sexta-feira, 24 de julho de 2015

Uma Nova Amiga



Nome Original: Une Nouvelle Amie
Ano: 2014
Diretora: François Ozon
País: França.
Elenco: Romain Duris, Anaïs Demoustier e Raphaël Personnaz.
Prêmio: Melhor Filme - Sebastiane Award no Festival Internacional de San Sebastián.
Uma Nova Amiga (2014) on IMDb


Um velório de uma jovem mulher, deixando marido e uma filha de poucos meses, trajada com seu vestido de noiva enquanto a marcha nupcial toca ao fundo. Entre flashbacks, a melhor amiga discursa e promete cuidar da filha (e afilhada) e do marido. Um clima de total tristeza e comoção marca a cerimônia. Seria um filme tristíssimo, para molhar o carpete de tanto chorar. Agora imaginem um filme onde duas amigas saem para fazer compras, viajar, irem à boate. Tudo escondido da família, num misto de aventura com romance. Certamente um filme leve, até bobinho, certo? Bom, tudo isso é “Uma Nova Amiga” de François Ozon e que não é nem tristíssimo nem bobinho. Pelo contrário, é um filme excelente, divertido, envolvente com uma tensão sexual que prende a atenção de forma surpreendente. Ozon mantem a consistência do seu cinema que vem se mostrando um dos mais interessantes da atualidade. Filmes como “Dentro da Casa” e “Bela e Jovem” já são novos clássicos de um diretor jovem, muito ativo (são 15 filmes em 16 anos) e caminha para fincar seu nome na história do cinema.

A morte de Laura causou muitas mudanças na vida dos que a rodeavam. A melhor amiga, Claire, vive em choque e é orientada pelo marido a ajudar o viúvo e a afilhada. David está arrasado e tendo que se virar para cuidar da pequena. Quando Claire chega a casa se depara com uma mulher loira, de vestido, salto alto. Alucinação? Vertigem? Sonho? A partir daí o filme entra numa estrada de descobertas, cheios de momentos hilários, causados por situações inesperadas. A tensão vai até o fim, numa linha tênue entre a comédia e o drama, entre risos nervosos e surpresas inesperadas.

Não vou falar mais do Ozon. Cito a fotografia e trilha sonora que ajudam a criar esse clima tenso. O elenco está brilhante e seus dois pilares, Anaïs Demoustier e Romain Duris estão numa conexão maravilhosa. Ele é famoso por seu papel na trilogia de “Albergue Espanhol” e num papel muito difícil, conseguiu ser autentico e não caricatural. Talvez seja seu melhor desempenho da vida. E não dá pra deixar de lembrar que a cena inicial é maravilhosa. Esteticamente, a cena do velório é um dos melhores inícios de filmes desde o prólogo de “Anticristo”. Cri cri, é só esteticamente. Ozon está na minha lista de diretores preferidos. Já ansioso pelo próximo.

Vitor Stefano
Sessões

domingo, 19 de julho de 2015

Samba


Nome Original: Samba
Ano: 2014
Diretora: Olivier Nakache e Eric Toledano
País: França.
Elenco: Omar Sy, Charlotte Gainsbourg, Tahar Rahim e Izïa Higelin.
Sem Prêmios.
Samba (2014) on IMDb


Um filme francês chamado “Samba”. Seria algo de muito mau gosto ver o ritmo brasileiro representado pelo país do champagne. Consigo imaginar mulheres em trajes carnavalescos ou à la Carmem Miranda numa tentativa vexatória de dançar a nossa raiz, em bailes de clubes, com uma fanfarra criando os sons. Homens de bigode, ternos claros, panamás dariam o clima final para uma lástima. Mas não, “Samba” não é sobre samba, apesar das referências ao gênero musical e ao Brasil que o filme retrata. Samba é o nome do imigrante senegalês que é retratado na nova película dos diretores do retumbante sucesso “Intócaveis”. E não pense que não dava para ser tão bom. É!

Samba é um imigrante ilegal e que tem em seu tio o único parente vivendo na França. Ele trabalha como assistente de cozinha (de forma irregular) e, como é sabido, há um grande cerco contra os ilegais na Europa. A polícia fica de olho em qualquer suspeita e em uma dessas ações Samba é preso e começa o processo de deportação. Por outro lado está uma ONG que acolhe e defende pessoas nessa situação. Samba é acolhido pela voluntária Alice, uma mulher cheia de problemas pessoais e psicológicos e que está na ONG como parte de sua recuperação. O tema é atual e denso, mas esse toque romântico dá um alívio a qualquer possibilidade de depressão. E esse é o toque de mestre e já uma marca registrada da dupla de diretores Olivier Nakache e Eric Toledano.


