terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O Equilibrista

Nome Original: Man on Wire
Diretor: James Marsh
Ano: 2008
País: Reino Unido e EUA.
Elenco: Philippe Petit
Prêmios: Oscar, Bafta, Sundance e Toronto de Melhor Documentário.
O Equilibrista (2008) on IMDb

Um ponto no céu, inidentificável, causa pânico, clamor, espanto, curiosidade para descobrir o que acontece lá em cima entre aqueles dois prédios. Seria um pássaro, um avião (isso aconteceria anos depois), um super-herói? Talvez tudo isso. Talvez seja apenas um louco, um desvairado, um mágico. Philippe é o nome dele, mas ele não está só. Rodeado de amigos, conta a história que ficou na história, num ponto em que o que ele fez não poderá nunca mais ser feito. Tudo culpa de um tal avião. Dois.

A história de Philippe Petit teria de tudo para não dar nada certo. Mas só os ousados fincam seu nome nos livros e são dignos de que os fatos reais virem contos. Um tipo de ousadia que só os corajosos adidos de um pó de coragem e um toque de divindade. Atravessar um vale através de um cabo de ferro é algo comum para quem vai a circos, mas não para quem habita o asfalto e não se atenta a olhar para o céu, nem mesmo para buscar o sobrenatural. Se o francês não fosse um transgressor por natureza ele jamais sobreviveria nessa terra de coroinhas de uma fé que não acreditam.


Ver suas façanhas, ouvir as versões, ver imagens históricas do homem sem asas que voava por cima de nossas cabeças é uma experiência memorável, inesquecível e desafiadora. Não, eu não vou pegar um bambu e sair andando por uma corda ligada por duas torres, mas vou arriscar, ousar mais. Nessa terra de gigantes, ninguém consegue destruir o sistema se não voar alto, se não tiver colhão. Um ótimo documentário sobre uma pessoa marcante, histórica, esquecível, mas que agora estará na mente de muitos de seus iguais por querer ser igual a ele, mesmo sem pisar num cabo de aço. Se é tudo uma invenção e uma história criada, ah, de que importa. Isso tudo é um marco maior que qualquer (história inventada de) World Trade Center.

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Mother – A Busca pela Verdade

Nome Original: Madeo
Diretor: Joon-ho Bong
Ano: 2009
País: Coréia do Sul
Elenco: Hye-ja Kim, Bin Won e Ku Jin Prêmios: Melhor Atriz (Hye-ja Kim) no Asian Film Awards e SIGNIS Award no Festival de Mar del Plata.
Mother - A Busca Pela Verdade (2009) on IMDb


Ser mãe é um sentimento que não dá para descrever. Saber como é ter uma vida dentro de você, dependendo de você, cuidado por você é ... Não adianta ficar devaneando sobre como é essa sensação, pois não chegaria perto de conseguir descrever nem mesmo assim. Mas se nem todos saberão como é ser mãe, todos sabem como é ser filho, mesmo os órfãos, sabem como é não ter uma mãe. É um amor indescritível, uma querência inquestionável, uma história única... Não dá pra descrever... É uma história incrível, cada uma diferente da outra, mas o sentimento é (quase) sempre igual.

Vemos uma mulher, já judiada pelo tempo, é uma dessas mães que vivem por essa terra. Mãe solteira que cuida de seu único filho Do-Joon (Bin Won), um menino de 27 anos, mentalmente incapacitado, mas que tem muita liberdade, muita vontade própria, amigos, vontades. Rodeada de ervas curandeiras e exercendo a acupuntura de forma irregular, ela só tem uma missão: manter seu filho bem, feliz, cuidando de cada espacinho daquele corpo frágil – idolatrando o seu eterno pequeno. Mas um tenebroso assassinato no vilarejo faz de Do-Joon um suspeito. Um bode expiatório. É mais fácil acusar um ser humano incapacitado do que qualquer outro malandro que rondeia as imediações.

