quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

LIMITE, DE MARIO PEIXOTO

Nome Original:LIMITE
Ano: 1930
Diretora: Mario Peixoto e Edgar Brazil
País: Brasil
Elenco: Olga Breno, Taciana Rei,Paulo Schnoor e D. G Pedrera
Prêmio: Teddy Bear no Festival Internacional de Berlim.




Os urubus no telhado pareciam estar atrás de carniça.

Uma mulher acorrentada corrente significa Prisão. Estamos presos.

O close na cara lembra aquela cena do Buñuel do bisturi no olho.

Estamos presos.

O sol que reflete na agua, em preto e branco, lembra fogos de artifício.

 Uma mulher observa estática o nada.

 Outra também.

O homem entregue ao cansaço desistiu de remar e na ponta do barco um mulher jaz no chão, mas não está morta.

Barco a deriva no horizonte azul.


 Desolação.


Pode ser que haja várias outras interpretações para os 10 minutos iniciais de Limite, filme de Mario Peixoto produzido em 1930 e uma das maiores pérolas da história do cinema mundial, mas eu, que nada sei de poesia, sinto despertar em mim essas palavras quando diante dessa esfinge maravilhosa.

Limite é o estado em que se encontram a mulher I e II e o homem I dentro de um barco que está sem controle perambulando no mar. Mas pode ser entendido como o limite entre o cinema mudo e o falado, bem como pode ser uma metáfora sobre as condições que foram realizadas as filmagens com o orçamento provindo principalmente do próprio Mario Peixoto, que só fez esse filme. Fico a pensar o que teria sido da história do cinema se ele tivesse feito mais filmes...

Utilizando o flashback como um fim e si mesmo, somos apresentados às histórias individuais das pessoas que estão no barco. Dá pra perceber que elas estão ali só esperando alguma coisa porque tendo abandonado os remos elas apenas seguem aguardando que o  destino traga lhes traga a morte.
Limite é um daqueles filmes que vão se construindo a partir da interpretação do expectador. Nada nele é conclusivo, apreende-se os sentidos que são deixados aqui e ali para formar um todo maior. A fotografia, os enquadramentos, em tudo se vê cuidado e preocupação em transmitir uma obra prima pura, sem peso, sem exageros. Parecem ser expressões vindas diretamente da alma.

É verdade que Dziga Vertov é genial, da mesma forma o é Leni Riefenstahl. E é verdade também que o cinema soviético foi revolucionário e as vanguardas europeias quebraram vários paradigmas. Só que, por incrível que pareça nunca tinha visto, nem sequer tinham me falado da existência de uma produção tupiniquim deste quilate de experimentalismo que, a rigor, não deixa nada a desejar aos nomes consagrados da arte.

Sinal do nosso complexo de vira latas...
Não gosto de ser nacionalista, na verdade, acho esse adjetivo limitador e indicativo de falta de complexidade, mas esse tipo de produção poderia ser mais divulgada. Certamente, indicariam que nossas raízes no campo do cinema, não é só forte mas provocadora e bela.

 Glauber Rocha, teria afirmado sobre esse filme o seguinte: “limite é incapaz de compreender as contradições da sociedade burguesa” e sobre o seu diretor “ longe da história e da realidade”. O grande Glauber, nosso revolucionário do cinema novo, falhou em perceber que a revolução se dá em várias frentes e cada qual destrói uma classe específica. Limite é uma revolução para os sentidos.

Não vou contar a história do filme, até porque acho que isso seria muita pretensão minha. Limite não veio pra ser contado, mas pra ser sentido e por isso eu resolvi fazer esse texto pra dizer pra você:  “Ei, Limite, é uma coisa linda de bonita!”.

Fernando Moreira dos Santos
Sessões de cinema

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Mãe Só Há Uma


Nome Original: Mãe Só Há Uma
Ano: 2016
Diretora: Anna Muylaert
País: Brasil
Elenco: Naomi Nero, Daniela Nefussi, Matheus Nachtergaele, Luciana Paes e Marat Descartes.
Prêmio: Teddy Bear no Festival Internacional de Berlim.
Mãe Só Há Uma (2016) on IMDb


