domingo, 27 de dezembro de 2015

Beasts of No Nation



Nome Original: Beasts of No Nation
Ano: 2015
Diretor: Cary Joji Fukunaga
País: EUA
Elenco: Abraham Attah, Emmanuel Affadzi e Idris Elba.
Prêmio: CICT-UNESCO Enrico Fulchignoni Award no Festival de Veneza.
Beasts of No Nation (2015) on IMDb


A barbárie está mais próximo do que imaginamos. Quando achamos que o mundo evoluiu, que vivemos em um planeta mais honesto e menos discrepante, onde pensamos que os direitos humanos, o respeito à vida e a democracia já impera no globo, vem uma pedrada e nos atinge na cabeça causando sérios danos. E pensar que aqui perto gente, talvez na mesma longitude esteja acontecendo nesse momento um massacre, mortes em série, abusos coordenados, tiranos matadores e ditadores travestidos de bons moços. O mundo é um caleidoscópio onde as imagens que nos embriagam suavizam o inferno que realmente ele é. Enquanto alguém estiver morrendo por ser submisso a outro ser humano, estaremos num planeta fétido.

Em algum lugar da África, através dos olhos do pequeno Agu, acompanhamos a inocência sendo mutilada pelo medo e barbárie. Logo na cena inicial somos jogados para dentro da tela (literalmente) e somos enfeitiçados pelo pequeno e logo nos rendemos ao seu olhar sobre o que virá logo depois. Uma guerra civil toma a vila onde mora com a tradicional família. Com o instinto de proteção ao lar, os homens ficam e as crianças e mulheres são levadas por aproveitadores para fugirem para o mais longe possível. A guerra é brutal, com armas de calibre pesado e homens sanguinários querendo o território a qualquer custo. A guerra é sempre brutal. Entre tiroteios, esconderijos e indecisão, Agu foge e acaba caindo nas mãos de um grupo rebelde liderados pelo ‘Comandante’, um ser frio, estrategista e que conquista o respeito pelo discurso e pela força. A partir daí este começa a criar pequenos guerrilheiros, sanguinários que estão dispostos a qualquer esforço para ser reconhecidos, crescerem na facção, ganhando respeito e afago da nova família. A inocência dá espaço para o extremo. O que vemos a partir daqui é mais do que absurdo, mas uma simbiose de sentimentos que nos levam mata adentro e fazemos parte dessa loucura. A loucura existe.


Um dos melhores filmes do ano - e um marco cinematográfico por ser o primeiro filme de ficção concebido pelo Netflix. É impossível não falar de “Beasts of no Nation” sem citar as brilhantes atuações do badalado Idris Elba e do jovem Abraham Attah. ‘Comandante’ e Agu são personagens complexos, intensos e que foram muito valorizados por esses atores brilhantes. Mas a grande estrela do filme é Cary Fukunaga. O diretor e roteirista conseguiu transferir um mundo real em uma realidade visível aos nossos olhos. Se há a barbárie, há também o humano. Se há o absurdo, há também a sobrevivência. Se há a violência, há também a violência. Fukunaga conseguiu criar um filme com liberdade e ousadia. É um belíssimo filme.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Mia Madre


Nome Original: Mia Madre
Ano: 2015
Diretor: Nanni Moretti
País: Itália e França
Elenco: Margherita Buy, John Turturro, Giulia Lazzarini, Nanni Moretti e Beatrice Mancini.
Prêmio: Prêmio do Juri Ecumenico no Festival de Cannes e Melhor Atriz (Margherita) e Melhor Atriz Coadjuvante (Giulia) no David di Donatello.
Mia madre (2015) on IMDb


Quando pensamos que tudo está ruim, o destino, Deus, uma força superior (ou o que você crer) faz ficar ainda pior. É uma provação. As coisas só acontecem com quem aguenta o tranco. Margherita está numa espécie de caos interno já que sua mãe está muito enferma e ela precisa se desdobrar, com ajuda do irmão, para dormir no hospital, sua filha está dando trabalho costumeiro de adolescentes e que tiram todos os pais do sério e ela acabou de começar a dirigir seu filme e vem tendo diversos problemas com a produção. Entre noites mal dormidas, discussões com a filha e reflexões com o irmão, o ator principal de seu filme chega dos Estados Unidos, sem falar italiano fluentemente e com postura de estrela, tudo piora. Ela está à beira de um ataque de nervos e não é por menos.

Nanni Moretti é um cineasta contemporâneo. Dos melhores em atividade, com filmes que tem o homem no centro das atenções. O ser humano é sempre dissecado pela dor extrema e pelo humor refinado. “Mia Madre” é singelo no sentimento, sensível na abordagem, divertido para dar sal à vida. Em pensar que Margherita é o alter ego de Moretti durante as filmagens de “Habemus Papam”, onde viveu situação semelhante à personagem. Ele consegue fazer do próprio inferno uma obra de arte através de atuações memoráveis de Margherita Buy e Giulia Lazzarini. John Turturro, que interpreta Barry, o ator americano, faz a quebra humorística do filme. O Nanni, que interpreta o irmão da Margherita, trabalha como a consciência, o ponderado para que ela aguente toda a pressão do mundo que está em suas costas. É um filme singelo, sem ser simples. É duro, mas terno. É Nanni Moretti - o genio de "Caro Diário", "Caos Calmo" e "O Quarto do Filho" - então é coisa boa!

