sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar

Nome original: Non ma fille, tu n'iras pas danser
Diretor: Christophe Honoré
Ano: 2009
País: França
Elenco:Chiara Mastroianni, Marina Foïs, Marie-Christine Barrault, Fred Ulysse, entre outros
Sem prêmios
Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar (2009) on IMDb

Não há maior sofrimento do que ver sua mãe sofrer. Não minha mãe, você não vai sofrer. Desculpe, vai sim...

Esse filme de nome longo e improvável, conta a história de Lena e a sua família. Um drama que ao longo do filme se mostra que só irá se prolongar ainda mais. Logo no começo, quando seus filhos encontram e tentam salvar um pássaro que está com uma das asas machucadas, mostra o quão ela não consegue tomar conta das coisas mais simples da vida, quem dirá de si própria. O pássaro morre, assim como ela, que está morrendo aos poucos.

A vida e pensamentos de Lena são sempre extremos. Ela consegue ir do céu ao inferno em segundos, dominada pela sua incessante mente. Vive uma depressão profunda que nem tarja preta daria jeito. Na casa dos 30 anos ela vive um mundo de incertezas. Recém separada, não consegue se relacionar com os pais de seus dois filhos. Seus filhos estão no meio de um pai desapegado e de uma mãe doentemente super protetora. Lena não chegou a essa situação de graça. Viver com os palpites e intromissões de sua mãe, criada com um pai machista, uma irmã que vive com problemas conjugais e seu irmão que vai de intrometido a desligado. Ela não consegue viver sua vida, seus familiares vivem por ela, e ela sem 'direito' de escolher, sofre. Há o amor, mas a dor e a angustia é certeira.

Dói para nós ver um filho presenciar momentos que beiram a loucura de sua mãe. Lena carrega o mundo nas costas e tenta impedir o sofrimento dos seus familiares. Mas todo o sofrimento do mundo agora é seu. Seu filho, amante de leitura, conta um conto. Um lindo conto que dá nome ao filme, onde uma princesa só casará com o pretendente que dançar 12 horas ininterruptas. Com uma música estridente, visual esplendoroso, o momento é sublime e encaixa perfeitamente com a personagem de Chiara Mastroianni, que não cansa de dançar e dar continuidade a uma vida sem vida. Só vendo para entender o que é o conto.

Este não é um mundo para Lena. Ela não se encaixará em nenhum. Seria necessário um mundo só para ela.

Não há nada que compense o sofrimento. Lena, dance até viver, pois você já está morta.

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Ver e rever - A Partida

Um vídeo (flash) antes de dormir

Nome original: Okuribito/Departures
Diretor: Yojiro Takita
Ano: 2008
País: Japão
Elenco: : Masahiro Motoki, Tsutomu Yamazaki, Ryoko Hirosue, Kazuko Yoshyuki, Kimiko Yo, Takashi SasanoPremios:
Oscar 2009 – Melhor filme estrangeiro

Fui duas vezes ver este filme. Na cidade de São Paulo ele permanece em cartaz no HSBC Belas Artes. Se não viu ainda, corra. Vale muito a pena! A música, as imagens, os ensinamentos e o inevitável choro diante de tamanha sensibilidade. Humano, demasiadamente humano.

Já derramei comentários aqui mesmo sobre este filme, mas é bom revisitar. Afinal ver e rever é típico de quem gosta de cinema ou de qualquer coisa, não é?



(Clique aqui para ver a postagem anterior de "A Partida")


Leandro Antonio
Sessões

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Avatar

Nome Original: Avatar
Diretor: James Cameron
Ano: 2009
País: EUA e Reino Unido
Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Stephen Lang, entre outros.
Prêmios: Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama e Diretor. Oscar de Melhor Efeitos Especiais, Direção de Arte e Fotografia. A maior bilheteria de todos os tempos até então.
Avatar (2009) on IMDb

Fenômeno cinematográfico, produção mais cara da história, recordes de bilheteria e indubitavelmente um espanto para qualquer expectador bem ou mal informado sobre seu conteúdo.

Avatar é uma viagem visual, trazendo uma nova perspectiva cinematográfica, incorporando elementos de produção absurdamente avançados. Esta produção tornou-se a mais cara da história e entende-se a razão do estardalhaço provocado por este filme.
James Cameron, o mesmo diretor de Titanic, Alien, Exterminador do Futuro II, dentre outros, conhecido pelo trabalho em produções que se sustentam em alta tecnologia, efeitos inovadores, desta vez se superou. Dizem que ele tinha o roteiro pronto desde os anos 90, mas na época a tecnologia disponível não era suficiente para colocá-lo em prática.

Avalio a fita como um mega espetáculo futurista. A história é interessante, apresenta um planeta com fauna e flora absolutamente inconcebíveis, porém considero o roteiro pouco convincente. Tem aqueles recursos do cinema comercial de aventura que todo mundo está cansado de ver: muitas explosões, perseguições, brigas entre mocinho e vilão etc. Empolga pela beleza, grandiosa produção com tecnologia avançada e pela criação de um mundo até então inédito.