Ser adolescente nunca é fácil. É um momento crucial da vida onde escolhas, novidades, decisões podem ser decisivas para a vida toda. Os conflitos internos e dúvidas são verdadeiras guerras mundiais para um menino de 17 anos. Quando tudo parece estar uma loucura, Pierre descobre que foi raptado na maternidade e quem ele ama e chama de mãe é um verdadeiro monstro. Um amor, um monstro que tirou um filho de outra família. E não o fez apenas uma vez já que sua irmã menor também foi raptada. Na verdade, Pierre é Felipe. E na verdade, Felipe não é ninguém. A rebeldia juvenil que surge normalmente agora explode. Quando sai da casa simples e pobre para a casa imponente e abastada dos pais biológicos ele não se reconhece. Quem sou? Felipe ou Pierre? Quem são essas pessoas que me amam e que não me veem há 17 anos? E eu que não os conheço preciso amá-los? Mas...eu me amo? Quem sou eu?

O amor é algo que nasce, cresce e precisa ser adubado. Quando uma situação limite acontece a força interna ganha força e você precisa se impor. Felipe/Pierre se impõe com sua nova família. Porta fechada, roupas extravagantes, escolhas de passeios inusitados para a família tradicional. No afã do amor, a nova família transforma Felipe numa uma espécie de circo e o leão surge e ruge. O irmão (biológico) mais novo é o verdadeiro contraponto, cheio de sí, cheio de confiança e arrogante. Parece um mini adulto. Felipe ainda não. Não temos uma família, não temos diálogo. Não conseguimos ver, incomoda. Uma relação que não fala, apenas sente.


Um filme potente, impactante e diante de um dilema tão complexo não cai na pieguice natural. Nem o fato de ser inspirado em fatos reais o deixa cair nessa armadilha. A escolha de esconder a mãe raptadora logo no início é acertada para que o foco seja mesmo em Felipe/Pierre. Já há muito conflito num único personagem. Anna que tem uma carreira constante, competente e atingiu o "estrelato" com "Que Horas Ela Volta?". “Mãe Só Há Uma” é seu menor (também em duração) e melhor filme. As incompletas sensações, os hiatos, os silêncios são tudo, são imperfeitos perfeitos. Pierre/Felipe é a imperfeição. É tudo que queriam. É nada. É uma linda atuação do estreante Naomi Nero. É um dos melhores filmes nacionais do ano ao lado de "Boi Neon" de Gabriel Mascaro e "Aquarius" de Kleber Mendonça Filho. É um ano fabuloso do cinema nacional. Anna, muito obrigado (de novo)!

Vitor Stefano
Sessões 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Aquarius


Nome Original: Aquarius
Ano: 2016
Diretor: Kleber Mendonça Filho
País: Brasil 
Elenco: Sonia Braga, Humberto Carrão, Maeve Jinkings, Irandhir Santos e Carla Ribas.
Prêmios: Melhor Filme do Festival de Sydney, Melhor Filme pelo Juri no World Cinema Amsterdam, Prêmio Especial do Juri no Festival Latino Americano de Lima, Melhor Atriz (Braga) e Prêmio Especial do Juri no Festival Biarritz Internacional de Cinema Latino Americano.
Aquarius (2016) on IMDb


A vida de Clara. A vida de Aquarius. A vida.

Estamos no Recife, anos 80. Música boa tocando num lindo prédio, uma praia cheia de gente, sexo, drogas e nessa noite agradável conhecemos Clara, jovem mãe de três filhos, de cabelos curtinhos a la Elis Regina e que passou recentemente por um câncer de mama. Nesse prédio mora uma tia de Clara. Catapultados para os dias de hoje na mesma praia, vemos a mesma Clara, já na terceira idade e vivendo no mesmo Edifício Aquarius. O prédio nanico entre os monstros arranha céus da praia de Boa Viagem. Ela agora com cabelos longuíssimos, vive só - sempre acompanhada de sua fiel empregada. Os outros apartamentos do prédio estão vazios. A construtora Bonfim, tradicional na cidade, comprou todas as unidades, exceto da sexagenária. Seria ela uma vovó ranzinza que só sairá de lá morta ou é uma ativista revolucionária em defesa de sua propriedade? O mercado quer engoli-la. Dizem que ela deveria sair por segurança, modernidade e conforto que só os novos apartamentos podem oferecer. Mas e as raízes? E a identidade? Não há quem nos venda, isso só nós podemos cultivar.

