segunda-feira, 28 de junho de 2010

Querida Wendy

Nome Original: Dear Wendy
Diretor: Thomas Vinterberg
Ano: 2005
País: Dinamarca, França, Alemanha e Reino Unido
Elenco: Jamie Bell, Bill Pullman, Michael Angarano, Novella Nelson
Prêmios: Melhor Diretor no Festival Internacional de Moscou.
Querida Wendy (2004) on IMDb

Porque 'Querida Wendy'? Não há como mentir, Lars Von Trier é o que me cativou a querer vê-lo. Lars!?, você me perguntaria. Sim, ele é o roteirista do filme e como é perceptivel, eu sou fã (ainda não sei definir o motivo, mas sou) do dinamarquês. E o diretor de 'Anticristo' e 'Dançando no Escuro' consegue nesse roteiro, mais um modo de criticar a indústria bélica, a vilã da história.

Estamos numa cidadela, isolada, sem influências externas, globalmente excluida chamada Estherslope (que você pode ver abaixo, no mapa - alguma semelhança à Dogville ou Manderlay não é mera coincidência) - e onde será que é esse lugar? A cidade é praticamente uma praça com seu comercio local, casinhas e minas. Ser mineirador é o que tem de melhor na cidadinha o resto é a ralé, os excluidos - e um deles é Dick, que não seguiu os passos de seu pai. Juntando a outros adolescentes em situação semelhantes eles decidem formar um grupo, conhecido como "The Dandies". E para ser um dandie seria necessário duas máximas: Ser pacifista e Ter uma arma.

Onde ter uma arma é ser pacifista? Aí vemos a clara crítica à liberdade armamentista que vemos nos Estados Unidos e também à paz através da guerra, como ainda ocorre no Afeganistão e no Iraque, que os ianques tanto defendem. A partir daí é perceptivel o dedo de Trier no roteiro, e na cara do Tio Sam. Para os estadounidenses para que Gandhi conseguisse que seu projeto desse realmente certo, faltou uma arma.

Então para os jovens rebeldes que se encontravam num galpão, à caráter - caracterizados de algo próximo a Napoleão reestilizados - e cada um com sua arma jamais servirá para matar e sim para dar confiança, poder e para serem aceitos no mundo externo, já que não são mineiradores. Lá apenas cultuavam o invento de Samuel Colt, e desenvolviam teses de como cada tipo de arma pode destruir ou matar, mas sempre respeitando vossa companheira. Com o tempo vão criando afeto, paixão - AMOR - por aquele instrumento, até que passam a testá-las, sempre com muito respeito e carinho. Elas já fazem parte de suas vidas. As armas são seus amores, e que ninguem as toque, senão o pior pode acontecer.

O filme é aparentemente despretencioso, mas a crítica à liberdade de posse de armas, ao despreparo das polícias, o que o ócio pode causar na mente humana estão expostos nessa película de Vinterberg. 'Querida Wendy' não faz parte da trilogia da América de Trier, mas paralelamente faz um papel bastante importante, nos remetendo até ao massacre de Columbine. E quantos dandies não devem existir por aí? Cabe a nós lutar contra os interesses das elites e sermos realmente pacíficos, diferentemente dos Dandies. Esses dinamarqueses, cada vez mais doidos...



Ouça The Zombies, que praticamente domina completamente a trilha, cantando Time of the Season, música que você de fundo no trailer. Ótimo som para um filme muito interessante.



Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Whisky

Nome Original: Whisky
Diretores: Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll
Ano: 2004
País: Uruguai, Argentina, Alemanha e Espanha.
Elenco:Andrés Pazos, Mirella Pascual e Jorge Bolani
Prêmios: Un Certain Regard do Festival de Cannes, Melhor Filme de Lingua Espanhola fora da Espanha do Festival de Goya; Kikito de Ouro, Melhor Filme pela Prêmio da Audiência e Melhor Atriz no Festival de Gramado e Gran Coral do Festival de Havana.


WHISKY: UMA BOA DOSE DE AMBIGÜIDADE, SUGESTÕES E DÚVIDAS


O cotidiano pra lá de enfadonho e uma gama de sentimentos escondidos são os principais temas de Whisky, filme uruguaio dirigido em 2004 por Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll.

Dentre esses sentimentos escondidos, destaque para o ciúme -- ou para a inveja, se você preferir -- entre irmãos: um dos mais antigos ressentimentos da nossa pobre existência humana. Está na Bíblia.

Gênesis 4:
E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu e teve a Caim, e disse: Alcancei do Senhor um varão.
E teve mais a seu irmão Abel: e Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra.
E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor.
E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura: e atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta.
Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o seu semblante.
E o senhor disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante?
Se bem fizeres, não haverá aceitação para ti? E se não fizeres bem, o pecado
jaz à porta, e para ti será o seu desejo, e sobre ele dominarás.

