sábado, 31 de março de 2012

Xingu


Nome Original: Xingu
Diretor: Cao Hamburguer
Ano: 2012
País: Brasil
Elenco: João Miguel, Caio Blat e Felipe Camargo
Prêmios: 3º lugar no Panorama Audience Award do Festival de Berlim.
Xingu (2012) on IMDb



Se nos contassem a verdade durante o ensino médio, deveríamos aprender um pouco mais da história real. Conquistar o Oeste é história boa para os faroestes dos engomadinhos além do Equador. Para nós, conquistar territórios mata adentro só significa crescer em mediocridade em busca de hectares para mostrar quem é mais poderoso. Exterminar a história que realmente construiu esse território não é nada orgulhoso, muito menos por terem tornado esse solo vermelho, mas de sangue.  Leonardo, Claudio e Orlando Vilas Bôas são verdadeiros heróis nacionais. Não, eles nunca conquistaram um campeonato ou uma vitória, mas eles preservaram o que há de mais genuíno nesse Brasil. Aliás, a única faceta realmente brasileira. Que o índio passe a ter a verdadeira importância que merece. O índio é o verdadeiro brasileiro. Brasil deveria se chamar Terra Vermelha.

Aos olhos de Claudio podemos acompanhar a jornada espetacular que os irmãos seguiram. Não existem motivações ou porquês. Eles apenas vão ao meio do país e comandam uma expedição para desbravar o desconhecido. Sem tecnologias ou aparatos, conseguem contatar povos nunca antes tocados, que nem sabiam o que era um branco. Os vermelhos estão lá, sempre estiveram. Qualquer aparição diferente seria motivo para estranhamento. Mas com a inteligência e audácia dos irmãos, a convivência foi possível e agora podemos dizer necessária. Não fosse assim, não existiriam mais aldeias, só teríamos estradas. Os envolvimentos, as expedições, as brigas, os romances... não preciso contar nada. Ver o filme é o melhor modo para entender o que quero dizer. Não é necessário falar de sinopse, da história, é preciso ver.

Cao Hamburguer consegue extrair das telas uma paixão, uma ternura onde passamos de burros conservadores a nacionalistas inflamados. Consegue mostrar que o que todos nós fazemos é muito pouco. Que o que fizemos com os índios durante esses 512 anos foi o maior genocídio da história. Hitler deve ter orgulho de nós, brasileiros. O filme é tecnicamente impecável, como sempre são as produções de Cao e mantendo a qualidade que nos emocionou com “O Ano...” . Cao está num patamar acima, pois sabe como poucos mostrar a essência humana através das lentes. Fez mais do que um filme, mais do que uma homenagem, contou a nossa história. É um filme que todos devem ver, que escolas devem usar para ensinar, que os pais devem mostrar aos filhos como podemos ser.

Além do diretor, a escolha de elenco é um Oasis aos amantes do cinema nacional atual. Temos na tela dois dos melhores atores do nosso cinema contemporâneo: João Miguel e Caio Blat são de tirar o fôlego. A câmera e eles tem uma relação como de marido e mulher em lua de mel. Completando com o sumido Felipe Camargo que também está estupendo. A história desses verdadeiros super-heróis que com uma força sobre humana, conseguiram atingir um sonho que aflige nossa sociedade atualmente: como combater o sistema. Eles conseguiram, com muito custo e doação. Precisamos nos doar mais, nos envolver mais, dar mais nossa cara a tapa para conseguir que esse Território vire um país decente para se viver. Os Vilas Bôas já começaram, não vamos ficar de braços cruzados esperando que outros Fernandos, Claudios e Orlandos apareçam. Não vão aparecer.


Xingu é eterno, o Brasil pode morrer. Vá ao cinema!

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 23 de março de 2012

Raul Seixas: O Início, o Fim e o Meio

Diretor: Walter Carvalho
Ano: 2012
País: Brasil
Raul - O Início, o Fim e o Meio (2012) on IMDb


Porque eu fui o primeiro, e já passou tanto janeiro...