Num futuro não muito distante, os seres humanos tentam colonizar um planeta chamado Pandora. Neste lugar existe um meio ambiente esplendido, uma floresta hi-tec com bichos parecidos com dinossauros e plantas fluorescentes. Há também os seres correspondentes a nós humanos, que são os Na’vi. São belos seres azuis, enormes em comparação a nós, esguios, que têm uma relação de completa integração e respeito com sua natureza.

Os terráqueos são os vilões, pois são os invasores e querem explorar Pandora com o discurso: somos evoluídos e esses primitivos não podem deter o "progresso". A missão é infiltrar Avatares, seres semelhantes aos Na’vi, comandados pela mente humana, e passar o trator na mata de imensas árvores. O mocinho da história se rebela contra sua espécie e passa a lutar do lado dos Na’vi. Quem será o vencedor? Assistam em 3-D, pois as emoções das imagens ganham mais realismo.

Carlos Nascimento
Sessões

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Sessões entrevista Eduardo Escorel

Eduardo Escorel de Morais, conhecido como Eduardo Escorel, é professor, montador, diretor de cinema e há pouco tempo crítico de cinema com Questões Cinematográficas da Revista piauí que sairá do ar em junho de 2010, portanto aproveitem um pouco da acidez de um dos maiores nomes de nosso cinema.

Escorel começou sua carreira no meio muito cedo e com 20 anos foi assistente de direção em 'O Padre e a Moça' (1965) de Joaquim Pedro de Andrade. Para esse diretor montou 'Macunaíma' (1969), 'Os inconfidentes' (1971) e 'Guerra conjugal' (1974). Para o gênio Glauber Rocha, o gênio Escorel montou 'Terra em transe' (1966), 'O dragão da maldade contra o santo guerreiro' (1969), 'Der Leone Have Sept Cabeças' (1970) e 'Cabeças cortadas' (1970). Além de muitos outros.

Como diretor fez o documentário curta-metragem 'Visão de Juazeiro' de 1969 e seu primeiro longa foi 'Lição de Amor' (1976), além de 'Ato de Violência' (1980), 'O Cavalinho Azul' (1984) e um dos maiores feitos de documentários nacionais: a trilogia - '1930-Tempo de revolução' (1990), '32-A Guerra Civil' (1993) e '35-O Assalto ao Poder' (2002). 'Vocação do Poder' (2005) foi seu último trabalho como diretor.

Seu último trabalho foi como montador de 'Santiago' de 2007 de seu colega de piauí, João Moreira Salles. Outros trabalhos muito conhecidos de Escorel são 'Eles Não Usam Black-Tie' de 1981 e 'Cabra Marcado para Morrer' (1985).

Eduardo Escorel tem uma lista vasta de filmes em seu curriculum além de vários prêmios, como não poderia deixar de ser. Venceu no Festival de Brasília por melhor Montagem com 'Guerra Conjugal' (1975) e 'O Chamado de Deus' (2000) além de melhor Roteiro e Diretor em 1980 por 'Ato de Violência' . No festival de Gramado venceu em 1976 como melhor Diretor por 'Lição de Amor' e em 2002 como melhor Montagem por 'Dois Perdidos Numa Noite Suja'. Já por seu último trabalho venceu o como Melhor Montagem no Grande Prêmio Cinema Brasil de 2008 pelo ótimo Santiago.

Ainda em 2005 lançou o ótimo livro 'Adivinhadores de água', com crônicas e ensaios seus sobre o cinema.

Vejam a entrevista com o ácido crítico e nome célebre do cinema nacional, Eduardo Escorel.

Sessões: O que o surpreende no cinema dos último tempos?
Eduardo Escorel : 'O quarto da Vanda' (2000), de Pedro Costa, que redefine o conceito de realismo e faz da realização do filme uma experiência existencial.

S: Dá às vezes no saco ser crítico de cinema?
EE: É cedo para que eu possa responder essa pergunta. Só comecei a colaborar com a Revista piauí, em agosto de 2009. Sou, portanto neófito na função.

S: O fim da década de 1990 e o começo dos anos 2000 foi tido como a retomada do cinema nacional. Em poucas palavras o que significa esta retomada? Avançamos muito ou pouco se pensarmos nos incentivos?
EE: Houve, é inegável, uma mudança em relação ao início da década de 1990. Aumentou muito o volume de recursos investido no setor. Regredimos no que diz respeito à hipertrofia burocrática e ao sistema criado que beneficia, antes de tudo, os chamados produtores e empresas. Você vivencia o cinema brasileiro há muito tempo.

S: Qual foi (ou é) a melhor fase do nosso cinema?
EE: Entre 1962 e 1968, houve uma fase boa. São os anos de 'Vidas Secas', 'Deus e o Diabo' e 'Terra em transe', entre outros filmes. Uma parte do período da Embrafilme, de 1975 a 1986, também foi interessante. Basta lembrar de 'Cabra marcado para morrer' e 'Iracema', esse último produzido com recursos da televisão alemã. Já a partir de 1990, o cinema brasileiro perdeu interesse, o que não quer dizer que não tenham sido feitos, aqui e ali, alguns bons filmes.