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Mommy


Nome Original: Mommy
Ano: 2014
Diretor: Xavier Dolan
País: Canadá
Elenco: Anne Dorval, Suzanne Clément e Antoine-Olivier Pilon.
Prêmio: Prêmio do Juri no Festival de Cannes e César de Melhor Filme Estrangeiro.
Mommy (2014) on IMDb


Não me abandone. Eu te amo, mãe. Eu nunca mais vou fazer nada para te preocupar, pra te deixar na mão, pra te magoar. Eu mudei completamente minha percepção de vida, eu não vou mais fugir, eu quero ficar com você, eu preciso de você, eu não sei viver sem você. Mamãe. Mamãe. Não me abandone, por favor! Eu preciso de você. Eu te odeio, mas eu preciso estará com você. Não namore um babaca como esse, ele só quer te foder, te comer e sair fora. Ele não tá nem ai para quem você é. Ele não merece você. Você e eu somos um só. Juntos somos invencíveis, inesquecíveis e odiosamente felizes. Quero te amar, mas odeio você. Você é repugnante. Abre um vinho para nós, chama a vizinha pra ficar com a gente. Eu a quero pra mim. Quero amá-la. Quero te amar. Liberte-me dessa vida. Eu não quero mais nada de você, mas não me abandonem. Eu não viveria sem você. Liberte-me. Liberte-me. Me solta! Me solta!

Diane é uma mãe viúva que está sobrecarregada com a vida e foi surpreendida pela expulsão do filho do internato ao qual estava confinado. Steve sofre de déficit de atenção, mas a olhos nus parece bipolaridade. Uma mulher cabisbaixa, depressiva e que consegue com os bons momentos com o filho recuperar a autoestima. Brigas constantes entre os dois deixam o panorama mais complexo do que um sobe e desce de uma montanha russa. A relação dúbia entre prova que o amor nem sempre é suficiente para amar. O amor é confuso, complexo, difícil. O destino trouxe a vizinha Kyla para dentro da casa. Ela é doce, gentil e prefere deixar marido e filha em casa para cuidar de Steve, para conviver com Diane. Mas como mudar tudo de uma vez?

Xavier Dolan faz um filme terno. Dificil não se cativar, se interessar pelos personagens em seus extremos. Ele consegue extrair seiva densa da vida dos três personagens. Ele espreme numa tela 1:1 que nos incomoda. Essa é realmente a intenção. Mas com trilha sonora moderninha, bem encaixada, num roteiro duro, mas dinâmico, “Mommy” se torna um belo filme sobre amor. De amor. Belíssimas atuações de Anne Dorval e Suzanne Clément. Antoine Pilon, que vive Steve, por vezes ultrapassa o limite da atuação, mas consegue expor a sua dificuldade de seu personagem conviver em sociedade por conta do déficit de atenção. Bonito filme.

Vitor Stefano
Sessões

domingo, 29 de novembro de 2015

007 Contra Spectre



Nome Original: Spectre
Ano: 2015
Diretor: Sam Mendes
País: EUA
Elenco: Daniel Craig, Léa Seydoux, Christoph Waltz, Monica Bellucci, Naomie Harris, Ralph Fiennes, Rory Kinnear, Andrew Scott e Ben Whishaw.
Sem Prêmio.
007 Contra Spectre (2015) on IMDb


Cheiro de morte no ar. Detetive elegante na tela. Música clássica nos ouvidos. Explosões e perseguições de tirar o fôlego. Belas mulheres conquistadas. O personagem é o mesmo, mas desde a chegada de Daniel Craig ao posto de 007 ("Cassino Royale") vemos um agente, digamos, mais humano – que se machuca, fica bêbado, se envolve sentimentalmente com as Bond Girls, tem dúvidas morais, passado e fantasmas que o perseguem. E entendo que essa mudança é o grande mote para a retomada do sucesso da franquia, que vinha definhando nos filmes antes do loiro. Depois do sucesso absoluto de público e crítica de “Skyfall”, Sam Mendes foi mantido na direção para dar seguimento à sua linha de autor. Ela continua de maneira forte, mas há em “007 Contra Spectre” algo que nos remete ao clássico James Bond.

Enquanto Bond segue pistas de uma organização secreta, M luta politicamente para a manutenção do programa 00, numa reorganização da segurança da Inglaterra, após os fatídicos atentados ocorridos no filme “Skyfall”. SPECTRE é uma organização secreta global. Ela está infiltrada nos governos mais poderosos do mundo que busca criar uma aliança mundial de segurança, onde teria acesso a todas as informações do globo. A cada nova pista uma teia é descoberta onde os inimigos de outros tempos, como Le Chifre, Mr. White e Silva eram apenas parte de teia comandada pelo cabeça da organização: Franz Oberhauser. A caçada de Bond será implacável para vingar todo o sofrimento causado. Ele precisa fazer de tudo para salvar sua vida, a vida da filha de Mr. White e a carreira de todos os colegas dentro do polícia.




