quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Casamento Silencioso

Nome Original: Nunta mută
Diretores: Horatiu Malaele
Ano: 2008
País: Romênia, Luxemburgo e França.
Elenco: Meda Andreea Victor, Alexandru Potocean, Valentin Teodosiu, Alexandru Bindea, Ioana Anastasia Anton.
Prêmios: Melhor Fotografia e Som da União Romena de Diretores.
Casamento Silencioso (2008) on IMDb


Não, você nunca viu nada parecido. “Casamento Silencioso” é um filme particular. Não poderia enquadrá-lo em definições usuais que vemos nas prateleiras de locadoras. Comédia ficaria vago, drama ficaria distante. Se houvesse que criar um gênero para este seria Irônico. O grande forte do filme de Horatiu Malaele é como tratar a vida numa Romênia encrustada no comunismo despótico dos anos 50, sem perder a força da crítica através da ironia. O tema é o mais usual e corriqueiro do atual cinema romeno, que leva para a tela as memórias dos tempos de opressão e sofrimento de um longo período de estagnação (assim como "Como eu Festejei o Fim do Mundo"). O pano de fundo está montado para vermos uma história como nenhuma outra.

Um programa sensacionalista de tevê está em busca de fantasmas, como os Ghost Hunters, chega a uma cidadela no interior da Romênia atual. Vemos esqueletos de prédios, fábricas, estradas destruídas, muitos usuários de drogas escondidos nos buracos que acostumamos a ver na Cracolândia. Diante desse panorama de destruição voltamos ao ano de 53. A posição política ou territorial nem importa, mas o mesmo vilarejo é mostrado como um lugar sem dono, cheio de estereótipos, de beberrões inveterados a prostitutas gordas, do jovem cheio de testosterona e a necessidade de ajoelhar-se diante do pai da moça que despeja seu sêmen diariamente para que o casamento seja consumado (no papel). Todos estão convidados, estão a caminho, estão festejando. Três distintos homens fardados, cada um ao seu estilo, falando línguas diferentes entre si, chegam para anunciar. 7 dias de luto pela morte de Lenin.


E o casamento e qualquer manifestação não poderiam ocorrer durante os dias de bandeira a meio mastro. É o fim da celebração, é o fim da festa de matrimônio. Fim? Do que? Tudo que se faz com gritos é possível no silêncio. A partir daí, o cômico surge, com a força de manter toda a estranheza já tida durante a fita. O absurdismo que beira ao ridículo, ao ingênuo, ao improvável, ao genial, ao distinto. Único.


Quando repito insistentemente ao falar em “único”, é porque é absolutamente impossível descrever o que vemos na tela. É uma experiência nova. Não poderia dizer que é uma obra de arte, que é um filme dos melhores já feitos, dos mais inventivos. Não é. Não espere isso, mas a sua construção com alternâncias de narrativa, com um odor teatral, com um humor peculiar faz de “Casamento Silencioso” memorável em poucas imagens. Lembro-me da cena em Branco e Preto na exibição de cinema à la Gordo e Magro, enquanto a propaganda bélica do governo era feita no povoado. E não há como não se lembrar da cena que dá nome ao filme, num lúdico brincar de comemorar com gestos, sussurros e brindes sem o tintilar dos copos. É para ser visto. Gostar ou não é um detalhe aqui. Vale a experiência. Não hei de falar do diretor ou dos atores, a obra é para ser apreciada por si só.

Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Como eu Festejei o Fim do Mundo



Nome Original: Cum mi-am petrecut sfarsitul lumii
Diretor: Catalin Mitulescu
Ano: 2006
País: Romênia e França
Elenco: Doroteea Petre e Timotei Duma.
Prêmio: Melhor Atriz no Un Certain Regard do Festival de Cannes.
Cum mi-am petrecut sfarsitul lumii (2006) on IMDb





A Romênia foi um dos países mais afetados com a violência do autoritarismo comunista sob o comando do ditador Nicolae Ceauşescu. A utopia do mundo igual, da vida em comunidade, da divisão dos bens servia para quando o mundo ainda era dividido em dois. No fim dos anos 80  as explosões revoltosas na busca pela liberdade foram o ápice para a metamorfose de um mundo em busca de ideais para um mundo em busca de liberdade. O fim do mundo está próximo para quem não consegue mais respirar, mesmo sem estar embaixo d’água.

