terça-feira, 3 de maio de 2016

Permanência


Nome Original: Permanência
Ano: 2014
Diretor: Leonardo Lacca
País: Brasil
Elenco: Irandhir Santos, Rita Carelli, Laila Pas, Genésio de Barros e Sílvio Restiffe.
Prêmios: Melhor filme, melhor direção de arte, melhor ator coadjuvante (Genésio de Barros) e melhor atriz (Rita Carelli) no Cine PE.
Permanência (2014) on IMDb


Dizem que nada acontece. Que há vazios existenciais nos silêncios inquietantes. Que os olhares que se cruzam timidamente já se comeram outrora. Que a delicadeza do toque já foi mais vigoroso e potente. A vontade do querer não acabou. O incômodo gerado pela permanente tensão de querer ser o que não se pode. De ter vontade, mas reprimir. De viver sem gozar a vida. Tensão do tesão reprimido. Permanência é estar, mas não necessariamente querer estar. Em “Permanência” nada acontece, mas não conseguimos deixar de ficar tenso com o próximo ato.

Ivo chega em São Paulo, vindo de Recife para apresentar sua exposição. Um abismo de temperatura faz o fotografo estranhar a chegada. Ao encontrar Rita, dona do apartamento onde ficará na temporada, algo trava. O café acompanha a voz baixa e o olhar desviante nos prova que há resquício de algo que restou do passado. Que veio de Recife. Rita é casada e essa tensão permeará toda a estadia. Entre a organização da exposição, festas e jantares na casa, evidencia-se o passado e ressuscita fantasmas. Ivo vive sua vida, se engraça com a mocinha da exposição, numa clara fuga da Rita. Tórridas e elegantes cenas de sexo permanecem em sua mente. Entre idas e vindas, não importa o que é dito, estamos apenas ouvindo apenas o não dito.


O cinema pernambucano é a meca do cinema nacional. Há alguns anos o frescor e potência dos filmes dos diretores de lá criaram uma nova modalidade. Mesmo se passando em São Paulo, a ternura do olhar, a secura da vida e Irandhir Santos nos faz pensar claramente no Recife. Aliás, Irandhir é nosso melhor ator da atualidade e está dominando a tela. Com atores desconhecidos como coadjuvantes, ele brilha, mas muito por conta do excelente trabalho de Rita Carelli. O silêncio é barulhento demais para não delatar o que está acontecendo. “Permanência” é sobre tudo, nada, rotina e pessoas. É um lindo filme e um inicio promissor de Leonardo Lacca.

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 21 de abril de 2016

O Julgamento de Viviane Amsalem


Nome Original: Gett /המשפט של ויויאן אמסלם
Ano: 2014
Diretor: Shlomi Elkabetz e Ronit Elkabetz
País: Israel, França e Alemanha
Elenco: Ronit Elkabetz, Simon Abkarian, Menashe Noy e Sasson Gabai.
Prêmios: Directors to Watch no Festival de San Sebastián, Melhor Filme e Melhor Ator Coajudvante (Gabai) da Academia Israelense de Cinema e Melhor Roteiro no Festival Internacional de Chicago.
O Julgamento de Viviane Amsalem (2014) on IMDb


A separação é um momento doloroso e traumático para qualquer ser. Ninguém casa pensando no tribunal e na assinatura dos papéis do desquite, mesmo que seja cada vez mais comum e aceito na sociedade. Isso na sociedade ocidental. Em Israel o julgamento é feito por um tribunal religioso, comandado por rabinos. O filme não é exatamente o julgamento de Viviane, mas a busca dela pelo Gett, nome original do filme. Isso é a certidão de divórcio da lei judaica que depende do consentimento do marido para ser efetivado. Viviane não quer mais estar casada com Elisha, mas ele se recusa a aceitar. Não há traição, agressão física ou motivos escusos. Ela apenas não quer dar sequência a um casamento de 30 anos e quatro filhos, sempre bela, recatada e do lar, apesar de ser cabeleireira profissional. Ela quer a liberdade.

De qualquer forma é um novo marco nos filmes de julgamento. A princípio, ao vermos apenas os advogados fazendo argumentação, criamos a expectativa de conhecer a mulher que dá nome ao filme. Mas chegamos à uma mulher bonita, mas visivelmente cansada. E esse cansaço se torna visível a cada novo retorno aos tribunais. A negativa de Elisha, as suas ausências nas audiências, a solicitação dos rabinos a que ela volte à casa e viva sobre o mesmo teto que o marido vão gerando um sentimento ainda pior nela. Durante cinco anos vemos o patriarcalismo judeu sobrepor aos direitos e vontades de Viviane, um ser praticamente invisível. Ele com seu semblante sempre sóbrio mantém-se impávido enquanto ela se desespera ao saber que é o elo mais frágil. É a mulher. É quem deveria estar quieta e aceitar as condições do marido. Ele nunca levantou a mão para ela. Ele sempre proveu do bom e do melhor para a cada. Ele sempre foi à sinagoga e é respeitado por lá. Ele nunca a privou de nada dizem as testemunhas que também corroboram que ela não o quer. Ela tem seus motivos e simplesmente ela não quer. Ela explode, como já explodiu muitas vezes. Já basta. Viviane viveu sua vida toda como um cão preso à uma bola. Viviane nunca foi valorizada. Viviane nunca foi ouvida. Viviane precisa de sua liberdade.


