domingo, 12 de outubro de 2014

Garota Exemplar





Nome Original: Gone Girl
Ano: 2014
Diretor: David Fincher
País: EUA
Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Kim Dickens e Carrie Coon.
Sem Prêmios
Garota Exemplar (2014) on IMDb


O que se passa na cabeça dela? O que realmente ela sente? O que está por trás dessa beleza angelical, dessa candura, dessa perfeição? O que uma mulher tão incrível está fazendo comigo, porque está comigo, porque se casou comigo? O que ela realmente sente? O que ela é capaz de fazer? Até onde ela iria por amor, por vingança, por razão, por sede? Ela seria capaz de matar? Por amor? Por ódio? Só quero saber o que ela tem na cabeça? Todas essas perguntas são álibi para ver “Garota Exemplar”, um dos melhores filmes do ano.

Gillian Flynn é a mente perturbada. O filme é baseado no seu livro e ela mesma o adaptou para o roteiro cinematográfico. Acredito que por isso o filme ficou longo, mas não desanime, pois você nem sentirá 2 horas e meia. E vai querer mais. Vai levar o filme contigo, discutir com os amigos, instigar as pessoas a verem e tentar chegar às respostas das perguntas acima. Eu espero fazer isso com esse texto. Eu quero saber o que vocês pensam até porque nem sei o que pensar. Passarão horas e não chegaremos à conclusão alguma, a não ser que acho que Gillian nunca vai casar. Uma mulher traída pode ser pior do que o Estado Islâmico aliado ao Exercito Americano.

Falar do filme é muito difícil sem citar spoilers. E vale a pena ir ao cinema vê-lo sem saber muito, veja o trailer lá em cima e está de bom tamanho. É isso, um casal hype que com o sumiço da esposa perfeita, Amy, Nick vira o maior suspeito do sequestro ou assassinato. Ela é a queridinha da América e ele o bonitão perigoso. É isso. O filme vai mostra o que, como e porque tudo isso aconteceu. Muito se criticou as atuações de Ben Affleck e Rosamund Pike dizendo estarem sem expressão, mas acredito que é a intenção de provocar. E assim que nós, plateia, ficamos. Sem reação. Nos aspectos técnicos, o filme é impecável. Com uma montagem dinâmica, o filme caminha num rumo inesperado. O filme caminha por dentro de uma mente insana, calculista. Absurdos? Vários. Impossível? Nada.


A mente humana é indubitavelmente o maior mistério da história. As reações e sensações sentidas por cada indivíduo, em cada momento único são motivos de estudos acadêmicos, teorias religiosas e cineastas obcecados. David Fincher é tarado pela mente humana e a sua filmografia é a prova disso. “Seven”, “Clube da Luta”, “Quarto do Pânico”, “Zodíaco”, “A RedeSocial” são algumas provas de que a mente humana é uma ferramenta infindável de criatividade. Se os personagens são criativos, imagine a mente por trás dessas mentes. Claro, Fincher é apenas diretor e não roteirista desses filmes, mas a forma como ele reproduz as brilhantes mentes que constroem esses fantásticos mundos e histórias é fabuloso. “Garota Exemplar” não é diferente. Uma história quase non-sense, quase impossível, mas lembrem que nada é impossível para o que uma mente humana é capaz. O impossível é não ficar preso na cadeira com a tensão, apenas esperando qual será o próximo passo. Fincher é o David Linch das massas. É um filmão!

Vitor Stefano
Sessões 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Praia do Futuro



Nome Original: Praia do Futuro
Ano: 2014
Diretor: Karim Aïnouz
Países: Brasil e Alemanha.
Elenco: Wagner Moura, Clemens Schick e Jesuíta Barbosa.
Sem Prêmios.
Praia do Futuro (2014) on IMDb



Praia. Lugar maravilhoso e único. Lugar de crescer com a natureza ali, batendo à sua porta. Sua maresia corrói até uma alma desalmada. A brisa constante faz os cabelos voarem, as ideias surgirem, as pessoas voarem. Não há salvação, nem mesmo com salva-vidas em toda orla. O mar é traiçoeiro, o mar é maldoso, o mar é maravilhoso. A praia é um pedaço do céu na terra.

Futuro. O futuro é agora. O futuro existe na sua mente, nos seus sonhos. Hoje você está aí, sentado com a bunda na cadeira, mas amanhã pode estar em Berlim, apaixonado e o mundo ficou para trás. O futuro não é calculável, não é crível, não existe. Estar na praia, olhar o mar, salvar no mar, viver mergulhado pensando num futuro que não vem, numa eterna fuga do mundo real, do mundo com pés no chão. O futuro é viver como se não houvesse amanhã, mesmo que o amanhã não exista.