Com cenas memoráveis, Mother se torna um grande conto à medida que a história vai sendo contada, minuto a minuto, com seu enredo de nuances multicolorido, como uma aurora boreal, que vai de suspense a momentos de riso incontroláveis em questão de cenas. A angustia vai ganhando espaço, chegando a causar cegueira, uma demência que apaga a história. A jovem morta de forma sobrenatural e a investigação sobre o caso denotam a força de uma mãe em provar a inocência do rebento. Não pode ser ele. “Ele não machucaria um mosquito”. Mães... mães... A demência é contagiosa.


Bong Joon-Ho, conhecido por “O Hospedeiro”, agora nos trás uma história totalmente diferente, um conto cheio de gêneros onde o sentimento materno é exposto de forma nua, crua e quase que caricata, mas com um tesão que nos passa uma verdade incontestável. A mãe do título, interpretada por Hye-ja Kim, tem a força nos olhos e na interpretação que mostra bem a força que é ter uma vida dependendo de si. O incomodo está em cada instante que pensamos que ser mãe é uma dádiva, mas pode ser um fardo que carregará com a força de um cavalo e jamais esmorecerá. Seu filho nunca será culpado.

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Brasília 18%

Nome Original:Brasília 18%
Diretor: Nelson Pereira dos Santos
Ano: 2006
País: Brasil
Elenco: Carlos Alberto Riccelli, Karine Carvalho, Bruna Lombardi, Othon Bastos, Michel Melamed, Malu Mader, Carlos Vereza, Nildo Parente, Otávio Augusto e mais.
Sem Prêmios
Brasília 18% (2006) on IMDb


Eu amo o amor dos amados amantes desse antro de autoridades acéfalas. Misturar romance e política é quase o mesmo que tirar nota 10 no salto ornamental em um mangue e isso só ficaria bom se fosse com Nelson Pereira dos Santos. Nosso maior cineasta vivo consegue interagir com temas tão abrangentes com a proximidade de gêmeos siameses. Precursor do Cinema Novo inova com a vitalidade dos jovens intrépidos e com a categoria dos maiorais. Imortal, criou uma miscelânea de seus colegas de ABL e jogou tudo para dentro do Congresso numa cidade que só existe no mapa. Brasília não é nossa capital. Brasília é a capital de um país chamado Distrito Federal. O Brasil não merece Brasília, e, Niemeyer, a culpa não é sua, apesar de você ser capaz de acinzentar o mais verde dos pomares.


Ao vermos Olavo Bilac, legista pop-star que acaba de ficar viúvo, voltar dos Estados Unidos para encerrar um suspeito caso da morte de Eugênia, bela e mal falada assessora política que sumiu, vemos uma estrela maior que vê as mulheres que aparecem à sua volta como anjas. Anjas nuas, a falecida esposa, a assessora sumida ou mesmo uma deputada que apenas quer se entregar. Ele tem o dom da conquista pulsando em suas veias. Mas ninguém quer saber disso. O corpo achado na estiagem é mesmo de Eugênia? Complôs, almoços, festas, estereótipos manjados aparecem em nomes renomados de nossa literatura. Faz com que odiemos nossa história pelos cacoetes, pela miscelânea de personas que habitam as casas maiores desse país. Olavo é o último dos moicanos. Sim, o último a morrer. Uma morte que já está escrita nas páginas policiais. Não, nenhum trem passará por cima de seu carro ou será vitima de uma emboscada encomendada por Silvio Romero ou por Carlos Drummond. Ele morre assim que sabe que a ética não existe e nunca existiu.

