sexta-feira, 30 de abril de 2010

Pátio

Pátio (1959) on IMDb


Estamos diante de um curta metragem. Péssima imagem e som horrível, mas ao vê-lo percebe-se que Glauber Rocha se tornoria um dos maiores. Sem palavras durante toda ação, a voz está captada na imagem. E mesmo quando a imagem está em péssima qualidade, ainda sim sabe-se que lá está uma raridade. A primeira experiência de Glauber é uma prova de sua qualidade.
Estamos num pátio, como o próprio nome diz. O chão todo quadriculado em preto e branco, como pistas de danças, e cercado de um abismo e de muito verde. O verde, mesmo com a imagem em branco e preto, dá o ar de natureza, de tranquilidade, de harmonia com o meio ambiente. O que chama atenção é que além do ambiente temos dois personagens. O casal está lá, como um simples adorno de imagem. Estão porque precisavamos de movimento, que nos causa pânico.

A tranquilidade que o horizonete nos transmite é totalmente sucumbida com o início dos movimentos dos humanos. A trilha nos remete a filmes de suspense. Parece que o abismo será o fim obvio. Nada no cinema de Glauber é obvio. Ele já era gênio. E sempre será!

Vitor Stefano
Sessões

Maranhão 66


Maranhão 66 (1966) on IMDb

“Tomava eu posse no Governo do Maranhão e fiz uma ousadia que não deveria ter feito com um amigo da estatura de Glauber Rocha. Eu lhe pedira, que documentasse a minha posse. Glauber fez o documentário que foi passado numa sala de cinema de arte, há 15 anos. E quando o público viu que uma sessão de cinema de arte ia ser passado um documentário que podia ter o sentido de uma promoção publicitária, reagiu como tinha que reagir. Mas aí, o documentário começou a ser passado, e quando terminaram os 12 minutos o público levantou-se e aplaudiu de pé, não o tema do documentário mas a maneira pela qual um grande artista pôde transformar um simples documentário numa obra de arte: ele não filmou a minha posse, ele filmou a miséria do Maranhão, a pobreza, filmou as esperanças que nasciam do Maranhão, dos casebres, dos hospitais, dos tipos de ruas, e no meio de tudo aquilo ele colocou a minha voz, mas não a voz do governador. Ele modificou a ciclagem para que a minha voz parecesse, dentro daquele documentário, como se fosse a voz de um fantasma diante daquelas coisas quase irreais, que era a miséria do Estado”.
Senador José Sarney ao Jornal do Brasil (Rio de Janeiro, 25 de Agosto de 1981).

A discrepância da voz e da imagem. Sarney diz, o povo nega. Ouve-se de crescimento e vemos a fome. Diz-se sobre um Maranhão forte e vê-se um Maranhão pobre. Falou-se sobre um Maranhão sem corrupção, livre e vemos que o Sarney continua o mesmo, dá aulas de discursos e de mentiras. O Maranhão de 66 muito se assemelha com o Maranhão de 10 e o latifundiário continua o mesmo. Sarney e família continuam a imperar numa terra com dono definido.

Glauber monta o curta de forma magistral, entre o sonho e realidade, talvez prevendo que Sarney tornar-se-ia um dos maiores políticos desse nosso país e que promessas e inverdades fazem parte de sua vida e, infelizmente, sempre o farão.

Glauber com o dinheiro pago para fazer Maranhão 66 ele conseguiu financiar um de seus maiores feitos, 'Terra em Transe'. Portanto 'Maranhão 66' é o único momento desse país em que o Exmo. Sr. José Sarney fez algo de bom para a nação brasileira. Obrigado Sarney, apenas por isso. Obrigado Glauber, por ter nascido e vivido brasileiro.

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Sessões Promoção: Quincas Berro d'Água

Mais uma promoção aqui no Sessões. Ê beleza!



Este blog e a divulgadora oficial do filme Quincas Berro d'Água, já comentado por aqui, estão dando de bandeja 4 pares de ingressos para assistir ao filme em sua pré-estreia oficial nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo.
É galera, 2 pares para Sampa e 2 para o Rio.

A pré de São Paulo será no Unibanco Arteplex Frei Caneca, dia 03/05 às 21h30; e a do Rio de Janeiro será no Cinemark Downtown, dia 04/05 às 21h.

Para concorrer rola a seguinte proposta:
Quincas Berro D'Água é uma ilustre história movida a cachaça, vadiagem e amigos de boteco. Pensa aí então em uma bebedeira que merece ser contada, aquela inesquecível e deixa ela escrita aqui em forma de comentário. Vamos ver o que isto vira. Use a memória e a criatividade, uma frase, um texto, uma piada... Escreva quantas vezes quiser. O espaço é livre!

Serão escolhidos 2 ganhadores em São Paulo e 2 no Rio de Janeiro e cada um deles terá direito a um par de ingressos.

Ao final do comentário, você deve indicar em que cidade você quer assistir a pré-estreia. Não se esqueça de se identificar com e-mail e nome para entrarmos em contato com os vencedores.

Lembrando que é preciso correr, pois são válidos somente os comentários postados até quarta-feira, dia 28/04/10.

Os vencedores serão comunicados por e-mail e deverão fornecer nome completo e RG para terem seus nomes na lista de convidados na porta dos cinemas.

Veja a postagem com comentário do filme e trailer oficial

Fica na espreita, mais promoções vêm por aí.

Equipe Sessões

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Amantes

Nome Original: Two Lovers
Diretor: James Gray
Ano: 2008
País: EUA
Elenco: Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow e Vinessa Shaw.
Sem Prêmio.
Amantes (2008) on IMDb

Leonard divido entre duas mulheres. Elas são totalmente diferentes entre si. Aliás, nem o próprio Leonard sabe o que quer da vida. Começamos o filme com uma cena forte, bonita, tensa. Ele se joga numa baía na tentativa de suicídio, porém sem sucesso. Seu passado recente o deixou conturbado, infeliz, inseguro, com certeza pelo abandono de sua noiva há dois anos e a necessidade de ter que retornar à casa dos pais. Tornou-se um adolescente rebelde, um tanto quanto incomum (para não dizer estranho) e que não vê a hora de fugir em busca de sua independência.

O personagem vivido por Joaquin Phoenix além de seus problemas habituais agora tem outro. Se envolveu com duas mulheres encantadoras, cada uma com seu charme e atrativo. Michele é louca, drogada, problemática - autodestrutiva. Sandra é a filha de amigos dos pais, doce, meiga. Não há maior antagonia no filme do que as personagens femininas onde só Leonard e sua mente perturbada para escolher qual o seu destino, porém o destino é quem determinará o futuro dos personagens. A loucura cada vez mais toma conta da vida de Leonard, aproximando-o da personagem desequilibrada de Gwyneth Paltrow. Porém o romance com Michele consegue, mornamente permanescer vivo. Com muito pesar e com questões que dariam um banho em um filme protagonizado por adolescentes, 'Amantes' nos remete a adultos que não conseguiram dar um passo, que ainda estão presos a um sentimento de inquietude e inconsequencia infantil, onde a depressão toma conta de vossas mentes.

'Amantes' é um filme que foi preterido e merecia mais atenção. Tem boa atuação de Paltrow e ótimas atuações de Vinessa e Phoenix. A direção é correta e a história é recheada de dramas que podem permear a vida de qualquer um. Vale a pena pois o drama está na vida de todos e vê-lo na tela grande é um interessante exercício de auto conhecimento.