Clara é uma mulher inteligente, forte, de caráter e impositiva. A pressão silenciosa que a incorporadora faz para que ela saia do apartamento está alinhada com a força das instituições mais opressivas existentes: imprensa, política, igreja e sociedade – incluindo todos, inclusive seus próprios filhos. Clara está só. Ela tem seus discos, as músicas que marcaram sua vida, suas memórias, suas coisas que dão certo alento. Clara está cheia de vida ao seu redor. Clara resistirá a todo e qualquer assédio. De peito aberto, mesmo que mutilado, com seus cabelos soltos, ela é uma espécie de Sansão moderno. Uma abnegada. Uma mulher de fibra, de peito.



O filme é lindo em sua caracterização dos anos 80, desde a escolha de trilha sonora fabulosa e muito bem encaixada - de Queen a Reginaldo Rossi – passando por uma direção de atores muito boa, mas é claramente impossível não dizer que se trata de um filme de Sônia Braga. Para Sônia Braga. Sua força na tela, sua beleza - física e da personagem- faz com que ela leve o filme nas costas, totalmente feito para ela brilhar. E ela brilha, fazendo talvez o papel de sua vida. Kleber Mendonça Filho faz mais um belíssimo filme com diversas características já conhecidas dos seus curtas e do ótimo "O Som ao Redor", como uso constante do zoom in, a criação de clima psicológico e o uso de flashbacks/visões entre pesadelos que cria uma tensão constante. Também tem Recife e imóveis. Mas, o principal de seus filmes: tem vida, tem gente. KMF é um diretor de capacidade ímpar. A duração é maior do que necessária, mas não tira a força e nos prepara para o que veremos - uma espécie de Davi contra Golias. Os cabelos de Clara é clara referência à prova da resistência, da luta, da vida. Clara é um personagem incrível. Sônia Braga é incrível.

Tentar dissociar o filme de toda polêmica que o cercou referente ao Oscar e aos protestos em Cannes é difícil, mas possível. O filme em si é maior do que a pequenice de boicote da direita ou apoio cego da esquerda. O filme é sobre resistência, sobre abnegação, sobre ser vivo, ser humano, ser cidadão e isso é maior do que apoiar A ou B. Não se deixe contaminar com os discursos extremistas (de nenhum dos lados), veja e apoie cinema nacional. Gostar ou não depende do olhar, mas crie o seu e nunca veja pelos olhos de outrem. "Aquarius" é grande. Kleber Mendonça Filho é ótimo. Sonia Braga é uma estrela e é a representação maior do nosso cinema.

Viva "Aquarius"! Viva a liberdade! Viva Sonia Braga! Viva a vida!

Vitor Stefano
Sessões

sábado, 8 de outubro de 2016

Julieta


Nome Original: Julieta
Ano: 2016
Diretor: Pedro Almodóvar
País: Espanha
Elenco: Adriana Ugarte, Emma Suárez, Rossy de Palma, Michelle Jenner, Daniel Grao, Darío Grandinetti, Nathalie Poza e Inma Cuesta.
Sem Prêmios.
Julieta (2016) on IMDb


Grandes segredos escondidos em silêncio, quando revelados, causam surdez histérica e irreversível. A vida é feita de escolhas e decisões que rumam o destino em marcos inesquecíveis. Temos apenas uma certeza: a morte - mas quem a quer? Mas...quem não tem segredos? A vida é um segredo constante, que foge das mãos, escorre pelos braços e faz as pernas andarem rumo ao infinito. Se não tiver riscos, qual foi a graça da vida? Se não tiver atitude, será lembrado apenas pelo peso no caixão. Se não ousar, não será esquecido apenas pela lápide que lembrará quantos dias você ocupou algum espaço nesse planeta. A vida é um mistério. A vida é um segredo.

Julieta viveu, viajou, doou, amou, desconfiou. Julieta é mãe de Antía, viúva de Xoan. Marco que mudou sua vida. Julieta era apenas carne, pois sua alma foi junto com o amado. Antía cuida da mãe, abdica de sua juventude. Mas Julieta é um barril de pólvora. Antía chega aos 18 anos e vai viver sua vida. Aí o corpo de Julieta, quase necrosado se reergue em busca de sua filha. Mãe e filha. Silêncio. Um melodrama trágico. Uma tragédia romântica. Uma busca pela existência. Muitas perguntas onde o silêncio é a única resposta.


