sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Sessões Dupla: A Pele que Habito e Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Nome Original: La Piel que Habito A Pele que Habito (2011) on IMDb / Män som hatar kvinnor Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (2009) on IMDb
Diretor: Pedro Almodóvar / Niels Arden Oplev
Ano: 2011 / 2009
País: Espanha / Suécia, Dinamarca, Alemanha e Noruega
Elenco: Antonio Banderas e Elena Anaya / Michael Nyqvist e Noomi Rapace
Prêmios: Sem Prêmios / Bafta de Melhor Filme de Língua Não Inglesa



Dentro de um calabouço de entranhas e neurônios estou após ver um filme que corre por veias que me lembro de ter passado, como um déjà vu, mas que insistem em dizer ser um caminho nunca antes visitado. Por "A Pele que Habito" entrei no cinema, vivi em angustias, pensamentos, intrigas, devaneios, desilusões, risos e tensão e assim que a luz ligou ouve-se: “É uma comédia, porra” com uma voz à la Peréio. Uma constatação obvia porra, ao sair dos filmes de Almodóvar. Há uma linha muito tênue entre o non sense, a comédia, o dramalhão e o suspense. Não, não é só uma comédia. É isso e muito mais, como sempre o é. Será que eu já não vi tudo isso só que estava em outra fantasia? Almodóvar pode ter trocado a pele de tudo e ter me enganado. E não quero descobrir, prefiro entrar no seu mundo e sentir cada poro dessa pele exalando o almadovarismo em cada frame.

uando não menos, vejo o nome “Os Homens que não amavam as mulheres”. Não há título mais provável para um filme do espanhol. Imagine as situações possíveis: a temática sexual, as cores quentes numa casa de campo em Olviedo, um homem forte, tatuado com um dragão nas costas, matador de mulheres inflamado por abusos de uma madrasta impiedosa na infância que age no ímpeto de vingar a sua honra perdida com um cabo de vassoura. Não há nenhum absurdo (não existem absurdos em filmes de Almodóvar) num enredo desses. Mas “Os Homens...” vem lá da fria Suécia e o diretor é o desconhecido (aos nossos olhos) Niels Arden Oplev. Não lotou cinemas no mundo todo por conta da estirpe do realizador, mas sim por conta do best-seller Millenium ser uma febre no mundo todo.

A mente humana é capaz das maiores atrocidades. Seja por motivações irracionais, políticas, sociais ou debilmentais, a História nos mostra que o ser humano é o responsável pela degradação da humanidade. Vingança, ira, desforra, punição, excitação, castigo, represália, pena, dó, insanidade, pesar. Não importa o sentimento, a reação tem efeito imensurável. Uma vida recheada de improváveis acontecimentos vai mudando a visão e a razão de vida de qualquer pessoa. Seja um médico renomado ou uma família com negócios bem sucedidos, todos, mais ou menos abastados, podem ser acometidos por um surto, por um minuto de fúria e virarem as pessoas mais cruéis, um futuro discípulo do tinhoso que agem apenas em razão própria de um sentimento irreal mas que é muito vivo.

Se o jornalista comunista Blomkvist é obrigado a sair de cena por conta de falsa acusação, mas logo é contratado para investigar o sumiço há 36 anos de Harriet Vanger, integrante de uma família tradicional, bem sucedida e rígida. Uma hacker punk com ares de autismo, perturbada por abusos seguidos, se junta a essa busca, encontra pistas em lugares mais incomuns com ligações cada vez mais intensas. O suspense de “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” está não apenas nas investigações das pistas, mas no comportamento constantemente dúbio das pessoas que estão na tela. Há muito mais do que um não amar pelas mulheres: a consciência é política até a última instância. Isso move o mundo, por mais obscuro que isso seja.


Como um corpo feito à mão, pedaço a pedaço, “A Pele que Habito” é uma colagem selecionada com os melhores fragmentos extraídos da excelente filmografia do diretor espanhol, do tema, passando pela indecisão de um gênero e pelo excelente retorno de Banderas-Almodóvar. Se “Abraços Partidos” foi uma quebra de estilo, uma mudança no perfil do diretor, agora estamos diante de um retorno retumbante a uma “nova” fase: o cinema do início da carreira com a fama e conhecimento técnico adquiridos ao longo do tempo. A fixação do cientista-médico pela paciente Vera é recheado de absurdismos tão eloquentes que caberiam em qualquer esquina. Depois de dedicar-se a uma mulher e filha suicidas, a vida ficou amarga e os motivos vão aos poucos se evidenciando diante da tela. Não estamos presos na história desde o começo, com aquele calor das cores e ternura, mas frame a frame vamos nos intrigando, entrando nas histórias, nas idas e vindas e na mente ora do Richard ora por Vera. E como retratar tão bem as visões masculinas e femininas. Apenas um ser assexuado ou hermafrodita o poderia fazer com conhecimento de causa. Almodóvar é hermafrodita mental, com a sutileza e a força em medidas exatas como em formula mágica. Consegue prender a qualquer gênero sem tomar parte e sem se esquecer de sua obrigação social, política. Almodóvar se reinventa e cada vez melhora. Gênio.



