terça-feira, 22 de maio de 2012

A Suprema Felicidade

Nome Original: A Suprema Felicidade
Diretor: Arnaldo Jabor
Ano: 2010
País: Brasil
Elenco: Marco Nanini, Dan Stulbach, Mariana Lima, Maria Flor, João Miguel, Jayme Matarazzo, Elke Maravilha, Maria Luiza Mendonça, Tammy dy Calafiori, Jorge Loredo, e mais
Sem Prêmios
A Suprema Felicidade (2010) on IMDb


Um filme de época da época que se amarrava cachorro com linguiça, em que se comia biju e pipoca nas praças, de homens que compravam jornais e revistas nas ruas, que se andava nas ruas sem nem ligar para aqueles trambolhos que chamam de carros. Uma época que não vivi, uma época que muitos não viveram, mas que pode ser entendido ao olhar de uma criança que tem um ausente pai, dedicado à Aeronáutica, uma mãe com o sonho de trabalhar esfacelado para ser a dona do lar, um avô que superou tudo e é um verdadeiro bon-vivant. Não sei se tudo que se vê é verdade, mas o amadurecimento do pequeno Paulinho, crescendo em um mundo em ebulição, depois da peste, das duas guerras, das estrelas cadentes – um mundo que não mudou muito e que vive embebido em nostalgia.


As fases de crescimento do pequeno Paulinho foram marcadas por diversos problemas e dúvidas para uma criança em amadurecimento. De um pai ausente, com uma mãe infeliz por não ver o homem pelo qual se apaixonou e se casou sair de casa sem dar motivos ou explicações. Paulinho segue mesmo os passos do avô, um músico e amante da noite, mostrando o que é bom e ruim para que o pequeno consiga amadurecer e viver numa época em que as mudanças estavam para acontecer. Das brigas com os mais velhos, das horas admirando as estrelas, da primeira paixão e confusão, o avô estava lá como um guarda-costas, um anjo da guarda. Dar ruas às noites, ao carnaval de rua, Paulinho vai tomando forma e gosto pelo sexo oposto.

Jabor faz de tudo para que nos sintamos dentro da época retratada, seja pela trilha ou pelo visual (nem mesmo que seja com o uso do cromaqui), uma nostalgia tomou conta do diretor, buscando o pitoresco mundo aos olhos de uma criança. De puteiros asquerosos a cabarés luxuosos, a boemia carioca está (exageradamente) escancarada com mulheres (aos montes) de peito de fora, nuas, sangrando, suando, vivendo pelo luxuoso pendão da vida – o sexo. O elenco é estelar, gigantesco, com grandes nomes do cinema nacional – de Marco Nanini a Elke Maravilha, numa história que é terno, belo, mas sem muito que dizer. Não que o cinema precise ter ensinamentos, mas a mensagem precisa ser passada. Jabor consegue angariar 14 patrocinadores e meia-dúzia de incentivos fiscais poderia ter feito muito mais. Uma felicidade que nos rasga apenas o canto da boca, mas não é extremada em momento algum. 

Inteligente é o pipoqueiro, que sempre sabe que todo mundo tem “dado lá em casa”, que a mãe dos seus amigos “come como eu como” e que sabe que uma boa sacanagem pode ser muito mais do que mulheres nuas e abertas. O grande barato é fazer sexo - “Amor é coisa de viado”. Mas o grande recado que fica de “A Suprema Felicidade” é que o amor, ah o amor, é pra se viver, pra se voar, sem rede, como diz o velho avô de Paulinho em sua despedida. A vida é pra ser vivida sem rumos, sem ritos, sem travas. A verdadeira paixão do cinema é feita por amor. Um amor que ficaria muito bem no cinema do Jabor dos anos 70/80 de um filme que ficaria muito bem se fosse da época da retomada. O Cinema nacional pode (e deve) ter filmes de épocas, mas filmes de olhar tão tacanho, exagerados, poderia ser uma melhor visto em outro momento. Jabor volta bem, com um belo filme, mas um filme fora dessa época. Aliás, parece que ele nem pertence mais a essa época (nem ao cinema).



Vitor Stefano
Sessões
 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Je L'aimais


Nome Original: Je l'aimais
Diretor: Zabou Breitman
Ano: 2009
País: França, Itália e Bélgica
Elenco: Daniel Auteuil, Marie-Josée Croze e Florence Loiret Caille
Sem Prêmios.

Je l'aimais (2009) on IMDb

*Não costumo fazer isso, mas como é um filme muito difícil, optei por colocar o filme completo no blog. Sim, ele só deve ser visto se você conhecer bem a língua francesa, pois não há desse filme disponível com legendas.


Uma relação pode ficar cada vez mais complexa a medida que o tempo passa. O casamento, a paixão, o amor, a honestidade, a vida. Tudo isso pode estar junto no mesmo balaio ou pode estar em extremos totalmente diferentes. Compreender o que cada um entende desse megaevento chamado amor é absolutamente impossível. O cinema já o apresentou das mais diversas formas e ainda mostrará com outras 500 tipos de percepção. Um tema inesgotável. Seja pela conquista, pelo tesão, pela perda ou pela inexistência, não há um filme sequer onde o amor não exista – seja lá o que isso for.

