quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Caju, Castanha e Walter Salles

Parece que a dupla de repentistas Caju e Castanha encanta o diretor Walter Salles, tanto que foram alvo de dois curtas-metragens. Um gosto duvidoso? Talvez, mas que eles são bons no que fazem, inegável. No primeiro, feito em 2002, chamado de ‘Uma Pequena Mensagem do Brasil’ ou ‘A Saga de Castanha e Caju contra o Encouraçado Titanic’, mostra a dupla com uma mini explicação sobre o ritmo e embolando sobre os astros da terra do Tio Sam, desde Stallone, passando por Schwarzenegger e terminando no ótimo Leonardo di Caprio, que, para eles, ainda era o galã do Encouraçado Titanic. A graça de misturar a cultura brasileira com os astros de Hollywood dá uma mistura interessante.


Pena que repetir a fórmula quase nunca dá bons frutos. Esse erro gerou um dos piores trabalhos da ótima coletânea ‘Cada um Com Seu Cinema’, e, ao meu ver, o pior trabalho do duo Salles e Thomas. ‘A 8 944 km de Cannes’ tenta homenagear Cannes e o Cinema ao som de repente e sem referências relevantes sobre a história do cinema mundial, com repetições nos ínicios dos ‘embates’ e apenas à frente de um cinema na cidade de Miguel Pereira/RJ beira o mal gosto, ao lado dos outros. Poderiam estar a 8 milhões de quilometros de Cannes. Veja o erro:


Tomara que Salles e Thomas não queiram fazer mais outros curtas com a dupla, até porque já deveriam ter parado no primeiro.

Vitor Stefano
Sessões

Entreatos

Nome Original: Entreatos
Diretores: João Moreira Salles
Ano: 2004
País: Brasil
Elenco: Luís Inácio Lula da Silva
Prêmios: Gran Coral - Segundo Melhor Documentário no Festival de Havana e Melhor Filme pela APCA.
Entreatos (2004) on IMDb


Eleição é tudo sempre igual. Escândalos, pesquisas, boca de urna, acusações, armações políticas, dossiês, corpo a corpo. Nunca muda e talvez nunca mudará. Mas nesse ano de 2010, teremos uma mudança. Pela primeira vez, depois do movimento ‘Diretas Já’, não teremos a Lula concorrendo à presidência. Ainda bem João Moreira Salles fez ‘Entreatos’ para perpetuar essa figura emblemática da nossa política.

Não sou lulista, petista ou partidarista. A figura de Lula sempre foi polêmica e tem o poder de dividir opiniões: ser amado ou odiado, reverenciado ou rejeitado, ser idolatrado ou ridicularizado. A figura dele supõe isso por seu modo de falar, por sua trajetória política ou pelo seu dedo cortado, mas negar seu carisma é tarefa impossível, seja com os eleitores, com os que o assessoram ou com a câmera. Nesse making of da campanha política do candidato do PT, vemos o mundo partidário de dentro, onde tudo é marketing. Sim, a política é o de menos. O que realmente importa são as dicas de Duda Mendonça, coordenação por Gushiken, acompanhado de Marisa, apoio da trinca Mercadante, Marta e Suplicy, e os toques maquiavélicos de José Dirceu ao companheiro Luis.

Quando as portas se fecham à câmera, isso é prova mais do que concreta que o meio político é sujo e nojento. A câmera registrando tudo, incomodava muito a quase todos que lá estavam. Parece que apenas Lula não se importa e faz dela um aliado, uma companheira. Ponto para JM Salles, que talvez tenha corrido mais riscos nesses bastidores políticos do que nas favelas com ‘Notícias de uma Guerra Particular’.

Não importam as promessas e as prozas dos comícios, os depoimentos e histórias contadas pelo personagem central atrás dos palanques, nos hotéis, nos QGs, no avião, sempre acompanhado de suas inseparáveis cigarrilhas são os momentos memoráveis das filmagens que aconteceram de 25 de setembro à 28 de outubro de 2002. Lula é, com certeza, nosso Forrest Gump. Mas o ápice do documentário é a ‘carona’ de avião que o jatinho da campanha dá a um homem que perdeu seu vôo. Esse ato mudou meus conceitos sobre esse Silva, que nem sempre foram boas.


Lula chegou lá e nesse entreato histórico, um presidente da elite transmitiu a faixa pela primeira vez na história desse país a um candidato que veio da classe operária. Um tabu quebrado e hoje, 8 anos depois, sem traumas negativos e ótimo saldo positivo. Lula não é Hitler e João Moreira Salles não é Leni Riefenstahl, mas a política e cinema sempre estarão ligados, ao menos deveriam. Não, você não verá a história de 'Lula, o filho do Brasil', mas sim a de, Lula, o filho da W. Brasil, da F-Nazca, da África, ou simplesmente, de Duda Mendonça.

Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Pelé Eterno



Nome: Pelé Eterno
Diretor: Anibal Massaini Neto
Ano: 2004
País: Brasil
Elenco: Edson Arantes do Nascimento
Prêmio: Award of the City of Rome no Festival de Cannes
Pelé Eterno (2004) on IMDb


Pelé: Futebol e... Estética?

Nas palavras de Romário, Pelé "com a boca fechada é um poeta". Poeta futebolistico imortalizado por Carlos Drummund nas reverentes palavras: "Difícil não é fazer mil gols como Pelé. Difícil é fazer um gol como Pelé". Caetano por Pelé disse "love, love, love". Para Jorge Ben "o nome do rei é Pelé". A Rainha da Inglaterra se curvou e lhe conferiu o título de Sir da Ordem do Império Britânico. Além de tudo, artilheiro quando a mulherada está em campo. Se é Pelé na terra e Deus no céu faça sua prece pois o anjo negro dará uma goleada em seus problemas!

Estava caminhando pela Avenida Ana Costa em Santos quando me deparei com um tumulto galante. Homens de gravata, jornalistas, mulheres bonitas, gente que não se vê pelos bares do Gonzaga pelas três da manhã bebendo itaipava. Fazendo as contas, na época estava com dezesseis anos. O Cine Roxi (hoje parte do monopólio Cinemark) era o palco para mais uma aparição do negão que conferiu a Vila Belmiro sua fama. E estava lá: Pelé, eterno? (Gabriel, ex ou atual, pensador diria que eu e o Pelé morreriamos da mesma forma). Era a pré-estréia do documentário "Pelé Eterno" que só fui assistir ontem, seis anos depois. Foi única vez que vi Pelé.

Assistindo as imagens do "deus negro" dá até orgulho de ter sido um torcedor mirim do Santos e ter terminado no Santos depois de ter virado a casaca várias vezes e, por fim me descomungar do futebol. Não me tornei ateu, mas em matéria de esporte, agora, sou agnóstico.

O que se reconhece nos lances de Pelé é uma tênue linha que separa o esporte da arte, um brilho absurdo e incontrolável, uma alegria descomunal que promove o desejo de sair gritando pela rua, um singelo gosto de partilhar a nacionalidade de um gênio da bola. Há nos lances de Pelé um certo lirismo, uma canção inaudível que retumba em direção as redes. Em seus passos, em seus passes, existe um timbre totalmente híbrido, uma conversa com Villa-Lobos, Machado de Assis, Nélson Rodrigues, Chico Buarque, Ziraldo, Tom Jobim. Nas aparições de Pelé há um quê de Vargas, de Mandela, de Obama. Embaixador dos campos verdes, colecionador de cifras, de gols, de vitórias, um homem para a glória. Há no futebol um brilho eterno que poderá ressoar na mais fervilhante permanência estética, uma fornalha impiedosa que soviéticos, suécos, chilenos e africanos aplaudiram, um caldo manchado de sangue, suor e lágrimas de uma nação, de um planeta e de um século XX em desibinida contradição.

Mas há também em Pelé o estigma do herói, do rei, do uno. O meia-atacante mais famoso, o jogador de futebol mais importante de todos os tempos é um dilema atropológico, um problema filosófico, um dilacerar literário. Tornou-se uma figura mítica, soberana, trancendente, tornou-se um herói. Pelé parou a guerra? Foda-se! No dia seguinte ela foi retomada. Mostraram ao mundo um mártir, um deus fabricado pelo talento e pela indústria do futebol. Virou então atração do circo das diversões públicas, o estádio de futebol. Esteve na distração de muitos povos e contrubuiu indiretamente, ou diretamente, para a manutenção do regime de horror dos militares no Brasil: "Pra frente Brasil!". Pelé levava consigo o mastro da vitória e empurrava a devoção pública em frente, rendidos à magia do futebol prodígio do Leão do Mar e da Seleção Brasileira. Colocou o Brasil no auge, no centro dos flashes, deu força a identidade nacional. Fez jus a tríade futebol-mulata-caipirinha. Há na trajetória de Pelé o indício da configuração de um arrebatador amor ao futebol, ocorre a formação de uma santificação deste esporte nas palavras "paixão nacional", tornar-se-ia então heresia máxima demonizar o futebol e seus enlaces. Com sua fama, seu dinheiro, o "rei" tentou empresas, tentou o cinema (tópico pitoresco em sua biografia), tentou a música (lamentavelmente), experimentou, pasmem, a política como ministro dos esportes quando implantou a polêmica "Lei Pelé". Eis que assim seria o Maracanã um coliseu anacrônico e a Vila Belmiro um palco de ensaios para um teatro esplendoroso e magistral. Em exacerbada relevância estaria o futebol em patamar de "pão e circo".