Temos cenas memoráveis, mas o destaque vai para o início espetacular. O longo plano sequencia numa belíssima festa do Dia dos Mortos na Cidade do México nos envolve e prepara para o que está por vir. Durante a fita são diversas explosões magníficas e há também uma perseguição de carros de tirar o fôlego. Tudo com uma mixagem de som muito boa, efeitos visuais, locações incríveis. O roteiro de John Logan  é o grande barato do filme, costurando os filmes estrelados por Craig, vinculando os grandes vilões como participantes do SPECTRE, relembrando Vesper, a “mãe” M e os ataques terroristas ocorridos. Sam Mendes fez tudo muito bem alinhado. Ele é realmente um diretor de mão cheia. Craig é, para mim, o melhor Bond da história, então nem preciso comentar muito. Dos coadjuvantes “fixos” – Q e Moneypenny estão excelentes e cada vez mais presentes na tela, mas ainda não me apeguei a Ralph Fiennes como M. Ainda falta algo, mas é compreensível, pois substituir Judi Dench é realmente uma tarefa dura. Apesar de achar Monica Bellucci uma das mulheres mais belas do cinema, ela como Bond Girl não convenceu num papel pequeno e até de certa forma descartável. Já Léa Seydoux está excelente. Ela e suas olheiras avermelhadas criam um casal com química e ela está realmente muito bem no papel de Madeleine. Finalmente uma Bond Girl para fazer James esquecer Vesper. Esquecer nunca, mas a vida precisa seguir. Será uma pena não ver mais Daniel Craig no papel do agente com licença para matar, mas é compreensível o ator querer dar novo rumo a sua carreira. Ele revolucionou a franquia e será sempre lembrado. Que os próximos venham com a mesma vibe, com a mesma força!

Vida longa a Sam Mendes.

Vida longa a Daniel Craig.

Vida longa a James Bond!

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Sessões Promoções - Eu Estava Justamente Pensando em Você - Promoção Encerrada

“Uma releitura original e inventiva de uma verdade universal e constante: Deve ter sido amor, mas agora acabou” – The Playlist

“Comet é um mostruário para Emmy Rossum e Justin Long, eles estão embaixo dos holofotes” – Roberteger.com

“Uma história de amor contada de um jeito nada convencional” – Slashfilm

“Original e afetivo” – The Playlist

“Um raro espetáculo cinematográfico” – Cromeyellow

“O romance mais sensorial dos últimos tempos” - IndieWire

Com tantos elogios, difícil não criar uma enorme expectativa. Sam Esmail é um estreante na direção e já conseguiu chamar tanta atenção para esse filme de nome longo e que encanta a quem vê.

Em mais uma parceria com a Imovision, vamos dar 2 pares de ingressos para ver esse filmaço que estréia em circuito dia 22/10. E como faço para ganhar? Fácil! Os 2 primeiros comentários nesse post respondendo a pergunta abaixo levam!!!!! Então precisa ser rápido!

PERGUNTA: Qual é o nome do filme em inglês?

Resposta: Comet

Vencedores: Camila Borca e Gustavo Magno.

Não esqueçam de se identificarem para entrarmos em contato posteriormente.

Corra!

Equipe Sessões

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

O Som ao Redor


Nome Original: O Som ao Redor
Ano: 2012
Diretor: Kleber Mendonça Filho
País: Brasil.
Elenco: Maeve Jinkings, Gustavo Jahn, Irandhir Santos.
Prêmios: Melhor Roteiro no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, Kikito de Melhor Filme, Som e Diretor no Festival de Gramado, Melhor Filme e Roteiro no Festival do Rio, Prêmio do Juri no Festival Internacional de Rotterdam, Melhor Filme, Diretor, Roteiro e Fotografia no Festival do SESC e Melhor Filme de Estreante na Academia de Filme de Toronto.
O Som ao Redor (2012) on IMDb


O Brasil atual exposto de forma nua e crua. Se não há espaço para ideias diferentes, classes sociais distintas, status sobrepõe a capacidade, condomínios sendo salvação para a segurança, o medo acima da razão. A polarização é um fenômeno que chama atenção no nosso país, seja na política, na área social ou num simples duelo de times de futebol. O extremo voltou à moda e, infelizmente, parece que veio para ficar. Olhe ao seu redor. Perceba as discrepâncias que ocorrem. Os abismos que estão criados. Ouse dar uma opinião polêmica e prepare-se para as pedras. Em tempos de redes sociais, ser juiz é a profissão da moda dos brasileiros. Isso só acontece por uma grave crise ética que nos assola. A grama do vizinho é sempre mais bonita, mas ao invés de plantar o seu gramado, você joga praga do outro lado da cerca.

“O Som ao Redor” acontece em um quarteirão em Recife, mas ele consegue retratar todo um país. Através de tramas paralelas temos a impressão que veremos as várias histórias serem aproximadas aos poucos, mas não é exatamente isso que acontece. Todas tem o assunto segurança em voga. Durante as 2 horas e pouco de filme vemos, divididos em 3 atos - “Cães de guarda”, “Guardas noturnos” e “Guarda-costas”, que o medo assola todos e a busca pelo isolamento é exacerbada. Grades aparecem constantemente, assim como outros aparelhos eletrônicos ganham destaque, como televisão, celular, aviso sonoro para cachorros pararem de latir, câmera de segurança, radiotransmissor e máquina de lavar, numa mistura de ostentação e busca de status. Num Brasil tão atual, há momentos que nos remetem ao colonialismo, com tons de patriarcalismo e escravidão que causam calafrios.