“Praia do Futuro” é mais uma demonstração de que Karim Aïnouz é um dos maiores realizadores do Brasil. Seu cinema contemplativo e incisivo sempre nos remete a buscas, a escolhas. São filmes de estrada, sem serem road-movie. São estradas da vida, são filmes de descobertas, vivências, sempre representando o ser humano na sua forma mais crua. Karim é o diretor que mais respeita quem está sentado do outro lado. Passando pela ousadia de “Madame Satã”, as escolhas de “O Céu de Suely”, a contemplação de “Viajo porquePreciso, Volto porque te Amo” e a emoção de “O Abismo Prateado”, Karim chega a “Praia do Futuro” com todos esse elementos adidos de paixão e compaixão.

Mas “Praia do Futuro” é mais do que um filme de seres humanos. É um filme de heróis, ou de sua desconstrução. Donato é um salva-vidas na Praia do Futuro no Ceará. Seu irmão, Ayrton o tem como herói e o chama de Aquaman. Um sonhador. Logo no começo do filme há uma cena de afogamento de duas pessoas, no qual o bombeiro consegue salvar apenas um. Um turista alemão, Konrad, que estava na América do Sul fazendo motocross com seu amigo. A partir desse trágico acontecimento tudo vai mudar. Logo de cara surge tesão entre os dois. Sexo. O envolvimento é intenso a ponto de Donato, sustentador da família, abandonar tudo e ir para Berlim com seu namorado. Uma fuga, uma escolha. Em Berlim logo se identifica com a cidade. Claro que quem nasce na praia sente sua falta, mas a vontade de viver livre, sem julgamento é sempre maior. Vivendo sem lembrar do passado, surge Ayrton já homem, em busca de seu irmão. Estaria vivo? Num encontro emocionante, na busca por aceitação das escolhas e do passado, cria-se um novo ciclo no qual os heróis viraram humanos e se tornam uma decepção com a qual é possível viver. O olhar de criança nunca mais existirá.


“Praia do Futuro” é um filmaço. Mais um filme de temática gay, sobretudo sobre humanos, ousado e com cenas de sexo entre Wagner Moura e Clemens Schick que podem tirar risos nervosos de quem estiver vendo. Não há nada explicito como em “Tatuagem”, mas é mais uma prova que o cinema vem quebrando barreiras da sociedade. Jesuíta Barbosa aparece apenas após a primeira hora do filme, mas é irretocável. É o contraponto, é apoteótico. Um menino de ouro que estará entre os melhores de sua geração. As atuações são incríveis, o roteiro inteligente e delicado e a fotografia mesclada entre cores quente e fria, dão tom ao filme. Mais um grande filme nacional. 

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Sistema excretor não é reprodutor – O Atual Cinema LGBT no Brasil



Vamos combater essa pouca vergonha, essa putaria. A coisa lá na Paulista tá feia... Levy Fidelix é a representação dos cidadãos de bem, íntegros e que lutam por um ideal máximo: viver no mundo ariano. Mas como de comediante de uma eleição o senhor do bigode torna-se centro das atenções e não por suas propostas, mas sim por ser um babaca, um escroto? Levy é a prova do lado ruim da democracia, ao ter que conviver e ouvir certos tipos de opiniões. Inacreditável que essa figura tosca, retrógrada, totalitário, homofóbico, discriminador das minorias ainda tenha menos que 1% de intenções de voto. Menos que 1% é muito para um crápula desses. E infelizmente não há o que fazer apenas a revolta. Aliás, há sim. O cinema brasileiro está aí para provar que Levy e seus seguidores devem sair do armário. Quem repudia quer comprar. Levy, você como pai e avô deveria dar exemplo. Levy, você como político devia dar exemplo, não incitar o ódio. Levy, você calado é um poeta, morto é um peso a menos para o mundo.

Nos últimos anos temos visto uma enxurrada de filmes brasileiros que se enquadrem na generalização de LGBT. Enquadrar num gênero não deixa de ser excludente, porém a escolha de “Hoje eu Quero Voltar Sozinho” a representante do Brasil no Oscar 2015 é a demonstração de que o Brasil está cada vez mais consciente da igualdade e da necessidade de, ao menos, discutir posições históricas determinadas por uma Igreja excludente e um Estado opressor. Claro que ainda existe e sempre existirão os inconformados, os Levys da vida, porém a grande maioria da sociedade evolui na medida em que cada vez mais pessoas do seu convívio se enquadram no gênero. 

