sábado, 31 de agosto de 2013

O Garoto Selvagem

Nome Original:L'enfant sauvage
Diretor: François Truffaut
Ano: 1970
País: França
Elenco: François Truffaut e Jean-Pierre Cargol

Assisti por recomendação de um colega filósofo que vive a base de Rousseau e ao chegar ao fim me vejo mais uma vez encantado com o cinema de Truffaut. Os poucos filmes que assisti de sua vasta biografia sempre retornam a minha mente como boas referências de cinema. Assim será com L’enfant Sauvage.

Uma nota inicial nos dá a data (1797) e o lugar (Floresta de Aveyron),  em que se passa a história de uma criança que  vivera sem contato com a sociedade por aproximadamente 12 anos.  O garoto após ser capturado por camponeses é levado para Paris e é tido como objeto de curiosidade por toda sociedade. Um jovem médico do Instituto Nacional de Surdos e Mudos de Paris Dr.Itard (François Truffaut) consegue a guarda do menino e o leva para sua casa com a missão de educá-lo.


Obviamente, um filme de tom  documental, elaborado quase como um estudo antropológico  suscitará debates interessantes sobre o papel da educação na sociedade moderna. Apesar disso, o que mais me fascinou foi a abnegação e o esforço do Dr.Itard brilhantemente interpretado pelo próprio Truffaut. Esse médico que discordava do diagnóstico que o garoto era um caso de idiotia clássico devendo por isso ser internado em um hospício, em suas anotações consegue aliar o rigor formal da ciência em busca de uma solução para um problema com a honestidade de um homem que se preocupa e acredita na capacidade de seu “objeto” de estudo. Paciente, corajoso, esforçado e atento Dr.Itard se sente recompensado por qualquer sinal de progresso em que pese seu desespero nos momentos de fracasso.


Ao mesmo tempo em que exerce, até certo ponto uma pressão sobre o menino, busca com isso provar a potencialidade de um selvagem “ascender” a sociedade tornando-se um ser social. Da mesma forma, o garoto selvagem - chamado de Victor por ter mais facilidade em escutar o som da vogal “o” – simultaneamente atende aos métodos do Dr.Itard (jogos de letras, desenhos, recompensa e castigo e etc) e termina sempre encarando a natureza pela  janela do quarto.


É como se de um lado houvesse uma força lutando contra a ignorância, a barbárie, o selvagem e  a incomunicabili-dade e de outro, uma força que compele à liberdade natural, que tende a se insubordinar à imposição social incutida em toda forma de educação que nos quer ordeira, disciplinada e direita. Essa relação contraditória percorre o filme quando Victor só faz o que o médico lhe pede para passear na floresta, por exemplo.

Filme interessante algo intelectualóide,  mas que vale a pena. Sobretudo se relacionado com outros títulos que trabalham a mesma temática como "O Enigma de KasparHauser" de Werner Herzog entre outros.

Fernando Moreira dos Santos
Sessões

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor

Nome Original: C.R.A.Z.Y.
Diretora: Jean-Marc Vallée
Ano: 2005
País: Canadá.
Elenco: Michel Côté, Danielle Proulx, Marc-André Grondin, Pierre-Luc Brillant, Maxime Tremblay e Alex Gravel.
Prêmios: Festival Internacional de Maine – Prêmio do Público, Melhor Filme (Público) no AFI Fest, Prêmio do Juri no Festival de Cinema de Marrakech.


Quem vê a capa do filme e lê o subnome criado para o português pode imaginar ser uma comédia besta, para divertir e passar o tempo, aliado ao próprio nome pode nos remeter a festas em casa, bebedeira, mulheres seminuas e muita loucura. A realidade é que no fim do filme vemos o real motivo pelo qual C.R.A.Z.Y. está escrito com os pontos:

Christian
Raymond
Antoine
Zacharie
Yvan



Sim, há festas, há drogas, há sexo. A família Beaulieu é uma família comum de Quebéc, só não é tão comum por ter uma prole de 5 filhos homens, onde aprendemos que a testosterona pode explodir uma casa. O machismo do pai Beaulieu é sempre imposto a todos da casa, como um verdadeiro Macho Alfa. O filme enfoca a vida de Zacharie, segundo mais novo dos filhos que vive em constante conflito. Aprovação, sexualidade, religião são algumas das provações por qual Zac terá que passar.
Relacionar-se com meninas mesmo tendo um olhar mais terno por meninos, entender porque seu pai é tão exigente com a sua masculinidade, entender porque ao ouvir David Bowie se solta e relaxa. A descoberta é tardia, é forçada, é difícil por querer sempre agradar e respeitar a educação que seu pai lhe deu. Mas quem disse que dá para aprender algumas coisas.