O primeiro homicídio.
E falou Caim com o seu irmão Abel: e sucedeu que, estando eles no campo, se
levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou.
[...]


Whisky é sóbrio, quase minimalista. Não há invencionices cinematográficas, as músicas são poucas e adequadas ao belo roteiro, o figurino é apropriado às personagens. Não sobra nem falta nada. É um filme pausado, com poucos diálogos e apenas três personagens relevantes: Jacobo, Marta e Herman.

Tal qual Caim, Jacobo é o primogênito ressentido. Ele mora no Uruguai, é carrancudo, desleixado, ensimesmado, grosseiro, sem graça, solitário, triste; porém cumpridor dos seus deveres, fiel às tradições, generoso e respeitador. É o tipo de pessoa que dificilmente alguém convidaria para um churrasco ou para uma festa infantil (pois seria maçante para todos, especialmente para ele). Entretanto... podemos contar com Jacobo nos momentos difíceis. Tal qual um bom capitão de navio, ele é o último a abandonar o barco.

Marta é uma mulher simples, mas não simplória; ela tem lá seus encantos e mistérios. É tímida e habitualmente silenciosa. E, como a maioria das fêmeas, vaidosa quando está apaixonada.

Herman é o oposto do seu irmão: é extrovertido, dono de certa elegância, gentil, casado, pai, alegre e possivelmente bem-sucedido. Mora no Brasil (fato considerado positivo, visto que o nosso país é retratado como uma espécie de nova América). É o tipo de pessoa que dificilmente alguém não convidaria para um churrasco ou para uma festa infantil. Entretanto... será que podemos contar com Herman nos momentos difíceis?

Jacobo tem ciência da sua exclusão social, mas não deseja que seu maior rival, Herman, saiba disso. Com o propósito de esconder essa sua condição, ele propõe a Marta que ela se passe por sua esposa durante o período em que seu irmão-rival estiver no Uruguai. Marta aceita a proposta, atitude que reforça a idéia de que ela sente amores e calores por Jacobo. Esses sentimentos, porém, começam a murchar quando Marta conhece Herman, o gentil Herman.

Por falar nele, repito a pergunta: será que podemos contar com Herman nos momentos difíceis? Afinal de contas, durante anos ele demonstrou pouquíssimo ou nenhum interesse em seus pais e seu irmão: desconhecia a iminente falência da antiquada fábrica de meias fundada por seu pai e dirigida posteriormente por seu irmão e, sobretudo, não deu a mínima importância ao lamentável estado de saúde de sua mãe, que tempos depois veio a falecer. Mais uma vez: podemos contar com Herman? Talvez.

Isso mesmo: talvez. Porque em Whisky não há certezas absolutas. Há, sim, muitas sugestões e dúvidas. Aos poucos, com extrema sensibilidade, os tais sentimentos escondidos são desnudados, revelando o ser humano como ele realmente é, sem casca, sem máscaras: composto de belezas e de fraquezas, com sua devoção e seu desprendimento, com sua generosidade e sua mesquinhez, com sua dignidade e sua imundície de caráter. E é justamente essa mistura de sentimentos bons e ruins numa mesma pessoa, esse desnudamento franco, sincero, que faz de Whisky um filme notável.

Essa ambigüidade de caráter é realçada no fato de Herman viajar ao Uruguai com uma das incumbências mais caras ao ser humano: pedir perdão. E ele -- é preciso dizer -- o faz com muita discrição e sinceridade. Por isso, Whisky é também uma tentativa de acerto de contas entre irmãos. Uma tentativa porque a relação entre Jacobo e Herman é tão fria, tão vazia de afeto, que impossibilita o perdão sincero, verdadeiro. As palavras são raras. O contato físico é débil. Tudo é insosso, inexpressivo, seco, morto. Há apenas silêncio, silêncio e silêncio. Um silêncio longo e profundo. Um silêncio constrangedor. Tão constrangedor quanto pronunciar “whisky” ao ser fotografado, unicamente para dar a impressão de uma felicidade que talvez não exista. Uma felicidade que talvez jamais tenha existido. Uma felicidade que talvez jamais existirá -- reforçando a idéia de dúvida do filme e, conseqüentemente, contrariando os proféticos e indubitáveis ensinamentos bíblicos.

Paulo Jacobina
Sessões

terça-feira, 22 de junho de 2010

Filmes para Dia dos Namorados

Como todos sabem, junho é o mês dos namorados. E aproveitando essa data, para quem gosta de ficar em casa, nada melhor do que comemorar com um bom filme e um ótimo jantar. As dicas de filmes você terá aqui, porém engana-se quem está esperando uma lista ordinária de filmes românticos e característico dessa data.

Vejam as dicas de alguns filmes para ver com quem você realmente ama.