Vemos o envolvimento e relação dos irmãos Lalalilu e Eva, melhores amigos, cúmplices. A vida não estava fácil, ninguém mais aguenta ver, ouvir, saber de Ceauşescu. Até as crianças já sabem o que não devem aceitar, não podem seguir ou não devem fazer no futuro. A imagem do líder está estampada a cada esquina para nunca deixar de perceberem que estão sob os olhares do poder. A população só tem alguma liberdade dentro da própria casa (quando não é invadida pela polícia). Entre conflitos e ideais de um possível ataque ao ditador, percebemos que através do olhar de uma criança a inocência e o poder na mente podem mudar toda a história. A lealdade a apenas um ideal: a liberdade. A rebeldia é coroada.



 “Como eu Festejei o Fim do Mundo” é mais um exemplar (ao lado de “Casamento Silencioso” e outros) de como a ditadura foi marcante e ainda deixa sequelas num povo sofrido e corajoso. Todo o Leste Europeu viveu a falta de esperança e conseguiu sobreviver por conta da vida de pessoas que colocaram seu patriotismo acima do amor à própria vida. Dar a possibilidade de futuro às suas crianças é mais do que criar um legado é dar a base para viver de forma honrada. O fim do mundo pode chegar em 21/12/2012 como os Maias previram, mas sabemos que mesmo sem conhecer a pessoa que mais amamos, é possível amá-la pelo que ela representa. Ter coragem é ter vida. Comemorar o fim do mundo (ideal) comunista é festejar o começo do fim. Festejar o fim do que o comunismo se tornou, é viver esperando que o fim chegue (logo). 


Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Habemus Papam



Nome Original: Habemus Papam
Diretor: Nanni Moretti
Ano: 2011
País: Itália e França
Elenco: Michel Piccoli, Jerzy Stuhr, Renato Scarpa, Franco Graziosi, Camillo Milli, Margherita Buy e Nanni Moretti.
Prêmios: David di Donatello de Melhor Ator (Michel Piccoli).


Um enterro, uma decisão que mudará o mundo, um novo conclave. Uma formalidade, uma figuração, uma benção, uma nova vida, novos rumos para bilhões de pessoas na mão de um escolhido pela força divina. Apostas e a tensão da apresentação deixam a multidão que lota o Vaticano uma bomba relógio. A fumaça branca toma o céu, o público vai à loucura, grita, berra, pois só quer ver a persona que será a representação maior de fé cristã pelo mundo pelos próximos anos. Um novo Papa, uma nova vida.


A preparação para o momento da aparição na sacada é carregada em simbolismos de fé. Mas a pessoa que está lá, carregando o peso de toda um igreja nos seus ombros, como fica? Ela está preparada? Ela quer ser a escolhida? E as suas frustrações de uma vida toda dedicada à Santa Sé, como ficam? O escolhido trava e não consegue. Apela-se à fé, sem efeito. Apela-se até a algo que nem creem, a psicanálise. Entre sessões, fugas da realidade, lembranças de toda uma vida, da crendice no que ama, o Papa já sabe o que quer e o que é. É tudo um teatro, porra.

