quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O Sushi dos Sonhos de Jiro



Nome Original: Jiro Dreams of Sushi
Diretor: David Gelb
Ano: 2011
País: EUA
Elenco: Jiro Ono.
Sem Prêmios
Jiro Dreams of Sushi (2011) on IMDb


Não existe quem goste à primeira abocanhada. Não há ser normal que pense que é a melhor comida do mundo assim que o gélido e tenro peixe cru adentra e toca suas papilas gustativas pela primeira vez. Não existe. Mas com o tempo, costume, conhecendo a cultura, os sabores, os pratos antes estranhos e que causavam até paúra tornam-se habituais, começam a fazer parte do seu menu de opções. Há também quem passe a devorar costumeiramente sushis, sashimis, tempurás, missoshiro e outras delícias do cardápio de restaurantes japoneses.  Mas mesmo para quem não consegue ingerir aquele bolinho de arroz envolvido em alga com uma tira de peixe por cima, “O Sushi dos Sonhos de Jiro” é muito mais do que a paixão pelos sushis. Jiro, tanto quanto a própria culinária japonesa, é um símbolo de seu país, de caráter e de paixão pela vida.

Dedicação. É apenas uma das palavras que adjetiva o lendário Jiro Ono, o proprietário do Sukiyabashi Jiro, restaurante 3 estrelas no Guia Michelin. Você dirá: “3 estrelas”, e porque raios você está falando desse cara e fizeram um documentário sobre ele. No Guia Michelin esta é a pontuação máxima (que segundo a publicação vale a viagem apenas pelo restaurante) e Jiro é o chef mais velho do mundo a receber tal condecoração. Num pequeno restaurante de apenas 10 mesas escondido dentro de um metrô de Tóquio e com uma conta que não sairá por menos de 1000 reais. Inimaginável se não fosse real. Acordar de madrugada para comprar os melhores peixes, a repetição pela forma e sabor, os incansáveis ensinamentos aos filhos, tudo isso aos 85 anos de sabedoria.


Sonhar com o que se faz todos os dias é absolutamente comum pela rotina, mas sonhar que está fazendo o sushi dos sonhos, o melhor, como faz todos os dias, é a perfeição. O sr. Ono faz com tanta disciplina e sempre os faz perfeitos. Se não saem como devem, através de suas mãos ou de seus aprendizes, são descartados sem dó nem piedade. Apenas o perfeito é aceitável e é essa perseguição pela perfeição que é a base desse documentário. Não pensem que é soberba ou arrogância, Jiro é a tradução de algo que chama sempre atenção entre os orientais, mas que nele é soberano: a disciplina.

Um dos melhores documentários que já vi e você, que gosta ou não de sushis, veja, pois a mensagem é a melhor possível.

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Amor



Nome Original: Amour
Diretor: Michael Haneke
Ano:  2012
País: França, Alemanha e Austria
Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva e Isabelle Huppert.
Prêmio: Palma de Ouro de Cannes, Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Estrangeira.  
Amor (2012) on IMDb




Intertalent
16 rue Henri Barbusse
75005  Paris
France

Prezado Michael Haneke.

Não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe.

Talvez você nunca leia essa carta, mas mesmo assim endereço-a para que você saiba que há em mim, nesse longínquo Brasil, um fã de seus filmes, do seu estilo, de suas histórias. Mesmo que digam que “Amor” é um filme ameno perto do que você costumeiramente faz, discordo pois você sempre provoca o caráter e desnuda o âmago que ainda resta em alguns seres humanos. Você chega ao seu ápice de uma carreira brilhante, sólida e vivaz. É muito complexo descrever seu estilo em poucas palavras, mas intenso é certamente uma desses adjetivos. Você nos coloca no devido lugar, nos envolve e deixa que tomemos a decisão. Você é uma espécie de stripper gostosa que nos deixa louco, mas que não nos leva para a cama. Para os mais puritanos é algum tipo de deus que criou o mundo todo, nos arremessou dentro dele e deixa que pensemos o que fazer. Dá-nos o livre arbítrio. 

Você não faz de mim apenas um expectador. Você me melhor. Me faz pensar. O sentimento que senti após ver os primeiros créditos de “Caché” até hoje me deixa perturbado. 

Permita-me fazer algumas considerações sobre “Amor”. Você conseguiu em um apartamento, com dois atores fazer o seu melhor filme. Não posso (e não vou) de modo algum rejeitar ou ignorar tudo o que você fez antes, mas aqui há um equilíbrio perfeito. Claro que a qualidade dele passa pelas escolhas feitas. Um roteiro dramático no seu sentido mais certeiro, uma locação que poderia ser o apartamento dos meus avós, a sua câmera ora fixa ora acompanhando os movimentos, a música sempre imposta nos momentos ideais. E não dá para falar de “Amor” sem falar de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva na pele de Georges e Anne. É absolutamente real, verdadeiro, cru, perfeito. A terceira idade só existe na televisão, a velhice existe na vida real. E só você para novamente nos colocar diante da nossa realidade.