S: Qual é o melhor filme nacional? Porque? E o melhor diretor?>
EE: Não saberia eleger um filme, nem um diretor. E se soubesse, não gostaria de fazê-lo. A pergunta me parece despropositada.

S: Vivemos uma fase onde há muita produção de documentários nacionais, como 'Simonal', 'Nós Que Aqui Estamos, Por Vós Esperamos' e 'Caro Francis'. Ao que se deve isso?
EE: Em certa medida, por que há muitos recursos sendo investidos na produção, sendo boa parte desperdiçados. Além disso, um documentário exige muito menos recursos do que um filme de ficção, o que o torna bem mais acessível.

S: Qual é a função social de um crítico, isto é, qual a sua utilidade?
EE: A função do crítico é dizer o que pensa. Sendo lido, pode servir de estímulo para refletir. Não acredito que se deva pensar em termos de “utilidade”.

O Sessões agrade a participação e queremos com essa pequena entrevista homenagear um dos nomes mais geniais do cinema nacional. Já trabalhou com muitos gênios da nossa cinematografia, agora é a vez de reconhecermos este, Eduardo Escorel.

Equipe do Sessões

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Fale com Ela

Nome Original: Hable con Ella
Diretor: Pedro Almodóvar
Ano: 2002
País: Espanha
Elenco: Javier Cámara, Dario Grandinetti, Leonor Watling, Rosario Flores, Geraldine Chaplin e participação especial de Caetano Veloso.
Prêmios: Oscar e Bafta de Melhor Roteiro Original. Globo de Ouro, David di Donatello, César, Grande Prêmio Brasil de Cinema e Bodil de Melhor Filme de Lingua Não Inglesa/Estrangeiro.
Fale com Ela (2002) on IMDb

"O amor é a coisa mais triste do mundo quando acaba, como diz uma canção de Jobim”.

O cineasta Pedro Almodóvar consegue em Fale com Ela juntar elementos culturais de forma tão harmônica que me faz pensar num cinema perfeito. A dança, o cinema e a música estão conectados de tal forma, que parecem trigêmeos univitelinos siameses, impossível separá-los. A direção, as atuações, o roteiro, a montagem, a fotografia e a trilha estão sublimente encaixados dando todo o drama necessário, além de contar uma história tão linda de um amor inenarrável.

Como uma ode ao amor platônico, esse filme encanta. Desde o início, com a apresentação de Café Muller de Pina Bausch, onde duas mulheres 'cegas', como sonambulas e um homem desesperado, triste, afastando cadeira a cadeira para que elas não se machuquem. A dança teatral já nos mostra o que esperamos para o resto do filme. Um filme de amor, solidão, loucura e punição. Um amar tão insano que chega a doer de tanto amor.

O cinema foi homenageado com um filme dentro do filme. Trata-se de 'O Amante Minguante' - curta em preto e branco, inspirado em Charles Bukowski. É a demonstração do louco amor do enfermeiro Benigno por Alice. Ele com carinho imenso pela moça em coma, a viola. Veja a demonstração do amor ingênuo, psicopata e solitário, mesmo sempre com a Alicia por perto. Um ser humano puro e apaixonado por uma mulher que jamais o desejou.


A maior punição ao enfermeiro não é prisão e sim: "Não posso viver em um mundo sem Alicia". Põe fim em sua vida e renasce Alicia.
Outro mundo inserido nessa película é a tauromaquia. Uma tradição secular e que tem grande força na Espanha. A música aliada à crueldade e beleza do balé do toureiro, nos trás a um momento surreal onde Lydia derrota o touro ao som de Elis Regina interpretando 'Por toda Minha Vida'. A música também se faz presente enquanto amores do passado são capazes de trazer lágrimas incontidas, como em Marco, numa espécie de lual ao som do nosso Caetano Veloso, interpretando a belíssima canção do mexicano Tomás Méndez: 'Cucurrucucú Paloma'.


"Este Caetano me há puesto los pelos de punta". É de arrepiar mesmo!

Não é possível amar completamente quando o passado nos comove ou nos rodeia. Marco e Lydia foram pilares um para o outro no momento de tristeza amorosa. Serviram de consolo mutuo e seguiram sua vida. Ela de modo trágico, não seguiu e ele, tentando em busca de um novo amor. Mesmo que por uma velha conhecida.

Filmes de Almodóvar são fáceis de se ver, porém difíceis de se falar sobre. Há tantos elementos inclusos, tanto uso de metalinguagem, que não temos como descrever. É o meu filme predileto, pois mostra que o amor e suas demonstrações estão no modo comunicação. No toque, no olhar ou na fala. Fale com Ela me deixa sem palavras, mas tentem falar sobre.

