segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Entre Abelhas



Nome Original: Entre Abelhas
Ano: 2015
Diretora: Ian SBF
País: Brasil.
Elenco: Fabio Porchat, Marcos Veras, Irene Ravache, Letícia Lima e Luis Lobianco.
Sem Prêmio.
Entre Abelhas (2015) on IMDb


Quem vê Fábio Porchat no pôster do filme já imagina uma comédia escrachada. Quando vê que o diretor é Ian SBF, criador do Porta dos Fundos com o Fábio e outros humoristas tem certeza que virá uma crítica ácida sobre religião ou sobre o cotidiano. Você esbravejará que é mais um desses filminhos comerciais da Globo Filmes, comédias apelativas nível Zorra Total e  que o cinema brasileiro é só essa merda e filme de favela, tudo com ajuda desse governo corrupto e ladrão. Bom, se você pensou isso, guarde seu recalque, cale sua boca e veja “Entre Abelhas”. Claro que a união desses dois gerará um filme que terá humor, mas é uma casca fina em volta de um problema sério e abordado de forma competentíssima: a depressão.

Bruno é um editor de imagens e vem sofrendo com o fim do casamento. O divórcio nem sempre é fácil, mas os amigos e família estão sempre juntos para amparar e distrair. Mas num repente, coisas estranhas começam a acontecer com ele: Pessoas somem. Simplesmente não aparecem mais, em imagens, na tevê ou ao vivo e a cada momento mais somem. Bruno começa a viver uma vida só sua, onde quem o rodeia não existe mais. A depressão é o mal desse século e num mundo onde todos vivem conectados, mas desconectados da realidade, é cada vez mais comum. Toda ajuda é bem vinda e com a seriedade necessária para resolver esses problemas. Uma doença silenciosa e mais perigosa do que um ferimento. Essa ferida, por vezes, não dá para estancar.

O filme fala de depressão sem ser piegas e óbvio. Nem se fala do problema em si, nós vivemos o problema. Uma premissa fabulosa à la Saramago, nos leva a um mundo quieto e misterioso. A invisibilidade dos humanos é algo muito comum no mundo atual, desde o mendigo que mora do lado da sua casa até a tia que limpa o banheiro da empresa. Você escolhe o que ver, mas o mundo não pode ser assim. Todos estão à sua volta influenciam na sua vida, então pare de olhar só para seu umbigo e viva de forma mais humana. E quando tiver um problema, fale, converse, busque ajuda. Quando tiver preconceito com cinema nacional, vá além, esqueça o convencional. Fabio Porchat saiu da caixa, ousou e fez o melhor filme nacional até o momento. “Entre Abelhas” é para ver e rever. Pensar e repensar. Refletir e enxergar a verdade. Lindo filme.

Vitor Stefano
Sessões

domingo, 16 de agosto de 2015

Dentro da Casa


Nome Original: Dans la maison
Ano: 2012
Diretor: François Ozon
País: França.
Elenco: Fabrice Luchini, Kristin Scott Thomas, Emmanuele Seigner, Denis Ménochet e Ernst Umhauer.
Prêmio: Golden Seashell e Premio do Juri no Festival de San Sebastián, Melhor Filme Estrangeiro no Festival de San Jordi e Melhor Roteiro no European Film Awards.
Dentro da Casa (2012) on IMDb


A influência de um professor sobre um aluno é algo incontrolável. Mas em uma época em que a educação é contingenciada ao simples estar em aula e que o professor é cada vez menos prestigiado, ter um aluno interessado ou com o dom é um bálsamo. Se a literatura está condenada a uma sociedade que lê apenas 140 caracteres e se sente ciente da complexidade de qualquer assunto, quando vemos um jovem que sabe ler, entreter e dar ritmo à escrita será carregado em praça pública e terá um busto construído pelos professores da matéria. E é uma epidemia que não se limita ao nosso país não. A educação está ao deus dará. A educação está morta. Está? Ou a paixão de alguns ainda a fazem viver? Temos esperança que esse afã de poucos possa contaminar todos? Professores como Germain podem inspirar. Eu não tenho essa esperança. A literatura tem esperança em jovens como Claude.

Germain é um professor de literatura, um pouco desesperançado da profissão, do desinteresse geral dos alunos por suas aulas. Um como muitos. Quando depois de pedir uma lição de casa onde os alunos escrevessem sobre suas férias a decepção apenas cresceu, exceto por uma redação interessante de um jovem chamado Claude. Nela contava uma história onde ele ficava à frente da casa de um colega de sala, Rapha, vendo o movimento e sonhando em entrar. Imaginava como era. Queria viver ali dentro. E quando de repente ele finaliza a redação com “Continua...”. O professor fica muito intrigado e começa a incentivar o aluno. A medida que os dias passavam a história continua e envolve cada vez mais Germain. As histórias são compartilhadas com sua esposa, que analisa com precaução o incentivo e até onde a história pode ir. A verdade é que o jovem se envolve além da conta com Rapha e sua família e nada conseguirá freá-lo. O poder de um professor sobre um jovem motivado. O poder de um jovem sobre um veterano desmotivado. Um elo indestrutível.

