quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Boyhood – Da Infância à Juventude


Nome Original: Boyhood
Ano: 2014
Diretor: Richard Linklater
País: EUA
Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke e Lorelei Linklater
Prêmios: Urso de Prata de Melhor Diretor, Reader Jury of the “Berliner Morgenpost” e Premio Guild of German Art House Cinema do Festival de Berlim, Prêmio da FIPRESCI do Festival de San Sebastián.



Não há inventividade. Não há criação. Não há novidade. E não há nisso nenhum demérito, pelo contrário. Richard Linklater é, talvez, o cineasta mais corajoso da América. Representante do cinema independente, ele não será “raptado” pela seara hollywoodiana, mantendo seus filmes com seus roteiros, seus conceitos, suas convicções e, certamente, com seus ideais. Apesar da independência é diretor de filmes de grande sucesso, sendo mais um trunfo para si. Quentin Tarantino colocou seu “Jovens, Loucos e Rebeldes” entre seus 10 filmes prediletos de todos os tempos. A trilogia “Antes do Amanhecer” fez um sucesso arrebatador e é um dos filmes de romance mais queridos do público e crítica, “Escola de Rock” é um sucesso cult, cativante e divertido e “Waking Life” e “O Homem Duplo” são feitos em rotoscopia, quando atores são transformados em animação live action. Mas é inegável que com “Antes do Amanhecer” ele conquistou sua fama. Um dinâmico roteiro aliado à criativa direção e formato (sem cortes) já alçaram Linklater a um patamar de interesse coletivo. Como disse, ele não criou nada, apenas fez algo incomum numa época onde a mediocridade reina no Mundo de Diretores de Cinema. “Boyhood” acompanhar o mesmo elenco por 12 anos, vendo todas as mudanças (físicas e psicológicas) dos personagens. Algo que não é novo, mas é, novamente, ousado. “Boyhood” é um dos melhores do ano. “Boyhood” é um marco cinematográfico. Linklater brilha mais uma vez.

Acompanhamos na tela a vida de Mason a partir dos 5 até os 18 anos. Segundo filho de pais separados, vemos as agruras da infância incerta com o pai ausente, a mãe insegura e vivendo romances incertos, dúvidas sobre o futuro, aflições naturais de uma criança em evolução e brigas constantes com a irmã maior. E acompanhamos toda evolução, desde a mudança física a mudança de perspectivas. As descobertas e evoluções. Das agruras emocionais da mãe com novos relacionamentos, as amizades que vem e vão com as mudanças de cidade e as mudanças de comportamento. Tudo muda, menos os atores. 39 dias de filmagens em 4200 dias de produção. O pequeno Mason tornou-se um jovem e acompanhamos tudo. Ellar Coltrane apenas o interpreta, mas também vimos seu crescimento, assim como vimos Patricia Arquette engordar/ emagrecer/engordar e vimos Ethan Hawke ficar com rugas e cabelos brancos. Os personagens envelheceram, assim como os atores, o que torna tudo mais cativante, sincero, verdadeiro. É quase impossível distinguir Mason de Ellar. Num indústria de prazos e retorno, Linklater é mesmo ousado.


“Boyhood” é mais que um filme: é uma experiência cinematográfica e uma reflexão sobre família.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Sound City

Nome Original: Soundcity
Ano: 2012
Diretor: Dave Grohl
País: EUA
Elenco: Dave Grohl, Krist Novaselic,Paul MacCartney,Lars Ulrich
Prêmio: Escolha oficial de 2013 Festival de Sundance.





Imagina você que começou a tocar guitarra depois de ter ouvido Nirvana e Jimi hendrix com 13 anos, depois de ter economizado 200 reais mesada, compra sua guitarra strato na Teodoro e começa a fazer um som. Depois imagine que você , já mais velho assiste como foi a história do estúdio que deu origens aos albuns que você sempre ouvia no talo quando era mais jovem.

Soundcity é isso. Um documentário que consegue unir quase tudo que eu mais gostei na vida e colocar em forma de filme. 



