sexta-feira, 26 de junho de 2015

Mad Max: Estrada da Fúria


Nome Original: Mad Max: Fury Road
Ano: 2015
Diretora: George Miller
País: Austrália e EUA
Elenco: Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult, Hugh Keays-Byrne e Zoë Kravitz.
Sem Prêmios.
Mad Max: Estrada da Fúria (2015) on IMDb


Bem que podia ser o novo clipe da Valesca Popozuda. Tiro, porrada e bomba, mulheres lindas de lingerie, sujas e num ambiente hostil. Até um trio elétrico com guitarras e bumbos já estava lá. De fundo dançarinos ao estilo walking dead, rostos brancos, olhos roxos, magricelas, ágeis e animadinhos. Umas fantasias bizarras, umas máscaras de dar inveja a “Cinquenta Tons de Cinza”, explosões, perseguições e um galã bonitão, que pouco fala, que pouco diz, que pouco aparece. Tudo para parecer que o clipe é feminista, mas onde é feminista quando aquelas modelos da Victoria Secrets desfilam seminuas sob olhar de marmanjos que dominam a área. Mas esse é o estilo Valesca Popozuda, Anitta e que tais - as Kelly Keys dessa geração. Mas aqui no Sessões estamos falando de clipes musicais agora? Não, isso é o novo Mad Max.

Calma, fãs que já intitularam de “Mad Fucking Max”. Talvez vocês não gostem desses novos funks, nem eu, mas os clipes dessas cantoras são bem feitos e tem seu apelo visual. Algo que “Estrada da Fúria” tem de sobra. Visualmente é um dos filmes mais impressionantes dos últimos anos. Algo comparável a “Apocalipse Now” por alguns momentos. A alternância da paleta de cores, entre o azulado e a aridez do deserto dá realmente um choque impressionante. Estamos num mundo quase inabitável e ermo onde os conflitos são por falta de água. Mas o roteiro é ruim? Não. Até porque nem um filme é. São apenas sequencias de perseguições sem apelo, sem conteúdo, sem nexo. Persegue-se ação pela ação, que é apenas agraciado pela beleza de Charlize Theron, mesmo sem um braço na pele de Furiosa. E o tal do Max, de mad mesmo não tem nada. Até acho Tom Hardy um ator com potencial, principalmente após ver “Locke”, mas aqui precisávamos de um ator mais... aliás, menos canastrão. Poucas palavras, duro nas cenas de luta, sem aplo para ser um Mad Max. Nos faz sentir saudades de Mel Gibson dos primeiros filmes da série.

Mesmo sendo o mesmo diretor da trilogia inicial, George Miller evoluiu o filme visualmente, mas não evoluiu em roteiro, apenas o adaptou à crise da água que o planeta vive e viverá nas próximas décadas. Theron é ótima e é o ponto central do filme. Mas não me venha dizer que é um filme feminista. Também não é machista. É apenas um filme de perseguições sem fim. Ainda bem que só tinha duas horas de filme. O George deveria ter ouvido a música que a Tina Turner: "We Don't Need Another Hero". Ficasse só até o Mad Max 3.


Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 4 de maio de 2015

De Menor



Nome Original: De Menor
Ano: 2013
Diretora: Caru Alves de Souza
País: Brasil
Elenco: Rita Batata, Giovanni Gallo, Caco Ciocler e Rui Ricardo Diaz.
Prêmios: Festival do Rio, Melhor Atriz no Festival de Cuiabá e APCA de Melhor Fotografia.
De Menor (2013) on IMDb



Moleque safado. Pretinho filho da puta. Melhor prender tudo, aliás, melhor por no paredão e matar. Não tem saída. Esse país não tem futuro, não tem salvação. Esses ladrõezinhos no futuro serão chefes de facções, ladrões de bancos, arruaceiros, aqueles que nos fazem ficar encarceirados dentro de casa. Eu vou fazer um muro maior, colocar cerca elétrica, contratar um PM de folga pra cuidar da rua, colocar uns pitbulls sanguinários no jardim para que assim que der uma chance, esse neguinho morra logo. Um peso no mundo. Uma bolsa família a menos. Um inútil a menos. Pra falar a verdade, eu vou pegar aquela espingarda e 45 que estava no forro do armário na minha gaveta. A insegurança é geral, mas não vou me calar ou me trancar. Vou fazer por valer os impostos que pago (pago só o que declaro, mas não vamos entrar no mérito). A Justiça é lenta! Eu vou fazer a justiça funcionar. Se por acaso tiver que matar esse moleque alego legitima defesa... nada acontecerá comigo, até porque conheço o delega. Eu sou cidadão de bem! Eu não vou me calar! Eu não vou me esconder! Pena de Morte já!!!! Não me importa se maior ou de menor. Eu quero a liberdade. A minha liberdade.