Raul Seixas cantou essa verdade na música Eu também vou reclamar, lançada no clássico Há 10 mil Anos Atrás, em 1976. E taí uma bela afirmação – antes de qualquer coisa poder ser chamada de “rock nacional”, Raul com 12 anos já queria ser Elvis Presley na Bahia. Com as golas da camisa levantada e o cabelo imitando o ídolo, Raulzito era o estereótipo do rock: um estranho no ninho, não sabia muito bem o que fazer, como tocar, não queria estudar… Conseguiu encontrar uns malucos (quase) que nem ele e montou o Panthers, que depois se tornariam Raulzito e Seus Panteras, primeiro grande passo na trajetória desse lindo.
Seu caminho até a fama não foi óbvio: montou uma banda, foi produtor musical e só com 28 lançou seu primeiro CD, Krig-ha, Bandolo!, que já tinha de cara Mosca na Sopa, Metamorfose Ambulante, Al Capone e (pausa dramática) a minha música favorita dele:Ouro de Tolo.

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado…
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto “e daí?”
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado…
Esse começo da vida da vida de Raul Seixas, mais Caetano Veloso – de quem Raul não gostava nem um pouco, talvez uma inserção proposital do diretor – interpretando a canção acima, mais histórias de rir (e outras de chorar) e muitas outras músicas estão bem retratadas no documentário Raul Seixas: o início, o fim e o meio, que chega aos cinemas amanhã. Todo mundo vai falar da cena que mostra uma pequena mosca pousando no Paulo Coelho, mas eu não vou falar dessa parte só pra boicotar um pouco o cara, já que minha simpatia por ele não aumentou mesmo depois do doc. Quero falar de outros detalhes que você não pode deixar passar quando for ao cinema nesse fim de semana.
Repare nas escolhas inteligentes feitas nos cortes dos depoimentos. Em vários momentos, parece que os entrevistados conversam entre eles: ora concordando entre si, ora discordando e provocando cenas de humor involuntário. Repare na cena inicial, no sósia de Raul desfilando de triciclo (ou uma moto, agora não lembro), numa referência ao clássico Easy Rider, símbolo da contracultura que, por sua vez, era tão bem simbolizada por Raulzito.
Repare nas letras, até na dos hits. Composições autobiográficas, tristes, zombeteiras, tudo passa pelo catálogo dele. Raul manteve sua imagem longe de movimentos da época, como a Tropicalia, preferia falar para o povo através de palavras simples que juntavam um significado profundo às suas canções (vide Canto Para Minha Morte, que encerra a película). Mesmo com o apelo popular, sonhava com um lugar diferente, com um mundo mais livre e menos careta. Repare na dor e na tristeza das últimas apresentações de Raul, quando ele em muitos momentos parece desamparado, desaparecendo lentamente.
Não dá pra entender totalmente o fenômeno Raul, mas dá pra entender porque ele arrastou e ainda arrasta seguidores que nem estavam vivos quando ele já definhava. Dá até pra olhar com mais carinho da próxima vez que você ouvir um TOCA RAUL! Como ele mesmo disse: “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas quando se sonha junto, é realidade”. O sonho de Raul perdurou porque encontrou eco em muitos jovens que também não encontram um lugar nessa sociedade falida.
Nesse fim de semana, vá ao cinema. E chore, e dê risada, e preste, ainda que silenciosa, uma homenagem à Raul Seixas. Ele merece.