Mas parece que essa depressão e a loucura tomou conta de Joaquin Phoenix. Ele ao final das filmagens de 'Amantes', há 2 anos, relatou que não mais seguirá com a carreira de ator e se diz cansado de Hollywood. No início especulou-se ser uma jogada de marketing (até por conta de seu novo estilo), porém o que importará agora é sua carreira de cantor. A música é a sua vida. Certamente influenciado por Johnny Cash, personagem que interpretou no ótimo "Johnny e June". Porém seu estilo musical será o rap. O porto-riquenho talvez não esteja mesmo batendo bem. Cash certamente fez bem, porém Leonard ainda está nele. Uma pena para nós que "perdemos" um bom ator. Agora é conferir a carreira de cantor e dessa loucura. Um documentário está sendo feito sobre essa mudança fake de Phoenix. Esperemos o resultado, por enquanto confira a entrevista concedida por Joaquin a Dave Letterman.


Sim, é ele. Viu do que 'Amantes' foi capaz? Não perca, ou pode acabar como ele, mesmo que seja tudo mentira.

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 20 de abril de 2010

Dossiê Glauber Rocha

Um povoado de Eldorado vivia um momento estranho após a eleição de Dr. Paulo. Outrora Paulo foi considerado um Câncer da cena política nacional dos início dos anos 60. Tudo por conta da Cruz na Praça retirada sem consulta da comunidade, um patrimônio destruído para a construção de um viaduto para a passagem da burguesia sem ter que se misturar com a plebe.

Vários motins foram criados. Tivemos Cabeças Cortadas, muito sangue derramado, como o burguês gosta de dizer que política se faz com suor e sangue. Mas, Claro, o sangue que rola jamais é em vão. Famílias choraram a sua destruição, mulheres e crianças foram poupadas, mas não tiveram chances. As Armas e o Povo não foram suficientes para contornar o massacre que se viu no chão de Eldorado. Mas nas próximas eleições, Dr. Paulo não teria chances. Sim, a democracia ainda existia. Ele fugiu e foi desfrutar com sua família e prole política no distante Amazonas. Amazonas, Amazonas, nunca mais foi o mesmo. Foi o Pátio de sua transformação. Paulo agora é José, burlou o sistema e mudou de estado.

José deixou o bigode crescer, mudou a voz e com sua habilidosa prosa conquistou o governo. Maranhão 66 está na história. José foi eleito com quase unanimidade. O povo viu nele a salvação. Mal sabiam o que estaria por vir. Ele não só burlou o sistema, ele é o sistema. E a democracia que existiu até 66 foi exterminada, como se um Leão de Sete Cabeças imponente e estupidamente forte que inescrupulosamente andasse pelo Sertão vazio, desértico e sem dono. O cacique é Paulo, aliás, é José. O povo na miséria sem casa, sem comida, sem saúde, sem educação enquanto o Rei do Sertão vive em seu palacete, abastado, regados a champagne e caviar.

Porém em 1986 Antônio surge do Sertão. Um mártir, um guerreiro. O Salvador. José começa a se incomodar com a força que Antônio ganha junto aos pobres e esquecidos pelo sistema. Parece um grande acontecimento, um novo líder para os sem liderança, sem perspectivas. Aos sem vidas. Um duelo se forma. A força do ditador e a força do povo com Antônio. Há um clima de embate dos maiores já vistos, maior que a guerra entre Deus e o Diabo na Terra do Sol. A Terra em Transe aguardando a maior batalha de todos os tempos.

José contra Antônio. Golias contra Davi. O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Uma tempestade aproximou-se anunciando o Barravento, o momento de violência. O embate foi na mansão do ditador. Em combate sangrento, nosso Santo Guerreiro com seu povo conseguiu destruir a base política de José, matou todos sem dó, arrancando-lhes as cabeças. José conseguiu safar-se, por muito pouco. Um duelo que por toda A Idade da Terra jamais veremos outro. Jamais é muito forte pois José hoje encontra-se na capital e continua enganando a todos. Melhor fazer como Letícia em Marrocos, fugir para não ver tamanho absurdo ou voar como uma Paloma, Paloma pelos ares.

Nosso Santo Guerreiro morreu e foi descansar na Terra do Sol, deixando paz ao povo do Maranhão, do Amazonas, de Eldorado. Infelizmente em Brasília ainda não. Mas uma hora alguém o destruirá completamente. Essa é a História do Brasil da nossa América Latina, Diabos no poder, Povo sofrido. Tudo aos olhos Di Glauber, o nosso gênio que colocou até Jorjamado no Cinema.

Um singela homenagem do Sessões a Glauber Rocha, nosso Rocha Que Voa.

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Amazonas, Amazonas


Amazonas, Amazonas (1965) on IMDb
É um curta metragem dirigido por Glauber Rocha em 1966 do tipo documentário em que descreve a história, as belezas naturais, o atraso e a dura vida do povo amazonense.
Esta produção foi encomendada pelo governo do estado do Amazonas e foi o primeiro trabalho de Glauber em cores. Apesar de ser um filme de cunho propagandista, e Glauber aceitou o projeto apenas como forma de poder financiar o seu próximo longa à época: “Terra em Transe (1967)”, sua veia revolucionária fica bastante evidente.

Ao se deparar com a realidade de Manaus e outros municípios do estado, Glauber capta o contraste entre a exuberância da selva, dos rios, das riquezas naturais e o marasmo econômico e o descaso social.

Glauber traça genialmente um paralelo entre o Amazonas exaltação e o Amazonas real. Talvez por isso o título ser duplicado: Amazonas, Amazonas.

De lá para cá algumas coisas mudaram, mas na essência a região ainda é a mesma. A Zona Franca de Manaus foi instalada, como ponte para o poder econômico explorar as riquezas naturais do local, além da mão de obra bastante barata. O centro histórico foi restaurado, porém a explosão demográfica da Capital produziu uma Manaus ainda atrasada, sem estrutura urbana, habitada por um povo marginalizado. Os municípios vizinhos, os mais distantes e as populações ribeirinhas ainda vivem num estilo de vida rústico, quase pré-histórico.

Portanto, o documentário ainda é atual e útil para uma reflexão sobre os destinos que queremos para esta importante região do Brasil. Finalizo destacando uma trecho profético da narrativa que diz: “O Amazonas que conhecemos é outro. O Amazonas de hoje, maior estado do Brasil, onde o homem já fixou suas raízes e luta para desenvolver sua civilização, onde o homem, transformando árvores em casas, busca uma cultura a partir de suas visões especiais do meio.”

Carlos Nascimento
Sessões

Cannes 2010

"O Festival de Cannes é uma terra de ninguém apolítica, um microcosmo do que seria o mundo se as pessoas pudessem ter contactos diretos e falar a mesma língua." Jean Cocteau

De 12 a 23 de maio, o mais charmoso festival de cinema de todo o mundo terá a sua 62ª edição, na incessante busca de conseguir abrir os olhos do mundo para o diferente, o comercial inteligente, o experimental e o cinema de verdade. A cidade ao sul da França, banhada pelo Mediterrâneo, oferece todos os anos no verão europeu grandes películas de todos os cantos do mundo. Cannes tem um glamour diferente do tapete vermelho estendido no Kodak Theatre, inexplicável. Vemos nas grandes telas da cidade francesa obras que marcaram época e continuam com sua grande importância e com um rótulo insuperável: A Palma de Ouro.

A Abertura Oficial do Festival está por conta do novo filme de Sir Ridley Scott: 'Robin Hood'. E se Almodóvar tem Penélope Cruz e Scorsese tem Leonardo di Caprio, Scott tem Russell Crowe. Parceiros em 'Gladiador', 'Um Bom Ano', 'O Gângster' e 'Rede de Mentiras', agora o australiano incorporará a nova aventura do ladrão inglês que rouba dos ricos para dar aos pobres. Ridley é capaz de obras memoráveis e que marcam épocas, como 'Thelma e Louise', porém há uma obra-prima que jamais sairá de nossas mentes: 'Blade Runner - O Caçador de Andróides', filme já comentado aqui no Sessões. Vamos ver o que esperar da nova investida de Sir Scott com seu fiel escudeiro. 'Robin Hood' não concorrerá à Palma de Ouro.

