domingo, 22 de abril de 2012

Medos Privados em Lugares Públicos

Nome Original: Coeurs
Diretor: Alain Resnair
Ano: 2006
País: França e Itália
Elenco: Sabine Azéma, Isabelle Carré, Laura Morante, Pierre Arditi, André Dussollier, Lambert Wilson.
Prêmios: Melhor Diretor e Atriz (Laura Morante) no Festival de Veneza.
Medos Privados em Lugares Públicos (2006) on IMDb



Sob uma nevasca sem precedentes, sob um teto claustrofóbico ou em um lobby de hotel, as nossas desesperanças urgem, berram a quem quiser ver, mesmo que não haja ninguém olhando. Seja num escritório dentro da própria casa ou em uma baia separada por muros invisíveis, vendo que a história do outro é mais feliz do que a nossa. Muros que crescem em formas desproporcionais e em formatos impensáveis separando ambientes onde não há ambiente para viver em paz. Fossem espelhos, veríamos o nosso próprio rosto, cansado de tanto chorar, cansado de tanto sofrer por um passado que fazemos questão de deixar latente nas estantes, nas cartas, nas músicas que nos marcaram, sejam em fitas de vídeos ou em fotos em porta-retratos, os nossos maiores segredos estão a salvo e sempre visíveis para nunca nos esquecermos de esquecê-los. Esse frio está penetrante e a vontade de mudar é cada vez mais forte – não quero mudar de lugar – quero mudar de mim. Esse corpo que habito está cada vez mais angustiante e apertado, sem espaço para o eu e as coisas que guardo por causas que nem mesmo sei. Precisamos fugir para chegar a um lugar que criamos na nossa criatividade. Precisamos viver um personagem para escapulir da verdade monótona e infeliz. A neve que cai aqui dentro cai por que meu teto não aguenta a pressão. Minha vida é um livro aberto, mas as páginas estão em branco porque não consegui seguir em frente. Meus medos privados estão cada vez mais em evidência, pois o meu medo é o medo de todos. Acho que a neve está parando, está esquentando. Não, eu que estou parando de respirar e fugindo dessa sala apertada para respirar um ar que sempre esteve lá fora e eu nunca consegui respirar.
 

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 17 de abril de 2012

Abutres



Nome Original: Carancho
Diretor: Pablo Trapero
Ano: 2010
País: Argentina, Chile, França e Coréia do Sul
Elenco: Ricardo Darín e Martina Gusman
Prêmios: Melhor Filme, Diretor, Edição e Sonorização no Argentinean Film Critics Association Awards.
Abutres (2010) on IMDb


Seguro de carro, celular, casa, obras de arte, maquinário. Seguro é o alicerce, ao lado do sistema bancário, da vida capitalista que corrompe a cada dia o nosso viver. Corrompe, pois pagar para assegurar que algum bem se mantenha em condições de uso é como pagar para estacionar na própria vaga. É um direito de consumidor que o bem que você comprou tenha garantias que terá sua vida útil e a assistência capaz de suprir quaisquer defeitos futuros. Mas os furtos e roubos tornaram-se comuns e cada vez mais normais numa sociedade baseada no medo de perder o que há de mais valioso: seus pertences mais preciosos; e para se dar bem, pode-se pensar em burlar esse sistema tão amplo e que se baseia cálculo de sinistro onde os benefícios são mais importantes que o próprio produto. Mas e quando o seguro é da sua vida? Vale a pena arriscar para conseguir passar a perna no sistema? Nesse caso, o sistema é falho.

Começamos com a informação que na Argentina morrem 22 pessoas por dia, 8000 por ano e 100.000 na última década de acidentes de trânsito. É um negócio milionário para abutres ou urubus, como diríamos no português. Sosa é um desses, um advogado que aproveita de brechas do sistema em frente a hospitais esperando que recém-acidentados cheguem e consigam ter algum rendimento com o seu infortúnio. Em uma dessas porta de pronto-socorro, conhece a obstinada paramédica Luján, que trabalha horas e horas apenas para manter conseguir um futuro para a sua vida corrida. Primeiro o encontro e o interesse, depois a decepção. Sosa não quer apenas ajudar os acidentados, mas é capaz de causar acidentes falsos, acidentes que acontecem, mas que podem passar dos limites.

Dentre idas e vindas, encontros e desencontros, Sosa segue sua caminhada paralela entre buscar o amor da paramédica e querer largar o seu sustento. Ninguém quer largar o que lhe dá dinheiro, tendo em vista que o sistema é baseado nesse pedaço de papel valoroso. Luján quer se entregar, mas a consciência não permite. É uma disparidade muito grande entre o que ela se dedica integralmente e o que corrompe o seu trabalho. Salvar vidas é mais do que tirar pessoas de carros amassados, por baixo de ônibus ou fazer uma massagem cardíaca. A prevenção é principal meta para uma saúde saudável a qualquer Estado. Mas a paixão pode falar mais alto do que uma consciência cheia de boas intenções, sem tirar que o submundo só existe porque existe o mundo.

Trapero vem com “Abutres” numa levada de filme de gênero, um policial-suspense, na base do que faz muito sucesso no cinema dos nossos hermanos, mas que podemos dizer um filme maior, mas pior acabado. Por ter muitos estereótipos e por sua base temática podemos dizer que o cinema de autor de “Leonera” era mais dolorido. Ricardo Darín sempre é um chamariz do cinema argentino aqui no Brasil pelo enorme sucesso com “O Filho da Noiva” e o recente “O Segredo dos Seus Olhos”. Aqui está bem, cheio de trejeitos e trata bem o abutre por trás de um ser humano. Martina Gusman faz bem seu par romântico nada comum. Um filme que deve ser visto para vermos até onde um homem pode arriscar para lucrar. Morrerão mais muitos, mas muitos ainda acharão que morrer foi o melhor a fazer em busca de alguma plata, nem que estejam voando sobre o lixão sem nenhum detrito.


Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 10 de abril de 2012

Sociedade dos Poetas Mortos


Nome Original: Dead Poets Society
Diretor: Peter Weir
Ano: 1989
País: EUA
Elenco: Robin Williams, Robert Sean Leonard e Ethan Hawke
Prêmios:  Oscar de Melhor Roteiro Original e Bafta de Melhor Filme e Melhor Trilha Sonora Original.
Sociedade dos Poetas Mortos (1989) on IMDb



Coragem de inspirar e sentir os perfumes das flores mais raras dos mais longínquos campos dos menos explorados países de todos os planetas das mais inexploradas galáxias. Sair da vida sem ter para onde ir, sem rumo, ter as estradas para trás sem ter medo de olhar para o passado. Ter a cabeça livre para pensar num mundo que ainda está por vir, sem ter a melancolia de viver uma história que mais não lhes pertença. Ter a mente livre só para o presente, para o agora. Sem o hoje não existirá nada. Não temos passado, não temos história só há motivos para seguir em frente com as forças necessárias para viver sem pesares. Como um professor que nos ensina a pensar, podemos pensar para ser um ser sem igual. Somos todos diferentes e vamos respeitar isso, vamos transpirar isso. Quero só estar na História. Quero só o amor. Quero só a vida. A liberdade é o que pulsa e o que nos enche de vigor para seguir. Sigamos. Vamos pensar em nosso amanhã, mas olhando para o nosso hoje. A vida é a liberdade de escolher o caminho que seguiremos. Escolhamos o mais difícil para ter motivos para viver, com todo amor, com toda excitação que uma existência pede. Livres para fazer o que quiser. 

Quero viver. 

Quero pensar.

Quero liberdade.

Vitor Stefano
Sessões
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