Falar sobre o tal amor é algo tão banal que nem podemos compreender a extensão de um sentimento. Esquecemo-nos das dificuldades, dos percalços, das angustias. Por falar em angustia, este ano apenas “PrecisamosFalar Sobre Kevin” me deixou tão angustiado ao ver um filme. Como você me ensinou, não vou nem tentar definir nada. Apenas sei que os sentimentos que você me causa são os mais profundos quando estou diante de uma película. “Amor” é um filme que nem todos gostarão, pois nem todos estão prontos para enfrentar a verdade. Parabéns por esta obra brilhante. Você é um gênio.

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Caro Diário



Nome Original: Caro Diario
Diretor: Nanni Moretti
Ano: 1993
País: Itália
Elenco: Nanni Moretti.
Prêmios: Melhor Diretor do Festival de Cannes, Melhor Filme e Músic no David di Donatello.
Caro Diário (1993) on IMDb


Se “Isto não é um Filme” de Jafar Panahi realmente não é um filme, “Caro Diário” simploriamente, digamos, é um diário. Diário de alguém que gosta de anotar listas, falar e pensar sobre o cotidiano, sobre o trabalho, sobre sua saúde. Nanni Moretti retrata em três capítulos, momentos diferentes, de formas desiguais, mas com competência idêntica. Cada parte ao seu estilo, à sua moda, mas sempre com muita graça. Mas em certo ponto da projeção não sabemos mais se estamos vendo um diário filmado ou se é mais um documentário-cine-biográfico. Sabemos apenas que parte do diário de vida do diretor Nanni Moretti está na tela. Mas o que nos importa a vida dele?

No primeiro capítulo vemos a arquitetura, bairros decadentes, cinemas e filmes ruins, pessoas dançando nas ruas, tudo sob o olhar de Nanni sobre sua Vespa. Ele para um senhor na rua e pergunta o porquê ele mora num bairro distante há mais de 30 anos, se nos anos 60 Roma era uma cidade linda. Ele para um casal, questionando se não são os dançarinos de “Flashdance”, uma de suas inspirações. Para numa cantoria, desce de sua motoneta, sobe no palco e canta com a banda. Desce de sua vespa e incomoda seu vizinho num conversível: “o problema é que os diretores não creem nas pessoas, em seus personagens. Eu creio!”. Nanni não está nem um pouco importando se quem vê tem interesse pelo que mostra. Não tenho mesmo, nem para os críticos que critica durante uma das cenas. Nem que não precise levar mais ninguém em sua Vespa.


No segundo capítulo já vemos viagens seguidas pelas ilhas italianas em busca de paz para trabalhar e escrever o roteiro para um filme. Das mais próximas às mais longínquas ilhotas, cada uma à sua forma, com seus costumes. Ele acompanhado por um colega, busca a paz para conseguir escrever. Leva recortes de casos que lhe interessaram, quer histórias dos moradores locais, quer conhecer mais os indivíduos que querem se isolar em ilhas onde nem força elétrica ainda tinha chegado. Um foco desse capítulo é a televisão. Este aparelho que define a cultura de um país é duramente criticado no início, onde seu amigo diz não vê-la há mais de 30 anos. Como um vírus, assim que a vê na balsa de travessia entre uma ilha e outra, ele se torna televisãodependente. Uma das ilhas os pais só tem um filho por casal. Noutra, as pessoas não conseguem se ligar, pois ficam imitando animais com os filhos bebê que dominam a telefonia. Na verdade, a crítica maior é pela solidão. 


Já o terceiro capítulo é focado nos médicos e em suas consultas. Nanni está com uma coceira muito forte nos braços e nos pés, o que o está deixando muito estressado e irritado. A cada médico/hospital que se consulta, novos métodos e soluções para o seu problema são propostos. Tenta de tudo. Tenta mais que tudo. Nanni está enlouquecendo, sem dormir e sem saber o que realmente fazer. Os papas da dermatologia e alergologia não falam a mesma língua quando o assunto é curar a sua coceira. Cuidar do corpo está entre a maior individualidade do ser. Se ele mesmo não quiser, ninguém poderá fazer por você. Aqui vemos o melhor capitulo.


Seja no capítulo que for, háe sempre haverá idiossincrasias quanto ao entendimento do documentário ficcional. Não haverá possibilidade de que todos vejam o sinta o que Nanni quer. Não há como, não há essa possibilidade. Ver um diário representado por alguém que quer contar um pouco da sua história  é dar margem para que o entendimento seja livre. Nanni não precisa contar detalhes ou mesmo postar no Facebook o que almoçou ou que simplesmente acordou. Ele simplesmente conta o que quer contar, diz o que quer dizer, sem medir a quem. A vida de Nanni é um livro aberto, mas ele mostra apenas as páginas que quer, na ordem que quiser. Nós vemos, ou não, se quisermos. Eu vi “Caro Diário”. Gostar ou não, cada um dirá, mas só por ser Nanni, já vale a pena ver, por mais estranhamento que possa causar.

Vitor Stefano
Sessões
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