“De Menor” da diretora Caru Alves de Souza é um filme atualíssimo. Dialoga com o assunto da maioridade penal, em voga no congresso e na sociedade, mas sem ser didática ou política. A história começa em Santos com a câmera acompanhando a personagem Helena entrando numa casa grande, com uma imensa faixa de “Vende-se” na frente, adentramos os cômodos, numa clara apresentação do terreno que veríamos. A casa tem um ar familiar, apesar do vazio. Apenas ela e Caio, seu irmão adolescente, moram lá. Orfãos, eles tem uma ligação de muito companheirismo, e ela, advogada, faz o papel de tutor do jovem. Somos também apresentados ao dia a dia de Helena no Fórum na Defensoria do Juizado de Menores. Dia pós dia casos de pequenos delitos de menores negros, favelados, sem família, desamparados são julgados e condenados à internação na Fundação Casa. Helena luta batalhas que sabe que perderá. Nem a amizade com o promotor (interpretado por Rui Ricardo Diaz) alivia as condenações feitas pelo juiz (Caco Ciocler). Enquanto isso, a rebeldia juvenil de Caio aflora. Amizades desconhecidas, nervosismo, mentiras despertam a atenção de Helena que não mais o controla. A parceria é desfeita. Até o ponto que vê a tensão familiar se confrontar com a profissional. Caio é um meliante? Loiro, branco, estudado, com família. A Justiça é impiedosa, mas é realmente justa?


Caru faz um filme de tom único e por vezes monótono do cotidiano, mas é um filme dinâmico nos nós que constroem os conflitos de Helena e Caio. Aliás, ótimas atuações de Rita Batata e Giovanni Gallo. É um filme urgente. O cinema nacional consegue ano após ano dialogar com a sociedade através de filmes inteligentes e politizados (não políticos). O filme foi o vencedor do Festival do Rio 2013, dividido com 'O Lobo Atrás da Porta', outro filme que escancara a violência, a maldade e o medo que inebria a atual sociedade. “De Menor” não dá respostas, não toma partido, não escolhe lado, mas mostra de forma aberta o que realmente ocorre no dia a dia da nossa justiça. A favor ou contra, veja e prestigie o cinema nacional de alta qualidade. 

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 27 de abril de 2015

A Fotografia Oculta de Vivian Maier



Nome Original: Finding Vivian Maier
Ano: 2013
Diretora: John Maloof e Charlie Siskel
País: EUA
Elenco: John Maloof e Vivian Maier.
Prêmios: Melhor Documentário no Dublin Film Critics Circle Awards, Prêmio John Schlesinger Award no Festival de Palm Springs e Indicado ao Oscar de Melhor Documentário.
A Fotografia Oculta de Vivian Maier (2013) on IMDb


Prazer, Vivian Maier. Foi realmente um prazer conhece-la. Sim, eu sei que você já morreu, não habita mais esse mundo, mas é impressionante conhecer alguém que saiba tão bem fazer o que você fez a vida toda. Não estou falando de ser babá, você não cuidou de mim, não em educou, não me bateu ou colocou de castigo. Não, você não fez isso, nem me esqueceu para tirar mais uma foto. Uma pessoa indecifrável, obscura. Roupas incomuns, quarto fechado, caixas e mais caixas a acompanhavam a cada mudança de casa. Sempre andando por ai com uma câmera no pescoço, registrando o mundo e a sociedade sem revela-lo a ninguém. Vivian, porque nunca mostrou pra ninguém seu trabalho. Porque revelou tão poucas fotos. Porque nunca quis se expor? Porquês intermináveis para ti. Mas você não está mais em condições de responder. Mas graças a John Maloof você renasceu. O mundo sabe quem é Vivian Maier pois ele a pariu comprando milhares de rolos de fotografias em um leilão. Sua obra está aí. Você é uma das maiores fotografas já existentes. Talvez você não quisesse essa exposição, mas porque privar o mundo de tanta beleza? De tanta verdade? De tantas fotos belíssimas? Um documentário muito bom de um personagem desconhecido e que se torna querido pela qualidade de seu trabalho, pelo seu exotismo e pela aventura de saber quem realmente foi Vivian Maier. Não só a artista, mas sim a pessoa. Excelente documentário. Vejam um pouco da beleza indescritível dessa artista única.







Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Leviatã





Nome Original: Leviafan
Ano: 2014
Diretora: Andrey Zvyagintsev
País: Russia
Elenco: Aleksey Serebryakov, Elena Lyadova, Vladimir Vdovichenkov e Roman Madyanov.
Prêmios: Globo de Ouro e Festival de Palm Springs de Melhor Filme de Língua não Inglesa, Melhor Filme no Asia Pacific Screen Awards, Melhor Roteiro no Festival de Cannes.
Leviatã (2014) on IMDb

 



Não conheço o livro de Jó do Antigo Testamento onde Leviatã representa um monstro aquático gigantesco e demoníaco que amedrontava os navegantes durante a Idade Média. Não conheço o livro homônimo de Thomas Hobbes na qual indica que um governo central e autoritário seria comparado com um Leviatã: um monstro incontrolável que amedronta a população e oprime a liberdade. “Leviatã” é tudo isso. É poder, é povo oprimido, é Igreja aliada à este poder. O grande lance do filme é que tudo leva a crer que a verdade é criada e manipulada para quem está no poder, manter-se no poder. Leviatã pode ser um monstrengo. Leviatã é o Estado acima de tudo, apoiado por uma Igreja hipócrita levando vantagem sobre tudo e todos. Leviatã nada mais é do que a oficialização do poder soberano e nefasto.

Kolia é um mecânico que vive com sua jovem esposa e filho (de outro casamento) numa pequena cidade russa afastada da capital. A casa onde moram foi requerida pela prefeitura para uma construção do centro de comunicações do município. Nenhum problema se o proposto a pagar fosse uma quantia irrisória. Kolia, como qualquer cidadão de bem, foi ao juizado com uma avaliação isenta para que uma nova negociação e proposta fosse feita. Kolia, um cidadão de bem, não tem chances. Seu amigo advogado vem de Moscou tentar ajuda-lo. Mas como ajudar se a centralização do poder é algo que corrompe, corrói e destroça qualquer verdade. O jeito é beber vodka. O jeito é aceitar. Mas como aceitar se está tudo errado? Como deixar que seu patrimônio seja destruído? Como deixar que sua vida acabe? Uma sequencia de ocorrências nos levam a crer que é falta de fé de Kolia. Seria a punição divina? O poder é advindo de Deus, então o prefeito está com a verdade. A verdade nunca foi tão destrutiva.

Andrey Zvyagintsev fez um filme corajoso. A atual Rússia que é uma espécie de Leviatã com Vladmir Putin fazendo um governo opressor e centralizador. Claro que Kolya poderia viver em tantos outros lugares que nos fazem pensar que a Rússia é aqui. Um roteiro complexo, aliando religião, política e críticas à essas duas instituições, misturando com um drama pessoal. Belas imagens do litoral russo com elementos que nos remetem ao monstro do mar, com carcaças de baleias, mas vemos mesmo bispos com suas vestes e chapéus. Vemos mesmo Gorbatchev, Lenin e Putin. A corrupção é um mal que assola o mundo todo. O “poder divino” é um mal a ser combatido.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Citizenfour


Nome Original: Citizenfour
Ano: 2014
Diretora: Laura Poitras
País: EUA, Reino Unido e Alemanha
Elenco:Edward Snowden e Glenn Greenwald
Prêmios: Oscar e Bafta de Melhor Documentário.
Citizenfour (2014) on IMDb


O Império Americano novamente foi abalado e dessa vez o ataque veio de dentro. Edward Snowden teve seu nome amplamente dito por ter exposto as tramoias e contravenções que o Governo do país mais poderoso do mundo realiza. É a consolidação da maior ditadura existente no mundo moderno. Sim, esse texto enquanto escrito já estava arquivado e criptografado e viajando milhares de milhas por cabos submarinos de fibra ótica. Enquanto você o lê, sabe quem é, quanto tempo demorou e caso comente, estará também criptografado e arquivado para possível consulta. Sim, a desculpa é o terrorismo. O Sessões tem um discurso de terrorista? Você que o lê, é um? Para os EUA sim. Mas um texto num blog de cinemas, com poucas visualizações diárias não é exatamente o problema. Mas e e-mails, ligações e mensagens em grandes empresas, em posições estratégicas de governos ou mesmo entre consumidores. Tudo está escaneado. Tudo está sob controle dos americanos. Snowden desvendou isso vindo de dentro da NSA. O Império precisa cair. O ditador precisa ser derrubado, mas é impossível... ele sabe de tudo antes.


Laura Poitras fez um documentário muito corajoso. Acompanhar Snowden e o jornalista que fez a revelação do escândalo, Glenn Greenwald, antes, durante e depois das revelações, seus temores, os medos, a vontade de revelar a verdade e a perseguição. Poitras faz através do quarto onde Edward estava hospedado em Hong Kong um relato selvagem do dia-a-dia do agora fugitivo. Um jovem de 29 anos abalou as relações internacionais entre EUA com o mundo, principalmente com o Brasil, onde são retratados depoimentos do jornalista ao nosso congresso. Grandes empresas de comunicação como Google, Facebook, Yahoo e AT&T tem acordos com a NSA para disponibilizar os dados. Tudo dito em nome do terrorismo, mas o verdadeiro perigo é a falta de liberdade. Não há mais segredos, o Tio Sam sabe tudo a não ser que você seja um monge (não conectado).

Vitor Stefano
Sessões
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