terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Operação Big Hero



Nome Original: Big Hero 6
Ano: 2014
Diretor: Don Hall e Chris Williams
País: EUA
Vozes: Scott Adsit, Ryan Potter, TJ Miller, Jamie Chung e Damon Wayans Jr.
Prêmio: Oscar de Melhor Animação.
Operação Big Hero (2014) on IMDb


As ciências são tão enigmáticas. É o poço de esperança de um futuro melhor e a possibilidade de fim da existência humana na Terra. Sim, há um enorme vale na utilização de novas tecnologias, suas formas e interesses. Imagine um robô que escaneia seu corpo, identifica doenças, dá diagnósticos e auxilia em emergências. Imagine que ele te abrace num momento de tristeza ou depressão. Sensacional. Mas e se essa ou outra tecnologia foi roubada para enriquecimento próprio ou vingança. Novas tecnologias são sempre bem vindas, mas saber utilizá-las é ainda mais importante do que realmente cria-las.

O jovem Hiro é um pequeno prodígio. Sabe tudo de robótica e gosta mesmo é de se divertir com a criação e com as lutas de robôs, pratica proibida, mas muito praticada em San Francistokyo (sim, a mistura das duas cidades). Tadashi, seu irmão, é estudante de tecnologia e vê que seu irmão pode acabar se perdendo com o vício das lutas. Ele trabalha no incrível robô assistente de saúde. Quando mostra ao pequeno seu projeto e o de seus colegas de faculdade, Hiro sabe o que quer: entrar nessa faculdade, com esses professores. Sua genialidade causa interesse comercial, mas ele quer mesmo desenvolver ainda mais o projeto. Uma tragédia acontece. Hiro quer descobrir o que realmente aconteceu. Com ajuda dos amigos da faculdade e do robô Baymax vai atrás de aventuras e de justiça.


“Operação Big Hero” é o “Frozen” para meninos, com personagens mais carismáticos, um herói robô-fofo e sem aquela música infernal de Lerigou. Seu grande trunfo é passar uma boa mensagem aos pequenos, mostrando que a ciência pode ser algo muito bacana e aplicável no dia-a-dia. Mas não é só uma mensagem bonitinha não. Há um bom melodrama que faz com que os adultos também se emocionarem e se conectarem àqueles super-heróis improváveis. Claro que o destaque geral não é para o menino Hiro, mas sim para o robô Baymax, com sua mensagem pacifista, amorosa e com o aspecto de boneco da Michelan, que faz com que queiramos abraçar aquele robô o tempo todo. “Operação Big Hero” deixa boa impressão e tem fôlego para que venham sequências dessa turma. O mais interessante é a clara inspiração e homenagem aos mangás, obviamente, com a disneyzação necessária para a aceitação do publico americano (e brasileiro).

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Para Sempre Alice



Nome Original: Still Alice
Ano: 2014
Diretor: Richard Glatzer e Wash Westmoreland
País: EUA / França
Elenco: Julianne Moore, Kate Bosworth, Hunter Parrish, Alec Baldwin e Kristen Stewart
Prêmios: Oscar, Globo de Ouro e Screen Actors Guild Awards, de Melhor Atriz (Julianne).
Para Sempre Alice (2014) on IMDb




Durante a vida inteira dei aulas. Aulas de linguística na maior faculdade daqui. Respeitada, inteligente, escrevi livros, tenho um casamento maravilhoso e filhos muito queridos. Três... Duas meninas e um menino já crescidos e na faculdade. Não, uma é atriz e eu não gosto muito dessa opção. Marginal, mas tudo bem, ela estando bem é o que importa. Mas... (como é o nome mesmo)... Bom, eu vivi de forma maravilhosa todos os dias, intensos, revigorantes. Trabalhar é um bálsamo, me acalma, me faz pensar, me faz viver. Mas acho que não poderei. Estou com problemas para lembrar... O que eu estava dizendo? Eu sou Alice... E você?