O Festival vai muito além da linda Palma de Ouro. A Seleção Oficial da Associação Francesa do Festival Internacional do Filme se divide nas seguintes categorias: a Compétition, Un Certain Regard, os filmes Hors Compétition, as Séances Spéciales, a competição de curta-metragens e os filmes de escola da Cinéfondation. Tudo faz parte de mais que apenas uma entrega de prêmios, é un Grand Marché cinematográfico onde o que se busca não são apenas coroar os grandes feitos e sim apoiar todos os criadores do audiovisual mundial.

Esse ano o Juri de Longas Metragens será presidido por um dos diretores mais admirados da atualidade, o estadounidense Tim Burton. Ao seu lado, compondo o juri, teremos nomes consagrados, especialistas e novas mentes despontando do mundo do cinema. São eles: o diretor do museu nacional do cinema da Itália, Alberto Barbera, a atriz italiana Giovanna Mezzogiorno, o porto-riquenho Benício Del Toro e a inglesa Kate Backnsal, além dos diretores Emmanuel Carrere (França), Victor Erice (Espanha) e Shekhar Kapur (Índia). No juri da Cinefondation e de Curtas teremos o grande Carlos Diegues. Cacá, ao lado de Glauber Rocha, foi um dos criadores do Cinema Novo e em breve estará por aqui no Sessões.

Dos vencedores do concorrido prêmio máximo, já comentamos:'A Fita Branca', 'Entre os Muros da Escola', 'A Criança', 'O Quarto do Filho', 'Dançando no Escuro', 'Apocalipse Now' e 'Taxi Driver'. Mas com certeza comentaremos outras e futuras Palmas de Ouros. Do Brasil apenas Anselmo Duarte levou com 'O Pagador de Promessas'.

Agora em 2010, que terá Kristin Scott Thomas de 'Há Tanto Tempo Que te Amo' como anfitriã, na Competição Oficial, teremos grandes nomes do cinema como Mathieu Almalric (ator de 'O Escafandro e a Borboleta'), o novo filme de Iñarritu, Kitano e de Luchetti.

Confira a lista completa para vermos quem concorrerá os grandes prêmios de Cannes:

Tournée de Mathieu Amalric (França)
Des Hommes et des Dieux de Xavier Beauvois (França)
Hors la Loi de Rachid Bouchareb (França)
Biutiful de Alejandro González Iñarritu (México)
Un Homme qui Crie de Mahamat-Saleh Haroun (Chade)
Housemaid de Sang-soo Im (Coréia do Sul)
Copie Conforme de Abbas Kiarostami (Irã)
Outrage de Takeshi Kitano (Japão)
Poetry de Lee Chang-dong (Coréia do Sul)
Another Year de Mike Leigh (Inglaterra)
Fair Game de Doug Liman (EUA)
Schastye Moe de Sergei Loznitsa (Rússia)
La Nostra Vita de Daniele Luchetti (Itália)
Utomlyonnye Solntsem 2 de Nikita Mikhalkov (Rússia)
La Princesse de Montpensier de Bertrand Tavernier (França)
Loong Boonmee Raleuk Chaat de Apichatpong Weerasethakul (Tailândia)
Route Irish de Ken Loach (Inglaterra)

Dentre os filmes concorrentes de Un Certain Regard teremos nomes do quilate de Manoel de Oliveira e Jean-Luc Godard. Confira a lista completa de filmes:

Blue Valentine de Derek Cianfrance (EUA)
O Estranho Caso de Angélica de Manoel de Oliveira (Portugal)
Les Amours Imaginaires de Xavier Dolan (Canadá)
Los Labios de Santiago Loza e Ivan Fund (Argentina)
Simon Werner a Disparu... de Frabrice Gobert (França)
Socialisme de Jean-Luc Godard (França)
Unter Dir Die Stadt de Christoph Hochhäusler (Alemanha)
Rebecca H. (Return to the Dogs) de Lodge Kerringan (EUA)
Pál Adrienn de Ágnes Kocsis (Hungria)
Udaan de Vikramaditya Motwane (Índia)
Marti, Dupa Craciun de Radu Muntean (Romênia)
Chatroom de Hideo Nakata (Japão)
Aurora de Cristi Puiu (Romênia)
Ha Ha Ha de Hong Sangsoo (Coréia do Sul)
Life Above All de Oliver Schmitz (África do Sul)
Octubre de Daniel Vega (Argentina)
R U There
de David Verbeek (Holanda)
Rizhao Chongqing de Xiaoshuai Wang (China)

Fora da Competição (Hors compétition) estarão grandes como Woody Allen e Oliver Stone. Veja a lista completa:

You Will Meet a Tall Dark Stranger de Woody Allen (EUA)
Tamara Drewe de Stephen Frears (Inglaterra)
Wall Street - Money Never Sleeps de Oliver Stone (EUA)
Autobiografia Lui Nicolae Ceausescu de Andrei Ujica (Romênia)
Carlos de Olivier Assayas (França)
Kaboom de Gregg Araki (EUA)
L'Autre Monde de Gilles Marchand (França)

E em Sessões Especiais (Séances spéciales) as agradáveis surpresas de ver Diego Luna e a irmã de Ralph Fiennes lançando seus filmes e um novo trabalho de Sabina Guzzanti, do ótimo Viva Zapatero!. Obvio que sem deixar de lado o projeto de Cacá Diegues onde meninos da favela fizeram o filme.

Veja a lista completa:

Inside Job de Charles Ferguson (EUA)
Over your Cities Grass Will Grow de Sophie Fiennes (Inglaterra)
Nostalgia de la Luz de Patricio Guzman (Chile)
La Meute de Franck Richard (França)
Gilles Jacob, L'Arpenteur de la Croisette de Serge Le Peron (França)
Draquila - L'Italia Che Trema de Sabina Guzzanti (Itália)
Countdown to Zero de Lucy Walker (Reino Unido)
Chantrapas de Otar Iosseliani (Georgia)
Abel de Diego Luna (México)
5 X Favela, Agora Por Nós Mesmos - Manaira Carneiro, Wagner Novais, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcelos e Luciana Bezerra (Brasil)

A competição de Courte Métrage teremos grande participação latina. Dos 9 concorrentes 4 são curtas da América Latina. Do Brasil o curta de Marcia Faria (Estação).

Chienne D'Histoire de Serge Avedikian (França)
Ezra Rishona de Yarden Carmin (Israel)
Estação de Marcia Faria (Brasil)
Muscles de Edward Houdsen (Austrália)
Micky Bader de Frida Kempf (Suécia)
To Swallow a Toad de Jurgis Krasons (Letônia)
Maya de Pedro Pio Martin Perez (Cuba)
Rosa de Monica Lairana (Argentina)
Blokes de Marialy Rivas (Chile)

Pela Cinéfondation os selecionados são curtas e média-metragens. Confira os concorrentes:

Cooked de Jens Blank (Reino Unido)
Hinkerort Zorasune de Vatche Boulghourjian (Estados Unidos)
Coucou-Les-Nuages de Vincent Cardona (França)
Ijsland de Gilles Coulier (Islândia)
Frozen Land de Kim Tae-Yong (Coréia do Sul)
Ja Vec Jesam Sve Ono Sto Zelim da Imam de DAne Komljen (Sérvia)
Taulukauppiaat de Juho Kuosmanen (Finlândia)
Los Minutos, Las Horas de Janaína Marques Ribeiro (Cuba)
Miramare de Michaela Müller (Croácia)
El Juego de Benkamin Naishtat (França)
Dakujem, Dobre de Mátyás Prikler (Eslováquia)
Itt Vagyok de Bálint Szimler (Hungria)
Shelley de Andrew Wesman (Estados Unidos)

O filme que encerrará Cannes será The Tree de Julie Bertucelli com Charlotte Gainsbourg de Anticristo.

A maior premiação do cinema está aberta. Vamos acompanhar de 12 a 23 de maio quem leva os grandes prêmios, além de admirar o fino da 7ª arte. Façam suas apostas.