"Chora o que ama, mas também fala o que ama”. (Pedro Almodóvar)
Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O Homem Urso

Nome Original: Grizzly Man
Diretor: Werner Herzog
Ano: 2005
País: EUA
Elenco: Werner Herzog e Timothy Treadwell
Prêmios: Melhor Documentário em 13 festivais
O Homem Urso (2005) on IMDb



A história do ambientalista Timothy Treadwell não é comparavel à de nenhum de nós, humanos. Os 14 anos em que passava os verões no Alasca numa reserva de ursos, o transformou em algo diferente de um ser humano normal.

O genial Werner Herzog conseguiu um personagem um tanto absurdo e inusitado. Descrever o personagem Treadwell é uma tarefa impossível. Imaginem uma pessoa que acampa no meio do habitat de urso de três metros e com quase meia tonelada, famintos e conversa com eles, como se fossem pessoas no meio da rua. E pior, chega perto o bastante a ponto de tocar seus 'amigos'. A vida humana não fazia mais parte de sua essência, mas sim, do passado negro. Não era mais um homem, era um dos ursos pardos. Seus pais já não sabiam o que fazer com a insanidade de seu filho.

Timothy era um sujeito impar. Ele e sua inseparável câmera, filmavam depoimentos e momentos surreais. Aliás, o próprio Herzog diz em um de seus comentários que o homem urso tem talento e sorte de cineasta. Um dos momentos mais absurdos e belos (que é possível ver no trailer) é quando algumas raposas intrépidas aparecem após um relato. Elas se deslocam como num balé até chegar à frente da câmera. Parece que Treadwell dirigiu-as com perfeição e leveza. Coisas da natureza e de um ser ambientado nela. Aliás, as raposas pareciam suas amigas e companheiras.

A vida do ex-humano não poderia ter outro destino. Foi encontrado dentro de um urso, o mesmo destino da sua namorada, Amie. A escolha de Werner por Timothy foi certamente brilhante. Uma figura fascinante e sua história foi abordada por um dos gênios vivos do cinema. Depoimentos, arquivo pessoal e uma história inacreditável fazem do documentário, um dos melhores dos últimos tempos. Para quem gostou de 'Na Natureza Selvagem' certamente gostará de O Homem Urso. E a mensagem que fica ao final, é que não foi o amor pelos ursos que o levou a seguir esse rumo, foi a sua aversão à sociedade e aos seres humanos.

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Mil Anos de Orações

Nome original: A Thousand Years of Good Prayers
Diretor: Wayne Wang
Ano: 2007
País: Estados Unidos
Elenco: Henry O, Feihong Yu, Pasha D. Lychnikoff e Vida Ghahremani.
Prêmios: Melhor Filme e Melhor Ator (Henry O.) do Festival de San Sebástian (2007).
Mil Anos de Orações (2007) on IMDb

Dois mundos confrontados. Apesar de China e EUA estarem no contexto, não é a Guerra Fria, muito menos a atual 'corrida comercial' que divide o G2 do resto do mundo. É o passado e o presente. Após 12 anos de afastamento, o chinês Sr. Chi decide visitar sua filha, Yilan, nos EUA. Logo na chegada o confronto da cultura oriental com a ocidental. Vê-se que nem mesmo a abertura comercial da China consegue abranger tantas mudanças culturais. Não há Whopper que faça o chinês abandonar o seu arroz. Não nem abandonar a família.

O longo afastamento é claro e evidente. Não há mais entrosamento entre os dois, e a presença do pai vai aos poucos incomodando a filha. Parece haver um abismo entre a educação tida na velha China com as atitudes alienadas no Novo Mundo. A viagem foi motivada pela recente separação de Yilan e o pai preocupado, por um histórico sombrio, foi acompanhar a crise de sua cria. E para que as palavras se nem falam mais a mesma lingua (e não estou falando do mandarim e do inglês), o constrangimento é claro em silêncios eternos e olhares perdidos.

A grande mudança se dá quando o Sr. Chi, aos poucos, começa a sair e com seu pobre inglês vai tentando se comunicando com os vizinhos, contando suas histórias mirabolantes e criativas, até conhecer uma senhora de origem iraniana. Ela com sua sensibilidade cativa e consegue fazer com o que o chinês tente (e consiga) se aproximar da sua nova filha. É um recomeço, difícil, doloros mas necessário para que eles conheçam de verdade quem são.

Brigas seguidas de silêncios metricamente cronometrados, prova que ainda existe amor. Não adianta falar, um olhar diz tudo. Os laços não são apenas de sangue. Pai e filha frente a frente, e nenhuma palavra deve ser dita. O filme mostra que o amor não é algo que morre, é eterno de verdade. A atuação de Henry O. como pai é impecável e todo o roteiro é costurado cirurgicamente para que todos os momentos transbordem emoções. Emocionante para quem tem pai, é pai ou até para quem não teve. A busca da felicidade está nos menores detalhes. E não perca a conta, pois ainda é necessário 2000 anos de orações...