Uma contribuição de Chloé Pinheiro para o Sessões.

segunda-feira, 12 de março de 2012

O Porto


Nome Original: Le Havre
Diretor: Aki Kaurismäki
Ano: 2011
País: Finlândia, França e Alemanha
Elenco: André Wilms, Kati Outinen e Blondin Miguel
Prêmios: FIPRESCI no Festival de Cannes.
O Porto (2011) on IMDb



Em tempos de redes mundiais, de conexões supersônicas, de relacionamentos à distância, quando a verdade aparece dentro de um container somos levados a crer que o mundo envereda para um abismo sem fim. Ver seres humanos fugindo da realidade, indo para um mundo que não lhes pertence em busca de uma felicidade que não existirá. O mundo é de todos, mas nem todos tem direitos iguais. Vemos em cada cidade pequenas Torres de Babel onde a diferença das raças, nacionalidades, línguas se misturam numa linguagem universal: a intolerância. O ser humano é racionalmente irracional para dividir pertences que não lhes pertence, incapaz de dividir o pão de cada dia, a terra que habita a pele que queima num sol de noite enluarada. Não há esperanças para terras onde humanos ainda reinam e não pensam. As esperanças estão concentradas em pequenas atitudes de pessoas espalhadas em cantos encantados pelos portos e estações. A vida só será melhor quando todos olharem para os outros e se verem – quando o porto estiver dentro de si - quando olhar para o próximo seja mais do que apenas ver.


A vida pacata em Le Havre é tudo o que um boêmio como Marcel queria: calma, paz e um cantinho para descansar a carcaça ao lado de sua esposa Arletty. Um vilarejo simples que podemos ver na abertura de um guarda roupa. Quando sua mulher é acometida por uma doença que não conhecemos e não temos esperança que ela continue bem, Marcel, que vive de engraxate, passa a ter um contraponto em sua vida: Idrissa, ou podemos chamar de o anjo que caiu do céu. A olho nu, ele seria apenas mais um, aliás, menos um, pois os imigrantes são invisíveis ou procurados com a faca nos dentes. 

Ao ver o Sr. Marx acolher o menino congolês foragido, “um terrorista”, que viajara dias dentro de um navio dentro de um container para chegar à terra prometida, Londres, a procura de sua mãe, em busca da ressureição. O socialismo incrustado no nome de Marcel faz com que as pessoas a seu redor olhem para a situação com olhos de afeto, com olhos fraternos.  Sensibilizados o ranzinza verdureiro, a mão de vaca padeira tornam-se um abrigo, para não dizer porto, às aventuras suburbanas a qual a dupla Marcel-Idrissa correrão na busca do velho em ajudar o novo a encontrar o caminho – incerto, mas satisfeitos por estar realizando um sonho de uma criança sem sonhos.


Fábulas contemporâneas como essa de Aki Kaurismäki aparecem para nos aquecer as esperanças de que dias melhores virão. Um conto de fadas com fadas sem asas e sem aboboras que viram carruagens. A verdade é muito menos criativa, mas a possibilidade de ver uma alma esfacelada sorrir nos faz pensar que somos apenas aquele grão de areia dentro de uma praia indevida para banho, mas que se unirmos as forças, podemos ser levados pelo mar e sermos felizes para sempre com quem quisermos. As esperanças surgem a cada respiro, pois apenas poderemos viver de milagres, pois o pessimismo já está osmoticamente em nosso ser. De risos inimagináveis a uma aprensentação de um rockstar local, o filme é um sal de frutas na azia que o mundo moderno nos causa. Se quiser sair do cinema com a alma limpa, um sorriso no rosto e uma ponta de esperança no coração vá ver o maravilhoso “O Porto”. 

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 6 de março de 2012

A Separação

Nome Original: Jodaeiye Nader az Simin
Diretor: Asghar Farhadi
Ano: 2011
País: Irã
Elenco: Peyman Moadi, Lelila Hatami, Sareh Bayat, Shahab Hosseini e Sarina Farhadi.
Prêmios: Oscar, César e Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Não Inglesa, Urso de Ouro, Prêmio do Júri Ecumênico e Urso de Prata de Melhor Ator e Atriz no Festival de Berlim.
A Separação (2011) on IMDb



Dividir, Desagregar, Desanexar, Desmembrar, Desintegrar. Não importa qual é a palavra, a separação é a morte em vida. Um mundo que desmorona e encobre as almas puras e sonhadoras que construíram uma história e descobrem que chegou o momento de voltar para o mundo real, irreal. A convivência cria, divide, humaniza, ensina. A vida a dois depende da boa vontade, de ideais e de leis internas bem esclarecidas e reconhecidas pelas partes. A vida a dois é difícil, mas buscar a morte desse conjunto criado com tantos sentimentos positivos catapultando tudo que foi criado em detrimento de um futuro incerto é absolutamente amedrontador, corajoso, apreensivo. Uma separação nunca será fácil, muito menos quando se vive num país onde não sabemos mais o que é a liberdade e até onde a religião nos amputa a pensar como seres humanos que somos, mas, por vezes, não parecem.