O cinema brasileiro deste século tem filmes emblemáticos que retratam a realidade dos homossexuais no país. De forma clara ou apenas como cotidiano, a causa homossexual está representada numa lista grande e é possível imaginar o excelentíssimo Levy em todos eles. Segue uma lista de filmes que farão Levy Fidelix sorver em arrepios e ódio:

As Melhores Coisas do Mundo” (2010) de Laís Bodanzky – O pai do Levy é Gay?


“Carandiru” (2003) de Hector Babenco – Ah, o Levy paga pau pro Santoro de mulherzinha.


“Cazuza – O Tempo não Passa” (2004) de Sandra Werneck e Walter Carvalho – Levy fica arrepiado ao som do Cazuza



“Como Esquecer” (2010) de Malu de Martino – A filha do Levy é sapata?


Do Começo ao Fim” (2009) de Aluizio Abranches – O irmão deve ter comido o Levyzinho




Dzi Croquetes” (2010) de Tatiana Issa e Raphael Alvarez – Aquele bigode cairia como uma luva no Dzi


“Elvis e Madonna” (2010) de Marcelo Laffitte – Levy, você nunca será Madona, Fidelinha...


"Flores Raras" (2013) de Bruno Barreto - O Levy de calcinha é uma gracinha


Hoje eu Quero Voltar Sozinho” (2014) de Daniel Ribeiro – Levy não deveria ser cego, mas sim mudo.


“Madame Satã” (2002) de Karim Aïnouz – Levy arrasa na noite


Tatuagem” (2013) de Hilton Lacerda – “Tem aparelho excretor, tem aparelho excretor...”


Praia do Futuro” (2014) de Karim Aïnouz – Levy vai pra Berlim ver o Aerotrem do Hitler de perto

Que o cinema brasileiro durante o mandato do próximo presidente seja ainda mais amplo e aberto à todo tipo de assuntos, sem filtros, sem censura, sem vergonha! Levy Fidelix não representa o Sessões.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A Pedra de Paciência





Nome Original: Syngué Sabour
Ano: 2012
Diretor: Atiq Rahimi
Países: Afeganistão, Alemanha e França
Elenco: Golshifteh Farahani e Hamidreza Javdan
Prêmios: Melhor Atriz no Festival Internacional de Gijón, SIGNIS Award no Festival Internacional de Hong Kong e FACE Award no Festival Internacional de Istambul.
A Pedra de Paciência (2012) on IMDb




Não pode. Não vai. Não deve. Não. Ninguém disse, apenas é uma verdade incontestável. À mulher apenas os deveres. Não, ela não pode falar. Não, ela não pode fazer. Não, ela não vai. Não, ela não vai andar sem burca. Não, ela não vai ter prazer. Não é permitido.  E não poderia ser diferente, pois é uma mulher muçulmana, casada com um muçulmano, herói de guerra, tradicional, num Afeganistão devastado por uma guerra sem motivo, sem causa, sem bonzinhos ou vilões. Mas ela fala. Ela faz. Ela fez.

Não há nomes, não há localização. Pode ser em qualquer lugar. Uma mulher abnegada cuida do marido, ferido com um tiro na altura do pescoço, num estado semivegetativo. Ela cuida do esposo dia pós dia, com soro, limpando e zelando seu corpo com rezas. Duas filhas para criar, sem dinheiro, sem expectativas. A proximidade da guerra e dos guerrilheiros afugentou quase todos. O medo é grande, mas o que pode fazer? Deixar o corpo do marido vivo, sem honra, não é uma escolha. Aos poucos, nas lamentações, nas orações, algumas palavras de ódio, inesperadas saem como num monólogo para um ouvinte. Não sabemos se ele ouve, mas ela fala. A cada dia está mais a vontade, conta mais, conta o que queria contar, conta o que queria fazer. Conta o que fez. Faz, mesmo que seus olhos estejam abertos. Ela faz. Ela desconta os 10 anos em que sua voz nunca foi ouvida. Seus segredos deixarão de ser segredos. Onde ela apenas fez o que queriam. Onde ela era apenas uma mulher.


A lenda persa diz que a um pedaço de rocha pode-se contar todos seus segredos e um dia ela explodirá e deixará o confidente livre, levando todos os lamentos pelos ares. A mulher consegue com que seu marido seja sua pedra de paciência, sua esponja de lamúrias. O filme aborda de forma bem suave assuntos muito delicados, ainda mais na cultura muçulmana, como o adultério, prostituição, casamento e a própria religião. Como a maior parte dos filmes orientais, é necessário paciência. Um filme de belos enquadramentos, momentos intrigantes, mas peca na dinâmica. A atriz Golshifteh Farahani dá um banho atuando quase que isolada. Um belo filme de um mundo que parece muito distante do nosso. Será?

Vitor Stefano
Sessões
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