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

DiretorAs

Quando pensei nesse tema foi após perceber que um dos maiores candidatos a vencer o Oscar de 2010 é 'Guerra ao Terror' (The Hurt Locker), dirigido pela diretora Kathryn Bigelow que nenhuma mulher venceu o Oscar de melhor Diretor. Nunca. E ainda pior, só três foram indicadas ao prêmio até hoje. As que bateram na trave foram: a italiana Lina Wertmüller com 'Pasqualino Sete Belezas' de 1975, a neozelandesa Jane Campion por 'O Piano' de 1993 e a filha de Francis, Sofia Coppola com 'Encontros e Desencontros' de 2003. Verdadeiras Joanas D’arc do mundo machista do Cinema.

A repercursão do filme de Bigelow está exatamente por se tratar de um filme de guerra (reconhecidamente um tema masculino) mostrado pela perspectiva do ser humano, das famílias e os sentimentos mais puros do ser humano em um clima de terror e pavor. A visão não é feminista, porém não é a machista de explosões de minas terrestres, tiros de metralhadora incessantes, helicópteros sobrevoando e amedrontando os civis do Iraque. Ela consegue entrar nos personagens sem mostrar uma amputação. O que foi amputado pela foi o cérebro. Quem sabe a Academia não premie a primeira mulher para o prêmio de Melhor Diretor e amenize essa lacuna que ainda persiste em resistir. Ela dirigiu os filmes: 'Caçadores de Emoções', citado por Gui Pádua em nossa entrevista com o paraquedista e 'K-19: The Widowmaker', um filme de ação com Harrison Ford. Amadureceu.


No Brasil tivemos a Carla Camurati como grande iniciadora da nova Retomada do Cinema Nacional com o lançamento de Carlota Joaquina em 1995, que fez um sucesso estrondoso com participação em mais de 40 festivais. Infelizmente a continuação de sua carreira não foi maravilhosa na direção de filmes como Copacabana, Madame Butterfly e Irma Vap. Tomara volte logo aos bons tempos.

A nossa maior diretora feminina da atualidade é Laís Bodanzky. Apareceu nacionalmente em 2001 com o drama social de ‘Bicho de Sete Cabeças’, dirigindo Rodrigo Santoro como protagonista. Venceu os prêmios de melhor diretora dos Festivais de Brasília, Recife e do Grande Prêmio BR de Cinema. Continuou a carreira sólida, porém sem o mesmo sucesso, com o longa ‘Chega de Saudade’.‘As Melhores Coisas do Mundo’ tem estréia prevista para 2010, com grande elenco que conta com Denise Fraga e Caio Blat. Também foi a realizadora do documentário ‘Cine Mambembe – O Cinema Descobre o Brasil’ e do curta ‘Cartão Vermelho’. Nas 'horas vagas' ela também ensina a fazer filmes no site Tela Brasil. Que continue nessa estrada de ladrilhos amarelos, como em 'O Mágico de Oz'.


Internacionalmente há algumas diretoras fazendo muito sucesso, além de Bigelow. A peruana Claudia Llosa foi recentemente premiada no Festival de Berlim com o Urso de Ouro e em outros 10 prêmios pelo mundo apenas com o seu segundo filme - ‘A Teta Assustada', um filme pesado que aborda temas ligado à tradições dos indios e sobre a doença enclausurada nas mentes das pessoas. Seu primeiro longa é ‘Madeinusa’ que não passou por aqui. Promissora.

Francis Ford Coppola além de produzir grandes clássicos como Apocalipse Now e a trilogia de O Poderoso Chefão, tem em Sofia Coppola seu maior prêmio. A norte-americana estreou com ‘As Virgens Suicidas’ em 1998, depois o sucesso que lhe rendeu a indicação ao Oscar por ‘Encontros e Desencontros’, dirigindo Bill Murray e Scarlett Johansson em uma história lindíssima e sua última produção foi o fraco ‘Maria Antonieta’ estrelado por Kirsten Dunst. Lançou 'Um Lugar Qualquer' e levou o Leão de Ouro por isso. Tem grande talento para filmes dramáticos e com assuntos polêmicos. Certamente seu sucesso será ainda maior, porém dificilmente chegará no prestigio de seu pai.


As próximas diretoras citadas são minhas prediletas e isso não se deve ao fato de ambas terem tido filmes produzidos pela El Deseo, dos irmãos Almodóvar. A primeira é Isabel Coixet que antes de começar a carreica como diretora, era publicitária. A espanhola teve no maravilhoso e denso ‘A Vida Secreta das Palavras’ com Tim Robbins foi o ápice da diretora aqui pelo Brasil. Depois dirigiu um curta para o projeto ‘Paris, Eu Te Amo’ e o seu mais recente sucesso foi ‘Fatal’ com Ben Kingsley e Penélope Cruz que vivem em um romance tórrido entre professor e aluna, além de abordar a crise de meia idade, problemas de saúde e o amor. Lindos filmes no curriculo e a habilidade de tocar em assuntos com a sutileza de uma pluma. Cresce a passos largos.