P.S.: Com o fim de mais um festival, os juris deliberaram vossas decisões que foram:

Competição Oficial:
- Palma de Ouro - Loong Boonmee Raleuk Chaat de Apichatpong Weerasethakul




- Grand Prix - Des Hommes et des Dieux de Xavier Beauvois



- Melhor Diretor - Mathieu Amalric por Tournée



- Prêmio do Júri - Un Homme qui Crie de Mahamat-Saleh Haroun



- Prêmio de Interpretação Masculina - Javier Bardem por Biutiful e Elio Germano por La Nostra Vita








- Prêmio de Interpretação Feminina - Juliette Binoche por Copie Conforme




- Prêmio de Argumento - Lee Chang-dong por Poetry




Curtas-Metragens:
- Palma de Ouro: Chienne D'Histoire por Serge Avédikian



- Prêmio do Júri: Micky se Baigne por Frida Kempff



- Camera D'or - Año Bisiesto por Michael Rowe

Un Certain Regard:
-Prêmio Un Certain Regard - HAHAHA por Hong Sangsoo,




- Prêmio do Júri - Octobre de Daniel e Diego Vega




-
Prêmio de Interpretação Feminina Un Certain Regard - Adela Sanchez, Eva Bianco e Victoria Raposo por Los Labios de Ivan Fund e Santiago Loza



Cinefondation:
- Primeiro Prêmio - Taulukauppiaat de Juho Kuosmanen
- Seguindo Prêmio - Coucou-les-Nuages de Vincent Cardona
- Terceiro Prêmio - Hinkerort Zorasune de Vatche Boulghourjian e Ja Vec Jesam Sve ono Što Želim da Imam de Dane Komljen


Prêmio Vulcain do Artista Técnico: Leslie Shatz pela sonorização do filme Biutiful


Equipe do Sessões
Especial Cannes

terça-feira, 13 de abril de 2010

Rocha Que Voa

Nome Original: Rocha Que Voa
Diretor: Eryk Rocha
Ano: 2002
País: Brasil e Cuba
Elenco: Glauber Rocha
Prêmio: Melhor Documentário da 7ª Edição do Festival É Tudo Verdade e do Grande Prêmio Brasil de Cinema.
Rocha que Voa (2002) on IMDb
Glauber nos deixou mais do que um cinema revolucionário, filmes memoráveis e grandes prêmios para a nossa estante. Do relacionamento com a também cineasta colombiana Paula Gaitán, Glauber teve dois filhos: Ava e Eryk. Eryk desaflorou e seguiu o rumo de seu pai. E o faz com grande capacidade e habilidade, além de tocar em assuntos delicados com descrição, focando basicamente em um estudo antropológico da grande América Latina. E em "Rocha Que Voa", com um pano de fundo bem familiar. O próprio pai.

Glauber Rocha viveu em Cuba apenas dois anos - 1971 e 72 - porém a sua alma permanesce viva nas ruas do país de Fidel. Depoimentos colhidos por Eryk mostram o quanto o cinema de Glauber mantêm-se no inconsciente da população que teve, nem que seja pequeno, um contato com o cinema do brasileiro. Cuba vive na miséria que a utopia socialista não previu, porém o espírito revolucionário ainda está dentro da mente dos moradores da ilha inimiga do Tio Sam, que ainda aspiram o cinema e o espírito glauberiano. Eryk, que pouco viveu com seu pai, teve na confecção desse filme a descoberta de quem foi Glauber na sociedade e no mundo cinematográfico. Ver os companheiros de trabalho de seu pai durante o exílio certamente foi emocionante a ele. Para mim foi.

Com uma montagem poética, vemos o cinema de Glauber em Eryk, em um novo momento da cinematografia mundial, porém são claras as nuances que inspiram o filho caçula. Um momento duro na vida do cineasta consagrado sendo aberto ao público nesse documentário. O Brasil vive um grande momento de documentários, e esse consegue se destacar em uma montagem de imagens históricas com a voz do baiano nos inspirando, ensinando um pouco de política, poesia e cinema. O maior aluno, Eryk, aprendeu tudo direitinho. Glauber, onde ele estiver orgulha-se.

Veja trailer desse belo documentário:

Infelizmente no Brasil, Glauber não tem o costume de venerar seus ídolos. Não temos ídolos, fora os esportistas e figurões do cubo maldito. Pense em ídolos do nosso país. Acredito que o primeiro nome que venha à mente é Ayrton Senna, seguido de Silvio Santos. Quem mais? Cadê nossa memória a Milton Gonçalves, Noel Rosa, Zumbi dos Palmares? Cadê a nossa homenagem a Glauber Rocha? Não há uma rua, um viaduto, uma rodovia, um simples cinema com o nome do diretor baiano. E se houver, será algo esquecido, como a própria memória de Glauber (excluindo o mundo cinematográfico). Triste ver Cuba reconhecer mais do que nós um homem que lutou tanto para colocar o nome do Brasil no ponto alto do pódio, foi morto pelo próprio país. A repressão (por políticos que foram homenageados em várias rodovias, ruas e praças que passamos todos os dias) matou meu ídolo. Nosso ídolo.

Vitor Stefano
Sessões

sábado, 10 de abril de 2010

Apocalipse Now

Nome Original: Apocalipse Now
Diretor: Francis Ford Coppola
Ano: 1979
País: EUA
Elenco: Marlon Brando, Martin Sheen, Robert Duval, Laurence Fishburne
Prêmios:Oscar Melhor Fotografia e Melhor Som, Palma de Ouro em Cannes, Globo de Ouro Melhor Direção, Roteiro Original e Melhor Ator Coadjuvante (Robert Duvall) e Prêmio César de Melhor Filme Estrangeiro.
Apocalypse Now (1979) on IMDb

A produção de Francis Ford Coppola retrata um dos períodos mais negros da história dos EUA. Embora baseado numa transposição literária para a linguagem cinematográfica do livro de Joseph Conrad, Heart of Darkness, o filme consegue por si só alcançar status de obra-prima.

Isto se deve ao fato de que o filme é representativo em um conjunto de dimensões humanas captadas pela lente de um diretor clássico pelo somatório de seu trabalho.

Essas dimensões podem ser apresentadas, embora sem nenhum critério hierárquico entre elas, do ponto de vista cultural e estético,do ponto de vista simbólico e do ponto de vista histórico-político.

Do ponto de vista cultural e estético o filme é marcado pelas grandes imagens da guerra.Basicamente,para situar a narração,temos um capitão das forças especiais do exército americano no Vietnã- Capitão Willard-muito bem interpretado por Martin Sheen, que recebe a missão de matar o Coronel Kurtz interpretado pelo aqui já comentado O Poderoso Chefão, Marlon Brando, que suspeita-se, enlouquecera.

O filme se inicia com uma das melhores músicas do Doors- The end- e segue em uma viagem cujo plano de fundo mostra as belas e úmidas florestas do sudeste asiático sendo inflamadas por bombas de Napalm. Para quem não sabe o que é o Napalm vale a pena recordar o famoso retrato da menina com a pele descolada:


Após aceitar a missão Willard segue rumo ao Camboja e é durante o percurso que estudando os documentos confidenciais que lhe fora dado sobre o Coronel Kurtz começa a conhecê-lo de verdade. O coronel havia sido homem exemplar, passara por grandes universidades e angariara posições nos quadros militares por mérito e destaque próprios,aos poucos se desiludindo com o fazer política do exército se isola com um grupo de seguidores vietnamitas.