De mulheres nuas, submundo do crime organizado por chefões de colarinho branco, bacanais, um cineasta drogado e acusado de matar sua namorada, político que já comeram muitas vezes a agora falecida, desvio de verbas ou mesmo limpeza de arquivo. “O calor emburrece as pessoas”. Chamar Olavo para analisar o cadáver foi uma tentativa de ter um nome acima de quaisquer suspeitas à frente do caso. “Burros”. “Quem chamou esse aí?”. Conchavos e esquemas sempre acontecerão desde que os macacos deixaram de ser só animais e tornaram-se esse ser que hoje somos. Que Eugênia apareça para cada um, pois o amor é importante, mas perto de tanta sujeira só podemos ter asco de tudo que está por perto. Eugênia é apenas um escape, uma fuga, uma mentira. Mentiras é o que mais existem naquela cidade. Nelson viveu anos para os documentários e voltou à ficção em “Brasília 18%” que tem mais verdades incontestáveis e imutáveis que em muitos jornais por aí. São perguntas sem respostas e busca-las é o ideal de cada um dos que nasceram nessa terra de ninguém. Cadê a esquerda? Cadê a verdade? Eugênia está viva? Ninguém saberá. Apenas um homem apaixonado saberá o que verdadeiramente sente. Mas não sabe se é o mundo real. E se vivemos do passado de Drummond, Augusto, Cacilda ou Ruy que a baixa humidade do ar da capital mate todos que lá politicam e que só no próximo verão é que encontremos seus corpos pútridos e irreconhecíveis nos campos secos ao lado das obras de concreto armado e sem vida.

“De que serve construir arranha-céus, se não há almas humanas para morar neles?” (Érico Veríssimo)

Apenas de obras de artes vivemos e que elas não estejam em Brasília.


“Eu sou artista. Posso ter defeitos, vícios, mas eu não sou ladrão, não sou assassino. Diferentemente desses que estão sendo acusados aqui, com base nos documentos que a Eugênia me entregou e a polícia tomou. Então é isso: nome aos bois, aos tubarões, à crocodilagem. É a selva brasileira, minha gente! Porque esses deputados, esses senadores, essa quadrilha é assim. É dinheiro para o ceguinho e quem é que não quer ver? É dinheiro para órfão, e quem é que foi abandonado? Aqui, tudo, rigorosamente Tudo, se resume a dinheiro. Minha terra tem dinheiro onde canta o dinheiro... Vou-me embora pra dinheiro, lá sou amigo do dinheiro. Mundo, vasto dinheiro. Eu sou artista brasileiro. Eu não sou assassino.” (Michel Melamed)

P.S. - O novo filme de Nelson Pereira dos Santos, “A Música Seguro Tom Jobim” entou em cartaz sexta-feira (20/01/2012). Mais uma obra de arte a caminho. Aliás, uma obra de arte de uma obra de arte.

P.S. 2 – Desculpe aos brasilianos que se sentem ofendidos, porém os desalmados que governam essa espelunca fazem com que amaldiçoemos essa cidade sem esquinas para os lados e de obras megalomanias. Um deserto habitável, vivo e cheio de boas coisas. Vamos implodir as obras de um tal Niemeyer sem aviso prévio. Eu não acredito em ninguém.


Não bata! Mesmo!

Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

2001 - Uma Odisseia no Espaço (Parte 1)

Nome Original: 2001 - Space Odyssey
Diretor: Stanley Kubrick
Ano: 1968
País: Estados Unidos
Elenco: Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester, Douglas Rain, Donald Richter e outros.
Prêmios: Oscar de Melhores Efeitos Especiais, Prêmios BAFTA de Melhor Fotografia, Trilha Sonora e Direção de Arte
2001 - Uma Odisséia no Espaço (1968) on IMDb
Ao saber que fui incumbido por meus amigos de blog de comentá-lo, pensei na dificuldade da tarefa. Me empenhei, vi o filme mais diversas vezes, li o livro, vi documentários sobre o filme, li as considerações que encontrava sobre. Percebi ao longo deste tempo que quanto mais eu assistia ao filme, ou me conectava a ele de alguma forma, mais difícil ficava a tarefa de escrever. Os meses em que o cartaz esteve aí ao lado foi um tempo de paradoxo, por que quanto mais eu conhecia e gostava de 2001, mais árduo ficava rascunhar algumas linhas sobre. E por que tudo isso? Claro que as respostas não são simples e muito menos lógicas. Mas, o que mais me convence e conforta é pensar que '2001 - Uma Odisseia no Espaço' é um filme infinito e inesgotável.