Ruídos ensurdecem. Imagens incomodam. O que é a vida? Não é viver dentro de casa, escondido. Não é ter que contratar uma equipe de segurança amadora para fazer rondas na rua que mora. Não é comprar uma tevê maior que a do vizinho, só para aparecer. Não é ter que fumar maconha escondido no quarto, com o aspirador de pó ao lado para o cheiro não chegar à casa do vizinho. Não é ter que fugir do engenho por ter matado um capataz. Não é se vingar, mesmo que o maior mal tenha sido feito. Não é enclausurar crianças dentro de um condomínio, numa rotina casa-escola-aula de chinês-casa. Não viver debaixo da asa do avô rico. Eu não sei o que é a vida, mas cinema bom é “O Som ao Redor”.

Kleber Mendonça Filho já havia me surpreendido no curta “Recife Frio” pela inventividade e ousadia, mas em sua primeiro longa fez um marco cinematográfico. O elenco está afiadíssimo, tendo o Irandhir Santos como o mais famoso deles. O roteiro levita entre o lírico e a crueza da realidade. Ousado, reflexivo e provocador, “O Som ao Redor” faz pensar no hoje, na sua vida, no seu redor. Um filme fora da caixa.

Vitor Stefano
Sessões

sábado, 19 de setembro de 2015

Identidade de Nós Mesmos


Nome Original: Aufzeichnungen zu Kleidern und Städten
Ano: 1989
Diretor: Wim Wenders
País: França e Alemanha Ocidental.
Elenco: Yohji Yamamoto e equipe, Wim Wenders.
Sem Prêmios.


Vamos lá, um tempinho para uma sinuca!


Quando vi o filme, achei que de um modo geral ele tem muito a ver com algumas essências da cia. Yohji cria com as cidades e deixa que ele as atravesse e atravesse sua costura. Tem a intenção de fazer uma roupa que sirva de verdade, que seja algo para alguém, apesar de toda a efemeridade e cifras milionárias do mundo e do mercado em que ele atua. Ele tem leveza. Tem uma equipe que traduz bem os seus silêncios.


O Wim Wenders, lindo e humildemente se coloca como um aprendiz do seu filme, do seu processo, do seu personagem. Parece ir, aos poucos quebrando a premeditação inicial e simplificada das impressões fúteis que a moda lhe tinha impresso. E no fim das contas rende uma homenagem a todas estas mãos costureiras que se desafiam a fazer "ombros de verdade em um paletó de verdade"...

Protagonista e diretor rendem-se à delicadeza de uma bainha executada à várias mãos, à escuta, à espera e claro, dialogam com o ar, os vazios e por que não correr o risco de dizer que, dialoga com a possibilidade do que geralmente nos escapa e com o casaco que faz tão parte da identidade naquele momento da vida, que mesmo que não esteja frio, sempre é confortante tê-lo à mão.



Abraços tecidos

Leandro Antonio
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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Que Horas Ela Volta?


Nome Original: Que Horas Ela Volta?
Ano: 2015
Diretor: Anna Muylaert
País: Brasil
Elenco: Regina Casé, Michel Joelsas, Camila Márdila, Karine Teles e Lourenço Mutarelli
Prêmios: Melhor Ficção na mostra Panorama no Festival de Berlim e Prêmio especial do Juri de Atuação (Regina Casé e Camila Márdila) no Festival de Sundance.
Que Horas Ela Volta? (2015) on IMDb


Carta aberta à Anna Muylaert.

Olá Anna. Primeiro quero te parabenizar por ter feito o melhor filme de 2015. Pode parecer exagero para quem, por acaso, ler essa carta, achando ser um delírio desse que vos escreve ou mesmo seja um pedante puxa saco em busca de fama, mas você fez um filme perfeito. Claro que o cinema é uma arte coletiva e todos envolvidos merecem essas láureas, mas você é a diretora dessa obra, então sob ti cairão os elogios. Aliás, “Durval Discos” e “É Proibido Fumar” deram amostras de que em algum momento você atingiria o ápice. Ele chegou e pruma mulher que brilhou numa indústria tão machista e excludente. Indústria... termo feio para o que encaramos como arte, mas infelizmente a realidade é mais cruel do que gostaríamos. Mas não quero cair em polêmica sobre sexismo, equidade ou preconceito. Você está entre os maiores.

Assim que “Que horas ela Volta?” terminou, enxugando as lágrimas pensei: é um retrato do atual Brasil. Mas não só isso... é do Brasil em que as famílias são divididas em cômodos. Das famílias que nem conversam mais durante o jantar, a não ser pelo celular. Dos pais que perderam o interesse mutuo e convivem por status uma vida medíocre. Numa casa em que a empregada faz parte da família, mas só da porta da cozinha pra “lá”. Um país que busca a igualdade – não tão igual assim. Um país em que andar de cabeça erguida é sinônimo de arrogância. País de mães que abdicam de cuidar de seus filhos para “financiar” a vida deles, nem que outras sejam as "mães". Do país que vive pra pagar contas e não ter retorno. Do país em que se admira, inveja e menospreza ao ver um nordestino vencer na vida. Um país em que ainda existem sonhos. “Que horas...” tem tantas camadas que não pode ser simplificado, nem resumido. Ele é um filme pra ser visto, sentido, vivido. Eu vi amigos no filme, eu vi histórias das quais ouvi falar... Eu me vi. E me envergonhei, soltei alguns risos nervosos, ri e chorei de felicidade, me emocionei com Val, com Jessica. Com o afeto. Com a rebeldia. Com a ousadia. Eu me emocionei pois há vida ali.

