segunda-feira, 29 de julho de 2013

Cléo das 5 às 7


Nome Original: Cléo de 5 à 7
Diretora: Agnès Varda
 Ano: 1962
País: França e Itália
Elenco: Corinne Marchand, Antoine Bourseiller, Dominique Davray, Dorothée Blanck e Michel Legrand.
Prêmio: Melhor filme pelo Sindicato Francês dos Críticos de Cinema.

As cartas do tarô podem dizer tudo acerca do seu futuro. A felicidade eterna ou uma doença terminal. Pra quem acredita pode ser força de profundo entusiasmo ou um empurrão para a depressão profunda. Cléo é uma cantora e por conta de um diagnóstico preocupante, mas sob controle, desespera-se. As duas horas descritas no nome do filme é o período pós a leitura das cartas. E como não poderia deixar de ser, a artista, dramática por natureza, deleitou-se de seus minutos de auto piedade com rebeldia. Entre vales e montanhas sentimentais, a bela Cléo revê toda a sua vida, os amores e as amizades, as roupas e a música. Tudo em um pequeno turbilhão que dura das 5 às 7.


Apenas com o nome talvez você não saiba, mas Agnès Varda é uma mulher e há toda uma aura no filme que nos diz ser um filme feminino, com um olhar feminino. Não feminista, afetado ou partidário, mas há algo que nos diz que quem está contando a história é uma mulher. Um olhar para detalhes, como a obsessão pelos espelhos. É incrível essa aura. Uma personagem tão complicada num universo tão pequeno, mesquinho. A salvação para uma mulher descontrolada é a esperança da paixão. Uma paixão que pode vir num piscar de olhos.


Um filme belo como são os filmes da Nouvelle Vague. Ao início, na taróloga, vemos uma sobreposição de frames em cores nas cartas e o branco e preto na história, criando um simbolismo claro de que a vida do faz de conta é mais “alegre” que a vida normal. Os movimentos e a paixão da câmera por Corinne Marchand nos fazem conhecer as ruas mais comuns de Paris, seus becos. “Cléo das 5 às 7” é um big brother de muitas pessoas dentro de uma só, Cléo.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Tudo o Que Desejamos



Nome Original: Toutes nos Envies
Diretora: Philippe Lioret
Ano: 2011
País: França.
Elenco: Vincent Lindon e Marie Gillain.
Sem Prêmios.
Tudo o que desejamos (2011) on IMDb


Uma mãe dedicada, uma profissional competente, uma esposa carinhosa, uma mulher forte. Ela vai morrer. Vai e não há salvação. O que fazer quando se sabe que não salvação? Como aproveitar os últimos dias, quem sabe meses, de vida? O que se passa na cabeça de alguém que recebe essa notícia? Não tenho a mínima ideia, mas “Tudo o que Desejamos” é um relato simples e belo dos últimos dias de uma mulher fantástica que buscou deixar na terra uma lição de boas maneiras e de caráter. Um assunto que normalmente cairia numa narrativa piegas ou melodramático é uma pequena ode à simplicidade das questões humanas e sociais. 


A vida de Claire é absolutamente incrível. Casada com um chef, 2 filhos lindos e muito bem reconhecida no trabalho como juíza. Tudo começa a mudar no momento que reconhece a mãe de uma amiga da creche de sua filha num julgamento. Entendendo a dificuldade da moça, julga de forma a tentar ajuda-la contra a financeira que a processa. Cria aí uma grande amizade, mas junto, um grande desafio. Por ter sido considerada parcial, outro juiz é convocado para o caso. Aí começa outra amizade. Junto a essa empreitada surge um câncer no cérebro num local inoperável. Opta por não fazer tratamento. Opta por morrer sã, sem a agonia que os tratamentos causam. Opta por não contar a ninguém e definha com o passar dos meses. A (resto da) vida de Claire passa a ser guiada pela obsessão em ajudar Céline com o guardião Stéphane. A paz de espírito estará nas mãos da justiça, que como aqui, é lenta (não tanto). A morte sempre foi nossa única certeza. Escolher como ocorrerá é uma dádiva. Claire deixou mais do que uma causa vencida, deixou todos em sua volta aptos a continuar vivendo como se nada tivesse acontecido.