Essa curiosa dialética entre moribundos críticos da "arte futebolística" e os apaixonados defensores da bola na rede praticamente se anula em momentos cruciais. Vibrações, poemas, entorpecimento dão a contradição um ar de requinte, uma malícia que de tão perfeita se justifica religiosamente. A sacralização de Pelé e nossos outros inquestionáveis artistas das quatro linhas coloca o espetáculo público em intrínseca sintonia com o espírito nacional. O futebol é identidade nacional e Pelé é seu monumento mais místico. Nenhum artista da nação tupiniquim projetou nossa alegria ao mundo tal como Pelé.

Falo das tabelas com as canelas dos adversários, falo do "gol que não foi mas deveria ter sido", dos quatro chapéis, do gol aos trinta segundos, do drible em cinco adversários, das matadas no peito, dos "peixinhos", do tiro certeiro, da malandragem, do raciocínio rápido, da coerência, da força, dos passes imprevisíveis, da unanimidade criativa. Falo de imagens que se tornaram imortais, falo de um absurdo, de um furacão, de um rojão. Falo do jogador que teve um sua trajetória um banquete da bela arte futebolística. E falo, além de tudo, de um futebol que não se vê mais, que se perdeu pisoteado pelas pernas tortas de Garrincha, atropelado pelas bicicletas de Leônidas da Silva, que morreu em imagens incolores.

Outro espetáculo nos jogos era a torcida que ao comando espontâneo do "maestro" Pelé silênciava, gritava e aplaudia maravilhada. Talvez o mais aplaudido pelos jogadores e torcidas adversárias. A sinfonia de Pelé nos E.U.A. faz com que a platéia invadisse o campo, Pelé expulsa o árbitro de campo, Pelé é atração turística. Pelé virou lenda, a lenda virou Pelé.

E enquanto Pelé é Blockbuster, Garrincha é Cine Cult.
Enquanto Pelé é fanfarrão, Ayrton Senna é humanista.
Por um lado Pelé é único.
Por outro é mais um brasileiro.

E agora José?
Curvar-se, repudiar ou aceitar?

O povo brasileiro precisa de bola na rede e cerveja gelada, e eu, eu "quero ver gol".
Mas no fundo, no fundo, será mesmo que o Haiti não é aqui?

"Essa escada é pra ficar aqui fora"...

Mateus Moisés
Sessões

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Loin du 16u

Nome Original: Loin du 16u
Diretores: Daniela Thomas e Walter Salles
Ano: 2006
País: França
Elenco: Catalina Sandino Moreno
Curta-metragem parte do filme ‘Paris, Te Amo’
Paris, Te Amo (2006) on IMDb


Este curta mostra a Paris que não é tão iluminada assim. Ver imigrantes em sub-trabalho, como em todos os países do 1º mundo não é o aspecto mais belo, mas é o mais real, coisa que Salles e Thomas fazem como ninguém. Ana é uma jovem mãe que abandona seu filho em uma creche para atravessar a cidade e trabalhar como babá. Cuidar de outro filho é frutrante enquanto o seu está lá, à mercê. Mas essa é um dos percausos da cidade grande.

Um mini road-movie silencioso onde repensar a realidade e a crueldade que o mundo real pode trazer nessas cidades que nunca dormem. E dessa vez, a culpa não é da iluminação da tal Cidade Luz. Catalina, conhecida pelo ótimo ‘Maria Cheia de Graça’ está ótima com seu monólogo (quase) mudo.