E que elenco! E falar o quê de Regina Casé? Ela conseguiu quebrar muitos paradigmas. Eu nunca fui muito fã de seu trabalho na tevê, mas não deixei esse pré-conceito me impedir de ir ao cinema. Ela ganhou um fã. Depois de dois minutos de Val na telona Casé estava desmontada e eu só via Val. Val, uma personagem tão rica. Gestos expansivos, frases impactantes e hilárias, uma ingenuidade digna de um jogo de xicara de café. Uma mulher comum, mas é por mulheres assim que o mundo é feito e anda. E como vocÊ descobriu Camila Márdila? Que menina expressiva, intensa, parruda. Sua Jessica é o Brasil que evoluiu, que quer dar a cara a tapa e que não baixa a cabeça. Vai e faz! Ela é a juventude, que cai, levanta e segue em frente, sem medo de portas fechadas. Ela é molecada que vai mudar o país. Karine Teles faz Barbara com uma destreza ímpar. Nós entendemos e logo depois odiamos a patroa. É o Brasil que vai falir, que está acabando, do conservadorismo que está na moda, mas jajá volta pro lugar que merece. Carlos é Mutarelli. Mutarelli é Carlos. Ele é um gênio e na tela temos aquele homem sombrio, com movimentos obscuros que chega a causar medo. Michel Joelsas já brilhou em "O Ano em que Meus Pais Sairam de Casa", cresceu e aqui, Fabinho, é a ponta de esperança de uma família existir, um menino bom e muito bem criado por Val, sua mãe. Uma família rica. Uma empregada. Uma filha. Um mar de dúvidas racham as estruturas já rachadas.

Anna, pra finalizar, além de aplaudir, quero agradecer. Queria ter o poder de convencer todos meu amigos, para que convencessem todos seus amigos e assim sucessivamente a verem “Que Horas Ela Volta?”. O filme merece todo clamor que vem recebendo da crítica, mas merecia que mais e mais pessoas vissem o filme. É um filme universal, que conversa com patrões, empregados, mendigos e milionários. Você dissecou o país em duas horas. Que os brasileiros ganhem duas horas de entretenimento, reflexão e emoções que “Que Horas Ela Volta?” geram. Como escrevi lá em cima, é o melhor filme do ano até agora. Já na lista de melhores filmes nacionais existentes. Que você siga em frente fazendo o que sabe. Fazendo a gente se reconhecer na tela. Fazendo a gente se sentir mais vivo, sentindo o coração bater mais forte.

Grande abraço desse fã.





Vitor Stefano
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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Ponte Aérea


Nome Original: Ponte Aérea
Ano: 2014
Diretor: Julia Rezende
País: Brasil
Elenco: Caio Blat e Letícia Colin.
Sem Prêmios.
Ponte Aérea (2015) on IMDb


Amar não é fácil. Deixar-se ser amado tampouco. Num mundo onde o amor está cada vez mais efêmero, enfadonho e mesquinho, deixar-se levar pelo coração, pelo impulso é quase um suicídio amoroso. Transar na primeira noite esperando nunca mais ver o outro ser, mas quando percebe, o elo foi criado com uma pessoa que você mal sabe o nome, nem sabe de onde vem, nem o que faz. Esse elo parece crescer de forma inversamente proporcional ao conhecer. O obscuro é interessante, é intrigante e é excitante. Não há mal nenhum se jogar num relacionamento assim, mas prepare-se para as consequências – boas e ruins. E qual é a graça de se apaixonar sem riscos. O coração é forte e pode sofrer, mas a mente precisa ser ainda mais firme.

Bruno e Letícia estão em Belo Horizonte e por conta de uma chuva forte, são obrigados a passar a noite num hotel na capital mineira. Uma cerveja e puxar papo e como num impulso rola. E é legal. Ele é do Rio e ela de São Paulo. Ele é artista plástico e ela publicitária. Ele é desencanado e irresponsável e ela é pilhada pelo trabalho. Ele tem medo do amor. Ela também. Opostos tão opostos que, como diz o ditado, se atraem. Entre pontes aéreas, a paixão torna-se respeito, carinho, amor. Mas o medo também é grande. Ela quer transformar ele, que não quer ser transformado. Mundos tão distantes, corações tão grudados. Encontros e desencontros de uma relação tão comum, ordinária, que poderia ser sua. Você é Bruno ou Amanda. Seja eterno enquanto dure, mesmo que o eterno tenha prazo de validade... mas que nunca provou um alimento com a validade vencida? Mas o que fica é que amadurecer é necessário.

Se você está na casa dos 30 e pouco, “Ponte Aérea” é um filme que se encaixa em algum momento que você viveu. Não necessariamente a distância, mas a entrega, as presepadas, quedas e paixões como as de Bruno e Amanda. Aliás, são dois personagens que são cativantes e muito bem interpretados por Letícia Colin e Caio Blat. Eu sou fã de carteirinha de tudo que o Blat faz, mas a Letícia dá um show com sua Amanda, confusa, apaixonada, carinhosa e paranoica – uma verdadeira mulher amando. A jovem Julia Rezende fez um filme bem construído, com boa variação de ritmo, trilha sonora envolvente e personagens bem realistas. Um ótimo filme de relacionamentos.