Eu estou com Alzheimer raro, familial e quando ainda jovem (eu estou nos 50, em plena forma) pode causar ainda mais danos à minha memória. À minha vivência. À minha vida. Não sei o que fazer... Não consigo me lembrar o que ia dizer agora.

Julianne Moore. Ela é o nome do filme. Ela é Alice, forte, intensa, vibrante. Beira o genial numa atuação que exige demais e emociona. Ela nos faz fazer parte da família, dos problemas que a doença causa e ao seu redor. Claro que o filme envereda por um caminho sentimentaloide, mas como não ser assim? Como passar por uma doença tão dura, tão pesada e não haver uma ponta de piegas. Mas o filme não é pesado, não é dramalhão. Isso por méritos da direção e roteiro que fazem com que a personagem Alice seja muito humana, muito real, vivendo problemas que todos podemos viver. Que toda família pode passar - espero que ninguém passe por aquilo. Todo o conjunto de atores está bem, Alec Baldwin como marido workaholic, os filhos fazem contraponto com brigas habituais. A filha mais nova, vivida por Kristen Stewart, é rebelde e fora da curva, mas faz uma linda conexão com a mãe. Ela está muito bem. A menina vampira está crescendo e mostrando ser muito boa atriz – já fez isso em “Acima das Nuvens” do Olivier Assayas. “Para Sempre Alice” é um belo retrato de uma família num drama duro. “Para Sempre Alice” é a consagração da maravilhosa Julianne Morre.

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Selma – Uma Luta pela Igualdade



Nome Original: Selma
Ano: 2014
Diretor: Ava DuVernay
País: EUA
Elenco: David Oyelowo, Oprah Winfrey, Carmen Ejogo, Tim Roth e Tom Wilkinson.
Prêmios: Melhor Canção Original, Filme do Ano no AFI Awards, Prêmio da Audiência para Melhor Narrativa, Melhor Desempenho (Oyelowo) e Directors to Watch no Palm Spring Film Festival.
Selma: Uma Luta Pela Igualdade (2014) on IMDb



Mesmo sabendo ser um filme sobre Martin Luther King, imaginava que o nome do filme seria homônimo a algum personagem feminino muito importante na vida do ativista. Não é. Selma não deixa de ser um personagem importante na história, mas é a cidade na qual o filme se passa e onde MLK centraliza sua caminhada histórica para mudar definitivamente a história dos EUA no que tange os direitos civis dos negros. Isso em 1965. Sim, até esse ano, nos Estados Unidos negros não podiam votar, eram discriminados por banheiros, hotéis e restaurantes exclusivos para caucasianos. Negros não eram nada, ou melhor, eram a escória do universo. A se pensar na história norte-americana, é incrível que poucos anos depois um negro seja eleito o presidente dessa nação.

Incrível que um ano depois de “12 Anos de Escravidão” um filme mais potente e belo não tenha tido tanto apreço da Academia. Talvez na cabeça dos votantes pelo cabeça dourada a cota de filmes, atores e diretores negros já tenha atingido a sua meta da década. Talvez. Ao menos serviu para que um preconceito meu fosse quebrado. Nada contra os negros, por favor, mas sim contra a socialite e apresentadora Oprah Winfrey. Claro que a incoerência das indicações ao Oscar 2015 me levaram a pensar ainda mais mal do que deveria dela. O filme está indicado ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Canção Original – a belíssima “Glory” interpretada por John Legend e Common. Como um filme tem indicação de Melhor Filme e não tem nenhuma outra indicação nas categorias principais? Acredito que nunca antes isso tenha acontecido. Óbvio que a força de Winfrey como uma das produtoras (e com uma ponta como atriz) pode o catapultar a essa posição (Brad Pitt também é produtor e nome de peso na Academia). Lembro-me de “Preciosa” um filme apenas bom, com uma história tristíssima e uma interpretação fantástica de Mo'Nique que foi muito falado e entrou na disputa com muito mais força do que realmente o filme merecia à época e muito disso (tudo isso) foi por Oprah. Achei que este seguiria o mesmo caminho. Errei.




