quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)



Nome Original: Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)
Ano: 2014
Diretor: Alejandro González Iñarritu
País: EUA / Canadá
Elenco: Michael Keaton, Emma Stone, Zach Galifianakis, Naomi Watts e Edward Norton.
Prêmios: Melhor Ator de Comédia (Keaton) e Melhor Roteiro no Globo de Ouro, Melhor Conjunto de Atores no Screen Actors Guild Awards, Filme do Ano no AFI Awards e outros.
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014) on IMDb




Quando ouvi dizer que Alejandro González Iñarritu faria uma comédia eu duvidei. Quando disseram se tratar de uma história de um ator decadente que vive à sombra de um papel de super-herói que fez há mais de 20 anos eu desconfiei. Quando vi que Michael Keaton seria o protagonista dessa comédia não dei bola. Assim que a primeira imagem com o Homem Pássaro surgiu eu logo pensei que seria uma queda brusca na carreira de um diretor que tanto apreciava. Quando percebi que ouvi e vi muitas coisas e preconceitos conturbaram minha mente, parei e pensei: “É o Iñarritu, PORRA”. Comédia nada. Filme de ator em decadência é bom demais. Keaton é absurdo. Iñarritu, sempre nos agracia com um cinema de primeira linha, da maior grandeza, que nos faz refletir, repensar, remoer sentimentos que nem lembrávamos existir. “Birdman” é mais do que um filmaço, é uma experiência cinematográfica. Disse isso sobre “Boyhood”, mas agora acho que o filme do Linklater é uma experiência extracinematográfica, quase pessoal do diretor. “Birdman” é cinema para quem gosta de cinema, de roteiro, de atuação, da tela. “Birdman” é genial.

Nem adianta falar sobre o filme. É sobre a vida de artista, a vida do estrelato, a vida atrás dos palcos, a vida de pai, a vida de marido, a vida... Planos-sequencia de tirar o fôlego, quase que num filme contínuo, nos levam a viver a vida de Riggan Thomson. A loucura das prévias da estreia de uma peça dirigida e estrelada por ele nos mostra o melhor e pior de uma estrela decadente. Uma estrela do passado, que sem twitter, facebook, sem vida virtual não é nada pro mundo atual. O fantasma de Birdman que o segue, como um guru ou aqueles anjinhos/diabinhos no ombro de desenho infantil, é seu alter ego tentando mudar sua vida. É ver os colegas de espetáculo com um ar de superioridade, mas superado com um simples enfrentamento. É ver que o ser humano é mais do que um personagem. Todo ser humano é uma persona de si própria. 





Michael Keaton ressurge para o mundo cinematográfico. Um personagem complexo, intenso e que poderia ser uma sombra para ele. Mas não, ele supera o fantasma e brilha, mas não solitariamente. Edward Norton, Zach Galifianakis, Emma Stone e Naomi Watts são coadjuvantes que tem brilho, que chamam atenção e que são contrapontos perfeitos ao Keaton em todas as cenas. Eu destaco Norton e Galifianakis que estão supremos. Essas estrelas em grande desempenho num roteiro absurdo de inteligente, que, junto a uma montagem frenética, envolve o expectador que não cansa de ver a câmera viajando o tempo todo atrás do que está acontecendo. Iñarritu é um diretor absurdo que sempre me suscitou o melhor e o pior após ver seus filmes. “Amores Brutos”, “21 Gramas”, “Babel” e “Biutiful” são filmes obrigatórios. “Birdman” os acompanhará, mesmo que muitos digam que é comédia. É! É comédia, é drama, é aventura, é auto-ajuda, é road-movie, é suspense. "Birdman” é realmente uma aventura cinematográfica. Aperte os cintos e voe com Birdman.