Acho que se trata de algo superlativo de vários pontos de vista: Primeiro, porque não é dirigido por um diretor, nem um documentarista, é dirigido com maestria, registre- se, por ninguém menos que o baterista do Nirvana que depois veio a assumir a guitarra e a voz do Foo Fighters. Segundo: não se trata de somente um documentário é um registro de um dos estúdios que deram origens a albuns como o Nevermind (Nirvana), Bombtrack (Rage Against the machine) , Rated R (Queens of the stone Age) que tocou recentemente no Brasil , como todos os ingressos esgotados, a propósito.






Permeiam o longa entrevistas e testemunhos de diversos músicos que passaram por lá, bem como os donos, os técnicos de som e a atendente. Eles explicam a genialdade e a espontaneidade de um tempo que hoje já não existe mais, pelo menos não em sua maioria. Explico. SoundCity era um estúdio que não tinha frescura, não existia a possibilidade de gravar uma parte de uma música e depois outra e no computador colar, separar ou ajustar a bel prazer do cliente. Não, ali o papo era reto. Guitarra, baixo, bateria tudo microfonado, aperta-se o REC e o que sair saiu.

Nessa toada, Dave consegue provocar,ainda que de leve, um debate extremamente atual que é o papel das tecnologias digitais na criação musical. Com ferramentas como o Protools que praticamente permitem a qualquer pessoa criar música em casa a procura por estúdios diminui e aqueles que não conseguiram se adaptar a essa realidade faliram.


Mas o diretor não é arrogante ao ponto de fechar o assunto. Ele até vê com bons olhos e enxerga esses diversos softwares como instrumentos e ferramentas na criação musical.

Outro cume do filme são as jams que o diretor realiza com nomes "desconhecidos" do rock como Paul Maccartney, Krist Novoselic, Josh, Homme,Trent Reznor etc etc.



Pra mim, assistir Soundcity foi lembrar de uma adolescência que já passou, mas que se mantém nos dias atuais até porque quem curte sabe música é vida interior e diminui a dor da nossa grande solidão




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Fernando Moreira dos Santos
Sessões 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Era uma Vez em Nova York


Nome Original: The Immigrant
Ano: 2013
Diretor: James Gray
País: EUA
Elenco: Marion Cotillard, Joaquin Phoenix e Jeremy Renner.
Sem Prêmios.
Era Uma Vez em Nova York (2013) on IMDb




Duas irmãs chegando à Nova York, vindas da Polônia. Num mal entendido ocorrido no navio, Ewa é confundida com uma prostituta e sua irmã, Magda, chega à América adoecida e ficará em quarentena no porto, até melhorar, claro, com pagamentos da irmã. Com ajuda do benevolente Bruno, ele a acolhe em sua casa, mas há um preço a pagar por isso. Bruno é uma espécie de acolhedor de mulheres para danças sensuais e prostituição em cabarés, mas aos poucos ele vai caindo por Ewa. Em nenhum momento Ewa é forçada a se prostituir, mas a sua meta é salvar sua irmã e para isso é necessário dinheiro. O primo de Bruno, o mágico Orlando, consegue irritar Bruno apenas com a sua presença, ainda mais quando envolve-se com a bela moça, num triangulo amoroso imaginário, sem toques, sem paixão, sem amor. Ewa só quer salvar sua irmã. Ewa só quer o dinheiro.


Joaquin Phoenix, Marion Cottilard e Jeremy Renner. Três atores do primeiro escalão no cinema mundial, capazes de atuações maravilhosas e inesquecíveis, como “Ela”, “Piaf - Um Hino ao Amor” e “Guerra ao Terror”. Todos juntos, numa história emocionante, inspirado na história da mãe do diretor da película, James Gray, vinda da Polônia nos anos 20, sem lenço nem documento para viver o sonho americano. Gray já trabalhou com Phoenix no belo “Amantes” e é renomado nos Estados Unidos como um dos últimos diretores clássicos, românticos e fiéis ao cinema que não existe mais.  Tudo para ser um dos melhores filmes do ano. Tudo para ser um sucesso retumbante. Não é. 