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Contra a Parede



Nome Original: Gegen die Wand
Diretor: Fatih Akin
Ano: 2004
País: Alemanha e Turquia
Elenco: Birol Ünel, Sibel Kekilli, Catrin Striebeck, Güven Kirac, Meltern Cumbul, Stefan Gebelhoff
Prêmios: Urso de Ouro e FIPRESCI do Festival de Berlim, Melhor Filme e Diretor no Festival Europeu de Cinema e Goya de Melhor Filme Europeu.
Contra a Parede (2004) on IMDb



Fatih Akin consegue transportar a longínqua tradição e cultura turca para o mundo ver e entender. Um mundo turco na Alemanha, país que abriga uma quantidade grande de imigrantes deste país. A identidade está na religião, na cultura, na criação de filhos que conhecem o mundo de seus pais, mas que quer viver sua vida louca, como se não houvesse amanhã. O suicídio não é uma saída, mas uma forma de encontrar quem realmente ama: a vida. Cahit e Sibel se conhecem no hospital psiquiátrico. A morte foi tentada, mas não alcançada por ambos. Sibel pede para Cahit casar com ela para que ela consiga se libertar da pressão da família para que honre suas tradições. Cahit ri, ri, ri. Aceita para ajuda-la mesmo sem condições de andar sozinho. 

Parece uma bela história de amor, de redenção, de superação. Mas aos olhos de Akin nada pode ser comum, piegas. Dividindo o mesmo teto, sem nenhuma afeição um pelo outro, a vida de cada um segue seu rumo, apenas voltando para a casa depois de noites de sexo, de loucuras, de drogas. Numa noite, num ataque de fúria, Cahit se excede e por ciúmes comete um crime. Um amor que nem existia que não nasceu, pariu, fez com que uma atitude desesperada causasse uma tragédia. Sibel diz que o aguardará e vai para a terra mãe. Uma mãe que nunca olhou para ela como deveria. Sua vida mudará completamente à espera de Cahit. E ele voltará para encontra-la. Ou encontrar uma nova mulher?



A história é mostrada e montada de forma a prender, atentar, dissecar de forma original e seca, formada com rock ‘n roll, atitude, drogas, imagens que se contorcem em belas formas. O filme não é apenas a junção de frames, é a criação de imagens inéditas, criativas e que adentram a alma sem pedir licença. Um filme que não é fácil para todos, mas que assim que você começa a vê-lo não pode parar pois a cada momento vemos novas reviravoltas criativas. O estranhamento faz parte de uma vida que vai além das convenções de uma sociedade hipócrita.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Dossiê Caio Blat




Infelizmente o povo brasileiro é preconceituoso de nascença. Sim, somos o país da integração, da diversidade sócio-cultural-religiosa, do país que melhor recebe seus turistas. Sim, é verdade, mas quando se trata de valorizar o que temos por aqui, fica difícil. Claro que com crises, mensalões, politicagens, ídolos inconsequentes é compreensível não criarem uma empatia aos nossos iguais. Mas como todos pré-conceitos são irmãos da ignorância, ver o nome de Caio Blat em algum cartaz, chamada ou trailer é motivo de torcidas de nariz e viradas de rosto. A quem faz isso, entenda, Caio Blat é, hoje, um dos 3 melhores atores nacionais em cinema. Sim, isso é uma realidade. A feição angelical e meiga do menino que nasceu e cresceu nas telas da tevê e que até hoje causam paúra, não existem mais. Um ator com muita bagagem, ótimas escolhas e uma força que vai te surpreender (se é que já não surpreendeu). Além do que é uma pessoa de personalidade forte e muito capaz.


O grande público o reconhece pelas aparições coadjuvantes em novelas globais, mas esqueça disso. Aqui falamos de cinema. Mas também não venha com o papo de que ele só deve fazer aqueles filmes que 8 pessoas (contando a família) viram. Blat é capaz de fazer filmes complexos e intimistas como fazer filmes de grande bilheteria e apelo. Casos dos filmes espiritas, o novo filão do cinema nacional, que ele atua: “Bezerra de Menezes” e “As Mães de Chico Xavier”. Não esqueçamos que ele é um dos destaques de “Carandiru” com o personagem Deusdete.