Inesgotável e infinito como metáfora. Inesgotável e infinito como moral e filosofia. Inesgotável e infinito como beleza. Inesgotável e infinito como experiência. Inesgotável e infinito como o futuro. Inesgotável e infinito como o que vem depois. Inesgotável e infinito como o universo ainda o é. Inesgotável e infinito como as questões que deixa. Inesgotável e infinito como desejo humano.

O desejo humano de ser infinito pode ter começado quando um bando de macacos pode sobressair-se sobre seus pares. A humanidade começa quando macaco vira presa difícil. A humanidade começa quando macaco mata. Macaco mata boi, mata elefante, mata leão e mata macaco. A humanidade começa quando macaco descobre que há possibilidade de moldar a natureza a sua necessidade. O macaco virou gente e apropriou-se de um planeta. De lá para cá, um abreviado intervalo e já não se consegue mais chamar este bicho de macaco. Os modos de macaco são um passado? Que foi feito deles?



De lá para cá - a estação espacial. Além da atmosfera, diante da vastidão do interminável está o homem. O que é este ser diante do infinito? O mesmo que aprendeu, descobriu, navegou, conquistou é desconforto, pausas, espaçamentos, hibernação, letargia. Uma fragilidade protegida apenas por trajes, aparelhagem, adaptações, aparatos, parafernália. Máquinas, altas tecnologias, processadores, inteligências artificiais. Evolução? Até que ponto?

A missão é Júpiter. Quase todos hibernam. O sucesso da missão está confiado a mais recente invenção da inteligência artificial – HAL 9000. Um computador capaz de processar a maioria das atividades do cérebro humano, porém com muito mais rapidez e fiabilidade. Em entrevista HAL declarou a um programa de televisão do ano de 2001:

“O que eu acho é tudo que um ser consciente pode querer.”



A automação do cérebro humano é o que faz o homem ir além. As máquinas adquirem um papel tão cabal em um universo impróprio para manter-se vivo, que são eleitas, são as que podem reagir a este ambiente sem necessidades fisiológicas e emocionais e por isto, estão no comando. HAL é confiável, infalível, incapaz de errar e fará da missão um êxito. Tripulação para quê? Evidente que alguém precisa fazer a manutenção das máquinas. Sem as ferramentas, o que sobra do homem? Onde estão Deus e os alienígenas?





Continua...


Leandro Antonio
Sessões

domingo, 15 de janeiro de 2012

Coco Chanel & Igor Stravinsky


Nome Original: Coco Chanel & Igor Stravinsky
Diretor: Jan Kounen
Ano: 2009
País: França, Japão e Suiça
Elenco: Mads Mikelsen e Anna Mouglalis
Sem Prêmios
Coco Chanel & Igor Stravinsky (2009) on IMDb


 
Nem só de glamour se pode viver. Roupas elegantes, notas impensadas, cortes criativos, montagem esplendorosa, cores impensadas, dança contemporânea. Criatividade é o que rege os grandes gênios. Mas caso haja um pouco de tensão, o resultado pode ser ainda mais explosivo e grandioso. E quando dois gênios se encontram uma grande hecatombe pode acontecer.