François Ozon é um nome que sempre remete a algo ousado. Em “Jovem e Bela” ele desnuda a sociedade através da história da jovem que busca a profissão mais antiga do mundo de forma clara e simples, como se fosse possível. Aqui ele mostra que o elo professor-aluno cada vez mais distante ainda é possível, mas essa conexão pode ser perigosa. Num roteiro amarrado de forma brilhante, faz com que simples relatos sejam um elo da realidade com a ficção. Faça com que a ficção seja realidade. Com atuações belíssimas de todo elenco, “Dentro da Casa” se torna um filme maravilhoso e obrigatório a quem ama cinema. Um frescor dentro de uma época cheia de filmes dentro da caixinha.

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Uma Nova Amiga



Nome Original: Une Nouvelle Amie
Ano: 2014
Diretora: François Ozon
País: França.
Elenco: Romain Duris, Anaïs Demoustier e Raphaël Personnaz.
Prêmio: Melhor Filme - Sebastiane Award no Festival Internacional de San Sebastián.
Uma Nova Amiga (2014) on IMDb


Um velório de uma jovem mulher, deixando marido e uma filha de poucos meses, trajada com seu vestido de noiva enquanto a marcha nupcial toca ao fundo. Entre flashbacks, a melhor amiga discursa e promete cuidar da filha (e afilhada) e do marido. Um clima de total tristeza e comoção marca a cerimônia. Seria um filme tristíssimo, para molhar o carpete de tanto chorar. Agora imaginem um filme onde duas amigas saem para fazer compras, viajar, irem à boate. Tudo escondido da família, num misto de aventura com romance. Certamente um filme leve, até bobinho, certo? Bom, tudo isso é “Uma Nova Amiga” de François Ozon e que não é nem tristíssimo nem bobinho. Pelo contrário, é um filme excelente, divertido, envolvente com uma tensão sexual que prende a atenção de forma surpreendente. Ozon mantem a consistência do seu cinema que vem se mostrando um dos mais interessantes da atualidade. Filmes como “Dentro da Casa” e “Bela e Jovem” já são novos clássicos de um diretor jovem, muito ativo (são 15 filmes em 16 anos) e caminha para fincar seu nome na história do cinema.

A morte de Laura causou muitas mudanças na vida dos que a rodeavam. A melhor amiga, Claire, vive em choque e é orientada pelo marido a ajudar o viúvo e a afilhada. David está arrasado e tendo que se virar para cuidar da pequena. Quando Claire chega a casa se depara com uma mulher loira, de vestido, salto alto. Alucinação? Vertigem? Sonho? A partir daí o filme entra numa estrada de descobertas, cheios de momentos hilários, causados por situações inesperadas. A tensão vai até o fim, numa linha tênue entre a comédia e o drama, entre risos nervosos e surpresas inesperadas.

Não vou falar mais do Ozon. Cito a fotografia e trilha sonora que ajudam a criar esse clima tenso. O elenco está brilhante e seus dois pilares, Anaïs Demoustier e Romain Duris estão numa conexão maravilhosa. Ele é famoso por seu papel na trilogia de “Albergue Espanhol” e num papel muito difícil, conseguiu ser autentico e não caricatural. Talvez seja seu melhor desempenho da vida. E não dá pra deixar de lembrar que a cena inicial é maravilhosa. Esteticamente, a cena do velório é um dos melhores inícios de filmes desde o prólogo de “Anticristo”. Cri cri, é só esteticamente. Ozon está na minha lista de diretores preferidos. Já ansioso pelo próximo.

Vitor Stefano
Sessões

domingo, 19 de julho de 2015

Samba


Nome Original: Samba
Ano: 2014
Diretora: Olivier Nakache e Eric Toledano
País: França.
Elenco: Omar Sy, Charlotte Gainsbourg, Tahar Rahim e Izïa Higelin.
Sem Prêmios.
Samba (2014) on IMDb


Um filme francês chamado “Samba”. Seria algo de muito mau gosto ver o ritmo brasileiro representado pelo país do champagne. Consigo imaginar mulheres em trajes carnavalescos ou à la Carmem Miranda numa tentativa vexatória de dançar a nossa raiz, em bailes de clubes, com uma fanfarra criando os sons. Homens de bigode, ternos claros, panamás dariam o clima final para uma lástima. Mas não, “Samba” não é sobre samba, apesar das referências ao gênero musical e ao Brasil que o filme retrata. Samba é o nome do imigrante senegalês que é retratado na nova película dos diretores do retumbante sucesso “Intócaveis”. E não pense que não dava para ser tão bom. É!

