quarta-feira, 18 de maio de 2016

Segunda Chance


Nome Original: En chance til
Ano: 2014
Diretor: Susanne Bier
País: Dinamarca
Elenco: Nicolaj Coster-Waldau, Ulrich Thomsen, Nikolaj Lie Kaas, Thomas Bo Larsen, May Andersen e Marie Bonnevie.
Prêmios: Melhor Atriz (Maria Bonnevie) no Abu Dhabi Film Festival e SIGNIS Award no Festival de San Sebastián.
Segunda Chance (2014) on IMDb



Estereótipos. O filme enquadra todos seus personagens duma forma quase caricata. Os detetives com problemas extra trabalho e com dúvidas morais sobre como agir. Drogados sem escrúpulos e sem futuro, sujos e irresponsáveis. Os estereótipos estão lá para que possamos nos identificar, entender quem são que estamos vendo na tela. Simon é o detetive bêbado, mas experiente. Sempre com dúvidas. Já seu colega, Andreas, tem um casamento “perfeito“ e um bebê lindo. A dupla, numa abordagem a uma casa, se depara com um casal de drogado já conhecidos de outras abordagens, e eles escondem algo. Não, não eram drogas, era um bebê, sujo, cheio de fezes, com frio e sem comer – numa sequencia de cenas difíceis de digerir, mas sem ser apelativas. E num espiral de acontecimentos, o julgamento moral e ético dos quatro começa a ser testado.

A diretora dinamarquesa Susanne Bier, vencedora do Oscar de Melhor Filme de Língua Não Inglesa por “Em Um Mundo Melhor" é conhecida por contar histórias duras e impiedosas de forma melodramática e por vezes piegas. É uma marca dela e quando vemos um filme dela precisamos nos preparar para entrar de cabeça no âmago de personagens complexos e confusos, com viradas (muitas vezes) esperadas, mas que ganham dramaticidade por suas poucas falas e com a dor expressa em closes nos rostos marcados dos personagens. Bier é a dama-melodrama, mas que sabe nos envolver e nos arrebatar com sua dureza e habilidade. Todo elenco está excelente, doado aos personagens. Ela é uma mulher para sempre acompanhar. Mesmo quando fez filmes em Hollywood conseguiu manter sua marca (“Coisas que Perdemos pelo Caminho” e “Entre Irmãos”) e “Segunda Chance” também tem esse tom e, mesmo assim, é imperdível.

Vitor Stefano
Sessões

sábado, 14 de maio de 2016

Chung Kuo - China


Nome Original: Chung Kuo, Cina
Ano: 1972
Diretor: Michelangelo Antonioni
País:Itália
Elenco: Giuseppe Rinaldi
Sem Prêmio
Chung Kuo - Cina (1973) on IMDb


Chung Kuo, é um documentário de Michelangelo Antonioni produzido a pedido do grande timoneiro, líder supremo e luz eterna do universo Mao tsé Tung ao cineasta italiano em 1972.

A primeira coisa que me veio à cabeça durante todo o filme (3h 30 de duração divididas em 3 partes) é que o filme poderia ter sido mais um instrumento de propaganda do regime, mas do ponto de vista político ele é extremamente objetivo. Claro que, a imparcialidade plena só seria possível com a câmera desligada, mas Antonioni consegue mostrar as várias facetas deste grande país sem necessariamente fazer uma apologia infantil do sistema comunista chinês retratando – o como a panaceia para todos os males da humanidade como de vez em quando a gente vê por aí.

Aliás isso fica claro logo de saída quando percebemos que o protagonista principal não será os grandes filósofos de antes de Cristo, nem os imperadores das dinastias do século XIX, nem as grandes personalidades do século XX que lideraram as transformações radicais deste milenar país. A personagem principal deste documentário é o povo chinês.

Dividido em três partes, o documentário faz um apanhado fiel do cotidiano dos chineses em todas suas dimensões. Somos levados às indústrias de tecelagem de Pequim em que os trabalhadores ditam os rumos da produção, sem patrões, o que há são técnicos do partido organizando os processos. Também vemos os parques com idosos em seus movimentos vagarosos de tai chi chuan, as crianças na escola encenando apresentações artísticas cujas canções narram os feitos do grande líder. E sobra espaço até para uma cena surreal de uma chinesa sendo anestesiada com as finas agulhas da acupuntura antes de se iniciar a cesariana, durante a operação ela ri, come frutas, é escalpada e conversa com a equipe italiana.

De igual modo, se contrapondo à China urbana, conhecemos também às populações do extremo rural, a velha china camponesa e pobre em que muitos dos retratados jamais viram ou tiveram contato com o homem ocidental e isso fica claro nas imagens e na hostilidade/medo/timidez do povo às lentes da câmera. Notamos também uma velhinha caminhando com dificuldade pelas ruas de pedra em virtude, de na adolescência, ter sido vítima da tradição do “pé de lótus”. A terrível técnica de amarrar os pés das meninas a partir dos 6 anos de idade de modo a que eles não cresçam normalmente. A finalidade disso era agradar aos homens, na prática fortalecia o papel social de submissão da mulher ao homem.Neste ponto o documentário se aproxima de um experimento antropológico.