A outra é a nossa hermana Lucrécia Martel, que só não faz chover em 'O Pântano' de 2001. As relações humanas são levadas ao limíte em situações delicadas e controversas. Com ele venceu o Prêmio Alfred Bauer, também no Festival de Berlim. Segue a mesma linha em seu mais polêmico trabalho: 'A Menina Santa'. À la Almodóvar em 'Maus Hábitos', ela faz da trama um drama sexual entre celibatários e crianças. Premiado na Mostra SP com Menção Honrosa. Seu último trabalho foi 'A Mulher Sem Cabeça' que passou por aqui sem fazer o mesmo barulho que os anteriores. Continua sua jornada chocando e tocando nos assuntos errados do jeito certo.

Só citei algumas que entendo serem as melhores em atividade. Certamente temos muitas outras representantes diretores do sexo feminino que mostram que mulher no cinema não é sinonimo apenas de atrizes bonitas. Há muito mais dentro de mentes femininas do que masculinas, sem sombra de dúvidas. E não é um discurso feminista, mas a intenção é amenizar o abismo existente entre prestígio com os diretores homens e mulheres. Que Bigelow os grandes diretores masculinos como seu ex-marido Cameron, Tarantino, Eastwood, Irmãos Coen, Soderberg, ou tantos outros já mega premiados.

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Caro Francis

Nome original: Caro Francis
Diretor: Nelson Hoineff
Ano: 2009
País: Brasil
Elenco: Paulo Francis, Diogo Mainardi, Nelson Motta, Boris Casoy, entre outros.
Prêmios: Sem Prêmios
Caro Francis (2010) on IMDb

O Cinema nacional vive uma febre de documentários, com festivais como o 'É Tudo Verdade' e premiações em vários níveis (até o VMB da MTV em 2009 premiou o melhor documentário musical). Muitos com apelo popular, filmando figuras dignas de serem lembradas na posteridade em uma obra da 7ª arte. Paulo Francis é o mais novo alvo do documentário de Nelson Hoineff.

O controverso jornalista foi sempre uma figura polêmica, fora dos padrões. Começou sua carreira como crítico teatral. Criou muitas confusões e uma das principais com Tonia Carrero e com o gênio Paulo Autran. Logo chamou a atenção e foi ganhando espaço, de crítico a colunista de grandes publicações como a Folha de São Paulo. Teve várias transições durante sua vida, foi de trotskista a conservador, de esquerda a direitista, PT para PSDB. Só não mudou uma coisa - ser politicamente incorreto.

Hoineff explica que fez o documentário como uma dívida de gratidão com seu amigo Francis, que seria como um bate-papo com o jornalista para os jovens que tiveram pouco contato com o polêmico boca-aberta. Se for pela gratidão, o documentário atinge seu papel, e tira algumas risadas da platéia. Mas não é um documentário memorável. Vários depoimentos desconexos e sem ordem de gente ligada a Paulo com vínculo familiar ou personalidades, como: Boris Casoy, Ziraldo, FHC, José Serra, entre outros.



Farei agora uma reclamação de cunho pessoal. Vários colegas de Francis foram entrevistados, entre eles Nelson Mota. Todos sabem que ele é muito competente no que faz (seja lá o que), mas ele está se tornando figurinha carimbada em documentários dessa nova leva, como nos docs sobre Arnaldo Batista, Simonal e Chacrinha. Obviamente nesse atual filme sobre Paulo Francis a figura de Nelson Mota é justificável, pois foram colegas de bancada no Manhattan Conexion, mas não me surpreenderá em um futuro e improvável documentário sobre Peri, ele daria seu pitaco carioquês-malandresco (sem preconceito, apenas é intragável o papel que ele faz diante das câmeras) de ter fumado um baseado com o Peri e Ceci nus na orla de Copacabana. Intragável de verdade. Quando virmos um documentário de Eduardo Coutinho ou João Moreira Salles com figuras pitorescas como tal, aí perco a esperança na produção de documentários nacionais. Ainda há esperança.

Certamente Nelson Hoineff faz um documentário muito melhor do que o péssimo ‘Alô Alô Teresinha’ porém peca em alguns pontos, como alongar-se em assuntos sem nexo, como a morte da ‘Tia Alzira’, gata de Francis e não se aprofundar na mente insana que tinha o jornalista ou ainda não adentrar mais no processo da Petrobrás que, segundo os relatos, matou Francis.

O documentário serve para nos remeter àquela figura complexa e polêmica que deixou uma lacuna de crítica, humor, sarcasmo totalmente azedo no nosso jornalismo. Esse era Paulo Francis. Talvez ele merecesse algo mais elaborado do que apenas esse documentário. Mas pela figura e pela violência de Wagner na trilha sonora, vale o ingresso.

Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Meeting Andrei Tarkovsky

Nome original: Meeting Andrei Tarkovsky
Diretor: Dmitry Trakovsky
Ano: 2008
País: EUA, Suécia, Russia e Itália
Elenco: Donatella Baglivo, Fabrizio Borin, Manuele Cecconello e Andrei Andreevich Tarkovsky.
Prêmios: Menção Especial do Júri – Documentário na 32ª Mostra Internacional de Cinema (2008).
Meeting Andrei Tarkovsky (2008) on IMDb

Não é apenas um documentário, é uma ode, merecida, ao cineasta soviético. O estudante de cinema Dmitry Trakovsky, nascido em 1985, compatriota e fã inveterado de Tarkovsky é radicado em Los Angeles e sua jornada na busca pelo legado de seu diretor favorito passou pelos Estados Unidos, Itália, Suécia e obviamente pela Russia. São 15 entrevistas com atores, diretores, montadores e com amigos, na busca de desvendar algumas curiosidades obscuras da vida de Tarkovsky.