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança – Se você está acostumado a ver Jim Carrey fazendo caras e bocas em filmes de comédia, e só se lembra de Kate Winslet em Titanic, 'Brilho Eterno' vai mudar seu parâmetro sobre estes atores, e sobre o amor, ou melhor, sobre o fim dele. Em uma história que envolve, criativamente, ficção e drama, vemos uma situação onde todos que já sofreram de amor, desejaram um dia: esquecer a paixão passada para sempre. Não apenas esquecer, literalmente apagar. Uma história de arrependimento, paixão, traição, dor e amor, contada de modo muito peculiar, que certamente o fará pensar melhor sobre o que é o amor ou, melhor, sobre seu fim. Prepare-se para grandes emoções e já separe o lenço.

Um Beijo Roubado – O hong-konguiano Wong Kar-Wai é reconhecido por fazer filmes de amor. Sempre são paixões que permeiam as histórias contadas em seus filmes. Em ‘Um Beijo Roubado’ com um elenco recheado de estrelas como Jude Law, Natalie Portman e Rachel Weisz, além da estréia como atriz da brilhante cantora Norah Jones. A partir de uma simples torta de blueberry, em um aprazível restaurante em Nova Iorque, um road-movie apaixonante pelos Estados Unidos, que nos faz pensar nas atitudes e nas conseqüências que elas geram. Além da reconhecida beleza dos atores, a fotografia e a maravilhosa trilha sonora são pontos alto desse lindo filme para acompanhar, curtir e se apaixonar.


O Despertar de uma Paixão - Inglaterra na década de 20 vivia uma fase de colonização de vários povos. Nessa película, a colônia China é o pano de fundo para uma história de um casamento arranjado por interesse de família. Como é de se esperar, por não haver paixão, um casamento sem muito sucesso. Traição e vingança os levam a um povoado remoto no interior de um país estranho, gerando revolta e ódio entre o casal isolado. Só o tempo é capaz de curar feridas que parecem incuráveis. O silêncio e o aprendizado com os erros criam momentos de vazio poético através de cenários maravilhosos do interior da China, além de atuações que beiram a perfeição de dois dos melhores atores da atualidade: Edward Norton e Naomi Watts. Um filme para se emocionar e aprender a perdoar.

Fale com Ela - Para quem já conhece o diretor espanhol Pedro Almodóvar já sabe o que esperar deste filme. Histórias de amor que se entrelaçam entre paixões, veneração e loucura. O filme é mais do que apenas um encontro entre pessoas diferentes que por acaso vivem uma grande história de amor. Não há demonstração de amor verdadeiro, não há nem vida em alguns casos. Às vezes o amor é apenas um sonho, que quer que se torne verdade. Alguns elementos surgem no filme como pano de fundo, porém com força de primeiro plano. A tauromaquia aliada à dança e a uma trilha sonora incrível, com a ilustre presença do baiano Caetano Veloso, faz de 'Fale com Ela' um dos melhores filmes dos últimos tempos.


Esta matéria foi veiculada na Revista City Penha, edição 38, de junho de 2010 e pode também ser lida clicando aqui.

Equipe do Sessões

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Ensaio Sobre a Cegueira

Nome Original: Blindness
Diretor: Fernando Meirelles
Ano: 2008
País: Canadá, Brasil e Japão
Elenco: Julianne Moore, Danny Glover, Alice Braga, Mark Ruffalo, Gael García Bernal, Don McKellar, Maury Chaykin, Martha Burns
Ensaio Sobre a Cegueira (2008) on IMDb



O Sessões comenta o filme Ensaio Sobre a Cegueira como forma de fazer um pequena e singela homenagem ao grande escrito português José Saramago, que morreu nesta sexta-feira (18/06).
O filme de 2008 dirigido pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles é baseado no livro homônimo de Saramago, publicado em 1995. Em Ensaio Sobre a Cegueira, uma inexplicável epidemia chamada de "cegueira branca" atinge a humanidade, sem explicações.

Começa com um homem parado em seu carro num farol de São Paulo e pouco a pouco se espalha pelo país. À medida que os afetados são colocados em quarentena e os serviços oferecidos pelo estado começam a falhar as pessoas passam a lutar por suas necessidades básicas, expondo seus instintos primários.

Em meio ao caos, a única pessoa que ainda consegue enxergar é a mulher de um médico (Julianne Moore), que juntamente com um grupo de internos tenta encontrar a humanidade perdida.O longa foi a única obra do escritor que foi adaptada para o cinema.

Sobre o livro, Saramago disse o seguinte: "Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso."

Saramago foi o único escrito portugues a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Sua obra permanece. Ele é imortal.
Carlos Nascimento
Sessões

O Pianista

Nome Original: Le Pianiste
Diretor: Roman Polanski
Ano: 2002
País: França, Polonia, Reino Unido e Alemanha.
Elenco: Adrien Brody e Emilia Fox.
Prêmios: Palma de Ouro em Cannes, Oscar de Melhor Ator, Diretor e Roteiro Adaptado e muitos outros.
O Pianista (2002) on IMDb
Como não aproveitar o mês de Roman Polanski aqui no blog para lembrar mais este filme que traz a dor e a resiliência de um artista diante da tragédia que mais rendeu bons filmes em todos os tempos para a sétima arte.


