo, mas não dá para controlar. Vem lá de dentro sem pedir permissão e já estoura no meu peito e minha mente fica totalmente atordoada e refém dessa angústia de não querer e querer tudo ao mesmo tempo. Quero dominá-la, querê-la, devorá-la. Só consigo pensar em acabar com ela para mostrar o quanto eu a quero. Quero tanto que não controlo minha força, já não sei como é isso. Minha vida virou de cabeça pra baixo. Só por causa de uma ou outra provocação eu já estouro. Já quero descontar toda minha prepotência aliada à vida pacífica e mentirosa que levo. Eu vou confessar: só com sexo ou pó é que eu consigo relaxar e manter-me no meu mundo. Talvez seja outro mundo, mas lá eu sou calmo e minha paixão torna-se algo belo e puro. Lá eu a amo. Fora eu a matarei de amor. Amor?


Relatos, histórias, verdades escandalosas escancaradas na tela. João Jardim faz “Amor?” numa linguagem moderna do documentário, que o Brasil vem explorando muito: o documentário ficcional. Assim como em “Jogo de Cena” de Coutinho, os atores interpretam relatos verdadeiros sobre o amor e a violência e discorrem sobre o limiar entre essas duas vertentes. O ciúme e a possessão podem ser relacionados com ambos. Aqui, ambos existiram e são encarados como corriqueiros na vida real.Laura, Fernando, Carol, Paulo, Julia, Claudia, Lineu e Alice explanam porque resistiram ou desistiram de um amor agressivo.

O distanciamento da verdade por vermos atores interpretando, deixam os momentos tensos mais calmos e, por vezes, dão margem até a acharmos graça da desgraça alheia. Talvez esse distanciamento seja a grande idéia do filme, mas acredito que nem todo público esteja preparado para gostar e apreciar esse modelo. Apresentados um a um, as histórias são documentadas e apresentadas explorando a filosofia sobre o amor de cada um. Independente de classe, cor ou credo, as histórias relatam um mal que só cresce. A violência caseira à mulher tem números alarmantes e com cada vez mais ocorrências. Mas o filme não trata exatamente da violência caseira, tendo nela apenas uma base. O que realmente é explorado é a moral e como a mente humana mente para si própria. A desconstrução do homem, nos relatos de Eduardo Moscovis, Ângelo Antônio e Cláudio Jaborandy são as mais impactantes do filme por descrever as atitudes e como tudo aconteceu. Ver o lado das mulheres, aparentemente, é mais fácil, porém o do homem é devastador. Grandes atuações dos três atores com histórias emocionantes.


As mulheres retratadas no filme têm impacto do amor como sentimento puro. A palavra é pura. O que é o amor? Elas querem mesmo é saber até onde o amor é doença ou obsessão. Perguntas sem respostas. Destaque para a história contada por Fabíula Nascimento e Silvia Lourenço, ambas com a mesma personagem, num monólogo intenso entrecortado entre as atrizes, com emoções, descaso e paixão de um relacionamento lésbico. Entre um relato e outro, imagens casuais, um vídeo antigo, um abraço afagoso, uma relação sexual desinibida que deixa o público preso à cadeira demonstram o quanto o amor pode ser vivido sem desrespeito. A trilha sonora nos intervalos dos depoimentos sob a batuta do grande Lenine e de seu filho Bruno Giorgi, interpretando 4 clássicos de amor de forma instrumental, ilustrando as 8 histórias desse sentimento incoerente. Podemos ouvir “Carinhoso”, “Beatriz”, “Ainda é cedo” e a “Hoje eu quero sair só” para acalmar a dureza da realidade. Grande trilha para um filme experimental, real e impessoal. João Jardim depois de “Lixo Extraordinário”, vai além, integrando ficção e documentário com um tema duro e complexo, porém com a leveza que só a “mentira” que ótimas atuações pode trazer. Nem todos os depoimentos funcionam na tela, mas o conjunto é interessante e intriga até os maiores (e mais violentos) amores. Afinal, de amor todos conhecem.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Morgue Story – Sangue, Baiacu & Quadrinhos