A dupla faz um dos melhores curtas da coletânea ‘Paris, Te Amo’, diferentemente do que o curta ‘A 8 944 km de Cannes’ da miscelânia de ‘Cada Um Com Seu Cinema’.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Linha de Passe

Nome Original: Linha de Passe
Diretores: Daniela Thomas e Walter Salles
Ano: 2008
País: Brasil
Elenco: Sandra Corveloni, Vinícius de Oliveira, João Baldasserini, José Geraldo Rodrigues, Kaique Jesus Santos
Prêmios: Melhor Atriz (Sandra Corveloni) no Festival de Cannes, Festival de Havana, Prêmio Contigo de Cinema, Melhor Edição e Segundo Prêmio Coral do Festival de Havana, Melhor Filme, Melhor Diretor, Atriz Promessa (Sandra) e Ator Promessa (Kaique), Melhor Filme e Melhor Diretor e Prêmio Especial à Gustavo Santaolalla pela música no Festival Contigo de Cinema.
Linha de Passe (2008) on IMDb


Mais uma casa difícil. Depois de ‘Casa de Alice’, agora a casa de Cleuza. Como uma colcha de retalhos, uma colagem, ‘Linha de Passe’ viaja por cinco histórias que estão dentro dessa mesma casa, porém, rumam por lados totalmente diferentes. A Cidade Lider é o bairro. Líder em criminalidade, em decepções, em mals tratos do Governo. E dentro da casa, falta rumo, falta liderança, mas não faltam sonhos e metas.

Cleuza é uma mãe dedicada, fanática pelo Corinthians, doméstica e grávida de mais um filho com outro pai desconhecido para dividir o espaço com o aspirante a jogador de futebol Dario, ao evangélico fervoroso Dinho, o motoboy Dênis e Reginaldo é o caçula que gosta de anda de ônibus e sonha em encontrar seu pai. Essa é a vida de mais uma família paulistana como muitas espalhadas pelas periferias. Como numa autêntica linha de passe futebolística, as histórias vão sendo tocadas de pé em pé, cada um no seu ritmo e cadênca, ganhando força e densidade a cada troca de passe.

A periferia foi retratada com veracidade documental, à la ‘Notícias de Uma Guerra Particular’ apesar de estarmos diante de uma obra ficcional. Os dramas particulares são expostos e mostrados a carne sangrando cinza dessa cidade suja e que fazem questão de ignorar. E cada um tem o seu fim escrito, mas jamais visto. São apenas números para estatísticas, são apenas sonhos que não se concretizam, são apenas vidas, como tantas, que não terão final feliz.



Com ‘Linha de Passe’, a dupla Walter Salles e Daniela Thomas fazem sua segunda obra-prima juntos, sobre o mesmo tema, a realidade do país. Depois do sensacional ‘Terra Estrangeira’ de 1996, esse filme vem para provar que Salles Jr. pode ser mais do que tecnicamente perfeito, ele pode ser denso e político, mesmo sem culpar ninguem pelos problemas da casa de Cleuza. Waltinho prova que esse diminutivo ficou no passado, agora ele é Walter Salles Jr, graças à parceira Daniela. Destaques para a atriz Sandra Corveloni em grande atuação e de Gustavo Santaolalla, responsável pela bela trilha angustiante e marcante, como só ele sabe fazer.

Ouçamos Seu Jorge cantando composição de Nelson Cavaquinho - Juizo Final, parte da trilha sonora de 'Linha de Passe'.


O sol
Há de brilhar mais uma vez
A luz
Há de chegar aos corações
Do mal
Será queimada a semente
O amor
Será eterno novamente
É o Juízo Final, a história do bem e do mal
Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer
O amor
Será eterno novamente

Que assim seja!

Vitor Stefano
Sessões

sábado, 25 de setembro de 2010

Diários de Motocicleta

Título Original: Diarios de Motocicleta
Diretor: Walter Salles
Ano: 2004
País: Argentina, Brasil, Chile, Reino Unido, Peru, Estados Unidos da América, Alemanha, França e Cuba
Elenco: Gael García Bernal, Ernesto Guevara de la Serna, Rodrigo de La Serna, Alberto Granado, Mercedes Morán e outros.
Prêmios: Oscar (Melhor Canção, por Al otro lado del río), BAFTA (Melhor Filme em Língua não Inglesa), Goya (Melhor Roteiro Adaptado) e outros.
Diários de Motocicleta (2004) on IMDb

Ah! As paisagens da América – Como são bem encaixadas no retângulo-cinema! Salles, obrigado por todos os enquadramentos!

Homero não pode pensar uma Odisseia de um Novo Mundo, tarefa que ficou por conta de um diário, um objetivo e uma arte sétima.



Um jovem e suas aspirações, um amigo, uma moto poderosa... Elementos que não mostram o mito tal como nos fizeram conhecer até então. Elementos que revelam dois amigos em uma viagem que todo jovem-normal-louco-sonhador-sadio pode ter intencionado.