A China de 1972, é a China que ainda sente ou se ressente do peso da revolução cultural que instalou o caos na sociedade e a manteve sob o controle de Mao Tsé-Tung. Portanto, não se trata da China que o ocidente gosta de falar a respeito. Esta, é a china de Deng Xiao-Ping, que abraçou a globalização capitalista antes da queda do muro de Berlim em 1989. A China aqui retratada certamente sofreu transformações radicais o que por si só faz com que o documentário mereça figurar entre os melhores filmes sobre a China moderna. Este complexo, dispare, estranho e gigantesco território que serve de lar para 1,3 bilhão de pessoas às quais o resto da população mundial se vê inexoravelmente dia a dia mais interligada.

Fernando Moreira dos Santos
Sessões

terça-feira, 3 de maio de 2016

Permanência


Nome Original: Permanência
Ano: 2014
Diretor: Leonardo Lacca
País: Brasil
Elenco: Irandhir Santos, Rita Carelli, Laila Pas, Genésio de Barros e Sílvio Restiffe.
Prêmios: Melhor filme, melhor direção de arte, melhor ator coadjuvante (Genésio de Barros) e melhor atriz (Rita Carelli) no Cine PE.
Permanência (2014) on IMDb


Dizem que nada acontece. Que há vazios existenciais nos silêncios inquietantes. Que os olhares que se cruzam timidamente já se comeram outrora. Que a delicadeza do toque já foi mais vigoroso e potente. A vontade do querer não acabou. O incômodo gerado pela permanente tensão de querer ser o que não se pode. De ter vontade, mas reprimir. De viver sem gozar a vida. Tensão do tesão reprimido. Permanência é estar, mas não necessariamente querer estar. Em “Permanência” nada acontece, mas não conseguimos deixar de ficar tenso com o próximo ato.

Ivo chega em São Paulo, vindo de Recife para apresentar sua exposição. Um abismo de temperatura faz o fotografo estranhar a chegada. Ao encontrar Rita, dona do apartamento onde ficará na temporada, algo trava. O café acompanha a voz baixa e o olhar desviante nos prova que há resquício de algo que restou do passado. Que veio de Recife. Rita é casada e essa tensão permeará toda a estadia. Entre a organização da exposição, festas e jantares na casa, evidencia-se o passado e ressuscita fantasmas. Ivo vive sua vida, se engraça com a mocinha da exposição, numa clara fuga da Rita. Tórridas e elegantes cenas de sexo permanecem em sua mente. Entre idas e vindas, não importa o que é dito, estamos apenas ouvindo apenas o não dito.


O cinema pernambucano é a meca do cinema nacional. Há alguns anos o frescor e potência dos filmes dos diretores de lá criaram uma nova modalidade. Mesmo se passando em São Paulo, a ternura do olhar, a secura da vida e Irandhir Santos nos faz pensar claramente no Recife. Aliás, Irandhir é nosso melhor ator da atualidade e está dominando a tela. Com atores desconhecidos como coadjuvantes, ele brilha, mas muito por conta do excelente trabalho de Rita Carelli. O silêncio é barulhento demais para não delatar o que está acontecendo. “Permanência” é sobre tudo, nada, rotina e pessoas. É um lindo filme e um inicio promissor de Leonardo Lacca.

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 21 de abril de 2016

O Julgamento de Viviane Amsalem


Nome Original: Gett /המשפט של ויויאן אמסלם
Ano: 2014
Diretor: Shlomi Elkabetz e Ronit Elkabetz
País: Israel, França e Alemanha
Elenco: Ronit Elkabetz, Simon Abkarian, Menashe Noy e Sasson Gabai.
Prêmios: Directors to Watch no Festival de San Sebastián, Melhor Filme e Melhor Ator Coajudvante (Gabai) da Academia Israelense de Cinema e Melhor Roteiro no Festival Internacional de Chicago.
O Julgamento de Viviane Amsalem (2014) on IMDb


A separação é um momento doloroso e traumático para qualquer ser. Ninguém casa pensando no tribunal e na assinatura dos papéis do desquite, mesmo que seja cada vez mais comum e aceito na sociedade. Isso na sociedade ocidental. Em Israel o julgamento é feito por um tribunal religioso, comandado por rabinos. O filme não é exatamente o julgamento de Viviane, mas a busca dela pelo Gett, nome original do filme. Isso é a certidão de divórcio da lei judaica que depende do consentimento do marido para ser efetivado. Viviane não quer mais estar casada com Elisha, mas ele se recusa a aceitar. Não há traição, agressão física ou motivos escusos. Ela apenas não quer dar sequência a um casamento de 30 anos e quatro filhos, sempre bela, recatada e do lar, apesar de ser cabeleireira profissional. Ela quer a liberdade.