Se Coco foi representada de forma apática pela sem sal Audrey Tatou em “Coco Antes de Chanel”, agora é viva, quase cruel, impiedosa, impositiva. Tiramos a aura de santa e vemos uma pessoa real, vivida pela bela Anna Mouglalis (embaixatriz da Maison Chanel) com um toque malévolo que tanto diziam sobre a estilista. Sem ser carismática, Anna consegue exprimir em seus traços fortes e beleza exótica a força que uma mulher como Chanel teve. Finalmente uma boa biografia de uma pequena parte da vida dessa revolucionária (de todos aspectos). Já Stravinsky é vivido pelo excelente Mads Mikelsen, já conhecido do público por grandes atuações como “Depois do Casamento” e “Cassino Royale”. De beleza forte e gestos expressivos, Stravinsky está retratado em um momento difícil de sua carreira onde foi mal recebido pela crítica parisiense e estava exilado por conta da Revolução Russa. Coco + Igor poderiam estrelar qualquer filme chamado de Dupla Explosiva. Paixão, amor, luxuria. Eles viviam de explosões incontroláveis controlados por ela. Ele perdeu a cabeça, o juízo, criou, tocou, dedilhou sua ira e transformaram tudo em obra-prima.


Dois personagens marcantes, históricos que, com um pensamento bem a frente de sua época, chocavam pela liberdade e a falta de freio por sua criatividade. Viviam intensamente, mas nada é mais emblemático desse ritmo frenético do que a esposa de Igor. Nela está estampada a abnegação em busca de manter seu amor verdadeiro e o que uma mãe deve buscar em detrimento de sua família – o oposto à libertinagem que regia a libertina Chanel. Nela está a maior força dessa história, como um contratempo à atemporalidade dos amantes. Igor e Coco estão na história, eles já tem todos os louros, ela por suas criações e marca e ele por suas criações mágicas expressas pela força que uma orquestra e o balé podem ter. Gênios, mas a sanidade passava longe. Mas é o que dizem: todo gênio tem um quê de louco. Um filme que talvez não agrade todos pela história conturbada, sexuada e de quebras de paradigmas que até hoje são tabus, mas hipnotiza pelas belezas: das roupas, da criação do balé, das cenas de sexo, da entrega dos atores para os personagens. É tão impressionante que podemos ver a genialidade expressa nos primeiros minutos do filme, onde A Sagração da Primavera de Stravinsky foi apresentada pela primeira vez em Paris, em 1913 e onde Coco conheceu e se encantou pelo russo:


Não havia como não se encantar. A música e o ballet nunca mais foram os mesmos. Nem as mulheres depois de Coco.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Biutiful

Nome Original: Biutiful
Ano: 2010
Diretor: Alejandro González Iñarritu
País: México e Espanha
Elenco: Javier Bardem e Maricel Álvarez.
Prêmios: Melhor Ator (Bardem) no Festival de Cannes e no Festival de Goya.
Biutiful (2010) on IMDb
 

O sofrimento nunca vai passar enquanto vivermos numa selva de dor e maldade. Se o mundo é bonito, só é bonito porque a sua essência foi bonita, mas agora, com tanta dor, não podemos sentir essa beleza. Na união de cores, de raças ou de credos, unidos estamos montando um mundo cheio de belezas invisíveis, amores odiosos e bondades maléficas. A vida é muito mais bela se enxergarmos o além, além do que os limitados olhos humanos conseguem ver. Não há mais esperança. A vida é bonita e é bonita. Pra quem? Só ser for bunita.

De tristezas e confusões vive Uxbal. Rosto cansado de tanto sofrer, filhos que sofrem por uma família inexistente, a ex-mulher, Marambra, que o rodeia como uma roda gigante, com altos e baixos inexplicáveis ou compreensíveis com o rótulo de bipolaridade. Uma vida de complicações e ilegalidades contornadas pela metástase que já toma conta de suas entranhas. De sua urina sangrenta saem todas as almas que vê diante da morte. E tudo por dinheiro. Um dom, uma vida, uma história que só vive por conta de alguns Euros no bolso. Negocia com chineses que vivem em porões dignos de ratos, distribui o trabalho para africanos ilegais e lucra com comissões que não podem curar nenhum câncer. O câncer é a sociedade: preconceituosa e intolerante, corrupta e corruptível.