Quando que veremos um senhor e sua nora juntos em um chalé devaneando sobre esse tema universal? Bom, ainda não haviam pontuado um filme com esse roteiro. “Je l’aimais” mostra a noite perfeita de dois seres humanos em profunda abstração do mundo real, confabulando sobre coisas que até Dom Juan desconfiaria. Estamos diante do desnudamento de uma alma, o escalpelamento de um homem que revela seus segredos mais profundo, mais tacanho, mais obscuro. O relacionamento fora do casamento, as viagens de meses à Ásia, a paixão tomando proporções cavalares. A cortina caiu para Pierre, assumiu sua paixão e amor eterno por Mathilde. As viagens à longínqua Hong Kong onde conhece a linda interprete Mathilde ou as idas dela à França para passarem poucas horas juntos só poderia gerar uma bela história de amor - à primeira vista, de amor eterno, de parceria a longo prazo. O prazo foi longo, mas o fim não foi belo.


Mathilde cansou de esperar. A vida segue. Pierre acovardou-se e preferiu voltar à modorrenta, burguesa e indigesta vida de um casal com filhos que nem existe mais.
Chloé ouve tudo com muito cuidado, com muita atenção. Um amanhecer que mudou a vida dos dois. Cumplices, a história pode ser linda, ser inesquecível, mas pode ser marcada pela falta de coragem, de ousadia. Abandonar tudo pode ser construir uma nova vida, uma vida nova para quem não consegue se livrar das raizes do romantismo piegas que vemos nas novelas. Daniel Auteuil e Marie-Josée Croze estão deslumbrantes, embalados ao som de uma linda trilha-sonora e envolvidos por um roteiro muito bem costurado. Ele, junto a Mathieu Amalric, são os melhores atores franceses da atualidade. O casal passa uma sensação verdadeira de muita paixão sem muita coragem. Uma maravilha, além de uma fotografia, movimentos de câmera deslumbrantes e por vezes, surpreendente. Um grande filme para se procurar e ver com muita atenção, muito surpreendente. Sem criticar apenas o que não tem coragem, mas entender que há sempre o outro lado da moeda, mesmo que esteja errado. Não arriscar é errar? Quem sou eu para julgar.


Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Em um Mundo Melhor


Nome Original: Hævnen
Diretor: Susanne Bier
Ano: 2010
País: Dinamarca e Suécia
Elenco: Mikael Persbrandt, Wil Johnson, William Jøhnk Nielsen, Ulrich Thomsen, Satu Helena Mikkelinen, Camila Gottlieb, Trine Dyrholm, Markus Rygaard.
Prêmios: Oscar e Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, Bodil de Melhor Atriz (Trine Dyrholm), Melhor Diretora no European Film Award.
Em um Mundo Melhor (2010) on IMDb


O nascimento do mal. A infância pode ser mais perniciosa ao mundo do que um simples choro agudo para tirar a paciência dos insensíveis que regem essa balburdia. Genes constituem a personalidade aliada às energias emanadas de um mundo que externam suas facetas mais horripilantes aos mais ternos bebês. Seja em Magé, Copenhagen ou em um campo de concentração africano, o mundo está cheio de boas e más intenções. Você quer absorver tudo e ver no que vai dar? Você deixaria seu filho por aí, sem rumo, deixando a sociedade construir seu pensamento e crescer emanado de perversões? A vida pode ser levada do jeito que cada um quiser, mas as consequências são sentidas em todo o mundo. A vida é mais bela do que podemos sentir na rua.

Se o bullyng está em moda, conseguimos ter cada vez mais a impressão de que ele pode ser muito mais prejudicial do que uma simples brincadeira maldosa, antes inocentes agora iniciadoras de guerras. Anton, um médico sueco de meia idade, vai à um país em guerra civil salvar vidas de mulheres e crianças que são brutalmente esfaqueadas pelos coronéis e donos das tribos daquele país. Como um salva-vidas, está lá para salvar vidas e não julgá-los. Sua vida lá é a verdadeira fuga dos problemas residenciais. Voltar à Dinamarca é angustiar uma prisão, é ver que seu filho e seu novo-melhor amigo se vingarem contra os valentões de seu colégio. Não sabemos do que uma influencia é capaz. Idealista e salvador, Anton angustia uma fuga para onde possa ser útil, mas o cordão umbilical ainda está em sua casa, com seu filho, com sua ex-mulher.

 
O globo é enorme e tem nuances diferentes a cada esquina, mas os problemas podem ser mais amplos do que parece. A globalização da maldade. Um mundo melhor é ali, é acolá. Nunca aqui. Aliás, um mundo melhor só será possível se fugirmos para Marte, talvez lá ainda seja muito perto e já esteja contagiado.
“Em um mundo melhor” parece uma colagem de filmes que já vimos e que suspeitamos já conhecer de trás para frente, mas feito com um capricho pouco visto no cinema contemporâneo. Vemos os países nórdicos com uma aura violenta na sua habitual calmaria do gelo. Susanne Bier é uma diretora que consegue com temas corriqueiros e globais em sua filmografia nos prender como se nunca tivéssemos visto essas ideias expostas.  Seja pelos problemas matrimoniais, da desigualdade do mundo, das guerras civis ou da simples dificuldade de entendermos porque existimos a busca por um mundo melhor sempre será a utopia dos bons. A bondade está em falta num mundo onde a esperança é artigo raro. Uma angustia pareia no mundo todo.


Vitor Stefano
Sessões
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