É nesta travessia em meio aos ataques do exército vermelho que se dá o melhor do filme. Para levar o barco até o rio o grupo do capitão Willard conta com ajuda do Capitão Kilgore,interpretado por Robert Duvall que sendo um tanto fanático por surfe e ciente de que no grupo do Capitão Willard havia um surfista,Kilgore reverenciando o jovem,ordena um ataque a uma vila vietnamita à beira da praia para que pudesse desfrutar do talento do garoto.A atuação de Duvall é completamente absurda de boa.Os motivos que o levam a se guiar na guerra são,não vencer a guerra,mas fazer da guerra sua própria casa.Diz Kilgore em uma das passagens:

“Se eu digo que essa praia é segura para surfar é porque ela é segura para surfar.’’

Sob suas ordens, os helicópteros levantam vôo e partem em direção a vila vietnamita que resiste com ataques antiaéreos, Kilgore,em um ato de altivez e insanidade,coloca em alto volume a Cavalada das Valquírias de Richard Wagner e uma guerra se inicia ao som do maestro alemão.Após pousarem e ainda sobre tiros Kilgore ordena um ataque a floresta para forçar um cessar fogo,dois minutos depois,os aviões despejam as incendiárias Napalm sobre a floresta.

Kilgore, então deixa marcada para sempre a história do cinema de drama de guerra com a frase sádico-reflexiva mais emblemática do filme:



“I like the smell of gasoline in the morning. Its smells like ....... victory!”

No entanto, não é só de doentes mentais trajados com farda do exército que se faz a guerra.

A jornada continua e para o descanso dos soldados monta-se um espetáculo,em plena selva,em que as coelhinhas da playboy dançam e se mostram,um verdadeiro bordel na Ásia,com direito à pirotecnia o suficiente para falar à libido dos heróis americanos.

Numa última grande passagem, na realidade na ponte do Lung,uma guarnição do exército encontra-se completamente à revelia de qualquer comando.Os soldados atirando a esmo no breu da noite,ouvindo Jimi Hendrix nas trincheiras e xingando os inimigos.


No plano simbólico uma curisosidade: A triste ironia do destino fez com que a obra transformasse seu criador. Quero dizer com isso que o apocalipse se materializou, inclusive, na vida de Coppola com efeitos colaterais na sua produtora a American Zoetrope que foi a bancarrota além de ter sofrido inúmeros reveses nas florestas das Filipinas,país em que foi rodado o filme, e motivando os jornalistas da época a escreverem se referindo ao filme em termos de “apocalipse when”

Sobre isso Coppola disse em uma entrevista:

“Fizemos Apocalypse do modo como os americanos fizeram a Guerra do Vietnã: Nós éramos muitos, tínhamos muito dinheiro e equipamentos e, pouco a pouco, fomos enlouquecendo"

Do ponto de vista político histórico tem se que o passado do Vietnã pode ser entendido com a idéia de que este pequeno país da Indochina foi sempre subjugado por potências externas. Desde, aproximadamente 1885, até o fim da guerra em 1975 o país foi ocupado por franceses,japoneses,franceses novamente e os americanos,ora isso cria nos dominados uma certa ojeriza com relação a certos Estados.Embora possa ser entendida,dentro do espectro mais amplo da bipolaridade da Guerra Fria,ainda assim,a força não conseguiu abater o desejo à autodeterminação.A independência do Vietnã foi provavelmente a mais sangrenta experiência de um povo contra uma superpotência e de outro lado,ensina que não se vence uma guerra apenas com violência,a violência é o meio de que se valem os Estados para obterem seus objetivos,como já ensinava Clausewitz,mas é a Política que deve conduzir a brutalidade para os fins desejados.Estima-se que foram lançadas mais bombas no Vietnã do que durante a II Guerra Mundial contra Hither e cia .

E o papel do acaso na história é extremamente importante. Pela primeira vez o mundo assistia à guerra pela televisão, ao vivo, a opinião pública norte americana foi muito abalada e a imagem dos EUA, tido pelos seus, como uma espécie de estado messiânico do mundo, nunca mais foi a mesma.

Sem contar o os ventos da história que sobravam o mundo para outras direções,no Brasil gritavam nas ruas “abaixo a ditadura”,a pílula anticoncepcional libertou as mulheres no mundo,na França os estudantes enfrentaram De Gaulle e em Woodstock a Star Splanged Banner foi maculada por sangue,medo e explosões que saiam dos acordes de Jimi Hendrix.

Um último ponto a destacar é a referência à idéia de transformação moral que o filme traz no final.A referência ao poema de T S Eliot -Hollow Men - que é citado por Kurtz dá todo um significado moral ao filme e se coaduna com este se entendermos a viagem pelo rio como uma descoberta,por parte do Capitão Willard,de que os soldados americanos eram homens ocos,verdadeiros peões cativos por regras impostas e das quais não conseguem senão obedecer.O general Kurtz percebera esse problema e o Próprio capitão Williard atesta a insignificância daqueles que o acompanham no barco em direção ao Camboja.Kurtz, cuja vida havia sido escorreita em todos os sentidos,se revolta contra esse vazio humano,a inércia existencial,a imoralidades dos atos e a disparidade de ideais entre alguns homens e outros daí ser considera “louco assassino” e portanto,perigoso aos interesses americanos.

Neste sentido, Kurtz já havia provado o seu valor, mudara sua lógica de agir e de pensar, já lhe eram avessos os princípios pelos quais a guerra americana e os homens eram dirigidos.
O poema de Elliot se divide em três partes: Na primeira constata-se que homens são “fôrmas,sem formas”, seres empalhados e inócuos;Na segunda predomina a idéia de que nem todos são iguais; e na parte final “Twilight Kingdon”,isto é, o Reino da salvação que liberta das dores morais.

Capitão Willard,enfrenta um dilema moral.Toda sua busca se converte em consciência da obscuridade humana e a possibilidade de altera - lá.O resultado é fatal,torcendo para que o lado bom do capitão vença somos levados à contra gosto pela escolha dos Hollow Men, a vacuidade do dever cumprido não cedeu lugar a escolha do que é moralmente certo.Em um ato violentíssimo e brutal,Willard esfaqueia o general Kurtz enquanto um ritual de sacrificio acontece do lado de fora do quarto

Para concluir coloco aqui a última parte do poema the Hollow Men de T.S Eliot

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada
Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa
Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

Não,com efeito o mundo não vai acabar com uma explosão será com um suspiro baixo e macabro,quase onírico de Horror,Horror.

Fernando Moreira dos Santos
Sessões de Cinema

Sessões entrevista: Ibirá Machado

Foi prometida aos leitores deste blog uma entrevista com Ibirá Machado que faz um genuíno trabalho a frente do blog Cinema Indiano. Encontramos o Ibirá em uma sessão de cinema no SESC Pompeia . De lá para cá, algumas semanas e alguns contatos que resultaram nas postagens O Sonho Bollywoodiano, na transcrição da entrevista com Beatriz Seigner e nesta postagem.
Ibirá fala do blog, de cultura, de trocas, expectativas e experiências de maneira suave e agradável.
Aproveitem mais esta sessão!

O que você faz na vida, além de ser blogueiro?

Eu sou formado em geografia e trabalho com consultoria ambiental, fazendo análises de impacto socioeconômico de obras públicas e privadas Brasil afora.


Como e quando começou seu interesse por cultura indiana?

Essa pergunta não tem uma resposta objetiva. Me interesso por coisas relacionadas à Índia desde muito cedo, sem ter havido algo específico que tenha despertado esse interesse. Acho que o amadurecimento disso aconteceu em 2008, quando fui pra Índia e fiquei quase 3 meses, vivendo a vida indiana na pele. Valeu não só por consolidar o que eu sabia sobre o país, a cultura, o povo, mas sobretudo por desmistificar uma série de projeções que naturalmente construímos. Descobri um mundo real e complexo, e isso foi fundamental pra dar mais firmeza no trabalho do blog, por exemplo, que é posterior à viagem.


Por que o cinema e a idealização de um blog?