De qualquer forma é um novo marco nos filmes de julgamento. A princípio, ao vermos apenas os advogados fazendo argumentação, criamos a expectativa de conhecer a mulher que dá nome ao filme. Mas chegamos à uma mulher bonita, mas visivelmente cansada. E esse cansaço se torna visível a cada novo retorno aos tribunais. A negativa de Elisha, as suas ausências nas audiências, a solicitação dos rabinos a que ela volte à casa e viva sobre o mesmo teto que o marido vão gerando um sentimento ainda pior nela. Durante cinco anos vemos o patriarcalismo judeu sobrepor aos direitos e vontades de Viviane, um ser praticamente invisível. Ele com seu semblante sempre sóbrio mantém-se impávido enquanto ela se desespera ao saber que é o elo mais frágil. É a mulher. É quem deveria estar quieta e aceitar as condições do marido. Ele nunca levantou a mão para ela. Ele sempre proveu do bom e do melhor para a cada. Ele sempre foi à sinagoga e é respeitado por lá. Ele nunca a privou de nada dizem as testemunhas que também corroboram que ela não o quer. Ela tem seus motivos e simplesmente ela não quer. Ela explode, como já explodiu muitas vezes. Já basta. Viviane viveu sua vida toda como um cão preso à uma bola. Viviane nunca foi valorizada. Viviane nunca foi ouvida. Viviane precisa de sua liberdade.


"O Julgamento de Viviane Amsalem" é um grito de socorro que ecoa no âmago e na eternidade. Entre o absurdo e a lei religiosa ver que num país de primeiro mundo ainda há tanta incoerência e desrespeito gera um riso nervoso e uma angústia. Um filme que se passa integralmente entre quatro paredes, onde homens definirão o futuro de Viviane. O roteiro é brilhante que prende e penetra na mente, uma crítica ferrenha ao machismo, às convenções que o judaísmo impõe. O final em aberto é um fantasma que sempre a decisão de homens em nome de Deus será injusta. A religião tem a força de privar os seres humanos de serem quem querem. Mas como a própria personagem diz aos rabinos, num acesso de fúria: isso um dia vai acabar e vocês serão inúteis, não me julgarão e farão apenas conversões de religião. Serão descartáveis. É uma pena que Ronit Elkabetz, co diretora e estrela do filme, não verá isso em sua Israel. Faleceu dia 19/04/2016 deixando um gostinho amargo para nós. Uma grande atriz e diretora de um dos melhores filmes da década ao lado de "A Separação". Iraniano e israelense...que ironia. É um assunto traumático em qualquer lugar desse globo e gerou esses dois filmes incríveis.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Sicário: Terra de Ninguém



Nome Original: Sicario
Ano: 2015
Diretor: Denis Villeneuve
País: EUA
Elenco: Emily Blunt, Benicio del Toro, Josh Brolin, Daniel Kaluuya e Jon Bernthal.
Prêmios: Melhor Edição no Satellite Awards.
Sicario: Terra de Ninguém (2015) on IMDb 

 

Cartéis mexicanos com guerra às drogas é um assunto que está no cinema há décadas. A inabilidade dos governos em querer o fim do tráfico, a corrupção nas polícias, a facilidade com que se transporta e armazena drogas no território americano, a caçada aos mulas ou mesmo o envolvimento de políticos com os “inimigos” já rechearam uma porção de bons filmes – tanto americanos como mexicanos.

Mas não, “Sicário” não é só mais um filme sobre esse assunto – apesar de ter muito do dito acima. O filme é sensível e duro. São muitas nuances dentro do modus operandi da(s) polícia(s), intercalando com o jogo de cena dos traficantes e as ligações obscuras entre eles. “Sicário” é um filme com planos abertos belíssimos, que nos deixam ver a ação de forma ampla numa luz linda, num cenário tão lindo quanto que potencializam um roteiro ótimo e cheio de ótimas atuações. Kate é frágil, mas corajosa. Ela quer a justiça, doa a quem doer. Ela está, mas não sabe onde. Ela está nas mãos de Alejandro e Matt que ela não conhece. Eles são mal encarados, obscuros, mas duríssimos. Blunt, Brolin e, principalmente, Del Toro estão brilhantes na tela, dando força e empatia aos personagens, por mais dúbios que eles sejam.  Há tensão, há ação, há negociação.




Denis Villeneuve é um dos diretores mais intrigantes que surgiram nos últimos anos. A partir de “Incêndios” ele criou uma tara dos cinéfilos por seus filmes que foram buscar sua filmografia datada de antes de 2010 e ficaram em polvorosa aguardando o que viria depois. Mas não apenas aos cinéfilos o canadense chamou atenção. A indústria viu nele um diretor ousado e diferente. “Os Suspeitos” veio e manteve o nível, com sua boa mão para suspense - agora com atores famosos e bom orçamento. A adaptação de Saramago - “O Homem Duplicado” - foi aclamado pela crítica, mas é um filme difícil, confuso, mas que tem muitas qualidades, já “Sicário: Terra de Ninguém” é um dos melhores do ano passado e continua a prova que Villeneuve é sempre ótimo cinema para ver.

E a vingança será sempre, sempre, pessoal.

Vitor Stefano
Sessões
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...