Vitor Stefano
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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Entre Abelhas



Nome Original: Entre Abelhas
Ano: 2015
Diretora: Ian SBF
País: Brasil.
Elenco: Fabio Porchat, Marcos Veras, Irene Ravache, Letícia Lima e Luis Lobianco.
Sem Prêmio.
Entre Abelhas (2015) on IMDb


Quem vê Fábio Porchat no pôster do filme já imagina uma comédia escrachada. Quando vê que o diretor é Ian SBF, criador do Porta dos Fundos com o Fábio e outros humoristas tem certeza que virá uma crítica ácida sobre religião ou sobre o cotidiano. Você esbravejará que é mais um desses filminhos comerciais da Globo Filmes, comédias apelativas nível Zorra Total e  que o cinema brasileiro é só essa merda e filme de favela, tudo com ajuda desse governo corrupto e ladrão. Bom, se você pensou isso, guarde seu recalque, cale sua boca e veja “Entre Abelhas”. Claro que a união desses dois gerará um filme que terá humor, mas é uma casca fina em volta de um problema sério e abordado de forma competentíssima: a depressão.

Bruno é um editor de imagens e vem sofrendo com o fim do casamento. O divórcio nem sempre é fácil, mas os amigos e família estão sempre juntos para amparar e distrair. Mas num repente, coisas estranhas começam a acontecer com ele: Pessoas somem. Simplesmente não aparecem mais, em imagens, na tevê ou ao vivo e a cada momento mais somem. Bruno começa a viver uma vida só sua, onde quem o rodeia não existe mais. A depressão é o mal desse século e num mundo onde todos vivem conectados, mas desconectados da realidade, é cada vez mais comum. Toda ajuda é bem vinda e com a seriedade necessária para resolver esses problemas. Uma doença silenciosa e mais perigosa do que um ferimento. Essa ferida, por vezes, não dá para estancar.

O filme fala de depressão sem ser piegas e óbvio. Nem se fala do problema em si, nós vivemos o problema. Uma premissa fabulosa à la Saramago, nos leva a um mundo quieto e misterioso. A invisibilidade dos humanos é algo muito comum no mundo atual, desde o mendigo que mora do lado da sua casa até a tia que limpa o banheiro da empresa. Você escolhe o que ver, mas o mundo não pode ser assim. Todos estão à sua volta influenciam na sua vida, então pare de olhar só para seu umbigo e viva de forma mais humana. E quando tiver um problema, fale, converse, busque ajuda. Quando tiver preconceito com cinema nacional, vá além, esqueça o convencional. Fabio Porchat saiu da caixa, ousou e fez o melhor filme nacional até o momento. “Entre Abelhas” é para ver e rever. Pensar e repensar. Refletir e enxergar a verdade. Lindo filme.

Vitor Stefano
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domingo, 16 de agosto de 2015

Dentro da Casa


Nome Original: Dans la maison
Ano: 2012
Diretor: François Ozon
País: França.
Elenco: Fabrice Luchini, Kristin Scott Thomas, Emmanuele Seigner, Denis Ménochet e Ernst Umhauer.
Prêmio: Golden Seashell e Premio do Juri no Festival de San Sebastián, Melhor Filme Estrangeiro no Festival de San Jordi e Melhor Roteiro no European Film Awards.
Dentro da Casa (2012) on IMDb


A influência de um professor sobre um aluno é algo incontrolável. Mas em uma época em que a educação é contingenciada ao simples estar em aula e que o professor é cada vez menos prestigiado, ter um aluno interessado ou com o dom é um bálsamo. Se a literatura está condenada a uma sociedade que lê apenas 140 caracteres e se sente ciente da complexidade de qualquer assunto, quando vemos um jovem que sabe ler, entreter e dar ritmo à escrita será carregado em praça pública e terá um busto construído pelos professores da matéria. E é uma epidemia que não se limita ao nosso país não. A educação está ao deus dará. A educação está morta. Está? Ou a paixão de alguns ainda a fazem viver? Temos esperança que esse afã de poucos possa contaminar todos? Professores como Germain podem inspirar. Eu não tenho essa esperança. A literatura tem esperança em jovens como Claude.

Germain é um professor de literatura, um pouco desesperançado da profissão, do desinteresse geral dos alunos por suas aulas. Um como muitos. Quando depois de pedir uma lição de casa onde os alunos escrevessem sobre suas férias a decepção apenas cresceu, exceto por uma redação interessante de um jovem chamado Claude. Nela contava uma história onde ele ficava à frente da casa de um colega de sala, Rapha, vendo o movimento e sonhando em entrar. Imaginava como era. Queria viver ali dentro. E quando de repente ele finaliza a redação com “Continua...”. O professor fica muito intrigado e começa a incentivar o aluno. A medida que os dias passavam a história continua e envolve cada vez mais Germain. As histórias são compartilhadas com sua esposa, que analisa com precaução o incentivo e até onde a história pode ir. A verdade é que o jovem se envolve além da conta com Rapha e sua família e nada conseguirá freá-lo. O poder de um professor sobre um jovem motivado. O poder de um jovem sobre um veterano desmotivado. Um elo indestrutível.