Como uma homenagem de 20 anos da morte (em 2008), Trakovsky tenta adentrar nas profundesas das obras de arte que Tarkovsky construiu em seus 9 longa metragens. Sempre envolto em muita espiritualidade os filmes do velho russo são introspectivos e sempre a questão humana está em primeiro plano. Uma das maiores buscas do documentário é tentar aproximar-se do significado de uma das crenças mais enigmáticas de Tarkovsky: a de que a morte não existe. Complexo, como o próprio Tarkovsky.

Vejam o trailer deste documentário de Dmitry Tarkovsky sobre o maravilhoso diretor Andrei Tarkovsky.



Veja o que Ingmar Bergman disse sobre o russo: "Tarkovsky, para mim, é o maior, quem inventou uma nova linguagem, verdadeiro à natureza do filme. Filma a vida como uma reflexão, a vida como um sonho". Se Bergman disse, quem somos nós para constestar. Vida longa ao novato Trakovsky e que Tarkovsky viva dentro dele por muito tempo. Quem sabe nasce um grande cineasta. Infelizmente o filme só foi apresentado por aqui na Mostra SP de 2008 e não voltou para circuito comercial ou de home video. Para saber mais sobre o documentário, visite o site - http://www.trakovskyfilm.com/

E para adquirir o filme, só na Amazon por enquanto.
 
Equipe do Sessões

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dossiê Almodóvar

Pedro Almodóvar Caballero não é apenas o maior cineasta espanhol da atualidade. Ele é sinônimo de cinema. Almodóvar virou adjetivo e ultrapassou as barreiras da tela grande.

Assim como Don Quixote, Almodóvar vem de La Mancha e como seu conterrâneo, um pobre fidalgo, vem de uma família humilde e batalhadora. Com o intuito de torná-lo padre, seus pais o enviaram a um colégio católico porém ele foi educado no cinema. Hitchcock, Buñuel, Bergmann, Fellini foram seus verdadeiros professores.

Inspirado pelos 'professores' largou tudo e foi para Madri em plena ditadura franquista, contragosto de sua família, já com o intuito de tornar-se diretor de cinema. Porém a vida não é tão fácil assim. Franco havia fechado a Escola Nacional de Cinema, mas nem isso o fez abandonar seu sonho. Tornou-se funcionário da Telefonica e por 12 longos anos manteve-se trabalhando para financiar sua paixão. E chegou lá. Com seu primeiro salário comprou sua primeira câmera Super-8. Ainda trabalhando na telefonia, fez seus primeiros curtas, sempre com temática sexual acentuada, temas religiosos e chocou. Conseguiu exibições em circuito alternativo e destacou-se.

A partir de seu primeiro longa, 'Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão' faz de sua filmografia uma leitura da vida muito particular e externou como poucos e teve em 'Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos' seu primeiro grande sucesso. Dirigiu muitos dos grandes atores espanhois da atualidade como Antonio Bandeiras, Javier Bardem, Blanca Portillo, Rossy de Palma, além de suas musas Victória Abril, Carmem Maura e agora Penélope Cruz e sabe como poucos tirar o melhor dos atores e criando personagens memoráveis.

Com a criação de sua produtora, El Deseo, encontrou em seu irmão, Augustín, o seu Sancho Pança. Seu melhor amigo, fiel companheiro, maior compreendedor da complexidade das produções almodovarianas e, nas horas vagas, produtor de seus filmes. Eles tem uma relação de completa cumplicidade. Com a produtora eles tem toda a liberdade para fazer cada obra de arte sem intervenção dos estúdios.

Amadureceu com seus filmes. A cada nova película sente-se mais o clima almodovariano só de ver as imagens. É muito característico o uso de cores forte e quentes, objetos em cena como se fossem um ator, mostrando a Espanha em seus mínimos detalhes. Além de ter como característica principal, decifrar as mulheres. A feminilidade está presente em todos seus filmes, até em 'Má Educação' que tem um núcleo basicamente masculino ou em 'Abraços Partidos' que tem uma visão do ponto de vista masculino. Um olhar, a sutileza, um close. Almodóvar consegue penetrar nas mulheres sem tocá-las. Ele faz delas um poema de amor e de paixão. Atingiu seu ápice com os filmes 'Tudo Sobre sua Mãe' e 'Fale com Ela', mas para tentar entender esse gênio, é necessário conhecer toda sua tragetória para admirá-lo cada vez mais.