Samba é um imigrante ilegal e que tem em seu tio o único parente vivendo na França. Ele trabalha como assistente de cozinha (de forma irregular) e, como é sabido, há um grande cerco contra os ilegais na Europa. A polícia fica de olho em qualquer suspeita e em uma dessas ações Samba é preso e começa o processo de deportação. Por outro lado está uma ONG que acolhe e defende pessoas nessa situação. Samba é acolhido pela voluntária Alice, uma mulher cheia de problemas pessoais e psicológicos e que está na ONG como parte de sua recuperação. O tema é atual e denso, mas esse toque romântico dá um alívio a qualquer possibilidade de depressão. E esse é o toque de mestre e já uma marca registrada da dupla de diretores Olivier Nakache e Eric Toledano.


São realmente diretores para se ficar de olho. Quem achava que “Intocáveis” fosse um golpe de sorte, “Samba” prova com ótima direção, roteiro e escolha de elenco são futuro do cinema popular e de qualidade. É um feel good movie. Conseguem pegar um problema enorme e transformá-lo em algo agradável de ver na tela. Não há profundidade nos fantasmas que a imigração ilegal e xenofobia causam, mas conseguem debater o assunto da forma mais leve possível. O tema já foi amplamente abordado no cinema, mas aqui o que realmente importa são as relações humanas. Charlotte Gainsbourg faz muito bem seu papel da desequilibrada Alice e nos faz esquecer ela em "Ninfomaníaca". Já Omar Sy é um monstro, repetindo o alto nível de atuação do filme anterior dos diretores e desponta como um ator memorável. O elenco de apoio também faz bonito, mas Nakache e Toledano merecem todos os louros. “Samba” é tão bom ou ainda melhor que “Intocáveis”.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 13 de julho de 2015

O Sal da Terra


Nome Original: The Salt of the Earth
Ano: 2014
Diretora: Juliano Ribeiro Salgado e Wim Wenders
País: França, Brasil e Itália
Elenco: Sebastião Salgado, Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado.
Prêmios: Un Certain Regard - Special Jury Prize, Prize of the Ecumenical Jury - Special Mention e François Chalais Award - Special Mention no Festival de Cannes, Melhor Documentário no César Awards e Prêmio da Audiência no Festival Internacional de San Sebastián.
O Sal da Terra (2014) on IMDb


A humanidade já deu provas o bastante de que faliu. E as provas são dadas diariamente a cada segundo, a cada milésimo de segundo. Em cada canto do mundo, uma desgraça acontece em progressão geométrica, numa trilha que nunca irá retornar. A tendência é a sua extinção por conta de seus próprios erros. Os humanos falharam. A fome? As guerras? As chacinas? O poder? A escravidão? A morte da natureza? O fim dos recursos naturais? A maldade? A vida. Tudo ainda não explodiu, pois há uma força enorme trabalhando para a impossível reversão da atual situação. Mas há esperança ainda em cabeças inteligentes, crédulas que é possível mudar o mundo. Essas verdadeiras dádivas humanas existem por aí, evitando que as tragédias sejam dirimidas em seu entorno e dando exemplos para que uma verdadeira corrente do bem se espalhe. Esses humanos acreditam que esse emaranhado de animais possam voltar a ser seres humanos, pensando em humanos, pensando na vida. O que é a vida? Não há resposta, mas Sebastião Salgado retratou o melhor e o pior dela. Com certeza, retratou mais o pior, pois o cerne do ser humano é destrutivo. Mas humanos como Salgado nos dão esperança. Eu tenho.

O documentário “O Sal da Terra” é uma experiência visual. Não é 3D, mas é sensorial. Não, não é 4XD. É real. Não, não é simulador. É um mergulho no processo criativo, na vida, na família, nos problemas e nas virtudes de um dos maiores fotógrafos do mundo, o brasileiro Sebastião Salgado. O diretor Win Wenders conta de onde conheceu Salgado, foi atrás e com a ajuda do filho do retratado, Juliano, contam como aquele economista de futuro promissor, tornou-se um amante de fotografia, e vislumbrou em dissecar o mundo através de suas lentes. Dissecar os homens. A África é o local mais comum em seus projetos, mas que passaram também pela America Latina e Leste Europeu. Seus projetos tornaram-se livros famosos (e caros ) onde a sua técnica em branco e preto é visível e admirável. Há também muita culpa em tudo que foi retratado pela sua lente. Um dos seus relatos diz que muitas vezes antes ou depois de fotos, ele chorava. Retratar a miséria, a morte e a desgraça é para poucos. Com o projeto “Gênesis” conseguiu retomar seu prumo, dando um novo norte em sua carreira, com fotografias que remeteriam ao início da vida. Ele conheceu o fim e o recomeço da Terra. Sebastião Salgado preencheu o coração de esperança, aliado ao Instituto Terra, uma velha fazenda herdada onde ele e sua esposa recriaram boa parte da Mata Atlântica. Um projeto lindo e espelho para diversas gerações. O documentário é o relato para você conhecer um ser único, atráves de uma unica visão, mas Sebastião Salgado é absolutamente genial com uma câmera nas mãos. Veja:







Vitor Stefano
Sessões
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