C.R.A.Z.Y. fez relativo sucesso na época de seu lançamento. Com merecimento. Trata de forma limpa e clara problemas que a juventude dos anos 80 viveu com as explosõesocorridas nas décadas anteriores. Sexo, Droga e Rock’n Roll fizeram muitas vítimas e criou gênios. Zac, como muitos outros jovens, sofreu, mas, entre descobertas e escondidas, conseguiu conhecer a sua verdade. Os irmãos sempre terão o respeito aos pais com o respeito maior a si próprio. Essa é a maior lição.

Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Camile Claudel 1915

Nome original: Camile Claudel, 1915
Diretor: Bruno Dummont
Ano: 2013
Elenco: Juliette Binoche, Jean - Luc Vicent

"O cinema é um modo divino de contar a vida." Frederico Fellini



De outros mananciais descobrimos que Camile Claudel fora em toda a sua vida, uma figura de personalidade, uma filha em busca de seu sonho, uma mulher infeliz no amor e, certamente, um talento desperdiçado.

Mas, o filme de Bruno Dummont, traz ao público a parte que ela viveu em um manicômio cercada de doentes mentais sem espaço para produzir algo, sem amigos, sem relações sociais que não com seu médico psiquiatra. A única coisa que ela chega a esculpir durante o filme é uma bola de barro que ela apalma nervosamente sem concluir nada. 

A dificuldade de voltar-se para sua própria arte, contudo, é reflexo da sociedade de sua época que a acusa de ter copiado Rodin de quem fora aprendiz e pelo fato deste tê-la iludido no  amor. Camile caí em forte depressão , passa a desconfiar de todos a sua volta, inclusive, torna-se paranoica acreditando que Rodin roubará suas obras e as apresentará como se fossem dele.A gota d'água para a completa entrada nesse estado amargo de loucura foi a morte do pai seu apoiador. Não chegou a ir ao enterro do pai pois já estava internada e morreria na clausura muitos anos depois.

No que concerne as atuações podemos dizer que Juliette Binoche consegue "desenterrar" Camile Claudel e lhe dar vida novamente. Em uma das cenas mais estranhas do filme, estranhamento  proposital claramente, há um monólogo de Camile em que a tomada em contra-campo só se dá no fim do monólogo depois de longos e incômodos minutos.

O irmão de Camile, Paul Claudel, é interpretado por Jean -Luc Vicent que em sua primeira cena aparece rezando numa floresta escura. Paul  tem um papel dúbio no filme, apesar de cristão pouco faz para tirar a irmã da situação em que se encontra, em contraposição, de vez em quando vai visita-lá; enquanto ele goza a vida de um poeta em ascensão na França, ela afunda no poço da inconsciência.



Os doentes mentais do filme não são atores. A escolha se deu pela impossibilidade do diretor encontrar alguém para representar os doentes de forma adequada, "as freiras" são enfermeiras na vida real e acompanham e tratam dos pacientes daquela clínica.

Tudo isso fez de Camile Claudel uma mulher sufocada entre o peso de uma sociedade burguesa na qual o papel da mulher consistia em estudar desenho e tocar piano, um amante que a levou em banho maria e um irmão cujo fim era ajudar-lhe  pretensiosamente para se expiar das próprias culpas de bom cristão. Provocante, brutal, desestabilizador e duro eis o  universo pra o qual Bruno Dummont nos convida a olhar e tirarmos nossas conclusões sobre o mundo, as pessoas e porque não, nós mesmos? 

Equipe Sessões

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Wrong

Nome Original: Wrong
Diretor: Quentin Dupieux
Ano: 2012
País: França e EUA.
Elenco: Jack Plotnick, Eric Judor, Alexis Dziena, Steve Little e William Fichtner.
Sem Prêmio.


Só quem já perdeu um cachorro sabe a dor que é perdê-lo. Um vácuo, a falta de ar para respirar, a dor de um ente que se foi. Paul some de uma noite para outra e Dolph começa sua empreitada em acha-lo. Sua vida entra em um parafuso. Repete-se num espiral sem fim de acontecimentos inesperados, bizarros e malucos. Paul precisa voltar senão tudo pode piorar.



