segunda-feira, 20 de abril de 2009

Taxi Driver




Nome Original: Taxi Driver
Diretor: Martin Scorsese
Ano: 1976
País: EUA
Elenco:Robert De Niro, Cybill Shepherd, Jodie Foster, Albert Brooks.
Prêmios: Palma de Ouro em Cannes, Bafta de Melhor Música e de Melhor atriz coadjuvante para Jodie Foster.
Taxi Driver (1976) on IMDb

Dos vários assuntos abordados em Taxi Driver, quase todos são espinhosos. Pela profundidade como são tratados, dois desses espinhos se sobressaem ── são mais afiados: machucam mais. Embora eles sejam muito divulgados nas artes, principalmente no cinema e no teatro, são pouco comentados (e admitidos) em nossa sociedade: a incapacidade de integração social e a solidão.

Ambos são terríveis. O segundo espinho é conseqüência do primeiro. E é também uma espécie de fuga, um afastamento, uma vontade de ficar só, um pedido de “deixem-me em paz”, um grito de “esqueçam-me!” Mas... e o primeiro? Por que ele existe? Por que o relacionamento humano é tão difícil e até mesmo insuportável para alguns indivíduos? Bem, tratarei disso daqui a pouco.

Em Taxi Driver, dirigido por Scorsese em 1976, conhecemos o cotidiano do taxista Travis, interpretado por Robert De Niro. Sabemos pouquíssimo a respeito do seu passado. É revelado apenas que ele não foi muito longe nos estudos, tem ficha limpa, serviu como fuzileiro naval e foi dispensado com honras. Quanto ao presente, igualmente poucas informações: está com 25 anos, é solteiro, mora sozinho e sofre de insônia.

Esta última, extremamente importante, pois foi sobretudo por causa dela que Travis decidiu procurar emprego à noite. Com pouco estudo, muita coragem e gosto pelo zanzar, decidiu ser motorista de táxi. E isso permitiu que ele observasse de perto, todos os dias, os mais variados tipos humanos. Nas palavras dele: “Todos os animais aparecem à noite: putas brancas e negras, doidos, bichas, traficantes, viciados”.

Travis não gosta de conviver com esses animais. E isso é um problema, visto que esses bichos noturnos são maioria na região onde ele trabalha: os bairros barra-pesada da cidade de Nova York.

Contudo, mesmo em lugares assim há os anjos: símbolos de pureza, ordem e beleza. E na cabeça do taxista vivido por De Niro, Betsy (Cybill Shepherd) reúne todas essas características ── é um anjo, uma exceção naquele pequeno mundo sujo, nojento, podre. Por isso, ele a quer. Ela é uma espécie de prêmio. E Travis não poupará esforços para merecê-lo.

O primeiro encontro dos dois é um dos trechos dos quais eu mais gosto, pela música envolvente e porque o roteirista Paul Schrader estava inspiradíssimo. As palavras escolhidas, o ritmo das frases, o humor leve ── tudo é uma delícia. Vejamos: “26 de maio, 16 horas. Levei Betsy ao Café Child, na Columbus Circle. Pedi café preto e torta de maçã com queijo cheddar. Uma boa escolha, acho. Betsy pediu café e salada de frutas. Ela poderia ter pedido o que quisesse”.

Travis até que não decepcionou no início. Depois, porém, revelou-se um baita grosseiro, socialmente doente, obsessivo, amalucado. Resultado: o anjo não quis mais saber dele, afastou-se.

O golpe foi duro. No entanto, o grosseiro, socialmente doente, obsessivo e amalucado motorista de táxi também é um forte. Levantou a cabeça. Seguiu em frente.

De repente, surge Iris (Jodie Foster), uma prostituta pré-adolescente que muda completamente a vida de Travis. Muda porque ele decide empenhar todas as suas forças na salvação dessa menina. Está disposto a aceitar os mais duros sofrimentos. Essa é a sua expiação. O pensamento é simples: Travis só alcançará a redenção pela dor. E salvando o corpo e a alma de Iris, ele igualmente se salva, livra-se da culpa que carrega pelo desprezo que sente por seu semelhante ── motivo principal da sua incapacidade de integração social.

No final do filme, o taxista amalucado mata o gigolô (Harvey Keitel) de Iris e outros crápulas. Livre, a menina volta a morar na casa dos seus pais. O caso é noticiado na TV. Travis torna-se herói nacional. Betsy aparece, e ele, com muita classe, a despreza. Fica a dica: os grosseiros também têm seus momentos de classe. E que classe!

Taxi Driver é um dos meus filmes favoritos. Porque é extremamente generoso com todos os envolvidos. Percebemos a contribuição de cada um deles. A bela fotografia de Scorsese; as atuações marcantes de Jodi Foster, de Cybill Shepherd, de Harvey Keitel e, especialmente, de Robert De Niro; o roteiro genial de Paul Schrader. E a música comovente e sensual de Bernard Herrmann.

Paulo Jacobina
Sessões
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