François Ozon é um nome que sempre remete a algo ousado. Em “Jovem e Bela” ele desnuda a sociedade através da história da jovem que busca a profissão mais antiga do mundo de forma clara e simples, como se fosse possível. Aqui ele mostra que o elo professor-aluno cada vez mais distante ainda é possível, mas essa conexão pode ser perigosa. Num roteiro amarrado de forma brilhante, faz com que simples relatos sejam um elo da realidade com a ficção. Faça com que a ficção seja realidade. Com atuações belíssimas de todo elenco, “Dentro da Casa” se torna um filme maravilhoso e obrigatório a quem ama cinema. Um frescor dentro de uma época cheia de filmes dentro da caixinha.

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Uma Nova Amiga



Nome Original: Une Nouvelle Amie
Ano: 2014
Diretora: François Ozon
País: França.
Elenco: Romain Duris, Anaïs Demoustier e Raphaël Personnaz.
Prêmio: Melhor Filme - Sebastiane Award no Festival Internacional de San Sebastián.
Uma Nova Amiga (2014) on IMDb


Um velório de uma jovem mulher, deixando marido e uma filha de poucos meses, trajada com seu vestido de noiva enquanto a marcha nupcial toca ao fundo. Entre flashbacks, a melhor amiga discursa e promete cuidar da filha (e afilhada) e do marido. Um clima de total tristeza e comoção marca a cerimônia. Seria um filme tristíssimo, para molhar o carpete de tanto chorar. Agora imaginem um filme onde duas amigas saem para fazer compras, viajar, irem à boate. Tudo escondido da família, num misto de aventura com romance. Certamente um filme leve, até bobinho, certo? Bom, tudo isso é “Uma Nova Amiga” de François Ozon e que não é nem tristíssimo nem bobinho. Pelo contrário, é um filme excelente, divertido, envolvente com uma tensão sexual que prende a atenção de forma surpreendente. Ozon mantem a consistência do seu cinema que vem se mostrando um dos mais interessantes da atualidade. Filmes como “Dentro da Casa” e “Bela e Jovem” já são novos clássicos de um diretor jovem, muito ativo (são 15 filmes em 16 anos) e caminha para fincar seu nome na história do cinema.

A morte de Laura causou muitas mudanças na vida dos que a rodeavam. A melhor amiga, Claire, vive em choque e é orientada pelo marido a ajudar o viúvo e a afilhada. David está arrasado e tendo que se virar para cuidar da pequena. Quando Claire chega a casa se depara com uma mulher loira, de vestido, salto alto. Alucinação? Vertigem? Sonho? A partir daí o filme entra numa estrada de descobertas, cheios de momentos hilários, causados por situações inesperadas. A tensão vai até o fim, numa linha tênue entre a comédia e o drama, entre risos nervosos e surpresas inesperadas.

Não vou falar mais do Ozon. Cito a fotografia e trilha sonora que ajudam a criar esse clima tenso. O elenco está brilhante e seus dois pilares, Anaïs Demoustier e Romain Duris estão numa conexão maravilhosa. Ele é famoso por seu papel na trilogia de “Albergue Espanhol” e num papel muito difícil, conseguiu ser autentico e não caricatural. Talvez seja seu melhor desempenho da vida. E não dá pra deixar de lembrar que a cena inicial é maravilhosa. Esteticamente, a cena do velório é um dos melhores inícios de filmes desde o prólogo de “Anticristo”. Cri cri, é só esteticamente. Ozon está na minha lista de diretores preferidos. Já ansioso pelo próximo.

Vitor Stefano
Sessões

domingo, 19 de julho de 2015

Samba


Nome Original: Samba
Ano: 2014
Diretora: Olivier Nakache e Eric Toledano
País: França.
Elenco: Omar Sy, Charlotte Gainsbourg, Tahar Rahim e Izïa Higelin.
Sem Prêmios.
Samba (2014) on IMDb


Um filme francês chamado “Samba”. Seria algo de muito mau gosto ver o ritmo brasileiro representado pelo país do champagne. Consigo imaginar mulheres em trajes carnavalescos ou à la Carmem Miranda numa tentativa vexatória de dançar a nossa raiz, em bailes de clubes, com uma fanfarra criando os sons. Homens de bigode, ternos claros, panamás dariam o clima final para uma lástima. Mas não, “Samba” não é sobre samba, apesar das referências ao gênero musical e ao Brasil que o filme retrata. Samba é o nome do imigrante senegalês que é retratado na nova película dos diretores do retumbante sucesso “Intócaveis”. E não pense que não dava para ser tão bom. É!

Samba é um imigrante ilegal e que tem em seu tio o único parente vivendo na França. Ele trabalha como assistente de cozinha (de forma irregular) e, como é sabido, há um grande cerco contra os ilegais na Europa. A polícia fica de olho em qualquer suspeita e em uma dessas ações Samba é preso e começa o processo de deportação. Por outro lado está uma ONG que acolhe e defende pessoas nessa situação. Samba é acolhido pela voluntária Alice, uma mulher cheia de problemas pessoais e psicológicos e que está na ONG como parte de sua recuperação. O tema é atual e denso, mas esse toque romântico dá um alívio a qualquer possibilidade de depressão. E esse é o toque de mestre e já uma marca registrada da dupla de diretores Olivier Nakache e Eric Toledano.