Eu não sou nenhum cinéfilo de carteirinha, mas o cinema sempre foi uma arte que me atraiu muito. Sempre gostei muito de fuçar produções incomuns. Já tive minha fase de ver muitos filmes espanhóis, por exemplo. Depois é que vieram os filmes indianos. E chegar neles foi um caminho natural e quase óbvio na minha trajetória. E quando eu estava na Índia eu conheci o filme Taare Zameen Par, que ainda estava em cartaz lá, e fiquei tão impressionado com a mensagem do filme que eu me determinei que ele deveria vir pro Brasil. Ao voltar pra cá, a primeira coisa que fiz foi mostrar esse filme a amigos. De repente percebi que ele tinha uma força ainda maior do que eu pensava. Foi aí que veio a ideia de criar um blog sobre cinema indiano, com o principal e único objetivo de mostrar que a Índia produz filmes incríveis, ao contrário do que diz o senso comum. No boca-a-boca, Taare Zameen Par já foi visto por mais de 10 mil pessoas no Brasil e hoje ele é oficialmente recomendado a professores por secretarias de educação de centenas de municípios - e nem sequer há uma versão oficial dele no Brasil!




Qual a mentira mais propagada aqui no Brasil sobre cinema indiano?

Acho que a maior mentira é que cinema indiano é Bollywood. A segunda maior mentira é que o cinema indiano é uma bizarrice. Pra começar, a maior parte dos vídeos virais popularizados no youtube ("Golimar", "Rivaldo Sai Desse Lago", "Thriller Indiano" etc) nem sequer são de Bollywood, mas de outras indústrias indianas, como Kollywood, em língua tamil. E pra que fique claro, Bollywood é a indústria em língua hindi, mas o país possui 22 línguas diferentes oficializadas na constituição, e cada língua possui sua respectiva produção cinematográfica. E é isso que faz da Índia o maior produtor de filmes no mundo.


Como é o acesso aos filmes?

Existe uma lista de, no máximo, cinco filmes indianos que podem eventualmente - muito eventualmente - ser encontrados em videolocadoras no Brasil. Ainda assim, a chance obviamente aumenta nas grandes cidades e nas videolocadoras com acervos mais "alternativos". Não é impossível, mas esses mesmos filmes dificilmente podem ser encontrados à venda legendados em português. Portanto, no Brasil, só existem duas maneiras de conseguir filmes indianos: comprando em dólar ou em libra em sites como o amazon ou o ebay, com legendas em inglês (eventualmente em português também, mas costumam ser legendas realizadas em tradutor automático, o que quase sempre impossibilita a compreensão); ou baixando da internet. Não preciso nem dizer que os fãs brasileiros recorrem quase que 100% à segunda opção, sobretudo porque o mundo de torrents e afins permite a criação de legendas em português e de trocas muito mais fáceis. Hoje existe uma pequena legião de consumidores assíduos de cinema indiano no Brasil que já colocaram à disposição algumas dezenas de legendas em português para os mais diferentes filmes de Bollywood e de outras regiões da Índia. Mas vale acrescentar aqui que em Portugal é um bocado mais fácil encontrar DVDs de filmes indianos à venda, em lojas especializadas.


Porque os filmes indianos não chegam ao Brasil (em mídias tradicionais)?
Seria falta de interesse do público ou das distribuidoras?


Pra ser sincero, é fato que existia falta de público até o ano passado. Mas a falta de público se justificou até então por pleno desconhecimento do brasileiro em relação às produções indianas. E acredito que as distribuidoras estiveram na mesma esteira, carregadas de preconceito. Mas agora, após a novela Caminho das Índias (que tinha músicas de Bollywood em sua trilha sonora) e o filme Quem Quer Ser um Milionário (que, embora britânico, levou os olhos do mundo e dos brasileiros a Bollywood), um público imenso apareceu no Brasil, super ávido por novos lançamentos e por descobrir o que de legal já foi feito nos anos anteriores. Mas antes disso algum movimento nesse sentido já vinha acontecendo. Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2008, por exemplo, o filme que levou o prêmio de melhor filme estrangeiro pelo público foi uma produção de Bollywood, Jodhaa Akbar, que é um épico lindíssimo, de 3h30 de duração. Ainda assim, cadê esse filme nos nossos cinemas? Taare Zameen Par já foi visto por ao menos 10 mil pessoas, no boca-a-boca, com cópias de cópias de cópias, e nada de termos nem sequer em DVD oficial. As distribuidoras precisam abrir o olho, mas pra isso o preconceito tem que ser antes eliminado, e é isso que estamos herculeamente fazendo!


Tem projetos futuros para o blog? Pode nos contar um pouco sobre.

É um pouco difícil definir projetos futuros num campo ainda incerto. Eu considero o blog como uma grande janela que o Brasil e todos os países lusófonos têm para olharem ao mundo do cinema indiano. Eu adoraria ter mais tempo pra tudo isso, dedicar-me mais à incrível dinâmica que é esse universo do cinema da Índia. Mas, por hora, estou me preparando pra elaboração de algumas postagens especiais, tanto com entrevistas de peso, quanto com artigos que resultem de algumas pesquisas sobre temas mais específicos dentro do cinema indiano. Algo na esteira do que já fiz, por exemplo, com a postagem dos judeus na origem do cinema indiano (no dia 18 de abril de 2009).


Como gostaria que os leitores entendessem o seu trabalho e o blog
Cinema Indiano?


Como uma missão. É algo muito além do compromisso com a profissão que me remunera, por exemplo. Eu realmente invisto tempo e dinheiro com todo esse trabalho, pois muito além de gostar de verdade do cinema indiano, também sinto uma necessidade muito forte de contribuir com uma abertura ainda maior nas possibilidades de trocas culturais que podemos ter no Brasil. E faz parte dessa missão desconstruir até onde for possível o preconceito arraigado que existe em cima do cinema indiano, em cima de Bollywood. Faz parte ensinar a "ler" os filmes da Índia (isso enquanto eu mesmo aprendo como fazer isso), pois é simplesmente impossível querer apreciar um filme de Bollywood, por exemplo, esperando ver um filme estadunidense, ou um filme espanhol. E é dessa troca, dessa abertura de mente e de estéticas, que estamos, ainda, muito carentes.

Fichinha:
Filme favorito: Taare Zameen Par (2007)
Diretor favorito: Aamir Khan
Ator favorito: Aamir Khan
Atriz favorita: Aishwarya Rai

Um muito obrigado ao Ibirá e ao blog Cinema Indiano por este encontro e pelos que hão de vir. Em breve, mais entrevistados blogueiros mandarão seu recado por aqui.
Aquele abraço,
Sessões

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Di - Glauber


Di Cavalcanti (1977) on IMDb

Texto de Glauber e distribuído na sessão do filme em 11 de março de 1977 na Cinemateca do MAM.

"A morte é um tema festivo pros mexicanos, e qualquer protestante essencialista como eu não a considera tragedya . . Em Terra em Transe o poeta Paulo Martins recitava que convivemos com a morte...etc... dentro dela a carne se devora - e o cangaceiro Corisco, em Deus e o Diabo na Terra do Sol, morre profetizando a ressurreição do sertão no mar que vira sertão que vira mar...

Matei muitos personagens? Eles morreram por conta própria, engendrados e sacrificados por suas próprias contradições: cada massacre dialético que enceno e monto se autodefine na síntese fílmica, e do expurgo sobram as metáforas vitais.

As armas de fogo, facas e lanças são os objetos mortais usados por meus personagens, mas a rainha Soledad bebe simbolicamente veneno no final de Cabeças Cortadas e os mercenários de O Leão de Sete Cabeças são enforcados. Em Câncer, Antônio Pitanga estrangula Hugo Carvana, assim como Carvana se suicida em Terra em Transe. Em Claro foi usado um canhão para matar um mercenário no Vietnam e dois personagens morrem afogados em Barravento, além das multidões incalculáveis massacradas por Sebastião, Corisco, Diaz, etc.