"O Julgamento de Viviane Amsalem" é um grito de socorro que ecoa no âmago e na eternidade. Entre o absurdo e a lei religiosa ver que num país de primeiro mundo ainda há tanta incoerência e desrespeito gera um riso nervoso e uma angústia. Um filme que se passa integralmente entre quatro paredes, onde homens definirão o futuro de Viviane. O roteiro é brilhante que prende e penetra na mente, uma crítica ferrenha ao machismo, às convenções que o judaísmo impõe. O final em aberto é um fantasma que sempre a decisão de homens em nome de Deus será injusta. A religião tem a força de privar os seres humanos de serem quem querem. Mas como a própria personagem diz aos rabinos, num acesso de fúria: isso um dia vai acabar e vocês serão inúteis, não me julgarão e farão apenas conversões de religião. Serão descartáveis. É uma pena que Ronit Elkabetz, co diretora e estrela do filme, não verá isso em sua Israel. Faleceu dia 19/04/2016 deixando um gostinho amargo para nós. Uma grande atriz e diretora de um dos melhores filmes da década ao lado de "A Separação". Iraniano e israelense...que ironia. É um assunto traumático em qualquer lugar desse globo e gerou esses dois filmes incríveis.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Sicário: Terra de Ninguém



Nome Original: Sicario
Ano: 2015
Diretor: Denis Villeneuve
País: EUA
Elenco: Emily Blunt, Benicio del Toro, Josh Brolin, Daniel Kaluuya e Jon Bernthal.
Prêmios: Melhor Edição no Satellite Awards.
Sicario: Terra de Ninguém (2015) on IMDb 

 

Cartéis mexicanos com guerra às drogas é um assunto que está no cinema há décadas. A inabilidade dos governos em querer o fim do tráfico, a corrupção nas polícias, a facilidade com que se transporta e armazena drogas no território americano, a caçada aos mulas ou mesmo o envolvimento de políticos com os “inimigos” já rechearam uma porção de bons filmes – tanto americanos como mexicanos.

Mas não, “Sicário” não é só mais um filme sobre esse assunto – apesar de ter muito do dito acima. O filme é sensível e duro. São muitas nuances dentro do modus operandi da(s) polícia(s), intercalando com o jogo de cena dos traficantes e as ligações obscuras entre eles. “Sicário” é um filme com planos abertos belíssimos, que nos deixam ver a ação de forma ampla numa luz linda, num cenário tão lindo quanto que potencializam um roteiro ótimo e cheio de ótimas atuações. Kate é frágil, mas corajosa. Ela quer a justiça, doa a quem doer. Ela está, mas não sabe onde. Ela está nas mãos de Alejandro e Matt que ela não conhece. Eles são mal encarados, obscuros, mas duríssimos. Blunt, Brolin e, principalmente, Del Toro estão brilhantes na tela, dando força e empatia aos personagens, por mais dúbios que eles sejam.  Há tensão, há ação, há negociação.




Denis Villeneuve é um dos diretores mais intrigantes que surgiram nos últimos anos. A partir de “Incêndios” ele criou uma tara dos cinéfilos por seus filmes que foram buscar sua filmografia datada de antes de 2010 e ficaram em polvorosa aguardando o que viria depois. Mas não apenas aos cinéfilos o canadense chamou atenção. A indústria viu nele um diretor ousado e diferente. “Os Suspeitos” veio e manteve o nível, com sua boa mão para suspense - agora com atores famosos e bom orçamento. A adaptação de Saramago - “O Homem Duplicado” - foi aclamado pela crítica, mas é um filme difícil, confuso, mas que tem muitas qualidades, já “Sicário: Terra de Ninguém” é um dos melhores do ano passado e continua a prova que Villeneuve é sempre ótimo cinema para ver.

E a vingança será sempre, sempre, pessoal.

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 25 de março de 2016

The Propaganda Game




Nome Original:  The Propaganda Game
Ano: 2015
Diretor:Alvaro Longoria
País: Espanha
Prêmios: Melhor Documentário no Cinema Writers Circle Awards
The Propaganda Game (2015) on IMDb



A maioria das notícias sobre a Coreia do Norte resumem - se  a  piadas sobre as excentricidades do regime ou o lançamento de mais um míssil intercontinental que pode atingir o Alasca.

Neste aspecto o documentário de Alvaro Longoria (Um quarto em Roma, Zona do Crime e Che: o argentino)  traz algo de positivo.

 A Coréia do Norte chama atenção. A política de demonstração de poderio militar através dos desfiles das forças armadas, a ideia de endeusamento de um único líder, a falta de comunicação com o mundo externo, o fato de ser o único regime autoproclamado comunista do mundo e etc. são detalhes que por si só atraem os curiosos para aquela região do globo.