“Selma” é uma história belíssima de um gênio que mudou a história do mundo. Viveu pouco, mas seu nome estará para sempre nos livros de história, nos nomes de escolas, no ideal de um idealista. Luther King foi além. Conseguiu unir forças, brigar contra gigantes, peitar a morte em prol de um ideal. Não existem mais ativistas como ele. Cometi o erro de dizer que “Selma” só estava concorrendo ao Oscar de Melhor Filme pra cumprir a “cota negra” do Oscar. Errei. “Selma” deve estar lá e com boas chances (apesar de minha predileção por “Birdman”). Ava DuVernay merecia estar entre os finalistas a melhor diretor. David Oyelowo é a melhor interpretação de um protagonista do ano e merecia estar indicado por fazer um personagem vibrante, numa uma caracterização maravilhosa. “Selma” é o melhor filme com menos indicações desse Oscar. Um grande filme.

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Sniper Americano



Nome Original: American Sniper
Ano: 2014
Diretor: Clint Eastwood
País: EUA Elenco: Bradley Cooper e Sienna Miller
Prêmios: Filme do Ano no AFI Awards.
Sniper Americano (2014) on IMDb


Toda guerra é desnecessária. Toda morte é desnecessária. Todo ódio é desnecessário. Todo totalitarismo é desnecessário. Mas nenhum dessas quatro vertentes deixará de existir no mundo atual. Inclusive elas se interligam e não há desconexão possível. Alguém quer matar? Alguém quer odiar? São interesses mórbidos, preceitos antigos, crenças mortais. Apontar a arma para uma criança. Não há perdão. Não há justificativa. Mas... Não há mas. Pra guerra só há meu desrespeito. Ver a história do sniper mais letal da história, do país mais mortal da história, envolto na bandeira mais odiada do planeta e não achar que é um filme patriótico é no mínimo um contrassenso ou maluquice. “Sniper Americano” é filme patriota com mensagem pacifista. De que adianta matar tanto? De que adianta ser uma lenda e não ter vida? Salvou um país? Salvou muitos colegas? De que adiantou?

Chris Kyle é um patriota clássico, bruto homem do centro, cowboy. Não há motivos para querer estar lá, lutando por seu país. Gostaria de viver dos rodeios. Mas o que leva? Ele alega viver no melhor país do mundo, mas ele se alistou para o Exercito após encontrar sua namorada com outro na sua cama. Demonstração de força ou de auto estima? Um cara com 30 anos precisa disso? Quem sabe? Chris leva os ensinamentos do pai em caça para os testes militares e chama atenção. Prefere deixar a namorada, futura-esposa, filhos. Prefere estar lá no pelotão de frente na busca da paz perdida no Afeganistão. Chris acumulou mais de 150 mortes. Foi conhecido como “The Legend”. Chris morreu em combate, porque o homem que voltou não era aquele cara que foi. Essa é a grande morte da guerra. Ela mata tudo e todos.


Clint Eastwood tem direção firme, bom roteiro e consegue boas atuações, principalmente de um ator renegado pela maioria, mas que vem fazendo papéis interessantes e tirando o estigma de ser o bonitão do “Se Beber, Não Case”. Bradley Cooper vem acumulando boas interpretações nos últimos anos e se gabaritando para ser um dos bons de sua geração. Eastwood não precisa provar nada pra ninguém. Nem mesmo se sua visão política influencia ou não no seu filme. Eastwood fez um filme que chama atenção pelas cenas de ação de guerra, principalmente pela frieza da visão através da mira da arma de alta precisão, mas enfoca nas relações familiares e pessoais. Foca na relação do indivíduo com o indivíduo. “Sniper Americano” é mais um bom filme de Eastwood, que tem feito filmes menos espetaculares nos últimos anos.