A parceria de Bardem e Iñarritu é uma das combinações que mais gostaria de ver nas películas dos últimos tempos. O ator é visceral e o diretor mostra as vísceras da forma mais crua sem ser explicito. A interpretação viva unida ao amargor dos temas do diretor das catástrofes sociais só poderia dar em um filme denso, pesado, lindo e amargo. Um elenco de apoio excelente, com atores não tão conhecidos, mas que ornam com o peso que há na vida vista em Biutiful. Iñarritu é o retratista da crise da sociedade global. Vimos Bardem numa Barcelona linda no filme de Woody Allen, agora temos outra visão de que nem tudo são flores, Penelopes e Johannsons. O mundo está mais cheio de Uxbal, Marambra e de morte. Mas mesmo não vendo de perto “A Sagrada Família” de Gaudí, temos a família como ela é. É uma beleza estranha mesmo, assim como se dizer Biutiful.


Chega a causar mal estar. A Barcelona que vemos nos livros de arquitetura, dos belos vilarejos, do histórico futebol, da história de independência, está estuprada pelas lentes de Iñarritu. O que vemos é uma metrópole como todas, cheia de desrespeito, de tristeza, de barracos e ilegalidades. Um Barcelona paulista, multicultural, multirracial e mutilada. E não culpemos a diversificação por essa destruição. A raça que faz tudo acontecer é a que faz tudo desaparecer. Não importa se zulus, guaranis ou mongóis, o que importa é que desde que o mundo é mundo ele morre a cada dia. Não estaremos vivos para morrer com ele, mas já conseguimos sentir um pouco dessa amargura quando vemos os filmes do Iñarritu, um mestre. Uxbal é o retrato de uma humanidade de amores brutos e só sabe viver perturbado e correndo atrás do próprio rabo buscando explicações para perguntas retóricas. O fim dessa torre de Babel se aproxima e no olhar da criança se renova a esperança de ver o fim mais belo. De dentro da cova.


Vitor Stefano
Sessões

sábado, 7 de janeiro de 2012

Quebrando o tabu

Nome: Quebrando o Tabu
Ano: 2011
Diretor: Fernando Grostein Andrade
País: Brasil
Sem Prêmios
Quebrando o Tabu (2011) on IMDb



Um pouco de história

Há uma teoria de que a evolução humana tenha se dado a partir de um macaco bebâdo. Sabe-se que os chineses e os assírios fumavam os seus baseados para melhor filosofar e a Cleóptatra e os  egipicios eram mesmo chegados numa boa fumaça de ópio. Ninguém nega que a matriz cultural ocidental foi regada a muito vinho - gregos e romanos que o digam (criaram até deuses para suas festas). Nas expansões marítimas La nina,La Pinta e Santa Maria trouxeram as primeiras folhas da Canabis Ativa para as Américas enquanto que  os Árabes chupavam os canos de seus narguiles com haxixe dentro; os livros mostram que o pai da pscinálise, odiado a seu tempo, andou receitando uma tal cocaina para seus pacientes; e o catastrófico século XX foi suportado com muita heroína e cocaína; depois houve um tempo de repressão surgiu um tal de Al Capone que lucrou mundos com a proibição; aí veio a contracultura a droga como ato político, uma contestação ao status quo, Jimi Hendrix, pedia licença porque ele estava beijando o céu, do Raggae veio um Rastafari de dread e vários piolhos na cabeça mandando uma fumaça no ar e mais recentemente as drogas ganharam um toque moderno são feitas em laboratórios como pílulas de remédio para aguentar o terrível tempo em que vivemos.

Todo documentário tem a finalidade de promover um determinado tipo de debate Quebrando o Tabu traz o tema das drogas e, de modo mais recortado,a  descriminalização da maconha.

De forma bastante corajosa o ex Presidente do brasil Fernando Henrique Cardoso (FHC) traz argumentos novos na procura de novas alternativas ao problema das drogas e a sua impossível contenção, susbcrita , aliás, por ele e diversos outros  líderes mundiais que reconhecem a ineficácia das políticas de repressão implementadas em seus respectivos mandatos.