Longoria, inova ao entrevistar o povo norte coreano em seu dia a dia contando para isso com o auxílio do Delegado Especial da Coreia do Norte para Relações Culturais com Países Estrangeiros, Alejandro Cao, um espanhol que ocupa um posto elevado na hierarquia do regime e que desde a adolescência emigrou para realizar o seu sonho de integrar-se ao exército comunista. Alejandro Cao desempenha papel central no documentário foi com ele que o diretor se articulou para realizar o documentário.

O povo aparece em entrevistas banais sobre como é viver na Coréia do Norte, sobre a existência de outras religiões sob o regime, sobre o ódio mortal aos Estados Unidos e sobre o amor incondicional ao    “Sol Supremo”, o líder máximo da nação, Kim Jong Un.

Um relato particularmente diferente foi o de um jovem que ao ser perguntado sobre qual era o seu sonho, respondeu que era terminar a universidade de “motorista do metro” e servir ao líder como motorista de metro. Além disso, muito comum nas falas do povo norte-coreano a ideia de que a coreia do norte é tão maravilhosa que não tem nem como descrever. É preciso ir lá pra conferir. O problema é que só se pode conhecer o país acompanhado por oficiais do governo.

Não se vê pobreza nem miséria no documentário de Alvaro Longoria, os tempos difíceis ficaram para trás quando o povo norte coreano foi humilhado pelas potências imperialistas (Japão e EUA). Pyongyang é uma capital limpíssima, calma, bonita, mas que transmite certa sensação de tristeza.


Obviamente, o documentário dá espaço à outras vozes como a de jornalistas e militantes dos direitos humanos todos com muitas críticas ao regime.

O ponto positivo do Propaganda Game é que ele mostra o que outros documentários não puderam até hoje mostrar: o povo, e de certa forma contribuí para jogar por terra algumas noticias que chegam até nós totalmente truncadas como a de que todos os jovens deveriam ter o mesmo corte de cabelo de Kim Jong Un; o ponto negativo é que os relatos daqueles entrevistados são sempre acompanhados por oficiais do partido o que põe em xeque toda a sua autenticidade bem como mostra um doutrinamento propagandístico que conforma o indivíduo desde a infância.

Fernando Moreira 
Sessões

terça-feira, 22 de março de 2016

Ponte dos Espiões


Nome Original: Bridge of Spies
Ano: 2015
Diretor: Steven Spielberg
País: EUA
Elenco: Mark Rylance, Tom Hanks, Domenick Lombardozzi, Victor Verhaeghe e Alan Alda.
Prêmios: Oscar e Bafta de Melhor Ator Coadjuvante (Rylance).
Ponte dos Espiões (2015) on IMDb



A Guerra Fria já foi exaustivamente tratada na história do cinema e agora, mais de 30 anos após seu término, Steven Spielberg e seu “Ponte dos Espiões” retoma essa temática. É bem verdade que Spielberg parece ter parado no tempo e não tem sido ousado em suas escolhas nos últimos anos – apesar de tecnicamente seus filmes serem sempre excelentes. Sim, ele fez filmes legais nos últimos anos, como “Super 8”, mas que deixam apenas aquela impressão de mais do mesmo. Ao ver um novo filme seu e novamente com Tom Hanks, nos remete naturalmente aos anos 90/2000. Com todos esses ingredientes, poderíamos apenas esperar mais um filme morno vindo de Spielberg. Sim, é morno, mas não insosso. É um filme que foge da pirotecnia de filmes de guerra e é preciso como filme de drama – e entretenimento.

A história de James Donovan é espetacular. Um advogado especializado em seguros é convocado pelos sócios a atender uma solicitação da CIA para defender um suposto espião britânico que trabalharia para os soviéticos que fora capturado. Entre a dúvida e seu respeito à profissão e papel que exerce na sociedade, James passa a defender o espião, de forma isenta, direta e intensa. O mundo e as partes da Guerra viviam momento tenso e Donovan está no meio do tiroteio ao defender um “inimigo”. Se um espião americano fosse capturado pelos soviéticos, o que aconteceria? A justiça deve ser feita e todos tem direito a defesa. Entre o drama e o julgamento, há pitadas de humor, principalmente no envolvimento entre os dois – que dá certa leveza ao filme.


Tom Hanks sempre faz grandes papéis e nem está em jornada tão inspirada, mas é Mark Rylance que dá um show como espião (e por falar em justiça, merecido Oscar de Melhor Ator Coajuvante, desbancando o favorito Sylvester Stallone por “Creed: Nascido para Lutar”). Um trabalho impactante num papel pequeno, e que cresce à medida que a trama desenvolve. O trabalho de arte, ambientação e locações são um prato cheio de qualidade. A direção de Spielberg é precisa e correta, mas como já disse, sem invenções. Um bom e velho cinema de entretenimento, com um pé nos filmes de julgamento e outro nos filmes de guerra. É um filme de grande qualidade e que poderia ser mais, bem mais, pela força de sua história, pelos roteiristas (colaboração dos Irmãos Coen), pelo diretor e por Hanks.

Vitor Stefano
Sessões
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