segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

São Paulo Sociedade Anônima

Nome original: São Paulo, Sociedade Anônima
Diretor: Luis Sérgio Person
Ano: 1965
País: Brasil.
Elenco: Walmor Chagas, Ana Estrela e Eva Wilma e Darlene Glória
Prêmios: Prêmio de Público na 1a. Mostra Internacional do Novo Cinema de Pesaro (ITA), Prêmio Cabeza de Palenque no VIII Festival Internacional do Filme de Acapulco/México, Prêmio Governador do Estado, da Comissão Estadual de Cinema de São Paulo; Prêmios Saci do Jornal O Estado de S.Paulo para melhor Direção, montagem e filme.
São Paulo, Sociedade Anônima (1965) on IMDb


Crônica da catarse humana que a monstruosidade da cidade grande causa nos seres humanos comuns, personificados na pele de Carlos, representante de todos os paulistanos. Uma fábrica de robôs prontos para sobreviver dia após dia somente pensando em como seria a vida em outro lugar, mas onde sempre restará a idéia de nunca sair daqui. São Paulo é um organismo vivo. Nós, reles mortais moradores da cidade grande, somos parafusos de uma cidade que nunca para. A vida dessa metrópole nunca será melhor representada do que em “São Paulo S/A”. Luis Sérgio Person captou de todas as formas, nos reflexos, asfalto e em contra-plongeé imagens definitivas dessa cidade grandiosa, acolhedora, cinza e sofrida, num dos maiores filmes nacionais já realizados em todos os tempos.

Walmor Chagas e Eva Wilma
LSP faz um retrato, centralizado na história de Carlos, em uma montagem digna de usuários de LSD com repetições, retornos, pensamentos soltos, desamores e muita sensibilidade. As histórias dos grandes amores do personagem de Walmor Chagas são como as paixões que essa cidade desperta em quem aqui habita. São amores finitos com finais indecifráveis e saudades eternas daquela que mesmo à milhares de milhas distantes, está presente, é inerente ao paulistano. A vida por aqui pulsa mais rápido, vive menos, morre mais, mas é viciante o ritmo, a loucura, o stress e a grandiosidade de um território que parece não ter fim.

No meio da ebolição do crescimento dessa selva de concreto a partir da chegada de grandes montadoras na década de 60, São Paulo tornou-se um estacionamento de carros. Como numa atualização de “Tempos Modernos” à paulistana, vemos os operários em sua labuta diária, controlada e disciplinada. E Carlos cresce, vive essa mudança e crê que sua vida pode ser regrada, cronometrada e ajustada. O casamento com Luciana, vivida pela jovem e bela Eva Wilma, deixando suas Ana e Hilda de lado, seria o recomeço, deixar o passado enclausurado em uma lembrança morta. A vida seria vivida como manda o ritual aristrocrata. Trabalho, casa. Casa, trabalho. Seria assim, caso Carlos fosse a peça certa em uma máquina ajustada. Essa cidade não consegue domar todos. Temos os alienados, os rebeldes asfaltados, os pensadores voando, os astronautas sociais, os caixeiros viajantes que sempre retornam. A cidade permite tudo e todos são Paulo. Não há santidade que possa catequizar os viciados nesse organismo chamado São Paulo.


“São Paulo S/A” é uma obra-prima definitiva sobre a maior cidade da America Latina. O peso da trilha sonora encaixa perfeitamente num desenrolar de uma vida que roda-roda e não sai do lugar. Quem mora na capital paulista sabe exatamente as agruras deliciosas de viver nesse esgoto a céu aberto com um emaranhado de mortos-vivos e sub-vida subterrânea. Quem não vive, passa a imaginar viver nessa engrenagem enorme que é impossível libertar-se completamente. Luis Sergio Person faz de São Paulo S/A uma pintura insubstituível entre pontos históricos e sombras sobre a entediante leveza de viver disputando espaço entre poças, prédios, carros e túmulos. Querer fugir é regra, conseguir e prosseguir é impossível. A vida por aqui é um eterno recomeço.

Recomeçar.
Sempre Recomeçar.
Recomeçar.
Recomeçar.
Aceitar recomeçar.

Em São Paulo é necessário recomeçar a cada segundo. E nada mudou desde 1965 e “São Paulo S/A” é mais atual do que deveria ser.

Vitor Stefano
Sessões

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