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O Jogo da Imitação




Nome Original: The Imitation Game
Ano: 2014
Diretor: Morten Tyldum
País: Reino Unido / EUA
Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode e Rory Kinnear.
Prêmios: Filme do ano do AFI Awards.
O Jogo da Imitação (2014) on IMDb




Todas guerras tem pequenas histórias escondidas, mas a dimensão da 2ª Grande Guerra ainda nos guarda histórias inesperadas, impensáveis e inesquecíveis. Graças à sua dimensão, ainda hoje, 70 anos após seu termino, ainda surgem personagens que mudaram o rumo de muitas vidas. Alan Turing é o herói de “O Jogo da Imitação”. Não pense em herói de guerra com bombas explodindo, salvando colegas de tiros de canhão ou sobrevivendo ao frio e fome. Alan Turing é matemático e quem diria, a matemática salvou a vida de milhares de pessoas. Através de um desafio, como as palavras cruzadas. Turing é um gênio escondido em escombros, na confidencialidade dos seus atos e do preconceito. Mas Turing morreu condenado. Em 2013 a Rainha Elisabeth concedeu o perdeu ao herói, 59 anos após sua morte. Ele foi preso e condenado por ser homossexual. 

O filme se habita entre o período de adolescência de Alan e o pós guerra, mas não de forma linear. Ele era um jovem “diferente”, como foi definido. Introvertido e com grande facilidade para decifrar enigmas, falar coisas simples de formas diferentes que o fizeram engrenar para a matemática. Para os códigos e enigmas. Já adulto, com a guerra em andamento e com uma personalidade forte e por vezes arrogante vai à entrevista do Exercito se candidatar a uma vaga para a estratégia. A inteligência do Exército interceptava sinais e códigos nazistas, mas não conseguia decifrar as mensagens. A máquina alemã Enigma era o que havia de mais moderno na época e uma grande equipe é formada para decifrar. Entre “loucuras” e genialidade Alan com sua equipe e suas teorias constrói uma máquina para decifrar outra máquina. Sem muito aprofundamento, vemos suas teorias tomarem forma e funcionarem como em mágica. Entre espera para decifrar o Enigma, suas convicções sexuais surgem como dúvidas, como medo e como alerta. Já no pós guerra, Alan se vê só e confuso. Ser homossexual nos anos 50 na Inglaterra era considerado crime e a sentença era prisão ou tratamento hormonal, que foi a sua escolha, inclusive com a castração química.

“O Jogo da Imitação” é um filme absolutamente correto. O diretor desconhecido Morten Tyldum conseguiu construir a história do herói renegado de forma simples, singela e sem ser piegas. Benedict Cumberbatch está muito bem e intenso como deveria ser Alan. Keira Knightley é uma atriz que nem sempre faz coisas boas e nem sempre me agrada, mas aqui está muito bem. Junto a “A Teoria de Tudo” representam a Inglaterra de forma competente no Oscar e marcam a história com cinebiografias de dois personagens icônicos. Inclusive Stephen Hawkin pressionou a Rainha Elizabeth a reconhecer o perdão a Alan Turing. Gênios se reconhecem. Gênios mudam o curso da vida e do planeta. “O Jogo da Imitação” é um belo filme.

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo

Nome Original: Foxcatcher
Ano: 2014
Diretor: Bennett Miller
País: EUA
Elenco: Steve Carell, Channing Tatum, Mark Ruffalo, Sienna Miller e Vanessa Redgrave.
Prêmios: Melhor Diretor no Festival de Cannes, Filme do Ano no AFI Awards, Creative Impact in Acting Award no Festival Internacional de Palm Spring (Steve Carell), Special Distinction Award no Independent Spirit Awards.
Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo (2014) on IMDb



O mundo dos esportes é muito obscuro. Se falarmos de esportes olímpicos ele vira um submundo. O amadorismo semi-profissional sempre foi caso de estudo. De onde surgem, como treinam, como se sustentam apenas com auxílios governamentais ou de associações? Como é a vida de um atleta olímpico. Aqui no Brasil sabemos da precariedade e das tramoias de Federações que buscam apenas o lucro pessoal e irrestrito dos seus presidentes (donos). Tirando o caso de Foxcatcher por base, dá para perceber que nos Estados Unidos isso pode ser ainda mais pernicioso. O esporte na mão de amadores ricos e que buscam status e visibilidade. Seja do público, do governo ou da mãe. “Foxcatcher – Uma História que Chocou o Mundo” choca por sua crueza. Choca por ser uma história real que não conhecia, mas, agora que conheço, me deixa perplexo.