Alguns movimentos no Brasil a favor deste debate tem sido noticiados pelas mídias e noticiosamente propalado pelos grandes meios de comunicação.Basta que lembremos o que se tornou a marcha pela maconha no começo do ano passado,bem como as formas repressivas de contenção das drogas na USP e outras universidades do Brasil.

A sociedade de forma geral trata o tema com ojeriza, muitos apoiam a repressão, há manifestações enraivecidas contra estudantes que se insurgem contra uma certa forma de ordem e genericamente aplaudem quando os policiais cercam e usam do monopólio “legítimo” da força física, a próposito o único que pode ser usado por eles, uma vez que não consta nos anais da história, nenhum grande debate de idéias de um policial que tenha se tornado uma figura pública de relevo, embora uma sociedade democrática, com todos os seus defeitos, se aperfeiçoe não sobre porrada mas sim sobre o debate aberto e franco sobre o problemas criados pela própria sociedade.

O documentário de Fernando Grostein Andrade joga uma luz sobre este e outros assuntos  como o da política exterior norte americana batizada de Guerra às drogas, cujo corolário mais dramático foi o Plano Colombia e os esforços na ONU para transformar a questão das drogas em uma questão de polícia, no qual claro, a delegacia dos xerifes seria o Pentágono. Mostra ainda as outras vias possíveis em prática na Holanda, Suíça e Portugal e as chamadas políticas de redução de danos que consiste em dispor de um local onde o viciado pode fazer uso da droga (heroína,cocaína) sem correr riscos de transmissão do vírus da Aids pelo compartilhamento de seringas e sem o risco da overdose,isso tem como ponto positivo aproximar o individuo do Estado em busca de tratamento médico e não excluí-lo ainda mais numa cadeia da qual saíra certamente mais perigoso e  menos recuperável.


                                                A erva te deixa rebelde.....contra o que?!


Ao ver isso através das lentes precisas do jovem diretor, me vem a cabeça, as vozes dissonantes que acusam quem defende uma abordagem diferenciada do problema de apoiar a  legalização das drogas e fazer apologia ao crime e aos marginais. Nada pode estar mais distante da verdade. Nínguém esta defendendo que a legalização é um fim a ser alcançando, o documentário defende a idéia de que com base em dados é possível descriminalizar o usuario tendo em vista que a maconha é sob vários aspectos menos prejudiciais do que o alcool ou o cigarro,a cocaína e a heroína e além disso,o que o ex presidente e o diretor trazem como argumento é a ideia de que o usuário da maconha não é um criminoso,é um amigo,uma pessoa próxima ou um conhecido que usa e precisa de ajuda,de informação e não prisão ou privação da liberdade, até porque queiramos ou não, o trabalho da polícia na repressão à maconha tem se mostrado um belo serviço de enxugar gelo. O direito não deveria se furtar à grande verdade de que a maconha é uma realidade. A maior parte das pessoas conhecem quem usa, ou elas próprias usam ou já usaram, e estão aí vivas,não são ladrões violentos que cometem crimes horrendos, não saem por aí enterrando cachorros vivos ou matando outros animais, não saem por aí arrumando confusão etc. nem atropelando pessoas nas ruas....
Constatação disso são os  depoimentos de pessoas inusitadas como o Imortal Paulo Coelho que nos conta suas experiências com as drogas,o aclamado ator mexicano Gael Garcia Bernal que quando jovem tinha lá no quintal de sua casa sua plantação de maconha, bem como figuras importantes  da política internacional como a diplomata norueguesa Sra. Gro Bruntland responsável na década de 80 por promover o debate sobre o desenvolvimento sustentável no âmbito da ONU.