O primeiro papel de relevância no cinema já diz ao que veio o ator. No considerado melhor filme nacional desde a retomada, “LavouraArcaica” inovou por sua estética rústica, narrativa poética e grande elenco. A direção de Luís Fernando Carvalho sempre deixa um legado e Caio foi banhado de um amálgama de boas escolhas e propostas a partir de então. Filmes da estirpe de “Quanto Vale ou é por Quilo?” (Sérgio Bianchi) e “Baixio das Bestas” (Claudio Assis) moldam a filmografia do ator. Complexos, densos, profundos e com profundidade.

Não dá para não lembrar de papéis coadjuvantes, mas onde Blat se destaca. Há o professor coxinha da retratação juvenil e contemporânea de Laís Bodanzky em “As Melhores Coisas do Mundo”, o jornalista Neco Pedreira na fraca versão cinematográfica de “O Bem Amado” e o colega de classe-marginal de “Os Inquilino” (Sérgio Bianchi), certamente um pulo para outro marco e outro protagonista em sua carreira: “Bróder” de Jeferson De, sobre a vida da/na periferia paulistana.
Se nem com todos esses argumentos e filmes citados você se convenceu que Caio Blat é um dos melhores atores do cinema nacional, indico 3 filmes em especial para você passar de ódio à admiração ao trabalho do ator. Ver a vida de heróis nacionais como os irmãos Villas-Bôas, belamente retratada no melhor filme nacional de 2012, “Xingu” além da força e caráter histórico tem em Blat, Felipe Camargo e (no genial) João Miguel a sua potência máxima. É um filme obrigatório para conhecer o país, conhecer a fundo as relações humanas, a integração de branco e índio e para ver atores que se doam, que invadem o personagem. 

Devo confessar que outro personagem histórico me marcou na pele do ator. Em “Batismo de Sangue” (Helvécio Raton) teve a primeira oportunidade de ser protagonista e domina o filme na pele do lendário Frei Tito. A sua entrega ao personagem demonstra a capacidade de evolução, num filme pouco visto, pouco divulgado, mas essencial para entendermos os tempos da ditadura.
Outro filme é para mim o melhor de Caio. Já falei muito e muitas vezes sobre ele, mas não me canso e cada vez que vejo é melhor. “Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos” é mais do que um filme com um nome extenso que avassala a cinematografia brasileira. Dirigidos por Paulo Halm, Blat e sua esposa Maria Ribeiro conseguem extrair risos e pensamentos que envolvem mais de 90 minutos. E em pouco tempo virá sua estreia como diretor, com a adaptação da obra de Cristóvão Tezza, “Juliano Pavollini”

Blat pode ser um anjo, um malandro, um favelado, um suicida. Blat pode ser o que quiser, pois mesmo novo, ele sabe da sua arte como poucos. Sou fã e você também será. 

Filmografia:

1998 - Caminho dos Sonhos (Lucas Amberg)
2001 - Lavoura Arcaica (Luiz Fernando Carvalho)
2002 - Cama de Gato (Alexandre Stockler)

2003 - Carandiru (Hector Babenco)
2005 - Quanto Vale ou é Por Quilo? (Sérgio Bianchi)

2005 - O Quintal dos Guerrilheiros (João Massarolo)
2006 - O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (Cao Hamburger)
2006 - Baixio das Bestas (Cláudio Assis)
2006 - Proibido Proibir (Jorge Duran)
2007 - Batismo de Sangue (Helvécio Ratton)

2008 - Bezerra de Menezes - O Diário de um Espírita (Glauber Filho e Joe Pimentel)

2010 - Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos (Paulo Halm)
2010 - Os Inquilinos (Sérgio Bianchi)

2010 - O Bem Amado (Guel Arraes)

2010 - Bróder (Jeferson De)
2010 - As Melhores Coisas do Mundo (Laís Bodanzky)

2011 - As Mães de Chico Xavier (Glauber Filho e Joe Pimentel)

2011 - Xingu (Cao Hamburger)

2011 - Uma Longa Viagem (Lúcia Murat)
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