Em 1984 o jovem Mark Schultz foi medalhista de ouro nos Jogos Olímpicos de Los Angeles em luta greco romana, vulgo wrestling. Muito jovem, sem muito prestigio da Confederação Americana e treinando religiosamente com o irmão mais velho, Dave, também lutador. Eles seguiam sua vida sem muita expectativa, apenas de olho nas próximas competições, Mundiais e Olimpiadas de Seul. Repentinamente John du Pont convida Mark para conversar. Jonh who? Du Pont, entusiasta do esporte, herdeiro de uma dinastia riquíssima do interior dos Estados Unidos e construiu um complexo de treinamento, a revelia da mãe e matrona da família, e montou a equipe Foxcatcher. Ele quer os irmãos Schultz lá. Sabe que são imbatíveis. Sabe que são verdadeiros campeões. Mark aceita, mas Dave não quer largar a família em prol de dinheiro e do desconhecido. Aos poucos John du Pont vai se mostrando um bom homem, mas com certas manias e estranhesas, além de não esquecer a vontade de ter Dave por perto. Ornitólogo, filatelista e filantropo, como ele mesmo se designa, sempre tem armas e cocaína no seu caminho. Seu dinheiro pode comprar tudo. Seu dinheiro deveria comprar tudo e todos. Deveria. Mark se rebela com as atitudes do patrono e Dave é chamado para endireitar o irmão. A partir daí tudo desanda e John se mostra cada vez mais descontrolado. Foxcatcher é mais do que uma equipe de wrestling. Foxcatcher é uma verdadeira caçada à raposa. Não fuja, você será caçado.




Bennett Miller constrói um filme seco, sem dar muitas explicações dos seus personagens e das sequencias. Está lá e pronto. Assim como nos seus filmes anteriores, o diretor constrói um roteiro e direção para que os atores brilhem. Mas aqui ele não tem Phillip Seymour Hoffman. Numa mistura da temática esportiva de “O Homem que Mudou o Jogo” e o tom sombrio de “Capote”,”Foxcatcher” é um trabalho mental. O ritmo não ajuda muito e quem segura até o fim são os atores. Nunca fui muito fã de Mark Ruffallo, mas ele está ótimo como Dave. Channing Tattum é um jovem muito bom ator (como disse em “Magic Mike”) e que vai superar a fama de ser apenas um bonitão ex-stripper. Claro que o destaque é o Steve Carell fora da sua zona de conforto. Ele já saiu da comédia em “Pequena Miss Sunshine” e se saiu muito bem, mas aqui, como protagonista, está show. Com uma maquiagem que desfigura seu rosto ele como Jonh du Pont está ótimo. Digno de premiação. “Foxcatcher” é sobre esporte, riqueza, patriotismo e loucura, mas que não explica muito de nada disso. É uma caçada cheia de presas soltas e difícil de juntar.

Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Whiplash – Em Busca da Perfeição



Nome Original: Whiplash
Ano: 2014
Diretor: Damien Chazelle
País: EUA
Elenco: Miles Teller e J.K. Simmons
Prêmios: Filme do Ano do AFI Awards, Gran Jury Prize e Filme pela Audiência (Drama) do Festival de Sundance e Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante (J.K. Simmons).
Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014) on IMDb




Como surgem os gênios? Há quem acredite em dom, outros em toque divino e outros em sorte. Cada um creia como quiser, mas a perfeição só chega com muito trabalho e isso é indubitável. Como alguém vai se esforçar se a todo o momento ouve “bom trabalho” ou recebe tapinhas nas costas do tipo “tudo bem, da próxima você acerta”. Isso gera apenas o medíocre, nunca o impecável. Mas forçar a barra, pressionar, agredir é necessário? Qual é o limite entre o incentivo e a desmoralização? Como saber? Os métodos variam, mas sem treino, disciplina, inteligência e auto controle um bom nunca será um ótimo. Seja nos esportes, na ciências ou na música. E na bateria. Não há espaço para improvisos. Precisa ser perfeito o tempo todo para tentar ser um gênio.