 É um retorno triunfal de Almodóvar ao melodrama almodovariano. E por mais que ele mesmo queira se dissociar desse estigma, não há como diante de tal obra - edificante e imponente. Desde "Volver" não atingia tal classe e vibração, com uso do clássico universo feminino, porém dessa vez de abrangência global, de forma seca e dura. Apesar da dor e sofrimento do enredo, o seu grande trunfo são cortes que controlam as emoções e não o deixam cair na pieguice. Tudo para o filme não transbordar, mas impactar e fixar. Personagens complexos apresentados em flashbacks bem encaixados, com as habituais cores - menos estridentes. O figurino e direção de arte são impecáveis. Todo elenco está em grande desempenho, principalmente as Julietas. Almodóvar sempre foi um dos meus diretores prediletos por filmes como "Julieta". Um filme para quem ama ele, pra quem é pai, filho e especialmente para quem é ser humano. É um filme pra se ver (viver, sentir e não esquecer).

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O Clube


Nome Original: El Club
Ano: 2015
Diretor: Pablo Larraín
País: Chile
Elenco: Alfredo Castro, Roberto Farías, Antonia Zegers, Alejandro Sieveking, Marcelo Alonso, Jaime Vadell, Francisco Reyes e José Soza.
Prêmios: Prêmio do Grande Juri no Festival de Berlim e Melhor Filme no Festival de Havana.
O Clube (2015) on IMDb


Quando o absurdo é enorme, o impacto é cataclísmico. Quando representantes do “bem” são vistos de forma enviesada e cautelosa percebemos que não há mais espaço para essa dualidade de bem e mal. O ser humano é uma espécie falível e por mais que a esperança esteja esvaindo precisamos acreditar nas boas intenções, na benevolência e na caridade. Sozinhos não somos nada. Juntos, se houver consciência e discernimento, há chance de termos algo edificante. Mas há pessoas que, nem mesmo enclausuradas e excluídas do convívio da sociedade, são capazes de apagar fantasmas, expurgar pensamentos maledicentes e buscar a paz. Há sempre a culpa. Há sempre um anjo negro rondando. Há sempre o fator humano.

Clube. Já começamos com uma ironia. Não há tobogãs, piscina ou churrasco. Estamos numa cidade litorânea chilena, mas que em nada lembra uma colônia de férias ou divertida. Vemos quatro senhores de idade e uma irmã. Sabemos muito pouco de cada um, apenas que são padres e uma religiosa, que cuida das regras da casa. Casa? Prisão, refúgio ou mesmo isolamento seriam nomes mais apropriados. Logo somos apresentados a um quinto membro recém-chegado e que trás desconforto aos moradores, por conta de uma visita inesperada, que por trás do muro grita frases duras e incomodas. Descrições de como era abusado por padres durante a infância, com detalhamentos dignos de contos eróticos rasos, mas que chocam, incomodam, envergonham e enraivecem. É uma cena inicial memorável e o fato ocorrido logo após este relato gerará uma reviravolta na rotina da casa. Um novo padre, jovem, chega com a missão de vistoriar o que acontece nessa casa. Tudo muda.

Padre Garcia é recebido de forma ressabiada pelos outros moradores. Ele tem a fama de delatar e incriminar outros sacerdotes de outros clubes espalhados pelo Chile. A tela opaca, quase míope, incomoda, nos dá claustrofobia. O acinzentado nos deixa sem noção de época, nos deixa perdidos no tempo, mas coloca nossos pés no chão pela denuncia e asco. Ver os religiosos numa rotina regrada, sendo cercados por todos os lados, se digladiando interiormente e expondo suas fraquezas é uma crítica duríssima à Igreja, à conivência com os criminosos numa busca clara pela manutenção da imagem da santíssima. Em nome de Deus eles usaram seu poder convencedor para ungir crianças de gozo, roubar crianças de famílias menos abastadas, apostar em jogos de azar numa busca de fuga da dura realidade da penitência religiosa e ainda corroborar e colaborar com a ditadura, tortura e mortes. Não há espaço para o prazer, apenas para o poder. E o poder é muito grande. O poder é o maior mal desse mundo.


Pablo Larraín é um nome a sempre ter no radar. O chileno fez grandes filmes na última década, colecionando prêmios de festivais e críticas positivas em todos seus filmes. Sempre com temas duros e polêmicos, ele cutuca o establishment com um soco no estômago, sem delongas. Se em “No” e “Tony Manero” ele expunha os entraves da ditadura chilena, aqui, num ousado movimento, escancara a cúria da Igreja Católica, sem escrúpulos, como os que cometeram crime. A crueza do roteiro com a força de atuações incríveis faz de “O Clube” um marco.

Vitor Stefano
Sessões
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