É a prova definitiva que sou ainda mais fã de Phillippe Lioret. Todos os seus filmes que vi (“Não se Preocupe, Estou Bem!” e “Bem Vindos”) são aulas de como se contar uma história da forma simples, mas absolutamente envolvente. Lioret consegue seguir um trilho de grandes diretores franceses que primam pela destreza de capturar o expectador pela imagem, pelos diálogos e envolvendo definitivamente pela trilha sonora. “Tudo o que Desejamos” deixa o diretor entre os meus prediletos do cinema contemporâneo. Pelo tema duro, há momentos de extrema poesia, como o mergulho no rio gelado. A ligação de amizade entre Claire e Stéphane é uma linda prova que a amizade é mais palavras de carinho e sim uma cumplicidade que não precisa de palavras para existir. A troca de olhares é mais complexa que um lindo e longo texto explicando o que é o amor. 

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 16 de julho de 2013

Depois de Lúcia



Nome Original: Después de Lucía
Diretora: Michel Franco
Ano: 2012
País: México e França.
Elenco: Tessa Ia, Gonzálo Veja Jr, Tamara Yazbek, Hernán Mendoza e Monica del Carmen.
Prêmios: Un Certain Regard do Festival de Cannes e Menção Especial no Festival Internacional de San Sebastián.
Depois de Lúcia (2012) on IMDb




Cru. Ainda estou paralisado. Ainda não digeri o soco no estômago. Ou será que foi na cara e eu ainda estou desacordado? Estou assim e nem conheci a Lúcia que dá nome ao filme. Ninguém conhecerá. Mas de nada adiantará tentar busca-la em algum lugar. O que veio depois dela é o que realmente não nos deixa ficar cômodos. A tal Lúcia já faleceu e deixou o marido Roberto e a filha adolescente Alejandra. Sua morte num acidente de carro deixou os dois mais próximos, mas ao mesmo tempo distantes. Numa melancolia que cada um precisa viver para absorver tal impacto. Mudança de ares: emprego e escola.  Um verdadeiro recomeço. E todo recomeço é doloroso.


Alejandra é uma menina quieta, infantil, tímida e por certas vezes inconsequente.  Roberto tornou-se um homem intransigente e descontrolado. Como toda chegada a um novo colégio, Alejandra demorou para se enturmar, mas rapidamente perdeu tudo. Após transar com um colega que a amiga gostava e ter o ato filmado e divulgado para todos verem fez com que a menina fosse alvo de bulling por todos da escola. Impiedosos e exagerados, as agressões tornaram-se mais frequentes e mais pesados. Alejandra nada fazia. Não esboçava reação. Porque? Não saberemos nunca. Roberto não sabe o que fazer. Roberto é um homem sem rumo.  Que é capaz de largar tudo. Capaz de abandonar um carro no meio da avenida. Capaz de tudo.


Um filme simples, sincero e doloroso. “Depois de Lucia” é pesado. A frieza com que Michel Franco finaliza a história é digno de perplexidade. Causa um tipo de sensação que nos dias de hoje apenas os filmes do Haneke me causam. Foi uma grande surpresa. O conjunto da obra é digno de admiração. Vale a pena preparar a sua psique e ver do que a ausência de Lúcia é capaz de fazer com alguém. Não adianta. Não se prepare, nada vai tirar de você a surpresa.

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 9 de julho de 2013

Branca de Neve



Nome Original: Blancanieves
Diretora: Pablo Berger
Ano: 2012
País: Espanha, França e Bélgica.
Elenco: Maribel Verdú, Daniel Giménez Cacho, Ángela Molina, Macarena García e Sofía Oria.
Prêmios: Goya de Melhor Filme, Melhor Atriz (Verdú), Fotografia, Figurino, Maquiagem, Atriz Revelação (Macarena), Trilha Original, Canção Original, Direção de Arte e Roteiro Original, Melhor Atriz (Macarena) e Premio Especial do Juri no Festival Internacional de San Sebastián.

