terça-feira, 30 de setembro de 2014

Sistema excretor não é reprodutor – O Atual Cinema LGBT no Brasil



Vamos combater essa pouca vergonha, essa putaria. A coisa lá na Paulista tá feia... Levy Fidelix é a representação dos cidadãos de bem, íntegros e que lutam por um ideal máximo: viver no mundo ariano. Mas como de comediante de uma eleição o senhor do bigode torna-se centro das atenções e não por suas propostas, mas sim por ser um babaca, um escroto? Levy é a prova do lado ruim da democracia, ao ter que conviver e ouvir certos tipos de opiniões. Inacreditável que essa figura tosca, retrógrada, totalitário, homofóbico, discriminador das minorias ainda tenha menos que 1% de intenções de voto. Menos que 1% é muito para um crápula desses. E infelizmente não há o que fazer apenas a revolta. Aliás, há sim. O cinema brasileiro está aí para provar que Levy e seus seguidores devem sair do armário. Quem repudia quer comprar. Levy, você como pai e avô deveria dar exemplo. Levy, você como político devia dar exemplo, não incitar o ódio. Levy, você calado é um poeta, morto é um peso a menos para o mundo.

Nos últimos anos temos visto uma enxurrada de filmes brasileiros que se enquadrem na generalização de LGBT. Enquadrar num gênero não deixa de ser excludente, porém a escolha de “Hoje eu Quero Voltar Sozinho” a representante do Brasil no Oscar 2015 é a demonstração de que o Brasil está cada vez mais consciente da igualdade e da necessidade de, ao menos, discutir posições históricas determinadas por uma Igreja excludente e um Estado opressor. Claro que ainda existe e sempre existirão os inconformados, os Levys da vida, porém a grande maioria da sociedade evolui na medida em que cada vez mais pessoas do seu convívio se enquadram no gênero. 

O cinema brasileiro deste século tem filmes emblemáticos que retratam a realidade dos homossexuais no país. De forma clara ou apenas como cotidiano, a causa homossexual está representada numa lista grande e é possível imaginar o excelentíssimo Levy em todos eles. Segue uma lista de filmes que farão Levy Fidelix sorver em arrepios e ódio:

As Melhores Coisas do Mundo” (2010) de Laís Bodanzky – O pai do Levy é Gay?


“Carandiru” (2003) de Hector Babenco – Ah, o Levy paga pau pro Santoro de mulherzinha.


“Cazuza – O Tempo não Passa” (2004) de Sandra Werneck e Walter Carvalho – Levy fica arrepiado ao som do Cazuza



“Como Esquecer” (2010) de Malu de Martino – A filha do Levy é sapata?


Do Começo ao Fim” (2009) de Aluizio Abranches – O irmão deve ter comido o Levyzinho




Dzi Croquetes” (2010) de Tatiana Issa e Raphael Alvarez – Aquele bigode cairia como uma luva no Dzi


“Elvis e Madonna” (2010) de Marcelo Laffitte – Levy, você nunca será Madona, Fidelinha...


"Flores Raras" (2013) de Bruno Barreto - O Levy de calcinha é uma gracinha


Hoje eu Quero Voltar Sozinho” (2014) de Daniel Ribeiro – Levy não deveria ser cego, mas sim mudo.


“Madame Satã” (2002) de Karim Aïnouz – Levy arrasa na noite


Tatuagem” (2013) de Hilton Lacerda – “Tem aparelho excretor, tem aparelho excretor...”


Praia do Futuro” (2014) de Karim Aïnouz – Levy vai pra Berlim ver o Aerotrem do Hitler de perto

Que o cinema brasileiro durante o mandato do próximo presidente seja ainda mais amplo e aberto à todo tipo de assuntos, sem filtros, sem censura, sem vergonha! Levy Fidelix não representa o Sessões.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A Pedra de Paciência





Nome Original: Syngué Sabour
Ano: 2012
Diretor: Atiq Rahimi
Países: Afeganistão, Alemanha e França
Elenco: Golshifteh Farahani e Hamidreza Javdan
Prêmios: Melhor Atriz no Festival Internacional de Gijón, SIGNIS Award no Festival Internacional de Hong Kong e FACE Award no Festival Internacional de Istambul.
A Pedra de Paciência (2012) on IMDb




Não pode. Não vai. Não deve. Não. Ninguém disse, apenas é uma verdade incontestável. À mulher apenas os deveres. Não, ela não pode falar. Não, ela não pode fazer. Não, ela não vai. Não, ela não vai andar sem burca. Não, ela não vai ter prazer. Não é permitido.  E não poderia ser diferente, pois é uma mulher muçulmana, casada com um muçulmano, herói de guerra, tradicional, num Afeganistão devastado por uma guerra sem motivo, sem causa, sem bonzinhos ou vilões. Mas ela fala. Ela faz. Ela fez.

Não há nomes, não há localização. Pode ser em qualquer lugar. Uma mulher abnegada cuida do marido, ferido com um tiro na altura do pescoço, num estado semivegetativo. Ela cuida do esposo dia pós dia, com soro, limpando e zelando seu corpo com rezas. Duas filhas para criar, sem dinheiro, sem expectativas. A proximidade da guerra e dos guerrilheiros afugentou quase todos. O medo é grande, mas o que pode fazer? Deixar o corpo do marido vivo, sem honra, não é uma escolha. Aos poucos, nas lamentações, nas orações, algumas palavras de ódio, inesperadas saem como num monólogo para um ouvinte. Não sabemos se ele ouve, mas ela fala. A cada dia está mais a vontade, conta mais, conta o que queria contar, conta o que queria fazer. Conta o que fez. Faz, mesmo que seus olhos estejam abertos. Ela faz. Ela desconta os 10 anos em que sua voz nunca foi ouvida. Seus segredos deixarão de ser segredos. Onde ela apenas fez o que queriam. Onde ela era apenas uma mulher.