São realmente diretores para se ficar de olho. Quem achava que “Intocáveis” fosse um golpe de sorte, “Samba” prova com ótima direção, roteiro e escolha de elenco são futuro do cinema popular e de qualidade. É um feel good movie. Conseguem pegar um problema enorme e transformá-lo em algo agradável de ver na tela. Não há profundidade nos fantasmas que a imigração ilegal e xenofobia causam, mas conseguem debater o assunto da forma mais leve possível. O tema já foi amplamente abordado no cinema, mas aqui o que realmente importa são as relações humanas. Charlotte Gainsbourg faz muito bem seu papel da desequilibrada Alice e nos faz esquecer ela em "Ninfomaníaca". Já Omar Sy é um monstro, repetindo o alto nível de atuação do filme anterior dos diretores e desponta como um ator memorável. O elenco de apoio também faz bonito, mas Nakache e Toledano merecem todos os louros. “Samba” é tão bom ou ainda melhor que “Intocáveis”.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 13 de julho de 2015

O Sal da Terra


Nome Original: The Salt of the Earth
Ano: 2014
Diretora: Juliano Ribeiro Salgado e Wim Wenders
País: França, Brasil e Itália
Elenco: Sebastião Salgado, Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado.
Prêmios: Un Certain Regard - Special Jury Prize, Prize of the Ecumenical Jury - Special Mention e François Chalais Award - Special Mention no Festival de Cannes, Melhor Documentário no César Awards e Prêmio da Audiência no Festival Internacional de San Sebastián.
O Sal da Terra (2014) on IMDb


A humanidade já deu provas o bastante de que faliu. E as provas são dadas diariamente a cada segundo, a cada milésimo de segundo. Em cada canto do mundo, uma desgraça acontece em progressão geométrica, numa trilha que nunca irá retornar. A tendência é a sua extinção por conta de seus próprios erros. Os humanos falharam. A fome? As guerras? As chacinas? O poder? A escravidão? A morte da natureza? O fim dos recursos naturais? A maldade? A vida. Tudo ainda não explodiu, pois há uma força enorme trabalhando para a impossível reversão da atual situação. Mas há esperança ainda em cabeças inteligentes, crédulas que é possível mudar o mundo. Essas verdadeiras dádivas humanas existem por aí, evitando que as tragédias sejam dirimidas em seu entorno e dando exemplos para que uma verdadeira corrente do bem se espalhe. Esses humanos acreditam que esse emaranhado de animais possam voltar a ser seres humanos, pensando em humanos, pensando na vida. O que é a vida? Não há resposta, mas Sebastião Salgado retratou o melhor e o pior dela. Com certeza, retratou mais o pior, pois o cerne do ser humano é destrutivo. Mas humanos como Salgado nos dão esperança. Eu tenho.

O documentário “O Sal da Terra” é uma experiência visual. Não é 3D, mas é sensorial. Não, não é 4XD. É real. Não, não é simulador. É um mergulho no processo criativo, na vida, na família, nos problemas e nas virtudes de um dos maiores fotógrafos do mundo, o brasileiro Sebastião Salgado. O diretor Win Wenders conta de onde conheceu Salgado, foi atrás e com a ajuda do filho do retratado, Juliano, contam como aquele economista de futuro promissor, tornou-se um amante de fotografia, e vislumbrou em dissecar o mundo através de suas lentes. Dissecar os homens. A África é o local mais comum em seus projetos, mas que passaram também pela America Latina e Leste Europeu. Seus projetos tornaram-se livros famosos (e caros ) onde a sua técnica em branco e preto é visível e admirável. Há também muita culpa em tudo que foi retratado pela sua lente. Um dos seus relatos diz que muitas vezes antes ou depois de fotos, ele chorava. Retratar a miséria, a morte e a desgraça é para poucos. Com o projeto “Gênesis” conseguiu retomar seu prumo, dando um novo norte em sua carreira, com fotografias que remeteriam ao início da vida. Ele conheceu o fim e o recomeço da Terra. Sebastião Salgado preencheu o coração de esperança, aliado ao Instituto Terra, uma velha fazenda herdada onde ele e sua esposa recriaram boa parte da Mata Atlântica. Um projeto lindo e espelho para diversas gerações. O documentário é o relato para você conhecer um ser único, atráves de uma unica visão, mas Sebastião Salgado é absolutamente genial com uma câmera nas mãos. Veja:







Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 7 de julho de 2015

Blind



Nome Original: Blind
Ano: 2014
Diretora: Eskil Vogt
País: Noruega
Elenco: Ellen Dorrit Petersen, Henrik Rafaelsen, Vera Vitali e Marius Kolbenstvedt.
Prêmios: Screenwriting Award - World Cinema - Dramatic no Festival de Sundance.
Blind (2014) on IMDb



Escrever é um dom. Criar mundos, inventar personagens, ser o mestre e definir por onde cada um seguirá é quase brincar de ser o criador. Ver a realidade, transformar em conto, alterar o destino. E se eu for o personagem? E se eu criar uma amante sensual, provocadora. E se fizer isso tudo sem que você veja, mas deixe com uma pulga atrás da orelha. Você acha, mas não sabe. Mas e se eu criar um amante pra você também. Eu sei, pois eu inventei, mas meu personagem não sabe. E é possível apimentar ainda mais tudo isso? Eu escrevo o que quiser. Eu falo o que quiser. Se eu for cego, você nem sabe o que é isso. Ter visto tudo e perder o sentido. Perdi o sentido, mas não perdi a criatividade. O isolamento é claro, não vejo mais ninguém por aqui. Quando não se enxerga, vê-se pelos olhos da imaginação. “Blind” é uma viagem. É um filmaço!

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Mad Max: Estrada da Fúria


Nome Original: Mad Max: Fury Road
Ano: 2015
Diretora: George Miller
País: Austrália e EUA
Elenco: Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult, Hugh Keays-Byrne e Zoë Kravitz.
Sem Prêmios.
Mad Max: Estrada da Fúria (2015) on IMDb


Bem que podia ser o novo clipe da Valesca Popozuda. Tiro, porrada e bomba, mulheres lindas de lingerie, sujas e num ambiente hostil. Até um trio elétrico com guitarras e bumbos já estava lá. De fundo dançarinos ao estilo walking dead, rostos brancos, olhos roxos, magricelas, ágeis e animadinhos. Umas fantasias bizarras, umas máscaras de dar inveja a “Cinquenta Tons de Cinza”, explosões, perseguições e um galã bonitão, que pouco fala, que pouco diz, que pouco aparece. Tudo para parecer que o clipe é feminista, mas onde é feminista quando aquelas modelos da Victoria Secrets desfilam seminuas sob olhar de marmanjos que dominam a área. Mas esse é o estilo Valesca Popozuda, Anitta e que tais - as Kelly Keys dessa geração. Mas aqui no Sessões estamos falando de clipes musicais agora? Não, isso é o novo Mad Max.

Calma, fãs que já intitularam de “Mad Fucking Max”. Talvez vocês não gostem desses novos funks, nem eu, mas os clipes dessas cantoras são bem feitos e tem seu apelo visual. Algo que “Estrada da Fúria” tem de sobra. Visualmente é um dos filmes mais impressionantes dos últimos anos. Algo comparável a “Apocalipse Now” por alguns momentos. A alternância da paleta de cores, entre o azulado e a aridez do deserto dá realmente um choque impressionante. Estamos num mundo quase inabitável e ermo onde os conflitos são por falta de água. Mas o roteiro é ruim? Não. Até porque nem um filme é. São apenas sequencias de perseguições sem apelo, sem conteúdo, sem nexo. Persegue-se ação pela ação, que é apenas agraciado pela beleza de Charlize Theron, mesmo sem um braço na pele de Furiosa. E o tal do Max, de mad mesmo não tem nada. Até acho Tom Hardy um ator com potencial, principalmente após ver “Locke”, mas aqui precisávamos de um ator mais... aliás, menos canastrão. Poucas palavras, duro nas cenas de luta, sem aplo para ser um Mad Max. Nos faz sentir saudades de Mel Gibson dos primeiros filmes da série.

Mesmo sendo o mesmo diretor da trilogia inicial, George Miller evoluiu o filme visualmente, mas não evoluiu em roteiro, apenas o adaptou à crise da água que o planeta vive e viverá nas próximas décadas. Theron é ótima e é o ponto central do filme. Mas não me venha dizer que é um filme feminista. Também não é machista. É apenas um filme de perseguições sem fim. Ainda bem que só tinha duas horas de filme. O George deveria ter ouvido a música que a Tina Turner: "We Don't Need Another Hero". Ficasse só até o Mad Max 3.


Vitor Stefano
Sessões
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