Nome Original: Morgue Story – Sangue, Baiacu & Quadrinhos
Direção: Paulo Biscaia Filho
Ano: 2009
Elenco: Mariana Zanette, Anderson Faganello e Leandro Daniel Colombo.
Prêmios: Melhor Filme de Terror no Festival de Swansea Bay e no Festival Internacional Heart of England; Melhor Filme Internacional de Terror do Festival de Illinois e Melhor Filme do Festival no Puerto Rico Horror Film Festival.
Morgue Story: Sangue, Baiacu e Quadrinhos (2009) on IMDb




Quero ver mais, mais e mais. A produção cinematográfica brasileira cada vez mais se importa com a busca pela perfeição técnica, por escrever roteiros baseados em fatos reais ou adaptações literárias de grande alcance e com elenco global e aclamado por crítica e público. Ou comédias graciosas ou dramas pessoais em sua maioria. Não é só disso que nosso cinema pode ser feito. Temos os experimentais, grandes documentários, um mundo de curtas-metragens perdidos e pouco explorados. E os filmes de terror? E os filmes trash? E o cinema de baixo custo? Pouca ou quase nenhuma oportunidade de distribuição tem. De produção independente, cheia de metalinguagem, com sangue espirrando à vontade e de clima transcendental, com ótimos desenhos em forma de HQ na tela, “Morgue Story” vem para quebrar uma barreira. O cinema independente vive, porra! Aqui, vive como um morto vivo.

Três personagens centrais dão vida a essa loucura visual. Primeiramente conhecemos a quadrinista Ana Argento, famosa por seus HQs sobre zumbis. Temos também Tom, um vendedor de seguros cataléptico que é habitue do necrotério por suas quase-mortes. E o personagem que causa todo impacto trash, o Dr. Daniel Torres, legista do necrotério. As histórias desses três personagens se cruzam e se misturam num banho de sangue jorrando incessantemente, criando a história da forma mais bizarra e por vezes engraçada.



O legista é um psicótico inveterado, em busca da vingança de seu próprio arrependimento de ter deixado sua mãe no interior. Para catalisar essa energia ele induz suas mulheres à catalepsia com uma formula mágica, mistura de vários ingredientes com o veneno do baiacú, só para abusar dos corpos delas em estado morto-vivo. A bizarrice vai por aí, mas tudo no limiar de muita graça e tensão. Os diálogos envolventes, inteligentes e cheios de referências sobre escritores e filmes dão um charme a mais ao filme. Antes do serviço de morgue ser feito, tudo acontece no bar da esquina, onde o doutor capta suas vitimas. O necrotério é o verdadeiro local do abate. Apesar da morbidez do papo descrito tudo é suavizado por conta das contextualizações dos personagens onde o absurdo visto na tela torna-se uma loucura muito prazerosa, e em nenhum momento apela à nudez barata e desenecessária.


Confesso que Tarantino está longe de ser um dos meus diretores prediletos mas é impossível ver Morgue Story e não fazer a conexão com o diretor do pastiche, junto a algumas pitadas da morbidez de Zé do Caixão e do terrir das pornochanchada de Ivan Cardoso. Estamos num país onde o cinema é uma arte de poucos e poucos que mandam muito. Há detalhes que credenciam “Morgue Story” a estar num patamar diferente de qualquer novidade boba e pseudofilosófica. A novidade, o experimentalismo, a metalinguagem e a liberdade produtiva, criativa e executiva fazem toda diferença quando não temos um grande estúdio por trás da idéia. E o mais difícil é que uma adaptação teatral ao cinema fique boa, aqui o tiro é certeiro. “Morgue Story” é uma quebra de paradigmas, é escarrar na cara do sistema, é ter um método próprio, é fazer o que se quer sem dizer a quem. Paulo está de parabéns pela produção e direção desse longa que merece a consideração de todos.

Vitor Stefano
Sessões
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