Filmar meu amigo Di morto é um ato de humor modernista-surrealista que se permite entre artistas renascentes: Fênix/Di nunca morreu. No caso o filme é uma celebração que liberta o morto de sua hipócrita-trágica condição. A Festa, o Quarup - a ressurreição que transcende a burocracia do cemitério. Por que enterrar as pessoas com lágrimas e flores comerciais? Meu filme, cujo título, dado por Alex Viany, é Di-Glauber, expõe duas fases do ritual: o velório no Museu de Arte Moderna e o sepultamento no Cemitério São João Batista. É assim que sepultamos nossos mortos.

Chocado pela tristeza de um ato que deveria ser festivo em todos os casos (e sobretudo no caso de um gênio popular como Emiliano di Cavalcanti) projetei o Ritual Alternativo; Meu Funeral Poético, como Di gostaria que fosse, lui. . . o símbolo da Vida...

No campo metafórico transpsicanalítico materializo a vitória de São Jorge sobre o Dragão. E, no caso de uma produção independente, por falta de tempo e dinheiro, e dada a urgência do trabalho, eu interpreto São Jorge (desdobrado em Joel Barcelos e Antônio Pitanga) e Di-O Dragão. Mas curiosamente Eu Sou Orfeu Negro (Pitanga) e Marina Montini, dublemente Eurídice (musa de Di), é a Morte. Meus flash-backs são meu espelho e o espelho ocupa a segunda parte do filme, inspirado pelo Reflexos do Baile, de Antônio Callado, e Mayra, de Darcy Ribeiro. Celebrando Di recupero o seu cadáver, e o filme, que não é didático, contribui para perpetuar a mensagem do Grande Pintor e do Grande Pajé Tupan Ará, Babaraúna Ponta-de-Lança Africano, Glória da Raça Brazyleira!

A descoberta poética do final do século será a materialização da Eternidade."

Glauber nos contou como fez o curta Di-Glauber: "Quando Di morreu, eu apenas improvisei em cima de fatos. Como eu estava duro, pedi a vários colegas cineastas pedaços de filmes virgens, chegando a juntar 800 metros de colorido. Peguei também uma câmara emprestada do Nelson Pereira dos Santos. [...] Fui ao velório, no Museu de Arte Moderna e ao enterro, no São João Batista. Dirigi o fotógrafo Mário Carneiro na tomada das cenas. Aí já estava decidido a fazer um filme sobre a morte de Di. Uma homenagem de amigo para amigo. As poucas pessoas que estavam lá ficaram chocadíssimas, claro. Diziam que eu estava tumultuando o enterro, estava profanado um ato católico. Não é nada disso. Meu filme é um manifesto contra a morte. Da morte nasce a vida. Di era um homem alegre, um homem que, com toda a certeza, também gostava de enterros. E eu quis, além de prestar-lhe uma homenagem, contestar os princípios fundamentais da lógica."

Uma homenagem incomum, mórbida e glauberiana. Só poderia ser ele. "Di" levou Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes 77 com a maior demonstração de uma idéia da cabeça e uma câmera na mão. Uma medida judicial mantém interditada a exibição pública do documentário, a pedido da família do pinto. Mas nós estamos aqui para homenagear Glauber. E para o Sessões nada melhor do que contraverter a lei por uma boa causa: Di, Glauber e a morte.

Vitor Stefano
Sessões

Glauber Rocha por Eduardo Escorel


Eduardo Escorel foi o montador dos longas Terra em Transe, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, O Leão de Sete Cabeças e Cabeças Cortadas, além de ser o Supervisor Geral de Restauração do filme Terra em Transe, dirigidos por Glauber Rocha. Eduardo decifrou Glauber assim:

"Minha impressão é de que Glauber percorreu um longo caminho em um intervalo de tempo curto demais. Nascido em Vitória da Conquista, aos dezenove anos já colaborava na imprensa de Salvador, depois de ter, aos quinze, escrito um balé e pertencido a um círculo de estudos em que tentou se inicar com diretor teatral. Quando completou 28 anos já realizara dois marcos da história do cinema mundial. Depois de indicar seu lugar, aos vinte, com uma Cruz na praça, percorreu uma trajetória de progressiva e maglômana abrangência: começou num Pátio e acabou, com A Idade da Terra, querendo abarcar o cosmo. Morreu com apenas 42 anos, pagando com a própria vida pelo seu radicalismo. Desajustado com a linguagem e o dia a dia, quis reinventar o cinema e a vida. Contraditório em tudo, ele foi, ao mesmo tempo, uma estrela de primeira grandeza e um cometa de longo período, dotado de luz própria e guia, como as estrelas. Girando em órbita muito alongada, como os cometas parabólicos, mais de cem anos serão necessários para que volte a passar pela Terra outro astro com o seu brilho. Glauber Rocha, estrela parabólica. Saudade."

Trecho retirado da obra de Eduardo Escorel, Adivinhadores de Água: Pensando no Cinema Brasileiro (Ed. Cosac & Naify, 2005) - Para visualizar parte dessa obra, inclusive o trecho acima, clique aqui. Obrigado Eduardo por nos permitir essa transcrição e por fazer parte da época mais brilhante de nosso cinema. Glauber Rocha certamente agradece.

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Quincas Berro D'água

Nome Original: Quincas Berro D’Água
Diretor: Sérgio Machado
Ano: 2010
País: Brasil
Elenco: Paulo José, Luiz Miranda, Marieta Severo, Mariana Ximenes, Valdmir Brichta e outros.
Prêmios: Melhor Direção de Arte e Figurino no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.
Quincas Berro d'Água (2010) on IMDb

Ir à pré-estreia de Quincas Berro D’água trouxe-me a lembrança episódios da 8ª série. Li “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água” por indicação da professora Sandra. Fiz prova e tudo! Ela foi a primeira professora que não pediu resumo de livro, talvez porque entendesse que uma obra literária não poderia ser resumida nem para fins didáticos. Naquele ano tive meus primeiros encontros reais com a leitura. As palavras tornavam-se mais facilmente vislumbradas e livros de mais de cem páginas já não eram mais tão assustadores. Pois é, tem gente que ensinou tanta coisa para gente. E onde anda Sandra?

Daquele menino e daquela leitura, transcorreram 13 anos. A figura de Quincas e as personagens ao decorrer das páginas mostravam seus “pêsames” como podiam. Cada um chora por onde mais sente. 13 anos passados, me deparo com esta figura novamente e mergulho no pé de pica que tinha se tornado aquela Salvador por conta da morte de figura nada ilustre e mais conhecida que farinha grossa por aquelas bandas. Aliás, que bêbado de carteirinha não faz fama!? E Jorge Amado era danado, conhecia da safadeza humana, da malemolência do baiano e da baiana. E se não conhecia a zona, devia ter informantes dos mais fidedignos (haha!), devia se inebriar com um sorrisinho da mulher da vida mais chinfrim e naqueles trejeitos encontrar inspiração para os seus tipinhos imortalizados.

Claro que livro é livro. Filme é filme. E um menino de 13 anos, não é um homem de 27. Mas acho que o menino e o homem riram do mesmo jeito naquela sessão de ontem à noite. Acho que a diferença entre os dois é que o menino só se sorria, só via aquilo como um grande barato e nada além de um programinha de cinema, já o adulto (pedante) ficou pensando (depois) na crítica que se faz a qualidade de vida do povo de uma das cidades mais importantes do Brasil, na depressão que pode ter levado o respeitável Joaquim a se acabar na manguaça e a margem de todo o respeito que um dia deteve diante da sociedade, virar um Quincas, ou quaisquer outros monstros que só a mente adulta do nosso tempo é infeliz em pensar. Na verdade, toda esta coisa de criança, adulto e blá blá blá é um conselho para que se vá ver o filme sem carapaças. Assista simplesmente, fique no plano da história, das piadas e embaladado por um trilha sonora que vai do maracatu ao brega sem fazer distinção. Programinha de cinema perfeito e indicação aos queridos.