James Gray pode ser perfeito tecnicamente. É lindo de se ver, mas faltou algo por aqui, talvez alma, talvez o medo por ser uma história tão familiar. Interessante o fato de que não há mocinhos nem vilões, mas essa falta de foco deixe o filme sem vigor. Nem as atuações estão convincentes. O destaque fica pela cena final, maravilhosa, uma das mais belas dos últimos anos. Um sopro de cinema clássico no meio de tanto lixo.

Vitor Stefano
Sessões

domingo, 12 de outubro de 2014

Garota Exemplar





Nome Original: Gone Girl
Ano: 2014
Diretor: David Fincher
País: EUA
Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Kim Dickens e Carrie Coon.
Sem Prêmios
Garota Exemplar (2014) on IMDb


O que se passa na cabeça dela? O que realmente ela sente? O que está por trás dessa beleza angelical, dessa candura, dessa perfeição? O que uma mulher tão incrível está fazendo comigo, porque está comigo, porque se casou comigo? O que ela realmente sente? O que ela é capaz de fazer? Até onde ela iria por amor, por vingança, por razão, por sede? Ela seria capaz de matar? Por amor? Por ódio? Só quero saber o que ela tem na cabeça? Todas essas perguntas são álibi para ver “Garota Exemplar”, um dos melhores filmes do ano.

Gillian Flynn é a mente perturbada. O filme é baseado no seu livro e ela mesma o adaptou para o roteiro cinematográfico. Acredito que por isso o filme ficou longo, mas não desanime, pois você nem sentirá 2 horas e meia. E vai querer mais. Vai levar o filme contigo, discutir com os amigos, instigar as pessoas a verem e tentar chegar às respostas das perguntas acima. Eu espero fazer isso com esse texto. Eu quero saber o que vocês pensam até porque nem sei o que pensar. Passarão horas e não chegaremos à conclusão alguma, a não ser que acho que Gillian nunca vai casar. Uma mulher traída pode ser pior do que o Estado Islâmico aliado ao Exercito Americano.

Falar do filme é muito difícil sem citar spoilers. E vale a pena ir ao cinema vê-lo sem saber muito, veja o trailer lá em cima e está de bom tamanho. É isso, um casal hype que com o sumiço da esposa perfeita, Amy, Nick vira o maior suspeito do sequestro ou assassinato. Ela é a queridinha da América e ele o bonitão perigoso. É isso. O filme vai mostra o que, como e porque tudo isso aconteceu. Muito se criticou as atuações de Ben Affleck e Rosamund Pike dizendo estarem sem expressão, mas acredito que é a intenção de provocar. E assim que nós, plateia, ficamos. Sem reação. Nos aspectos técnicos, o filme é impecável. Com uma montagem dinâmica, o filme caminha num rumo inesperado. O filme caminha por dentro de uma mente insana, calculista. Absurdos? Vários. Impossível? Nada.


A mente humana é indubitavelmente o maior mistério da história. As reações e sensações sentidas por cada indivíduo, em cada momento único são motivos de estudos acadêmicos, teorias religiosas e cineastas obcecados. David Fincher é tarado pela mente humana e a sua filmografia é a prova disso. “Seven”, “Clube da Luta”, “Quarto do Pânico”, “Zodíaco”, “A RedeSocial” são algumas provas de que a mente humana é uma ferramenta infindável de criatividade. Se os personagens são criativos, imagine a mente por trás dessas mentes. Claro, Fincher é apenas diretor e não roteirista desses filmes, mas a forma como ele reproduz as brilhantes mentes que constroem esses fantásticos mundos e histórias é fabuloso. “Garota Exemplar” não é diferente. Uma história quase non-sense, quase impossível, mas lembrem que nada é impossível para o que uma mente humana é capaz. O impossível é não ficar preso na cadeira com a tensão, apenas esperando qual será o próximo passo. Fincher é o David Linch das massas. É um filmão!

