segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Fahrenheit 451

Nome Original: Fahrenheit 451
Diretor: François Truffaut
Ano:1966
País:Reino Unido
Prêmio: Foi indicado ao Bafta e ao Festival de Veneza
Fahrenheit 451 (1966) on IMDb


Fahrenheit 451 é uma obra em que o cinema se apropriou da literatura transformando um livro em uma história cinematográfica.

Do ponto de vista da literatura Fahrenheit 451 é uma distopia sobre o mundo de amanhã. Com efeito, seu autor, Ray Bradbury, um simpático senhor grisalho apaixonado por bibliotecas construiu uma narrativa em que a leitura era considerada ilegal e por extensão a sociedade era proibida de pensar.

O livro se divide em três partes muito bem delimitadas em que um “bombeiro” de nome Guy Montag exercendo seu ofício nesta sociedade futurista se vê, após algumas conversas com sua vizinha Clarisse, em uma profunda crise existencial. Passando a questionar o seu emprego, suas amizades, sua vida conjugal e o seu papel na sociedade. Sociedade na qual a função precípua dos bombeiros é atear fogo em obras literárias. Respondendo a um aviso de denúncia os bombeiros partem em direção às casas em que se suspeita haverem livros e ao acha-los incinera os.

O lema dos bombeiros em Fahrenheit 451 é “Reduza os livros às cinzas e,depois,queime as cinzas”,seu símbolo é uma salamandra e o primeiro capítulo traça a tomada de consciência de Guy Montag de que algo está errado com o que ele mesmo faz.

Ainda na primeira parte nos é apresentada a necessidade de se acabar com os livros. O protagonismo, no livro, fica a cargo do capitão dos bombeiros Beatty que faz um belíssimo discurso sobre o porquê de cercear as pessoas do mau que todo livro contém.

O capitão Beatty explica a Montag:

“...sempre se teme o que não é familiar....todos devemos ser iguais....por certo você se lembra do menino de sua sala na escola que era excepcionalmente “brilhante” era quem sempre recitava e dava as respostas,enquanto os outros ficavam sentados com cara de cretino,odiando-o.Um livro é uma arma carregada na casa vizinha...os bombeiros,portanto,recebeream uma nova função,a guarda de nossa paz de espírito,a eliminação de nosso compreensível e legítimo sentimento de inferioridade...”


A segunda parte diz respeito ao encontro de Montag com um senhor também amante de livros que vivia na marginalidade e o universo alienado que sua mulher-Mildred vive.A caracterização do ambiente de Fahrenheit 451 é feita através de muita tecnologia aplicada a sociedade com fins de entretenimento e alienação.

As paredes da sala de Montag, por exemplo, tem telões em que Mildred é chamada a participar através da interação entre programas dramáticos e superficiais.

O capítulo três se inicia com a surpresa de Montag que atendendo a uma ocorrência percebe que param para queimar livros em sua própria casa.Aqui,ele se revolta e acaba ateando fogo ao próprio capitão Beatty num acesso de raiva e foge para as florestas lá encontra um grupo de homens-livros.Homens que se tornaram livros através da memorização dos mesmos.Sua ética prescreve que eles imprimiram os livros quando a era de sombras passar e farão o mesmo quando outra chegar.Da floresta,Montag vê a sociedade em que viveu toda a sua vida explodir sob o calor de uma bomba atômica dado que estavam em guerra,contudo,a população não era informada do que acontecia no mundo,os meios de comunicação não os queria infeliz.

O filme de Truffaut é em alguns momentos muito fiel ao Livro mas do meio pro final ele deixa bastante coisa pra fora. Por exemplo, em Trauffaut a sociedade dos homens livros passa a viver junta e não chegam a ver a sociedade de Montag ser destruída. Também o papel do Senhor ( Faber)que auxilia Montag em sua fuga para fora da cidade não tem a mesma acolhida que no livro.Truffaut também não faz referência aos diversos elementos que permeiam o livro que dizem respeito a tecnologia usada para o controle como por exemplo,o cachorro sabujo,que é um cachorro eletrônico e a grande importância dada no livro para a velocidade.

De modo geral, a alienação de Mildred é bem retratada e o poema que Montag lê para ela e suas colegas em tom de desafio e provocação parecem ter ficado melhores retrados por Trauffat.Por ser o primeiro filme de Truffaut em inglês e seu primeiro filme a cores,pode se dizer que saiu bom.