Filmografia:

1980 - Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão
1982 - Labirinto das Paixões
1983 - Maus Hábitos
1984 - Que Fiz Para Merecer Isto?
1986 - Matador
1987 - A Lei do Desejo
1988 - Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos
1990 - Ata-me!
1991 - De Salto Alto
1993 - Kika
1995 - A Flor do meu Segredo
1997 - Carne Trêmula
1999 - Tudo Sobre Minha Mãe
2002 - Fale com Ela
2004 - Má Educação
2006 - Volver
2009 - Abraços Partidos

Mesmo com o assédio, não se vendeu para os grandes estúdios de Hollywood, mantendo-se fiel à sua produtora El Deseo, onde tem toda a liberdade para fazer cada obra de arte. Homossexual assumido, sofreu e talvez ainda sofra com o preconceito que o mundo persiste em ter. Chegou a escrever livros totalmente sexuais e hilários, à la Bukowski (que tem um conto seu incluso em 'Fale com Ela'), como Patty Diphusa e Fogo nas Entranhas que não se tornaram e nem se tornarão filmes, ao menos não seus, visto que ao longo de sua carreira deixa cada vez mais sutil seus toques perversos e sexuais. Tomara alguem compre os direitos de filmá-los pois são hilários.

Há uma frase que descreve o modo como Almodóvar deixou de ser um cineasta marginal e tornou-se um dos maiores expoentes do cinema: "O importante é sobreviver e manter a paixão". Após toda essa biografia, ao menos tentem entender e apreciar a obra desse gênio.


Vitor Stefano
Sessões

sábado, 2 de janeiro de 2010

Blade Runner - O Caçador de Andróides

Nome original: Blade Runner
Diretor: Ridley Scott
Ano: 1982
País: Estados Unidos
Elenco: Harison Ford, Rutger Hauer, Brion James, Zhora e Daryl Hannah.
Prêmios: BAFTA – Melhor Figurino, Direção de Arte e Fotografia
Blade Runner - O Caçador de Andróides (1982) on IMDb

UM TRANSBORDAMENTO DE BELEZAS E DE EMOÇÕES



Uma coruja. Um unicórnio. Uma pomba branca. Esses três animais aparecem em Blade Runner. E são a sua essência, pois representam*, respectivamente: o conhecimento racional e a morte; a pureza e um jogo divino chamado existência; o amor e o que o homem tem de eterno ── sua alma.

Los Angeles, 2019. O clima é sombrio; a chuva, incessante. Lixo, fogo e fumaça estão por todos os lados. A destruição e o abandono são evidentes e demonstram o mal que nós, seres humanos, fizemos ao nosso planeta. Pessimismo? Talvez mais do que isso: constatação.

Estamos no futuro. Contudo, paradoxalmente, voltamos à escravidão. O homem cria andróides para um serviço sujo e perigoso: explorar e colonizar outros planetas. Algumas dessas máquinas têm características semelhantes e até superiores às da maioria dos seres humanos. No entanto, falta-lhes a principal delas: a capacidade emocional. Mas isso pode ser resolvido, porque as emoções podem ser aprendidas. Há, porém, outra dificuldade ── esta, sim, terrível: o curtíssimo tempo de vida desses andróides. Tempo, tempo, tempo, tempo...

Por isso, eles decidem invadir a Terra. Estão em busca desse tempo que lhes foi negado. Querem mais vida. Exigem mais vida. Os andróides são seis. Dois morrem. Sobram quatro: Roy (Rutger Hauer), Leon (Brion James) e as deliciosas Zhora (Joanna Cassidy) e Pris (Daryl Hannah). Além deles, existe Rachael (Sean Young, igualmente deliciosa), que não sabe exatamente o que é. Andróide? Ser humano? Ambos?

Deckard (Harrison Ford) é o policial encarregado de “retirá-los” do caminho. Motivo: os andróides não podem habitar o nosso planeta. Até aqui, tudo bem ── afinal de contas, ele é pago pra isso. Entretanto, Deckard apaixona-se por Rachael. Eis o problema. Agora, ele tem diante de si a coruja, o unicórnio e a pomba branca. Não os animais, mas o que estes representam, seus símbolos. O que fazer, Deckard? As questões pedem respostas. E o tempo é reduzido.

Blade Runner é considerado por muitos especialistas o melhor filme de ficção científica já realizado. Isso não é pouco, contudo ele é certamente ainda mais do que isso. É, sem dúvida, um dos cinco melhores filmes de todos os tempos, independentemente de gênero. A maravilhosa trilha sonora de Vangelis, as imagens futuristas (hoje, meio retrôs, porém ainda assim extremamente belas), os figurinos ousados, o roteiro inteligente e as atuações impecáveis fizeram dele um clássico: exemplar: perfeito. Rigoroso e harmonioso.


Foi dirigido brilhantemente pelo inglês Ridley Scott em 1982. Embora o título remeta à idéia de ação, é um filme reflexivo e enigmático. Tudo nele parece ser contido, reprimido. Mas no fundo tudo nele é exuberante, há um transbordamento de belezas e de emoções.

Blade Runner é uma das mais delicadas, sensuais e trágicas histórias de amor do cinema.

Paulo Jacobina
Sessões

* Excertos do Dicionário de Símbolos ── de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant ── 20ª edição, Editora José Olympio.
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