De suspenses vivemos, pelas tensões respiramos, pelos sustos crescemos e só assim constituímos uma sociedade melhor. A cada dia vivemos lembrando e esquecendo coisas que nunca deveriam ter acontecido, mas só assim podemos crescer. A vida vista pelos olhos do cinema pode ser cruel, inventiva, ficcional, mas a vida real pode ser ainda pior. “A Pele Que Habito” já é um clássico. “Os Homens Que Não Amavam As Mulheres” é um embrião de uma trilogia que entrará na história. E ainda haverá a versão americana (sim, vi Daniel Craig no papel de Blomkvist) aos olhos de David Fincher. A premissa é excelente, a equipe é de primeira, a história é de suar frio. De qualque modo, ainda bem que os ianques não refilmaram nenhum filme do Almodóvar. E não importa se é espanhol ou nórdico, cinema bom tem no mundo tuodo! Vivam as mulheres! Vivam os pensadores! Viva a política! Viva Almodóvar! Viva o suspense que nos motiva a respirar! Viva a vida!


Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Foi Apenas um Sonho

Nome Original: Revolutionary Road
Diretor: Sam Mendes
Ano: 2008
País:EUA e Reino Unido
Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet e Michael Shannon
Prêmios: Globo de Ouro de Melhor Atriz
Foi Apenas um Sonho (2008) on IMDb



Viver no mundo da lua é mais real do que as pessoas imaginam, apesar de vivermos sob a batuta da realidade nua e crua, sem pensamentos livres, sem ideais, sem vida livre. Mas sem ter sonhos uma mente é apenas um pulo no escuro vazio e sem chão, um labirinto espelhado sem saída, um lago sem água onde nadamos com monstros e baleias falantes. Viver num mundo de Oz onde a vida real não tem pauta é como viver apenas um sonho. Porém nem sempre sonhar é projetar um bom futuro. Vamos viver de sonhos, dos mais complexos, dos mais arquitetados, dos mais vivos, do sonho da vida livre e real.

Frank e April são um casal em crise em meados dos anos 50 nos Estados Unidos. Vemos que se amam, mas a monotonia os acometeu e o tédio vai desmoronando cada sentimento que foi construído no passado. Ele trabalha para sustentar a casa e ela, atriz frustrada, se dedica a ser dona-de-casa para cuidar bem da casa de seu marido. Uma vida comum, como de milhares de pessoas ao redor do mundo. Monótona, chata e vazia. Na tentativa de mudar de vida eles decidem mudar-se para Paris e iniciam uma busca por um sonho distante e nem tão querido assim.


A vida de conveniência, cheia de sorrisos falsos, jantares de aparência e beijos insinceros, são estuprados com a presença do filho da vizinha onde se inspira e pronuncia verdades inenarráveis sobre as conveniências da hipócrita sociedade. Paris existe num sonho distante, mas a realidade é a Revolutionary Road. A revolução não existe sem ideal, e ali não existem ideais, mas sim conformismo. O medo da fuga esconde toda a criatividade implícita no casal. Um casal que descobre a cada frame que o amor que os unia nunca existiu na verdade e não é nada fácil aceitar essa realidade. Por olhares diferentes vemos um morro desmoronar como se chovesse por dias seguidos. Uma miséria da humanidade sem espaço para o sucesso.

“Foi Apenas um Sonho” é um dos filmes mais impactantes dos últimos tempos. Vemos um casal que ficou conhecido, amadureceu e brilha juntos após um estouro catastrófico num pesadelo da indústria cinematográfica real. Com categoria e espantosa força o casal Di Caprio e Winslet brilham num céu de brigadeiro num drama com ares de Truffaut, mais próximo da realidade é impossível. É cru, nu, escalpela o mais utópico. Relacionamentos sempre terão espaço no cinema, seja por romances ou por dramas, sempre há o que explorar dessa difícil forma de viver junto a uma pessoa que não é você mesmo. Sam Mendes não é Truffaut, mas, com esse e com "Beleza Americana" é o melhor realizador sobre relacionamentos dessa geração - cada geração com o que merece. Não temos aqui “A Mulher do Lado”, mas temos uma pessoa ao nosso lado que conhecemos a cada segundo mais e cada vez mais não conhecemos a nós mesmos. Lindo filme sobre o vazio que pode acometer o mais puro dos animais que podem se relacionar. Apenas um sonho lindo, triste e emocionante.


Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Frases do cinema

Era 1927, a sétima arte presenciava suas primeiras palavras articuladas por lábios humanos. 'The Jazz Singer' (O cantor de Jazz) revolucionou a arte de fazer filmes, dali em diante o público queria o novo cinema - o cinema falado. De lá para cá também são muitas as frases que tornaram-se imortais, sonoras, inesquecíveis, clássicas, bordões, enfim. O tema do post é "Frases do cinema". Aí vão dez frases que considero memoráveis, fortes, clichês ou sei lá o que... são frases, não precisa explicar muito. Os comentários estão à disposição para você partilhar as suas citações também. Mãos à memória:

“Deus é minha testemunha, nunca passarei fome novamente!”
... E o Vento Levou



"Que a força esteja com você."
Star Wars




"OK, Sr. DeMille, eu estou pronta para o meu close-up."
Crepúsculo dos Deuses



"Eu amo o cheiro de napalm pela manhã."
Apocalipse Now



"Rosebud"
Cidadão Kane



“Eu vejo gente morta.”
O Sexto Sentido



“Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno porra!”
Cidade de Deus



“Você está falando comigo?”
Taxi Driver



"Abra a porta, Hal."
2001: Uma Odisséia no Espaço



"No hay banda."
Cidade dos Sonhos



Daria para fazer uma lista de centenas. Comentários a serviço disto. Mande aí, frases do cinema.

Leandro Antonio
Sessões

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Happy Feet


Nome Original: Happy Feet
Diretor: George Miller
Ano: 2006
País: Austrália e EUA
Elenco: Elijah Wood, Brittany Murphy e Hugh Jackman
Prêmios: Oscar e BAFTA de Melhor Filme de Animação, Globo de Ouro de Melhor Canção.
Happy Feet: O Pingüim (2006) on IMDb


Ser diferente numa sociedade tão rígida é um desafio para todos. O diferente tem que entender aonde está e os “normais” hão de compreender a diferença do outro. A deficiência não deveria ser um fator exclusivo. O bem comum só vem quando compreendemos que todo somos diferentes. Os estereótipos são criados por uma sociedade que vê na busca da perfeição um modelo de sentir-se parte dessa merda dita social. Eu não vivo por ser igual aos outros. Eu não quero ser como o meu vizinho. Eu não vou olhar as conquistas de outrem com inveja e meta. Eu quero ser eu mesmo, aonde estiver, como estiver e da forma que precisar.

O pequeno pingüim Mano mostra desde o nascimento que é diferente dos portentosos pingüins imperadores. Sua aparência já não é comum, mas quando ele vai tentar cantar, como todos seus “iguais”, a decepção é enorme. Todo pingüim deve ser afinado e ter uma música do coração para conquistar a sua amada. Mas o talento de Mano é outro: ele sapateia como ninguém. Como ninguém mesmo, o que era visto como uma grande deficiência. Seu pai é um espelho da comunidade dos imperadores, sempre o controlando para que ele fosse um pingüim comum. Sua mãe sempre defendendo e buscando ser compreensiva com a esquisitice. Gloria é a pingüim que ele quer impressionar mas sem cantar, nada feito. O sumiço dos peixes vem causando grandes problemas para os pingüins. Uma sociedade opressora com os catedráticos ranzinzas e julgamentos de valores. Lembra alguma que vocês conheçam? Mano terá que sair e buscar seu próprio rumo.



Com músicas, cantorias, lindas imagens, mergulhos impressionantes “Happy Feet” consegue prender pela trilha e pela qualidade da animação gráfica. O filme ganha força quando Mano encontra uma sociedade de outra raça de pingüins que não cantam, não é controlada e querem mesmo é curtir a vida, apesar dos problemas. Mano se sente realmente em casa por poder dançar e ser admirado por isso. Com um sotaque chicano, esses pingüins sofrem como os anteriores mas são destemidos, crêem na palavra dos outros. Apesar da veia cômica, há também o drama de Mano estar longe de casa, sem os pais e sem seu grande amor, Gloria. Mas Mano sabe que os Ets (seres humanos) estão por algum lugar causando todo mal e ele vai descobrir e salvar todos os pingüins do mundo.

Quem dera um pingüim dançarino pudesse comover todo o mundo em torno do problema com a poluição e pesca descoordenada. Quem dera um simples passo inusitado fosse responsável por mudarmos a consciência acerca de algum problema realmente sério. Em época de consumo de informações instantâneas, os 15 minutos do pequeno pingüim o levariam a alguns milhares de visitas no Youtube, aparição em alguns jornais televisivos e, caso fosse um sucesso muito expressivo, poderia virar mascote de alguma ONG sem vergonha que só come animais criados em cativeiro,que só comem verduras com sabor de agrotóxico e que lutam para poder fumar seu baseado sem ser importunada pelas autoridades. Um ‘pé feliz’ não conseguiria fazer nada disso. Conservação dos mares, problemas que uma sociedade opressora causa e aquela alfinetada na América em contrapartida da felicidade dos latinos são as grandes mensagens que o filme passa mas que são apagadas por conta de um final tão utópico. Isso faz de “Happy Feet” um filme para crianças inocentes e que não entendem o que dizem, apenas ficam encantados com uma ave dançarina e as imagens lindas que essas animações podem proporcionar. Um animal na jaula que não sabe o que realmente acontece na vida real, e quem criou esse filme ouviu muitos contos de fadas quando era criança.


Vitor Stefano
Sessões

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...