Há tempos que assisti “O Pianista” e pouco lembro de tudo aquilo: holocausto, um bom ator, sofrimento, poesia, trilha sonora, blá, blá, blá... Mas uma coisa é muito clara, a situação e com quem vi o filme. Não convém detalhar a ocasião, mas a doce criatura referida se lembrará do choro que esta experiência envolveu e dos olhos brilhantes e comentários óbvios que éramos capazes e corajosos de expressar na época. Sentir é uma vez só e a repetição sensorial é impossível, é generosidade cruel da vida, sensações não se repetem e são inesgotáveis.

“O Pianista” trouxe a mim questões a que ainda não encontrei resposta. De por que foram realizados tantos trabalhos no cinema que abordam holocausto e sofrimento de judeus? Pouco se fala dos negros, dos homossexuais e das outras “categorias” que o regime perseguia? Será que estas outras “categorias” eram menos representativas na Europa da Segunda Guerra ou a posteridade ainda não alforriou aqueles prisioneiros e, portanto falar no seu martírio ainda é pisar em ovos? Por que histórias, tão aparentemente alheias, remetem-nos a pedaços tão particulares de nós mesmos e a um choro acompanhado de soluços, um pesar, um luto...? Estranho ao máximo, mas uma vez uma cética me disse “Tudo tem uma explicação”. Se já conseguiremos uma explicação para tudo, não queiramos também que o embrulho deste presente venha ornado com fitas de coerência matemática constatação.

“A arte é um vazio que a gente entendeu.”

Leandro Antonio
Sessões

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Dossiê Roman Polanski

Vemos no palco 'O Pianista'. Ouvimos Ária da 4ª corda de Bach. Na platéia, obscura e misteriosa, as pessoas ouviam aquela pequena obra-prima, mas a música pouco importava para Roman. Havia um clima bem sombrio sobre aquele bucolico bar que poderia ser até um ótimo cenário para um 'Cinema Erótico'. Pensando melhor, parece aqueles bares de 'Piratas' que vemos nos filmes. Roman, escritor, um homem distinto e com um olhar fundo, estava ao bar e sua companhia, a 8ª dose de bourbon, esperando o amor de sua vida. Ele estava lá por 'Armadilha do Destino', e a cada nova dose a dúvida crescia entre 'A Morte e a Donzela'. A depressão o corroia cada dia mais, além da crise de criatividade que ele vivia. Vindo de uma família conturbada, muitas tragédias já o rondavam. E uma moça, jovem - até demais - entrou em sua vida como um raio. Mas por que ela estava demorando tanto?

Roman admirava a 'Lua de Fel' através da janela. Era lua cheia e iluminava 'A Dança dos Vampiros' no vazio bairro de 'Chinatown'. De repente, no palco, aparece uma criança dançando à la 'Oliver Twist', do romance de Charles Dickens ou como vimos no filme do ingles David Lean. Aquela cena seria importante para que o ânimo voltasse a rondar o espírito d'"O Escritor Fantasma", pois no encantamento dos movimentos da criança, um abraço carinhoso e afetuoso lhe cobriu. Ele sabia que era Tess, sua pequena amada, sua salvação, 'O Último Portal'. Ela estava com um presente que Roman havia lhe dado noutro aniversário: 'Macbeth' de Shakespeare. Num silêncio mortal os olhares se cortavam e a felicidade reinava ali.

Ele não tem palavras, ela quer ouvir. Ele está numa 'Busca Frenética', ela está querendo quebrar as leis. Ele quer penetra-la, ela quer perder a inocência.

- Vou ligar para 'O Inquilino', mandar ele sair e vamos tirar umas fotos, tomar um drink, viver lá para sempre - diz Roman.
- 'Que?' - interroga Tess.
- Sim, estamos precisando de loucuras, ficar louco, viver o dia como se amanhã fosse o fim do mundo.
- Calma! Eu não posso sair da casa dos meus pais assim. Eles me matariam e matariam você também. Você sabe que eles ainda acham que eu sou 'O Bebê de Rosemary', e talvez seja, mesmo.
- Venha, nós precisamos nos amar agora!

Ela sem oportunidade de responder é carregada pelo braço. Roman parece enlouquecido, hipnotizado, possuido - fantasmas de seu passado pareciam inflamá-lo. Seu frenetismo excitava Tess. Chegando à residência onde estava sem inquilino, logo o expulsou para que ficassem a sós. Pegou as taças, serviu um delicioso Veuve Clicquot. Sacou a câmera fotográfica e como um domador de leões, ordenava o que aquela adolescente deveria fazer, controlando cada movimento. Ela também sabia o que estava fazendo. Tanto champagne talvez a tivesse deixado mais solta do que o normal, tanto que sua 'Respulsa ao Sexo' parecia nunca ter existido. Roman acertou dessa vez. O coito foi bem sucedido. Os fantasmas da depressão sumiram. Os sonhos de uma mente pura foram transformados um certo caos calmo dentro daquela pequena cabeça - e ela gostou.