O despertador sempre toca às 7:60. Chega à empresa, do qual foi demitido há 3 meses, e, ao adentrar no escritório, chove sem parar (na parte de dentro). Ao chegar ao seu jardim sua palmeira virou um pinheiro. Para desabafar liga no disque pizza e marca encontro com a atendente. Conversa com seu jardineiro francês por telefone, mesmo há poucos metros de distância. Esses ocorridos são apenas para elencar algumas estranhezas que ocorrem na vida de Dolph e que vemos sem pensar muito, senão nossa cabeça funde. Cadê Paul? Alguém o teria roubado? Sinais dizem que sim. Misteriosas pessoas sempre o alertam que tudo ocorre por causa de Master Chang. Quem seria? Um oriental? Quando se materializa aparece um loiro tipo nórdico informando que Paul voltará para Dolph de ônibus.


Quem está lendo até aqui só pode pensar que eu sou louco de ter visto esse filme até o fim ou que estou absolutamente sob efeito de drogas para escrever. Não, é bagunçado assim mesmo. “Wrong” é uma punheta de ideias irreais sem senso ou filtro. Tudo acontece apenas porque Quentin Dupieux quer que aconteça. Um filme vindo, certamente, de uma cabeça atordoada. O que marca é o amor de Dolph por Paul, que até certo ponto também é exagerado. De resto é um filme tão nonsense que seu criticismo à sociedade moderna pode passar desapercebido.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Frango com Ameixas



Nome Original: Poulet aux Prunes
Diretora: Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
Ano: 2011
País: França, Bélgica e Alemanha
Elenco: Mathieu Amalric, Edouard Baer, Maria de Medeiros e Golshifteh Farahani.
Prêmio: Prêmio Especial do Júri dos Críticos de Dublin.


Claro que o meu interesse em ver “Frango com Ameixas” foi “Persépolis”. E o interesse não só porque amei ler o HQ, apaixonei pela adaptação cinematográfica e me envolvi com a história da Marjane Satrapi. Tudo que ela fizer será alvo de meu querer, como se fizesse parte da minha família. A encantadora menina da animação cresceu e desenvolveu uma linguagem bela e pouco usual no cinema de hoje em dia. Claro que imaginando que essa nova adaptação não seria feito em animação me causou um pouco de dúvidas quanto ao impacto que nos causaria. Porém o efeito é tão bom quanto. Por vermos atores de carne e osso podemos ao primeiro olhar pensar num filme comum, mas ao passar dos minutos efeitos visuais e uma fotografia marcante nos envolvem numa história linda, triste e lúdica, como, acredito, sempre serão os filmes de Marjane.


A história do músico apaixonado por seu violino é ver a paixão pelo instrumento, pela música e pela vida. A vida de Nasser-Ali Khan se confunde com a sua música. Estamos em Teerã em 1958 e o mais célebre violinista da época tem o seu instrumento de estimação quebrado pela mulher, num acesso de fúria. Pai ausente, marido distante e artista sem música, Nasser não tem outra saída a não ser definhar até a morte. Trancafiado no quarto escuro apenas esperando a morte leva-lo tem devaneios, viagens ao passado de dedicação à sua paixão e visualiza o futuro de seus filhos. Pensa também no motivo o qual sua vida terá um fim. Por causa do violino. O objeto já não tem importância. Significa muito mais quem o presenteou. Um xodó, um amor, uma história. A sua vida nunca mais seria a mesma sem ele (ela) do seu lado. Uma morte que vem, leve-o, pois ele não está mais lá.

A história inspirada na vida do tio de Marjane consegue nos transportar para o fim dos anos 50, representando a vida de um amante da música, vivendo a paixão não vivida por Nasser. O filme em live action mixado com animações e efeitos especiais de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud é mais uma pequena obra de arte da dupla. Além dos efeitos e da qualidade, a presença de um dos melhores atores da atualidade dá mais um peso ao filme. Mathieu Amalric na pele do Sr. Khan é um show a parte, rodeado pela sua esposa, a ótima Maria de Medeiros. Li num lugar que “Frango com Ameixas” está para “Persépolis” assim como “Manderlay” está para “Dogville”. Não sei bem o que isso representa, mas vale o registro. O registro maior é que as histórias de Marjane continuarão a me seguir e eu a seguir elas. Que venham mais!

Vitor Stefano
Sessões
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