A lenda persa diz que a um pedaço de rocha pode-se contar todos seus segredos e um dia ela explodirá e deixará o confidente livre, levando todos os lamentos pelos ares. A mulher consegue com que seu marido seja sua pedra de paciência, sua esponja de lamúrias. O filme aborda de forma bem suave assuntos muito delicados, ainda mais na cultura muçulmana, como o adultério, prostituição, casamento e a própria religião. Como a maior parte dos filmes orientais, é necessário paciência. Um filme de belos enquadramentos, momentos intrigantes, mas peca na dinâmica. A atriz Golshifteh Farahani dá um banho atuando quase que isolada. Um belo filme de um mundo que parece muito distante do nosso. Será?

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho



Nome Original: Hoje eu Quero Voltar Sozinho
Ano: 2014
Diretor: Daniel Ribeiro.
País: Brasil
Elenco: Ghilherme Lobo, Fabio Audi, Tess Amorim, Lúcia Romano e Eucir de Souza.
Prêmio: FIPRESCI Award e Teddy Award Best Feature Film no Festival de Berlim.
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014) on IMDb




Descoberta. Esta é a palavra capaz de descrever o filme. Todos os dias são dias de conhecer novas coisas, de experimentar novas sensações, de provar novos sabores, de entender o que você achava que já conhecia. Descobrir e redescobrir é uma tarefa diária, uma tarefa eterna. Aos 15 anos todos segundos acontecem novidades. Conhece-se amigos que serão pra vida toda, vive-se como se não houvesse amanhã, ouve-se a mesma música até decorar o sussurrar do cantor, decide-se o que fará quando tiver 30, entende que seus pais são inimigos mortais, mas em segundos sabe que eles serão sempre seu alicerce, vive o sexo com medo, mas com muita curiosidade, beija-se até o portão. Uma época caótica, volátil, inventiva. Descobrir o mundo aos 15 para um menino cego é mais que descoberta, é uma exploração subaquática em mares nunca navegados, onde no escuro do mundo está tudo que se precisa para viver.

Leonardo é o jovem cego. Dentro da família vive com a superproteção da mãe, apoio do pai e acolhimento da avó. Leonardo é cheio de sonhos, mas sempre tem na sua deficiência uma barreira, seja para sair de casa, ficar sozinho em casa, fazer um acampamento ou mesmo para fazer um intercâmbio. Não há chances para a precaução da mãe. Dentro do colégio tem apenas Giovana, sua melhor amiga, sua companheira, seus olhos. Do resto da turma é apenas um estorvo, uma piada fácil. Giovana sempre o apoia em tudo. Uma amizade maravilhosa. A chegada de um menino novo na sala vai mudar tudo. Tudo por dentro. Gabriel torna-se um bom amigo da dupla, mas a presença de um menino novo na sala sempre causa assédio das meninas. Gabriel é encantador, tipo um anjo e, como não podia deixar de ser, Giovana e Leonardo também se encantam pelo jovem de cabelos encaracolados. Moderninho, ousado, inteligente, descolado. Todos os olhos miram Gabriel. Leonardo mira seu coração e como a adolescência é uma roda gigante, as paixões tornam-se insustentáveis num coração juvenil.

“Hoje eu Quero Voltar Sozinho” é delicado, inteligente e ousado. Enquadrá-lo apenas como um filme gay é ignorância. É um filme juvenil, absolutamente crível e um ótimo retrato da juventude atual, assim como é “AsMelhores Coisas do Mundo” da Laís Bodanzky. Filmes com romances intersexuais estão cada vez mais comum, um retrato da sociedade que vem “saindo do armário” com mais confiança e menos preconceito. Nesse ano tivemos “Tatuagem” e “Praia do Futuro”, para lembrar os mais recentes. Daniel Ribeiro, em sua estréia em longas, conseguiu com filmes que andam numa corda bamba um equilíbrio incrível. Por ser um filho do curta-metragem “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, Daniel sabia que tinha um ótimo enredo e elenco nas mãos. Veja o curta:





Apesar de uma ambientação confusa, onde não sabemos em qual época vemos os personagens, a atemporalidade da temática é que faz com que isso não nos incomode. O elenco juvenil – Ghilherme Lobo, Fabio Audi e Tess Amorim - está bem seguro e mostram uma sintonia incrível, certamente trazido do curta. Trabalho excelente de Daniel Ribeiro por sua qualidade na direção, algo incomum para estreantes em longas-metragens. Como disse, são dois temas que podem cair no exagero muito fácil, mas que fazem rir, refletir e nos apaixonar, independente da escolha sexual. Uma escolha muito boa para representar o Brasil no próximo Oscar pelas qualidades descritas acima e pela universalidade das temáticas. De qualquer forma, não seria a minha escolha, que ficaria com o fabuloso “O Lobo Atrás daPorta”.

Vitor Stefano
Sessões
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