Pela manhã do dia seguinte, ao preparar o café para a sua amada, ele disse:

- Minha inspiração é você! Já imagino o livro na minha mente, e seu nome será 'Faca na Água'.
- Nossa, mas...

Antes de terminar a frase, uma invasão da casa liderada pela Sra. Rosemary, acompanhada dos policiais. Roman é preso e indiciado por pedofilia. Tess perde o chão, o amor e a virgindade - olha para trás e de um dia para o outro transformou-se em mulher. Ele, perdeu a chance de viver, de renascer. Essa é a vida de Roman, a arte imita a realidade.

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 15 de junho de 2010

Infância Roubada

Nome Original: Tsotsi
Diretor: Gavin Hood
Ano: 2005
País: África do Sul
Elenco: Presley Chweneyagae, Terry Pheto, Kenneth Nkosi, Mothusi Magano, Zenzo Ngqobe, Zola, Rapulana Seiphemo, Nambitha Mpumlwana.
Prêmios: Oscar de Melhor Filme de Língua Não Inglesa, Melhor Ator (Presley Chweneyagae) no Festival Internacional de Bangkok, entre outros.
Tsotsi (2005) on IMDb

Favela, roubos, classes sociais disputando lugar, metrópole suja, rap na caixa, sujeira. Não é 'Cidade de Deus', mas bem que podemos considerar que é a versão sul-africana para o filme de Fernando Meireles. Johannesburgo toma o lugar do Rio e faz as vezes do lugar onde a esperança não pode viver. Não pode, por imposição do pensamento Ocidental e capitalista, pois, onde há ricos haverão pobres. Essa é a "regra do mercado urbano".

A vida de Tsotsi se parece com a de um chefe do morro, lider da gangue barra pesada da periferia da capital sul-africana. E por destino, após uma briga num bar, na fuga entra na parte rica da cidade, e na tentativa de se safar, assalta um veículo de uma família de alta classe. Rouba e sai por aí. Porém, a sua mudança de vida está logo no banco de trás. Sem ser piegas, porém é evidente o que ocorrerá no filme, mas, não por isso, diminui o que devemos ver nas sequencias.

Além de todo o drama da família assaltada e a perda do bebê, Tsotsi se vê obrigado a cuidar daquela coisinha pequena. Esses momentos onde os dois estão a sós nas cenas, chegam a ser engraçadas, pela falta de habilidade do criminoso em tratar daquela situação. Chegamos até a criar uma empatia pela pessoa que ali está, pensando até em esquecer o que ele havia feito. Mas a tônica do filme não é essa, e nem poderia ser. Lembremos, estamos diante de alguém que cometeu um crime.

Obvio que podemos ter várias outras visões sobre o que aconteceu ao jovem. Mas o filme não quer que pensemos numa reabilitação, num estado livre, igualitário, pois como disse no primeiro parágrafo - onde há um pobre, há um rico. E fazer a justiça com as próprias mãos não é algo que dá certo (nem no filme, muito menos na vida real). No país retratado, a criminalidade só cresce e o apartheid ainda é muito presente (mesmo comprando a idéia do fim da segregação em 'Invictus', de Clint Eastwood). Pois é. O negro ladrão quer ser o ladrão (branco) do colarinho branco - isso não é o fim dos problemas raciais. É o começo dos problemas sociais.

Não nos esqueçamos da África. O continente se assemelha a um quebra-cabeça enorme (veja abaixo) que foi montado com muito trabalho, enquadraram e nunca mais olharam para ele. Devemos olhar para o continente esquecido. Ao menos o cinema nos remete a ver e pensar sobre essas questões. 'Infância Roubada' merece ser visto pelo drama e, muito mais, para vermos que o que eles passam hoje por lá, é o mesmo que passamos por décadas atrás - e nada mudou.


Vitor Stefano
Sessões

sábado, 12 de junho de 2010

Roman Polanski: Wanted and Desired

Nome Original: Roman Polanski: Wanted and Desired
Diretora: Marina Zenovich
Ano: 2008
País: EUA e Reino Unido
Elenco: Roman Polanski
Prêmios: Emmy de Direção e Roteiro para Programa de Não Ficção e Sundance de Melhor Edição de Documentário.
Roman Polanski: Wanted and Desired (2008) on IMDb
Roman Polanski ou 'Imã de Confusão'.