Filme completo em : http://video.google.com/videoplay?docid=-8008905145904557381#


Leandro Antonio
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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A Vereadora Antropófaga

Nome Original: La Concejala Antropófaga 
Diretor: Mateo Blanco (Pedro Almodóvar)
Ano: 2009
País: Espanha
Elenco: Carmen Machi, Penélope Cruz e Marta Aledo
Sem Prêmios
La concejala antropófaga (2009) on IMDb

 

Aqui Almodóvar volta a ser Almodóvar. Se você só o conhece pelos dramas, temas complexos e delicados que o consagraram nas duas última década, nesse curta a surpresa será grande. Impensável ver o diretor retornar ao que o fez nascer para o mundo, mas ele voltou. Um roteiro sagaz, inteligente, sexual, por vezes vulgar, mas genial, como só poderia ser - almodovaresco. 


E em época de eleição por aqui, só faltava mesmo uma candidata viciada em cocaína e em sexo. É tudo o que precisávamos nesse circo eleitoral, com o desejo sexual unificando o povo. Uma loucura saudável do diretor espanhol, que criou essa mini obra-prima pop na mesma época em que o drama 'Os Abraços Partidos'.


A risada é inerente, o sorriso é consequente e a antropofagia é delinquente, mas sem nunca perder as cores e a atmosfera de Almodóvar. Que te comam dos pés à cabeça.


Vitor Stefano

Sessões

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Central do Brasil – Poesia humilde

Nome Original: Central do Brasil
Diretores: Walter Salles
Ano: 1998
País: Brasil/ França
Elenco: Fernanda Montenegro, Vinícius de Oliveira, Marília Pêra, Soia Lira, Othon Bastos, Otávio Augusto, Stella Freitas, Matheus Nachtergaele, Caio Junqueira, Zélia Bastos.
Prêmios: Urso de Ouro (Melhor Filme), Urso de Prata (Melhor Atriz), Globo de Ouro (Melhor Filme Estrangeiro), BAFTA (Mlehor Filme em Língua Estrangeira), entre outros.
Central do Brasil (1998) on IMDb

Filmes passados passam ante aos meus olhos quando penso em Central do Brasil. O gosto por cinema passa por 1998, assim como a vida passou por aquele 1998. E Dora, te digo: Também tenho saudade de tudo.
Agradeço a poesia simples e ao Brasil que eu consigo encontrar no olhar de Josué, de Dora e o desejo de encontrar um Jesus pai. O que só existe, quando menino e bota na idéia. O que deixa de existir a custa de choro bom. O que mergulhado na ilusão, não deixa de ser verdade.


“Deixe-me ir, Preciso andar, Vou por aí a procurar, Rir pra não chorar...”

Leandro Antonio
Sessões

Adão ou Somos Todos Filhos da Terra

Nome Original: Adão ou Somos Todos Filhos da Terra
Diretores: Daniela Thomas, João Moreira Salles, Katia Lund, Walter Salles
Ano: 1999
País: Brasil
Elenco: Adão Xalebaradã
Sem Prêmio
Somos Todos Filhos da Terra (1998) on IMDb


A vida de Adão Xalebaradã mudou drasticamente após os irmãos Salles aparecerem em sua vida. Apareceu em ‘O Primeiro Dia’ de Walter Salles e ‘ficou conhecido’ pelo documentário ‘Notícias de Uma Guerra Particular’ de João Moreira Salles. De compositor de mais de 500 músicas e nunca ter gravado no país, Adão virou alvo de um curta-documentário sobre o artista deficiente da favela do Cantagalo, Rio, dirigido pelos dois irmãos e com colaboração das parcerias inseparáveis, Katia Lund e Daniela Thomas.

A vida de Adão é sofrida e através de suas letras, sempre com forte denúncias e crítica social, ficou conhecido no morro. E o documentário mostra exatamente o submundo da favela na voz de Adão. Mais do que o primeiro homem da terra, Adão agora é conhecido como o grito de socorro do morro do Cantagalo, só que sua Eva é sua cadeira de rodas. Depoimentos e pensamentos mostram a lucidez e a revolta do personagem.

Ao longo dos 8 minutos entoa as músicas: ‘Doce como Mel’, ‘Que Mundo é Esse’, ‘Semente Violenta’, ‘Escolástica’ e ‘Riqueza e Cultura’. Não chega a ser um rap, não chega a ter batida funk. Só ouvimos as palavras seguidas de batidas de dum coração sofrido.

Ouça ‘Escolástica’ de autoria do gênio urbano Adão Dãxalebaradã.