São realmente diretores para se ficar de olho. Quem achava que “Intocáveis” fosse um golpe de sorte, “Samba” prova com ótima direção, roteiro e escolha de elenco são futuro do cinema popular e de qualidade. É um feel good movie. Conseguem pegar um problema enorme e transformá-lo em algo agradável de ver na tela. Não há profundidade nos fantasmas que a imigração ilegal e xenofobia causam, mas conseguem debater o assunto da forma mais leve possível. O tema já foi amplamente abordado no cinema, mas aqui o que realmente importa são as relações humanas. Charlotte Gainsbourg faz muito bem seu papel da desequilibrada Alice e nos faz esquecer ela em "Ninfomaníaca". Já Omar Sy é um monstro, repetindo o alto nível de atuação do filme anterior dos diretores e desponta como um ator memorável. O elenco de apoio também faz bonito, mas Nakache e Toledano merecem todos os louros. “Samba” é tão bom ou ainda melhor que “Intocáveis”.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 13 de julho de 2015

O Sal da Terra


Nome Original: The Salt of the Earth
Ano: 2014
Diretora: Juliano Ribeiro Salgado e Wim Wenders
País: França, Brasil e Itália
Elenco: Sebastião Salgado, Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado.
Prêmios: Un Certain Regard - Special Jury Prize, Prize of the Ecumenical Jury - Special Mention e François Chalais Award - Special Mention no Festival de Cannes, Melhor Documentário no César Awards e Prêmio da Audiência no Festival Internacional de San Sebastián.
O Sal da Terra (2014) on IMDb


A humanidade já deu provas o bastante de que faliu. E as provas são dadas diariamente a cada segundo, a cada milésimo de segundo. Em cada canto do mundo, uma desgraça acontece em progressão geométrica, numa trilha que nunca irá retornar. A tendência é a sua extinção por conta de seus próprios erros. Os humanos falharam. A fome? As guerras? As chacinas? O poder? A escravidão? A morte da natureza? O fim dos recursos naturais? A maldade? A vida. Tudo ainda não explodiu, pois há uma força enorme trabalhando para a impossível reversão da atual situação. Mas há esperança ainda em cabeças inteligentes, crédulas que é possível mudar o mundo. Essas verdadeiras dádivas humanas existem por aí, evitando que as tragédias sejam dirimidas em seu entorno e dando exemplos para que uma verdadeira corrente do bem se espalhe. Esses humanos acreditam que esse emaranhado de animais possam voltar a ser seres humanos, pensando em humanos, pensando na vida. O que é a vida? Não há resposta, mas Sebastião Salgado retratou o melhor e o pior dela. Com certeza, retratou mais o pior, pois o cerne do ser humano é destrutivo. Mas humanos como Salgado nos dão esperança. Eu tenho.

O documentário “O Sal da Terra” é uma experiência visual. Não é 3D, mas é sensorial. Não, não é 4XD. É real. Não, não é simulador. É um mergulho no processo criativo, na vida, na família, nos problemas e nas virtudes de um dos maiores fotógrafos do mundo, o brasileiro Sebastião Salgado. O diretor Win Wenders conta de onde conheceu Salgado, foi atrás e com a ajuda do filho do retratado, Juliano, contam como aquele economista de futuro promissor, tornou-se um amante de fotografia, e vislumbrou em dissecar o mundo através de suas lentes. Dissecar os homens. A África é o local mais comum em seus projetos, mas que passaram também pela America Latina e Leste Europeu. Seus projetos tornaram-se livros famosos (e caros ) onde a sua técnica em branco e preto é visível e admirável. Há também muita culpa em tudo que foi retratado pela sua lente. Um dos seus relatos diz que muitas vezes antes ou depois de fotos, ele chorava. Retratar a miséria, a morte e a desgraça é para poucos. Com o projeto “Gênesis” conseguiu retomar seu prumo, dando um novo norte em sua carreira, com fotografias que remeteriam ao início da vida. Ele conheceu o fim e o recomeço da Terra. Sebastião Salgado preencheu o coração de esperança, aliado ao Instituto Terra, uma velha fazenda herdada onde ele e sua esposa recriaram boa parte da Mata Atlântica. Um projeto lindo e espelho para diversas gerações. O documentário é o relato para você conhecer um ser único, atráves de uma unica visão, mas Sebastião Salgado é absolutamente genial com uma câmera nas mãos. Veja:







Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 7 de julho de 2015

Blind



Nome Original: Blind
Ano: 2014
Diretora: Eskil Vogt
País: Noruega
Elenco: Ellen Dorrit Petersen, Henrik Rafaelsen, Vera Vitali e Marius Kolbenstvedt.
Prêmios: Screenwriting Award - World Cinema - Dramatic no Festival de Sundance.
Blind (2014) on IMDb



Escrever é um dom. Criar mundos, inventar personagens, ser o mestre e definir por onde cada um seguirá é quase brincar de ser o criador. Ver a realidade, transformar em conto, alterar o destino. E se eu for o personagem? E se eu criar uma amante sensual, provocadora. E se fizer isso tudo sem que você veja, mas deixe com uma pulga atrás da orelha. Você acha, mas não sabe. Mas e se eu criar um amante pra você também. Eu sei, pois eu inventei, mas meu personagem não sabe. E é possível apimentar ainda mais tudo isso? Eu escrevo o que quiser. Eu falo o que quiser. Se eu for cego, você nem sabe o que é isso. Ter visto tudo e perder o sentido. Perdi o sentido, mas não perdi a criatividade. O isolamento é claro, não vejo mais ninguém por aqui. Quando não se enxerga, vê-se pelos olhos da imaginação. “Blind” é uma viagem. É um filmaço!

Vitor Stefano
Sessões
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