Vitor Stefano
Sessões 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Praia do Futuro



Nome Original: Praia do Futuro
Ano: 2014
Diretor: Karim Aïnouz
Países: Brasil e Alemanha.
Elenco: Wagner Moura, Clemens Schick e Jesuíta Barbosa.
Sem Prêmios.
Praia do Futuro (2014) on IMDb



Praia. Lugar maravilhoso e único. Lugar de crescer com a natureza ali, batendo à sua porta. Sua maresia corrói até uma alma desalmada. A brisa constante faz os cabelos voarem, as ideias surgirem, as pessoas voarem. Não há salvação, nem mesmo com salva-vidas em toda orla. O mar é traiçoeiro, o mar é maldoso, o mar é maravilhoso. A praia é um pedaço do céu na terra.

Futuro. O futuro é agora. O futuro existe na sua mente, nos seus sonhos. Hoje você está aí, sentado com a bunda na cadeira, mas amanhã pode estar em Berlim, apaixonado e o mundo ficou para trás. O futuro não é calculável, não é crível, não existe. Estar na praia, olhar o mar, salvar no mar, viver mergulhado pensando num futuro que não vem, numa eterna fuga do mundo real, do mundo com pés no chão. O futuro é viver como se não houvesse amanhã, mesmo que o amanhã não exista.


“Praia do Futuro” é mais uma demonstração de que Karim Aïnouz é um dos maiores realizadores do Brasil. Seu cinema contemplativo e incisivo sempre nos remete a buscas, a escolhas. São filmes de estrada, sem serem road-movie. São estradas da vida, são filmes de descobertas, vivências, sempre representando o ser humano na sua forma mais crua. Karim é o diretor que mais respeita quem está sentado do outro lado. Passando pela ousadia de “Madame Satã”, as escolhas de “O Céu de Suely”, a contemplação de “Viajo porquePreciso, Volto porque te Amo” e a emoção de “O Abismo Prateado”, Karim chega a “Praia do Futuro” com todos esse elementos adidos de paixão e compaixão.

Mas “Praia do Futuro” é mais do que um filme de seres humanos. É um filme de heróis, ou de sua desconstrução. Donato é um salva-vidas na Praia do Futuro no Ceará. Seu irmão, Ayrton o tem como herói e o chama de Aquaman. Um sonhador. Logo no começo do filme há uma cena de afogamento de duas pessoas, no qual o bombeiro consegue salvar apenas um. Um turista alemão, Konrad, que estava na América do Sul fazendo motocross com seu amigo. A partir desse trágico acontecimento tudo vai mudar. Logo de cara surge tesão entre os dois. Sexo. O envolvimento é intenso a ponto de Donato, sustentador da família, abandonar tudo e ir para Berlim com seu namorado. Uma fuga, uma escolha. Em Berlim logo se identifica com a cidade. Claro que quem nasce na praia sente sua falta, mas a vontade de viver livre, sem julgamento é sempre maior. Vivendo sem lembrar do passado, surge Ayrton já homem, em busca de seu irmão. Estaria vivo? Num encontro emocionante, na busca por aceitação das escolhas e do passado, cria-se um novo ciclo no qual os heróis viraram humanos e se tornam uma decepção com a qual é possível viver. O olhar de criança nunca mais existirá.


“Praia do Futuro” é um filmaço. Mais um filme de temática gay, sobretudo sobre humanos, ousado e com cenas de sexo entre Wagner Moura e Clemens Schick que podem tirar risos nervosos de quem estiver vendo. Não há nada explicito como em “Tatuagem”, mas é mais uma prova que o cinema vem quebrando barreiras da sociedade. Jesuíta Barbosa aparece apenas após a primeira hora do filme, mas é irretocável. É o contraponto, é apoteótico. Um menino de ouro que estará entre os melhores de sua geração. As atuações são incríveis, o roteiro inteligente e delicado e a fotografia mesclada entre cores quente e fria, dão tom ao filme. Mais um grande filme nacional. 

Vitor Stefano
Sessões
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