Adão faleceu em 20 de janeiro de 2004. Felizmente em 2003 ele finalmente conseguiu gravar seu cd e ficar imortalizado. ‘Escolástica’ foi lançada pelo selo Ambulante, dos produtores Antônio Pinto e Beto Villares. Para ouvir mais músicas dele, clique aqui. Além de estar presente nos filmes dos Salles, ele pode ser visto em ‘Cidade de Deus’ de Fernando Meirelles na pele de Pai-de-Santo.

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A Casa de Alice

Nome Original: A Casa de Alice
Diretor: Chico Teixeira
Ano: 2007
País: Brasil
Elenco: Carla Ribas, Berta Zemel, Vinicius Zinn, Ricardo Vilaça.
Prêmios:Melhor Filme Internacional no Festival Internacional de Chicago, Grand Prix e Pr~emio do Júri Jovem do Festival Internacional de Fribourg, Prêmio FIPRESCI do Festival de Guadalajara, Gran Coral de Prêmio Revelação do Festival de Havana, Menção Especial a Carla Ribas no Festival de Filme de Miami, Melhor Atriz (Carla Ribas) no Festival do Rio, Prêmio da APCA na Associação de Crítica de Arte de São Paulo e do Juri Internacional da Mostra de São Paulo, e Prêmios do TVE e CICAE no Festival de San Sebastián.
A Casa de Alice (2007) on IMDb


Era um casa
Muito triste
Não tinha pai presente.
Não tinha nada.

Ninguém podia dizer nada d’avó.
Porque era a única que fazia algo.
Ninguém podia dormir em paz
Porque tinham teto de vidro e não tinham alma.

Ninguém podia criticar o outro, não.
Porque na casa tinha não tinha perdão.
E temos muito que pensar
Porque a Casa da Alice pode ser a nossa,
Aquela que é feita de sem nenhum esmero,
na Rua dos Bobos,
Número zero.



Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Dúvida

Nome Original: Doubt
Diretor: John Patrick Shanley
Ano: 2008
País: EUA
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Meryl Streep, Amy Adams e Viola Davis.
Prêmios: Melhor Atriz (Streep) nos festivais: Broadcast Film Critics Association Awards, KCFCC Award, WAFCA Award, Screen Actors Guild Awards e no PFCS Award. Viola Davis recebeu os prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante nos festivais de Black Reel Awards e DFWFCA Award e de Melhor Atuação no NBR Award. Amy Adams recebeu o prêmio Spotlight Award no Palm Springs International Film Festival.
Dúvida (2008) on IMDb


Tenho algumas dúvidas. O que é a fé? Ela exisitiria se não houvessem mistérios indecifráveis? Há como provar o que a fé é capaz? Como sei que algo que nunca vi, senti ou ouvi, existe? Será que tudo o que nós pensamos sobre o extraterreno existisse, teríamos fé? A fé existe pra fugirmos do real e humano? A fé foi inventada por humanos? Para onde vamos depois dessa vida? A fé realmente move montanhas? ‘Dúvida’ só me deixou com mais dúvidas...

Por séculos a Igreja Católica foi única e absoluta na educação, nas doutrinas e foi condutora de todo o mundo. Inegavelmente Ela teve papel determinante na construlção do mundo que vivemos hoje, seja no pensamento, nos medos e nos ideais que consideramos até hoje. Porém, a base frouxa e a mudança de mentalidade da sociedade fizeram com que a relação humanos-igreja mudasse completamente. Não há mais o medo. Não há mais respeito. Óbvio que oscilações do comando da instituição papal e a relação com as monarquias destruíram a reputação do catolicismo. A credibilidade acabou. Sobraram os conservadores e os que buscam a nova fé cristã. E, certamente eles não se dão bem.

Philip Seymour Hoffman e Meryl Streep dão brilho a qualquer filme. Juntos, estrelam esse complexo drama. Ela é a Irmã Aloysius Beauvier, a conservadora que busca frear o fervor das mudanças que o Padre Flynn está incorporando à tradicional escola St. Nicholas, no Bronx. A problemática esta em torno do cuidado que o padre dá à Donald, primeiro jovem negro a ingressar na escola. Paira no ar a pedofilia. Hoffman e Streep a partir dessa suspeita aparecem como cão e gato, gato e rato, nazista e judeu, brancos e negros ou americanos e árabes.


Eles dão base à bela e jovem Amy Adams viver a ainda desnorteada irmã James, professora que ainda não sabe ainda por qual vertente seguirá, se será pastora do Padre ou cordeira da Irmã. Viola Davis, mãe do menino cuidado pelo Padre Flynn, está estupenda e grandiosa, numa atuação memorável, assim como Mo'Nique em Preciosa.