Fletcher é um jovem bacana, com seus dilemas e tem o sonho de ser o grande baterista. Pra isso, ele entra na melhor faculdade de música do país onde há um professor renomado ao qual todos querem ser regidos e fazer parte de sua grande banda e tocar nos grande templos do jazz. Dedicado e focado, o jovem consegue galgar uns bons passos dentro da faculdade até que chega ao grupo do mestre. Mas logo nos primeiros ensaios percebe que não é apenas relaxar e curtir o som. Ser levado por ele. Não, apenas a repetição gera a música perfeita. Entre suor e sangue, os dois batem de frente, se complementam e se odeiam. Mas a musica está sempre a frente. Gênios geniosos. Miles Teller está visceral como o jovem em busca do sonho e o veterano J.K. Simmons está estonteante como professor carrasco. Perfeitos.



Damien Chazelle expressa na fita tal motivação na busca pela perfeição que consegue um filme perfeito. Procure um erro? Até os exageros e improbabilidades são interessantes e tem um ritmo que cativam. Toda sua construção, de roteiro e montagem faz com que a musica seja combustível para que a bateria toque sem parar até que estejamos presos na cadeira de um cinema qualquer vendo um filme perfeito. Impossível não fica tocado, principalmente com os números musicais. Só os fortes chegam ao topo. Só os gênios serão reconhecidos eternamente. A música sempre brilhará. “Whiplash” sempre estará num pedestal por sua busca e atinge a perfeição. Quero ver mais, quero ouvir mais. Não percam, amigos. Inimigos, também não. Vá ao cinema. É um programa perfeito.

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O Abutre



Nome Original: Nightcrawler
Ano: 2014
Diretor: Dan Gilroy
País: EUA
Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Bill Paxton e Riz Ahmed
Prêmios: Filme do Ano no AFI Awards.

O Abutre (2014) on IMDb





O que pensar de um ser que gosta de ver sangue. De ver pessoas mortas. De entrar numa cena do crime sem permissão legal. De criar situações para conseguir presenciar um delito. De filmar tudo isso, vender a uma emissora, de enriquecer assim, de ser assim. Esse é Louis Bloom. Com dificuldade para encontrar um trabalho formal, se vê diante de um acidente de carro e presencia uma equipe de filmagem fazendo imagens, editando e fazendo leilão com as emissoras para compra-las. Ele se encanta. Seus olhos brilham. Com pequenos delitos, consegue dinheiro para comprar a sua primeira câmera e um rádio da polícia para saber os incidentes em tempo real. À medida que começa a fazer as imagens, ele se vê diante de algo que gosta ainda mais de fazer: vender, ter o poder de negociação nas mãos. Suas imagens ficam melhores, mais ousadas a medida do tempo. Se envolve com uma produtora de um canal sensacionalista e que tem seu público fiel, aqueles que gostam da tragédia. Tragédia vende. Louis é um inconsequente, mas quem compra não é? E quem vê? A imprensa está prensada na parede. 


Jake Gyllenhaal é um dos melhores atores de sua geração. Desde “Donnie Darko” ele vem encantando os expectadores com papéis diversos. “O Segredo de Brokeback Mountain”, “Zodíaco”, “Os Suspeitos”, “Soldado Anônimo” e “O Homem Duplicado” são seus grandes papéis. Com apenas 33 anos, ele vai longe. Aqui ele se entrega de corpo e alma. É possível ver o quão magro está, impressiona com sua aparência pálida e olheiras. Ele é Joe. Ele está horrivelmente maravilhoso num papel duro e complexo. “O Abutre” é o primeiro filme de Dan Gilroy na direção e ele é cirúrgico, cruel, intenso. É um tema complexo, difícil e polêmico, mas ele consegue ir além do sensacionalismo e levanta a possibilidade de discutirmos ética jornalística, a importância da mídia e o seu papel. “O Abutre” é sobre Datenas e demais. “O Abutre” é sobre o ser humano. “O Abutre” é sobre os abutres que nos cercam... ou somos todos abutres?

Vitor Stefano
Sessões
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