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O Conto da Princesa Kaguya



Nome Original: Kaguyahime no monogatari
Ano: 2013
Diretor: Isao Takahata
País: Japão
Vozes: Aki Asakura, Yukiji Asaoka e Takeo Chii
Prêmios: Melhor Animação no Asia Pacific Screen Awards.
O Conto da Princesa Kaguya (2013) on IMDb



Imagine você, um simples cortador de bambu, é chamado pro uma luz bela e incandescente dentro de uma árvore dessas. Ao se aproximar surge um bebê minúsculo, belíssimo, uma verdadeira princesa. Espanta. Comove. De onde veio? De outro mundo? Leva para casa como a filha que nunca teve com sua esposa. Dia pós dia ela crescia de forma exponencial, andando, falando e cantando e logo se enturmou com as crianças da montanha onde vivia. Não tinha um nome, apenas era uma criança feliz, sem compromissos, sem problemas e sem preocupações. Era o que uma criança deve ser: criança. E não era apenas feliz, fez uma família ainda mais feliz, com pouco, mas sempre feliz. Num mesmo bambuzal onde a pequena dádiva o cortador encontrou uma quantidade absurda de ouro. O que os céus querem? É mesmo uma princesa? O que precisa uma princesa? Um príncipe, um palácio, uma vida confinada com ouro e diamantes? Seu pai acha que os sinais devem leva-los à capital, promover a pequena criança à princesa, pronta para casar-se com um figurão da sociedade. Claro, com muita pompa e apreço, e de quebra com um bom cargo. Mas ninguém queria saber o que a pequena menina queria.

Num mundo onde o individualismo impera, “O Conto da Princesa Kaguya”, inspirado no conto popular japonês “O corte do bambu”, é mais atual do que nunca. Mesmo sem definição de época e com todo simbolismo e fantasia, o filme nos remete à realidade vivida ainda hoje. Não há vida na aparência. Não há felicidade na falta de liberdade. Não há perdão para o egoísmo. Não há vida possível sem conversa, afeto, aceitação. Kaguya é uma dádiva para a família, não é um trampolim para a riqueza. E os céus punem. Tudo que vem fácil, vai fácil. A vida na pacata montanha era tudo que Kaguya queria. Não há palácio, riqueza, dinheiro ou presente que a faça esquecer os seus anos mais belos que vivia. Ela vivia. O machismo que compra com presentes, a aparência da riqueza que ofusca a podridão, a busca do poder sem ver quem está abaixo, esquecer seu passado. Sobreviver aqui não é viver. Voltar à lua é a única saída. A Terra não é seu lugar. “O Conto da Princesa Kaguya” é uma dádiva. Mesmo não tendo gostado da cena final (nada que atrapalhe todo o filme) ela deve tirar algumas lágrimas do expectador. Kaguya vai, mas ficam seus ensinamentos.


Não é de hoje que as animações do Studio Ghibli são aclamadas como as melhores existentes do mercado. Esse mercado faz com o passar do tempo deixaram de ser mágicas e se tornaram produtos em busca de expectadores, produtos de marketing e massificação. Desenhos a lápis, sem 3D, sem cores maçantes e explosivas não atraem mais o público em geral ou mesmo às crianças já acostumadas com desenhos redondos, muito bem acabados digitalmente e chamativos. O costume e o consumismo, aliados à americanização da nossa cultura, faz com que obras primas como “O Conto da Princesa Kaguya” seja lançado (se for lançado) em um circuito mínimo, sem público que o torne viável financeiramente e que o deixarão numa prateleira escondida na locadora (ainda existem?) ou mesmo vá para as lojas de filmes num lote mínimo e sumirão fisicamente, mas nunca deixarão a lembrança de quem o viu. É por essas e outras que o Studio Ghibli vez por outra anuncia seu possível fechamento. Hayao já disse ter parado de fazer cinema. Isao ainda não. Esperamos que ele não pare, para o bem de um público fiel, interessado e que tenta ampliar o alcance de obras maravilhosas feitas de forma artesanal. De forma que toque nossos corações. “Kaguya...” é maravilhoso esteticamente e sua fantasia é absolutamente inebriante.

Vitor Stefano
Sessões
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