‘Dúvida’ é obrigatório para abrir o leque dos pré conceitos que temos da Igreja Católica, seja você, seguidor de qualquer tipo de religião ou ideologia. Porém, a dúvida sempre persistirá.


Vitor Stefano
Sessões

sábado, 11 de setembro de 2010

A Origem

Nome Original: Inception
Diretor: Christopher Nolan
Ano: 2010
País: EUA/Reino Unido
Elenco: Leonardo di Caprio, Marion Cotillard, Ellen Page, Joseph Gordon-Levitt, Cillian Murphy, Ken Watanabe, Michael Caine, Pete Postlethwaite e Tom Hardy
Prêmios: Filme do Ano no Hollywood Film Festival, Melhor Roteiro Original e Direção de Arte no WAFCA Award.
A Origem (2010) on IMDb



Não estamos em ‘Cidade dos Sonhos’, ainda não chegamos naquele nível. Também não estamos em Gothan City que Nolan criou para ‘Batman Begins’ e ‘O Cavaleiro das Trevas’. É um outro sentimento, outro mundo, outra realidade. Não sabemos o que é real e o que é sonho. Um conto de fadas, sem ‘Mágico de Oz’. Uma vida de faz de conta onde o que se sonha é real e o real parece não existir.



Freud disse que os sonhos são a “realização dos desejos”. Jung acredita que os eles são “ferramentas da psique que busca o equilíbrio por meio da compensação”. Nolan nos faz acreditar em tudo isso e um pouco mais, criando níveis mundos onde sonhar é a única permissão. Mas não pense em denscansar em paz. O mundo dos sonhos é como estar acordado. Nem no momento de paz e descanso deixamos os sentimentos bons nos consumirem. Nossa mente nunca pára. Somos arredios, individualistas, apaixonados e mesquinhos. Deixar um amor entalado, aprisionado no subconsciente e voltar lá apenas quando quiser, é triste, é degradante. É humano.


Um elenco majestoso para um filme de tamanha amplitude. Nolan encontrou a fórmula de fazer blockbusters de entretenimento com inteligência e complexidade. Intrigante e emocionante, sem ser clichê. Um elenco de primeira linha, com nomes consagrados, domados por Nolan, que se torna a cada filme um dos melhores diretores dessa geração. Um roteiro envolvente, completo e dinâmico, além da plasticidade visual e detalhamente técnico grandioso. Quem dera ser arquiteto pra criar os mundos de ‘A Origem’.

Em qualquer um dos cinco estágios de inserção e aprofundamento, o mundo que criamos nunca será perfeito, nunca terá paz. Estamos lá para conquistar objetivos, vencer inimigos, alcançar metas, roubar idéias dos outros, ser outras pessoas. Eu não quero isso pra mim! Ouvirei Je ne regret rien pois eu quero voltar para o mundo real, ver meu pião cair e nunca mais dormir. Não quero mais saber da origem de nada. Só quero viver, sem ter Cobb para me conduzir.



Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Dicas de Filmes Nacionais

Faça-se uma pergunta. Quantos filmes nacionais você viu nos últimos tempos? Porque não valorizamos nossa própria cultura? Isso é comum, pois até metade da década passada vivíamos na indústria do audiovisual um cenário decadente e sem esperança. Porém as coisas mudaram, muita qualidade e técnica foi incorporada nessa nova retomada do Cinema Nacional, porém o estigma ainda persiste. Dê uma chance às novas produções, diretores, atores... Perca o conceito formado com um péssimo momento que nosso cinema viveu. Tenha certeza, já superamos. Seguem algumas boas opções, diferentes do que você viu nos últimos tempos, para provar que vivemos um ótimo momento cinematográfico.

Estômago – Neste filme vemos a história de Raimundo Nonato, um cozinheiro nordestino, recém chegado à cidade grande. Na tela vemos dois momentos da vida dele. Uma na chegada à cidade e outro momento dele num presídio. Temos uma visão dele crescendo e aparecendo nos restaurantes da cidade e ao mesmo tempo não sabemos como ele foi preso, porém a história nos levará a entender tudo que aconteceu. ‘Estômago’ é um dos filmes mais harmoniosos e completos do cinema nacional dos últimos anos. João Miguel na pele do nordestino está numa interpretação impecável.


Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos – A estréia de Paulo Halm como diretor foi em grande estilo. A história de Zeca, um escritor de 30 anos que vive uma crise de criatividade e identidade. A relação com seu pai é conturbada e dura. Com a mulher Julia é infiel. Nem esses conflitos o ajudam a sair da claustrofobia de idéias que vive. Com frases marcantes, o maior trunfo do filme é nos remeter a problemas que passamos ou já superamos. Caio Blat, atuando ao lado de sua esposa na vida real, Maria Ribeiro, prova que é um dos melhores atores dessa nova geração do cinema nacional.



Cinema, Aspirinas e Urubus - um roadie movie pelo sertão brasileiro. O filme se passa em 1942 e conta a história de um alemão, foragido da II Guerra Mundial, que vem ao Brasil para vender medicamentos. Quem conta a história é Ranulpho, um paraibano que se torna amigo do estrangeiro. Com ajuda de um cinema ambulante, eles iniciam uma peregrinação pelo interior do Nordeste exibindo os benefícios da pílula à população. Um belo filme sobre amizade e com uma linda homenagem à 7ª arte. Lindo filme de Marcelo Gomes, um dos nossos maiores diretores da atualidade. Se você ainda não viu esse filme, não perca tempo e o faça aqui mesmo, no Sessões.


À Deriva – As belas praias de Búzios servem de plano de fundo desse lindo filme sobre problemas familiares. Aos olhos de Filipa, vemos os pais dela em crise. Deborah Bloch e o francês Vicent Cassel estão numa sintonia típica de casais em pé de guerra. Banhado de lindas imagens, trilha sonora envolvente e atuações maravilhosas, têm-se a impressão de vermos um casal comum, como outros que conhecemos, à deriva dos problemas, tentando salvar o relacionamento por conta dos filhos. Verdadeiro e simples, Heitor Dhalia, outro grande novo nome da direção, faz um filme comovente.


E você, quais filmes nacionais indica?

Parte desta matéria foi veiculada na Revista City Penha, edição 41, de setembro de 2010.

Equipe do Sessões

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Santiago

Nome Original: Santiago
Diretores: João Moreira Salles
Ano: 2007
País: Brasil
Elenco: Santiago e João Moreira Salles.
Prêmios: Melhor Documentário e Edição de Documentário do Grande Prêmio Cinema Brasil, Melhor Documentário do Festival de Miami e Festival Latinoamericano de Lima, e Grande Prêmio do Festival de Cinema Real de Paris.
Santiago (2007) on IMDb


Um drama profundo, com a densidade que só o branco e preto pode causar. Não pode ser um documentário. Não pode... Ver um único personagem na tela e aos poucos perceber que aquele ser não está sendo documentado, e sim quem está por trás da câmera, é totalmente surpreendente. Mesmo se for obra da casualidade, foi, certamente, genial. Ver profundamente o que não vemos à frente é o grande trunfo de ‘Santiago’, o documentário, não o personagem. Nas lembranças de Santiago, mordomo da família, além de sua história, a de João Moreira Salles está escancarada.

J.M. após 13 anos retomou a montagem do documentário. Santiago já havia morrido, restaram 9 horas de vídeo de incessantes pedidos de repetição ao documentado, milhões de páginas de dossiês sobre as nobrezas de todos cantos do mundo em 6 idiomas e as lembranças da mente de quem viveu com o mordomo argentino. Um bloqueio fez com que ele nem conseguisse seguir filmando há 13 anos e muito menos a narrar os fatos. Essa tarefa foi cumprida pelo seu irmão Fernando, que era mais do que apenas a vida de Santiago Badariotti Merlo, é uma ode à memória de Santiago sobre a família Salles. Há filmes que retratam o roubo de sonhos e da memória alheia. É exatamente o que João fez, cumprindo seu mea-culpa.

Pouco importa se ‘A Roda da Fortuna’ é o filme predileto do mordomo, se ele sabe tocar castanholas como um espanhol, se reza em latim, toca Bach como poucos. Esse documentário talvez só interesse à própria família Salles, porém tornou-se um marco, um ícone do gênero no país por sua suavidade, sensibilidade e por ser único. Como disse no início, não pode ser um documentário por emocionar tanto. Mas é, e basicamente sobre João Moreira Salles. Seus segredos são quase revelados, porém, nunca saberemos o que Santiago ia dizer.



Santiago mantêm-se dançando à la Fred Astaire ou fazendo sua inesquecível dança das mãos em outras vidas, integrando alguma nobreza de outros séculos, algo que sempre lhe pertenceu.

E espero que o personagem principal de ‘Santiago’ reconsidere e que não seja seu último trabalho como documentarista. É triste ver os gênios pararem. Atualmente J.M.S. se dedica ao Instituto Moreira Salles e à Revista piauí.


Vitor Stefano
Sessões
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