Um respeitável leitor pediu para que eu escrevesse descascando algum filme, ainda não vai ser desta vez. Me aguarde!

Leandro Antonio
Sessões

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Há Tanto Tempo Que Te Amo

Nome Original: Il y a longtemps que je t'aime
Diretor: Philippe Claudel
Ano: 2008
País: França / Alemanha
Elenco: Kristin Scott Thomas, Elsa Zylberstein, Serge Hazanavicius, Laurent Grévill e a pequena Lise Ségur
Prêmio: Bafta de Melhor Filme de Língua Não Inglesa e César de Melhor Estréia de um Diretor (Philippe Claudel) e de Melhor Atriz Coadjuvante (Elsa Zylberstein).
Há Tanto Tempo Que Te Amo (2008) on IMDb


Depois de ver 'Não Se Preocupe, Estou Bem!' e 'Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar' vejo em 'Há Tanto Tempo Que Te Amo' um fim de uma trilogia infindável. A trilogia da família, da dor da família. E não apenas a dor por si só, mas como saber conviver com ela e o que podemos esperar do sofrimento alheio, que muitas vezes está mais próximo do que podemos (e queremos) acreditar. Certamente há muitos outros filmes com polêmicas familiares e fraternais (outro relativamente recente e altamente recomendável é 'Reis e Rainhas' de Arnaud Desplechin), porém recentemente vi esses 3 que me fizeram pensar em um cinema pensado, sentido, belo, de atuações marcantes e histórias edificadas em cima de nossa fragilidade mais indefesa: o sentimento, fraternal.

Há uma crise na educação, como visto em 'Entre os Muros da Escola' e certamente há uma crise na instituição da família. E do mesmo modo que na educação, isso não é um "privilégio" dos franceses, é um problema mundial. Não há mais divisão territorial que demarque onde tem e onde não esse tipo de problema. É uma avalanche que não sabemos onde começa e nem onde terminará. Não sei se há falta de religião e de conversa ou uso de muita tecnologia, não sei mesmo. Mas é mais e mais comum ver que não há mais irmandade presente nas relações familiares ou mesmo fora da árvore genealógica, tampouco igualdade ou liberdade. Em 'Há Tanto Tempo Que Te Amo' o que vemos é uma familia tentando se refazer. Ou melhor renascer.

A obscura Juliette volta à sociedade após 15 anos. A prisão foi uma fuga. A prisão não prendeu, a deixou ausente de um mundo que continuava a viver, e não sentiu a sua falta. Não por ela ser inexpressiva ou inútil mas por não ter força para viver. Se estivesse aqui fora, terminaria como o oficial que sonhava com o rio Orinoco. Ele mesmo que disse gostar tanto de fontes, da água, dos rios, e a Sra. Fontaine chegou a ser um rio, mas o seu nome já a avisaria do que se tornaria, uma simples fonte, de onde a água jamais sairá. Somente sua família seria capaz de fazê-lo, mas nem eles ela queria encontrar.

Sua prisão tem um motivo doloroso e que só ela saberia explicar o motivo. Ninguem sabe porque. Nem a força da fraternidade para entender ou tentar ajudar. Não havia ajuda. Lea, sua irmã a resgata e com seu marido, seu sogro e suas duas engraçadissimas filhas aos pouco se tornam seu novo porto seguro. Sua culpa, se é que podemos chamar assim, parece acalentada por pessoas que há muito tempo a amam, mesmo nunca a tendo visto. Os 15 anos da prisão foram como uma gestação prolongada de onde ela sai de um ventre de muros e encontra o mundo real, de onde ela não deveria ter saido, mas precisou.

É impossivel falar desse filme sem citar spoilers. Portanto pararei de falar. Fica minha recomendação: veja "Há Tanto Tempo Que Te Amo". Uma história sentimental, tocante, fria e em alguns momentos hilária, principalmente com as crianças vietnamitas. Kristin Scott Thomas dá um banho de interpretação, fazendo-nos encarar a vida de Juliette como uma vida comum, ordinária, de uma pessoa que poderia ser nossa irmã. E poderia mesmo. E não importa o que aconteça, a justiça sempre acontecerá. Só precisamos fazer algo. Amar quem você realmente ama, com todas as forças, mesmo que seja por muito tempo. Tempo bastante para pensarmos que não amamos mais. Persista.



Só 'À la Claire Fontaine' para nos dar um pouco de esperança. Canção infantil que certamente inspirou o nome desse lindo filme. Também parte da trilha de 'O Despertar de uma Paixão', onde só a beleza da música para nos deixar bem. Melhor do que a vida nos deixa. Para ouvir, veja a postagem do tocante filme estrelado por Naomi Watts e Edward Norton.

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 6 de abril de 2010

A Primeira Noite de um Homem

Nome Original: The Graduate
Diretor: Mike Nichols
Ano: 1967
País: Estados Unidos
Elenco: Anne Bancroft, Dustin Hoffman, Katharine Ross, William Daniels, Murray Hamilton,Elizabeth Wilson,Brian Avery.
Prêmios: BAFTA de Melhor Diretor, Oscar de Melhor Diretor
A Primeira Noite de um Homem (1967) on IMDb

Sabe aquele tipo de filme que quando acaba a única palavra que consegue sair da boca é um algo parecido com “Gostei!”? Tá! Você gostou então assiste de novo, de novo e de novo... Daí vem aquela pergunta: “Como eu não percebi isto antes!?” Vê só que transa lôca: Naquela primeira vez você era o virgem que se deixou levar (Benjamin) e o filme é a mulher mais velha e sedutora que quer manter um trato em segredo, um extra-conjugal seguro (Mrs. Robinson). Hey, hey, hey!




“A Primeira Noite de um Homem” consegue ludibriar (sempre no bom sentido) o público justamente por conta de sua bela aparência, de sua história muito bem contada, de seu bom humor confortante, de sua música tão bem sugerida e de sua astúcia incontável. Por que lá pela terceira ou quarta vez de visto, o espectador está menos virgem e mais ativo da situação e os planos menos aparentes do filme (que sempre estiveram lá) começam a ser tateados por um voyer, já um pouco mais entendido. Cai a ficha de que o filme se passa na década de 60 e o troço fica simples como matemática.
Claro: Revolução Sexual + Revolução Comportamental + Final do Sonho Americano + n = 1969;
Sendo n ≈ feminismo + Luther King + Kennedy + Guerra Fria + Guerra do Vietnã + Revolução Cubana + Brasília + Golpe Militar + hippies + Beatles + Stones + The Who + Clube da Esquina + Festivais + Tropicália + vídeo-tape + TV em cores + Globo + Brigite Bardot + Audrey Hepburn + Acossado + A Doce Vida + a Lua + as tais fotografias + o nascimento de meu pai + nascimento de minha mãe +∞.

“A Primeira Noite de um Homem” em todos os seus planos de entendimento torna-se um marco e ilustra, sem perder o foco do entretenimento, um momento de grandes transformações da sociedade mundial, além de ser importante responsável, visto sua repercussão, por uma revolução estética do cinema hollywoodiano. Transformação esta que detém a coragem de escalar o franzino Dustin Hoffman para protagonizar um filme e abandonar a figura do típico galã de até então, de entender a mocinha rica e bonita como perdida e despreparada para enfrentar o mundo e longe de vestir Givenchy, de revelar que a família norte-americana já não era mais a mesma e de que o lugar melhor que o lar poderia ser qualquer lugar.

Num resumão, filme de história excelente, personagens interessantes, humor leve e ácido, sem deixar de ser uma grande crítica e panorama das transformações sociais, comportamentais e sexuais presentes nos revolucionários anos 60.

Num resumão mais sintético ainda: Dá uma olhada no trailler para sentir o clima. Se não viu, veja, reveja!




Leandro Antonio
Sessões
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