Mas aparte o debate entre livro e cinema o que convém ressaltar ,seja das páginas de Fahrenheit 451,seja das imagens do filme é o aspecto de crítica a qualquer tipo de censura que possa ser imaginável num mundo vindouro. Em outras palavras, o título de Fahrenheit 451 já alerta para a temperatura que o papel queima e o porquê de ser tão importante para a vida em sociedade a liberdade de expressão e de pensamento.

Pode se inclusive,perguntar qual a finalidade dos livros?Será que eles,efetivamente, fazem com que as pessoas sejam infelizes? O caminho do conhecimento se assemelha a um labirinto sem saída?

A minha idéia é em partes sim mas isso não é demérito nenhum.

A consciência de algumas coisas de que tomamos conhecimento pode facilmente por algumas pessoas para baixo. Deixá-las mal. É óbvio que sim. Mas isso não é um argumento válido para se abolir a leitura que é senão a melhor forma de conhecimento que possuem os homens para se manterem ativos e também felizes.

Bradbury talvez quisesse nos alertar para o caráter ideológico do real. Em termos simples ideologia é crença de que a perspectiva é verdadeira. Como o livro data de 1953 e por essa época se elevou nos EUA uma acusação de que os órgão federais norte-americanos estavam completamente ocupados por agentes soviéticos infiltrados no governo o que veio a ser considerado improcedente e seu expoente caído em descrédito o famigerado e alcoólatra Senador Joseph Macarthy,o que preocupa é que toda ficção pode se tornar realidade.

Se isso não é assim o que foi a condenação de Sócrates que não a incapacidade de se tolerar a divergência de idéias? E o que dizer de Jesus Cristo e o império Romano cuja crucificação é o símbolo maior de intolerância a novas ideias?

E a incapacidade de se aceitar o discurso das minorias raciais, étnicas, sexuais, religiosas, aliás, a religião é um prato cheio quando o assunto é censura e porque não discutirmos todos os assuntos tabus que ainda hoje existe?

Sem contar o recentíssimo caso dos Wikileaks que deixou governos já desmoralizados sem nenhuma condição de justificar suas políticas.


É bom sempre que nos lembremos de que quem começa queimando livros logo passam a queimar também seres humanos.

De modo que eu acredito que a liberdade de expressão influi decisivamente na mudança das formas aceitadas de se viver em sociedade. É a idéia que incomoda que deve ser extirpada da sociedade sob pena de ganhando publicidade ela ganhe também adeptos que lhes aceitem e defendam.Daí a importância da dúvida,da incerteza,dos questionamentos e por extensão,dos livros.

Em uma palavra, mudanças que se operaram na história todas são de alguma forma afetadas pela liberdade de se pensar diferentemente é aí que reside o principal inimigo de qualquer autoridade desconectada dos interesses de seu povo.

A escolha deste filme e deste livro se deve às tentativas que pairam no jornalismo brasileiro de controle social da comunicação. Com o qual eu não compactuo.Não se pode deixar justamente quem tem o poder de governo controlar o que pode e o que não pode ser dito ou por quem pode ou não ser dito. Não importa quão suja seja a notícia, quão espúria seja a ética do jornalista o brilho da verdade deve cegar toda a mentira. O que é verdadeiro não se pode macular.

O capitão Beatty apresenta sua idéia de forma triunfal a qual eu reproduzo aqui à título de contra modelo.

“....não se pode construir uma casa sem pregos...se não quiser um homem politicamente infeliz,não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver;dê-lhe apenas um.Melhor ainda,não lhe dê nenhum.Não as coloque em terreno movediço como filosofia e sociologia,aí reside a melancolia...”

É preferivel sermos infelizes mas podermos expressar toda nossa infelicidade do que sob essa justificativa termos a impressão pálida de felicidade.


Em resumo,para que não sejamos cães pavlovianos em um sociedade admistrada e controlada,quando não totalitária convém que censuremos toda a censura,uma vez que seu produto real é a não adoção de reformas públicas,a não união das pessoas em prol de mudanças,os livros que nunca serão escritos,os filmes que nunca serão filmados,a arte que nunca será feita.

Fernando Moreira dos Santos
Sessões

2 comentários:

  1. Genial a ideia do livro/filme.

    Sempre ouço falar bem de Truffaut. Preciso ver algo dele...

    Acho que vou começar por esse aí.

    Abraços!

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  2. Palavreado mais culturete. O Fernando é incorrigível! Nunca será um cão pavloviano.

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