O que você imagina de uma criança nasce na França e depois de poucos meses muda para a Polônia. Em duas semanas começa a Segunda Guerra Mundial. Até aí, ok, acaso. Ela foge, sua mãe morre na câmera de gás e seu pai consegue sobreviver. Até aí, que desgraça. A pessoa cresce supera seus medos vai para os EUA. Aí sim, uma desgraça, mas superavel. Torna-se um diretor de respeito e renomado. Casa-se, sua bela mulher espera um filho seu, a alegria não poderia ser maior. Aos 8 meses de gravidez um assassinofilhodaputa mata a sua esposa. Ah, só abusando do amor de menores abandonadas para superar tantos traumas. Não me levem a mal, mas a história do cara dava um documentário. Roman Polanski: Wanted and Desired está aí para não me fazer mentir.

Obvio que a vida de Roman Polanski foi muito mais do que esse pequeno parágrafo acima. E no documentário de Marina Zenovich temos milhares de 'cúmplices' do terror que assombra o diretor até hoje: o suposto estupro à garota de 13 anos. Uma edição muito boa não dá opinião sobre quem tem razão nesse 'crime' ocorrido tantos anos atrás. Porém o filme mostra-se um tanto arrastado em alguns momentos, principalmente onde os advogados falam. Ouve-se tantas lições de moral que chega a ser ridículo a apologia a ser bom moço que nos remete a pensar que o Polanski fez bem ao ter corrompido a virgem, ops, semi.

Uma ótima fonte de informações para quem não conhece a história trágica do ótimo diretor, com trechos de filmes (até mesmo uma comparação sobre as seitas ocorridas em 'Bebê de Rosemarie' e o ocorrido com a bela Sharon Tate), depoimentos de vários envolvidos e uma explanação completa sobre o caso, que até hoje sem definição. Polanski fez ou não. Quem somos nós para saber. O interessante é aprender mais sobre a tragetória desse gênio, entender suas manias, compreender as tragédias que o cercaram toda a vida e pensar um pouco nas questões morais que esse caso nos remete.

Polan, fique em seu chalé na Suiça que você ganha mais. Apenas tente ficar longe de confusões.




Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Invictus

Nome Original: Invictus
Diretor: Clint Eastwood
Ano: 2009
País: EUA
Elenco: Morgan Freeman e Matt Damon
Prêmios: Concorreu a 2 Oscars - Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante.
Invictus (2009) on IMDb


"Nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes. Nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos amedronta. Nos perguntamos: "Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível?" Na verdade, quem é você para não ser tudo isso?...Bancar o pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de você. E à medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo".


Eastwood não consegue uma obra-prima. Freeman não está em seu maior papel, mas faz com que acreditemos que Mandela está na tela. Damon é muito talentoso e está muito bem na pele de Piennar. Pelo visto o filme não é bom. Engana-se, é. Se você gosta muito da fase pós westerns do Clint, com certeza Invictus lhe agradará também. Em minha opinião, dos últimos filmes feitos pelo diretor, 'Sobre Meninos e Lobos' é a sua melhor obra-prima, sem deixar de lado outras obras que beiram a perfeição, como 'Menina de Ouro' e 'Gran Torino'. Em 'Invictus' ele tem uma história com grande potêncial, uma história de superação e passiva de admiração. Nelson Mandela foi o Gandhi, Martin Luther King ou Jesus Cristo do final do século passado. Uma alma nobre, porém o cinema pode e deve lhe dar um filme biográfico mais completo. E Freeman pode muito bem continuar no papel. Não há como haver uma figura tão importante que não tenha uma cinebiografia decente e completa. E mostrar o que Mandela passou e também como ele enriqueceu, mantendo 3 mansões e como o seu partido, o CNA, faz de seu alto escalão de políticos veradadeiros diamantes negros, os brancos de outrora. Não sabemos e talvez nem saberemos como, pois esse tipo de informação costuma manchar o semi-endeusamento que damos aos grandes revolucionários. Mas não é disso que Invictus trata e sim da glória, da redenção, da mudança que a África do Sul teve após o Mandela, através do rugby - que é um jogo sensacional.

Obama é considerado a esperança do mundo. Ela já existe, desde o dia 11 de fevereiro de 1990. Mandela solto. Aí existe uma nova África do Sul, uma nova África, um novo mundo! Ele conseguiu o impossível. Tal qual o jogo final da Copa do Mundo de Rugby em 1995 entre Springbocks e All Blacks, Obama ainda não converteu nenhum try. Mandela já converteu o seu. E quem diria, o estadounidense já levou seu Nobel da Paz, mesmo promovendo a Guerra. Que mundo é esse? E que a África do Sul faça uma ótima Copa do Mundo de Futebol, assim como fez em 94 a de Rugby. E mais importante que tudo isso, que o continente africano, esquecido e abandonado, contagie-se e erga-se sozinho, sem as forças malígnas do Ocidente.


Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Sessões Entrevista: Cacá Diegues

Quem nunca ouviu falar de Cacá Diegues não sabe nada de cinema. Nem precisa ter visto algo que o alagoano tenha dirigido, mas saber de sua importância cinematográfica é obrigatório. Quem nunca ouviu falar de "Bye Bye Brasil" ou "Xica da Silva", dois dos maiores sucessos de público no país? Pois é esse homem que esteve por trás desses projetos, e de muitos outros, desde o Cinema Novo, ao lado de Glauber Rocha, até os dias de hoje é um dos mais conceituados diretores desse país.

Advogado de formação e cineasta pela vida. Já viveu várias fases do nosso cinema e da política nacional e mantêm-se em alto nível desde sempre, adaptando-se como um camaleão a cada nova mudança do audiovisual no Brasil. Diretor de muitos curtas, iniciou a carreira em longas com o episódio "Escola de Samba Alegria de Viver" do longa "Cinco Vezes Favela" de 1962.

Confira novidades de sua carreira no ótimo site: http://www.carlosdiegues.com.br/ e confira abaixo a filmografia de longas metragens completa do diretor:
2006 - O maior amor do mundo
2003 - Deus é brasileiro
1999 - Orfeu
1996 - Tieta do agreste
1994 - Veja esta canção
1989 - Dias melhores virão
1987 - Um trem para as estrelas
1984 - Quilombo
1979 - Bye bye Brasil
1978 - Chuvas de Verão
1976 - Xica da Silva
1973 - Joanna francesa
1972 - Quando o carnaval chegar
1969 - Os herdeiros
1966 - A grande cidade
1964 - Ganga Zumba
1962 - Cinco vezes favela (Episódio: Escola de Samba Alegria de Viver)

O Sessões teve a oportunidade e o prazer de entrevistar essa figura marcante e tão importante da sétima arte do Brasil e do Mundo: Carlos Diegues, ou simplesmente, Cacá. Confira a entrevista:

Sessões: O que você assistiu nos últimos tempos que te chamou atenção?
Cacá Diegues: "Loong Boonmee raleuk chat", de Apichatpong Weerasethakul, da Tailândia. Palma de Ouro do último festival de Cannes.

S: Por que mesmo diretores consagrados tomam dinheiro emprestado (por leis de incentivo) do governo para financiar seus filmes? Afinal de contas, realizar um filme é mais importante, por exemplo, do que construir moradias e escolas para quem precisa? O que acha das leis de incentivo?
C.D.: Quem escolhe onde o dinheiro público vai ser empregado não são os cineastas, e sim o Poder Público. Sem leis de incentivo, não haveria cinema no Brasil. Nem cultura de forma alguma.
S: Recentemente, a Argentina ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro com "O Segredo de Seus Olhos” de J.J. Campanella. Como você viu a premiação e a que você atribuiria esse desempenho do cinema argentino? Há uma melhor qualidade do cinema portenho (em comparação com o nacional) ou o cinema latino-americano (de uma maneira geral) que cresce cada vez mais?
C.D.: O cinema brasileiro é o mais importante da região, mas os cinemas argentino, mexicano, chileno, cubano são também cinematografias importantes. Até a Guatemala já produz (bons) filmes na América latina.

S: Em seus filmes há um cuidado danado com a trilha sonora. Quais cineastas ou influências o despertaram para a importância da música no cinema?
C.D.: Meu pai adorava música e ouvia musica todo dia. Acho que foi ele quem me aproximou da música e especialmente da música brasileira.
S: Você já passou por várias fases do cinema nacional, do Cinema Novo aos dias de hoje, há como descriminar um melhor momento de nosso cinema? E o que acha de nosso cinema atual?
C.D.: Desde o final dos anos 1990 que estamos vivendo no Brasil o mais fértil, diverso e bem sucedido ciclo na história do cinema brasileiro.

S: Você fez parte da criação do Cinema Novo. Como poderia descrever o que foi proposto na época e você acha que o resultado foi alcançado? Qual a maior contribuição do Cinema Novo para o cinema brasileiro de ontem e de hoje?
C.D.: A principal lição do Cinema Novo foi a de fazer filmes brasileiros no Brasil, tentando inventar um cinema para o país e um país no cinema.
S: Cacá, o cinema político não tem mais espaço? Vivemos o auge do cinema técnico, idealizado pela Vera Cruz?
C.D.: A Vera cruz também tentou ser política, em alguns filmes. A política é uma condição humana, estará sempre presente em qualquer atividade humana.

S: Você considera Bye Bye Brasil o seu principal filme?
C.D.: Não tenho preferência por nenhum filme meu em particular, procuro até esquecê-los para não me tornar vítima deles. O principal filme é sempre o próximo, aquele que ainda vamos fazer.

S: Se não fosse cineasta, o que provavelmente faria?
C.D.: Nunca pensei nessa hipótese, não sei.