Estamos diante de um casal que está olhando para frente, mas em caminhos divergentes. Eles discutem a separação e, nós, como juízes, ouvimos as explanações e os motivos pelos quais olham em estrabismo. Um abismo entre pensamentos. Simin quer fugir e dar a oportunidade para que Termeh conheça o mundo que ela acredita que exista fora do Irã. Já Nader não consegue deixar suas raízes, muito menos seu pai com Alzheimer e que já nem se recorda de quem criou. O Irã é uma ilha isolada no mundo, particular, única – um país dirigido por ditadores, feito por rebeldes, controlado pela religião e que resiste pelas mentiras. Em “A Separação” vemos tudo, aliás, temos a impressão que vemos tudo, mas a verdade é que a verdade exibida a cada frame está sempre atrás do temor pela punição divina ou da consciência.


O divórcio não sai, mas Simin volta para a casa da mãe e Termeh opta por ficar com o pai, inclusive para ajuda-lo com o seu avô. Nader precisa de alguém para ficar com o pai enquanto está no trabalho e Razieh é a opção que lhe aparece. Muçulmana convicta e devota, um anjo, uma abnegada, uma pessoa que vive para não cometer pecados. O medo a persegue, uma frágil porcelana que parece se quebrar num primeiro toque. De aprendiz de governanta de um homem a acusante de assassinato de seu filho, um feto, por um empurrão a dissimuladora da verdade a desesperada para salvar um marido que tem o juízo do outro lado da fronteira a uma mulher enclausurada por baixo da burca e da vergonha. Um ato impensado, uma omissão, uma mentira muda todo o contexto. A vida de todos os envolvidos nunca será a mesma. Além da separação em andamento, um julgamento sobre o assassinato do não nascido toma frente. A morte e a vida são frágeis demais para serem julgados por um mero humano.

Em um país onde respirar pode ser uma ofensa ao regime ou ao Corão, “A Separação” nos aproxima de um mundo particular e impenetrável. Vemos que por conta dessa separação do mundo, o Irã dos carros franceses, dos celulares japoneses é por vezes muito mais próximo do que imaginamos. Vemos que apesar das distâncias, fronteiras, costumes, sistemas políticos e religiões o mundo é muito mais próximo do que nos vendem: a mentira é o sistema que rege todo o globo. Uns por prazer, outros por ganância, outros para criar um mundo perfeito. Se vemos tantas explosões, clichês, romances novelescos no cinema, quando nos deparamos com uma verdade, entendemos que o cinema pode ultrapassar todas as fronteiras e todos os moldes já criados. “A Separação” vem para mostrar que o mundo real é mais cruel do que as fábulas que vemos na tevê.





O filme é absoluto em cada minuto. Tira o fôlego, diz tudo sem precisar falar muito. É de sutileza imperceptível o arrombo que causa em nossas profundas almas com os olhares sensíveis e sem rumo dos personagens que vemos na telona. Farhadi conseguiu extrair a melhor expressão do que é o Irã aos nossos preconceituosos olhos através de um roteiro minucioso e costurado com muito zelo. Vemos que a partir do olhar de uma criança a liberdade, o medo, a indecisão, mas sempre com a vontade de seguir em frente, de ver a família unida. Aos olhos de uma criança a mentira é o pior dos pecados. Que pena que não existem mais olhares de crianças nesse mundo sem verdades. “A Separação” é destruidor, desolador, arrebatador


Vitor Stefano
Sessões
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