Blancanieves (2012) on IMDb 




Não há o que dizer. Está entre os melhores filmes do ano. Irreparável. Nem começarei a adjetivar, pois me perderei no deslumbramento causado pelas maravilha que vi. Como disse Pablo Berger na apresentação do filme na pré-estreia: “Saiam deste mundo por uns momentos e viagem”. E você não precisa se preparar, pois cada momento, as músicas, as imagens e a beleza te prendem sem te deixar perceber que estamos vendo um filme conhecido. Conhecido? Quem conta um conto aumenta um ponto. Aqui, essa máxima não cabe, pois imagine um conto de fadas. Colorido, né? Não. Cheio de cantoria e frases de efeito? Não. Se for Branca de Neve certamente teremos os 7 anões, certo? Não, nada disso. Aqui são 6 e eles são toureiros. É um conto. Um nome. Uma releitura. Esqueça aquilo que você ouviu e contou milhares de vezes e abra sua mente. Uma obra de arte esse Blancanieves de Pablo Berger.

 

Anos 20. Espanha. Antonio Villalta é a grande estrela das touradas, uma grande celebridade. Por acaso do destino, no ato final, no sacrifício um golpe duro o deixou paraplégico e sob cuidado de uma enfermeira obscura. Sua mulher, grávida, não suportou ver seu amor ser golpeado pelo touro e padeceu. A criança nasceu, mas Antonio nem quis saber da pequena Carmen que ficou sob olhar atento, cuidadoso e carinhoso da avó. Carmencita cresceu idolatrando o pai que não conheceu. Quando a avó falece ela é levada para a casa do pai que está lá apenas de corpo. Encarna, a tal enfermeira, a renega e despreza. Carmem cresce trabalhando duro e sem a chance de sair daquele mundo. Entre uma escapada e outra encontra o seu pai herói preso a uma cadeira de rodas, renegado a olhar para onde a cadeira indica. Encarna é a bruxa da história, sem verruga no nariz ou dedos longos, está interessada na fortuna que o toureiro acumulou. Está interessado em não ter herdeiras pela frente. É capaz de tudo. Bem atual.


Já estou me estendo demais. Não preciso me aprofundar tanto. É preciso ver. 

Certamente há elementos que me prendem e fizeram com que esse esteja entre os meus filmes prediletos. Durante a projeção, durante as touradas, lembrei insistentemente de meu filme predileto, “Fale com Ela”. Não apenas pela forma como a tauromaquia é retratada, mas pelo envolvimento, pela paixão que tem naquelas imagens. Mesmo não tendo as cores de Almodóvar, há algo ali que me claramente me remeteu a ele. Não sei porque, mas me remeteu a outro filme espanhol pelo lado sombrio: “O Labirinto do Fauno”. Imagine uma mistura dessas. 


Pago com a língua, pois nunca fui dos grandes fãs de filme mudo que são, normalmente para mim, soníferos. Falar da fotografia em filmes B&P é chover no molhado, mas não dá para negar a sua beleza. Acho que desde o primeiro capítulo de “Anticristo” não era usado com tanta habilidade. Claro que comparações com “O Artista” serão comuns pelo frisson que o filme francês causou levando a estatueta do Oscar. Poderia ter sido “Branca de Neve”. E os atores... Que escolha, que maravilha. Não dá para falar da exuberância que ficou Macarena García (Carmem/Branca de Neve) em branco e preto. Maribel Verdú como Encarna também está fantástica. Afinal, todo o elenco está genial.
Não percam a chance. É encantador ver um projeto que se desenvolveu por 8 anos. O resultado compensou tanto trabalho. É um mergulho sensorial na beleza que só o cinema pode nos gerar.

Vitor Stefano
Sessões
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