Por fim acho que o filme atende à uma necessidade histórica de debater a maconha em nossa sociedade sem a hipocrisia de que a erva mata e leva ao vício em semanas e que quem usa é uma pessoa violenta ou algo que minha mãe costumava dizer: a maconha destrói a vida de uma pessoa na primeira tragada. Quando se é jovem e se prova a droga acabamos por descobrir que nossos pais mentiram quer por desinformação,quer por medo.Não morri,não sou um viciado e não vejo problema em quem usa maconha, pari passo, isso não quer dizer que sou a favor do legalize já,mas sou a favor do Não compre,plante!




Fernando Moreira dos Santos
Sessões

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Ser e Ter

Nome Original: Être et avoir
Diretor: Nicolas Philibert
Ano: 2002
País: França
Elenco: Georges Lopez
Prêmios: César de Melhor Montagem.
Ser E Ter (2002) on IMDb


Fim de ano e fecharam as cortinas. Mais um (menos um). Para quem está apenas no primário, o ano que vem pode ser cheio de novidades, fantasmas de uma idade onde podemos crer em tudo e descobrir que a vida é um mar de rosas. Com o passar dos anos tudo o que criamos vai se esfacelando e sendo corroído pela monotonia de estar em pé cedo, fazer a mesma coisa todo dia e chegar à noite apenas com o intuito de dormir para no outro dia seguir a mesma trajetória. Mas há uma pessoa, não familiar, que é a responsável pela formação de caráter quando somos crianças: o mestre. Quem não se recorda da professora do primário que repetidamente lhe ensinava a como fazer um Vitor perfeito, como desenhar isso que chamamos de número ou que devemos sempre respeitar os mais velhos? Impossível. Em “Ser e Ter” vemos que ainda há esperança para um mundo onde a educação é a salvação mas está podre até onde podemos ver. Há salvação?



Em “Entre os Muros da Escola” víamos um sistema falido, escalpelado e prestes a explodir. E isso é uma realidade da França e de todo o mundo. Cannes agraciou esse filme em 2008 e esqueceu-se que quatro anos antes haviam visto uma ponta de esperança para a educação daquele país. Escolas que tem crianças de diferentes idades e tamanhos (entre 4 e 10 anos) juntas e aprendendo sob a batuta de um único mestre, detentor do conhecimento, da paciência que Jó invejaria e de um método muito específico para conciliar a educação de um pequeno que mal sabe andar e um que está prestes a ir para o ensino fundamental. Um case que deveria ser estudado mais e mais. E não existem Georges Lopez em cada esquina. 

Georges é um exemplo para vermos que ser professor é mais do que uma profissão: é um compromisso. A verdadeira faceta de um lecionador está na sabedoria em dosar cada palavra dita, ouvir todas as milongas como se fossem palavras do Salvador e agir de forma idônea, a fim de dar o exemplo. De uma simplicidade de dar inveja, a escola é um aconchego às construções cinzas e opressivas. Vacas, tartarugas, campos, neve, chuva e quadro negro combinam como nunca pensamos. Tudo sob o olhar clínico e atento de Georges. Não entendam como um endeusamento, mas é absolutamente encantadora a dominância da equipe que ele tem. Um líder nato, um paradigma – não só para docentes, pais também deveriam se inspirar nesse senhor. Aliás, de nada adianta uma educação perfeccionista dentro da sala de aula e chegar em casa num mar de sangue e desentendimento. Os exemplos valem muito mais do que decorar a tabuada.


“Ser e Ter” é simples como deve ser. Um documentário onde vemos uma sinceridade crua que dá vontade de estudar para ser professor. E que saudades de sentar naquelas cadeirinhas de madeira e sonhar com o que seriamos quando grandes. Uma pena que passa tão rápido. Um filme obrigatório para plantarmos a sementinha de que dias melhores virão aonde ainda existirem crianças educadas com carinho, respeito e liberdade. A vida é mais do que pensamos. Olhemos ao nosso redor e vamos pensar com os nossos olhos de crianças. Utopia? Apenas vontade de sorrir de verdade.

Vitor Stefano
Sessões
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