S:
Conte um pouco sobre o filme "5 Vezes Favela, Agora por nós mesmos" (http://www.5xfavela.com.br/). É uma continuação da produção de 1962 com histórias dirigidas por você, Miguel Borges, Marcos Farias, Leon Hirszman e Joaquim Pedro de Andrade?
C.D.: "5XFavela"é um filme totalmente concebido, escrito, dirigido e realizado por jovens cineastas moradores de favelas cariocas (Episódios: ‘Arroz com Feijão’ de Cacau Amaral e Rodrigo Felha; ‘Deixa Voar’ de Cadu Barcellos; ‘Concerto Para Violino’ de Luciano Vidigal; ‘Fonte de Renda’ de Manaíra Carneiro e Wavá Novais e ‘Acende a Luz’ de Luciana Bezerra) . É uma visão de dentro da favela, sem os estereótipos e clichês que ela sofre da mídia e do cinema em geral.


S: Você está trabalhando na produção de outro longa-metragem “O Grande Circo Místico”. No seu site diz que o filme ainda não começou a ser filmado. Como é o trabalho da sua equipe antes de começar a gravar as cenas? Quais são as características do trabalho de uma pré-produção?
C.D.: Ainda estou terminando o roteiro desse novo filme, não tenho ainda uma equipe trabalhando nele.


S: Este filme será mesmo dirigido e protagonizado por José Wilker, seu grande companheiro em diversos filmes? Como você prevê o desempenho dele na direção, visto que ele é um diretor de pouca experiência?
C.D.: O filme de Wilker que eu e Renata Almeida Magalhães estamos produzindo através da Luz Mágica, nossa produtora, é outro. Trata-se de "Giovanni Improtta", baseado em texto de Agnaldo Silva. Wilker não é apenas um grande ator, mas também um autor e um cinéfilo que sabe tudo de cinema.

Novamente, muito obrigado pela oportunidade e pela honra de ter o grande Cacá Diegues no Sessões.

Equipe do Sessões

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Utopia e Barbárie

Nome Original: Utopia e Barbárie
Diretor: Silvio Tendler
Ano: 2009
País: Brasil
Elenco: Eduardo Galeano, Cacá Diegues, Franklin Martins, Denys Arcand, entre outros.
Sem Prêmios.

Começo minha reflexão sobre Utopia e Barbárie com a imagem do “Anjo da História” de Walter Benjamin em que o anjo avança em direção ao futuro com o rosto voltado ao passado e vê uma única catástrofe que cada vez mais se junta aos seus pés.O anjo,então,sente vontade de parar e reunir tudo aquilo que foi despedaçado e estilhaçado durante os tempos mas,mais forte que ele,sopra uma tempestade do paraíso que arrasta suas asas e o impele,inexoravelmente para o futuro.Esta tempestade é o que chamamos Progresso.

A metáfora é parte da nona tese sobre a história do grande crítico literário e pensador judeu do século passado e aparece no documentário de Silvio Tendler.

Com efeito, Utopia e Barbárie é uma ode ao conhecimento humano, um canto sobre os heróis da saga humana,um afresco sobre a formação de novas idéias e um compêndio de como as sociedades se definem e decidem que caminho tomar.

Etimologicamente,Utopia refere-se à um “não lugar”,denota aquilo ou aqueles que estão fora da realidade,um sonho irrealizável,um ideal ou algo que jamais será alcançado.Barbárie,indica selvageria,brutalidade e nos tempos remotos servia para designar os agrupamentos que não tinham a Grécia como matriz cultural lingüística.Contudo,mais importante do que o sentido das palavras é o significado que elas adquirem na história.

O filme,delineado de 1968 aos dias atuais,apresenta imagens e relatos de uma metade de século que dificilmente será esquecido já que foi o plano de ação de duas forças ideológicas que cada qual a seu modo queriam moldar o mundo que seria ressignificado.



Essas duas forças não são opostas nem a utopia,nem a barbárie são conceitos filosóficos puros e logo,não permitem abordagens em termos de materialismo histórico,são antes irmãs gêmeas,que invadem os corações e as mentes dos homens criando ideários coletivos e fabricando,assim,o que somos.

Utopia e barbárie mostra os campos de concentração nazistas, traz o relato infernal da bomba atômica, lembra os heróis destruídos, os golpes de Estados, as torturas de um tempo sombrio e depois, não pra agradar, mas talvez para conscientizar,mostra os relatos de poetas,diretores e políticos,o orgasmo que sacudiu o planeta em 1968,a brochada que se seguiu com o fim da URSS e a inimaginável hipótese de um Oriente Médio pacífico com crianças israelenses e palestinas estudando na mesma sala de aula,cantando e conversando como amigos.

O filme deixa um riso no canto da boca de quem assiste, uma vez que cria uma memória, no mínimo irônica, por mostrar de fato de que, de um lado a utopia individual, socialmente expressa em ideologia dá origem à barbaridades homéricas e de outro a própria barbárie toma a direção que leva a um horizonte utópico tudo dentro do tempo da senhora História

Neste sentido, vale a pena transcrever a definição da história que o brilhante jornalista Uruguaio, Eduardo Galeano, metaforiza:

"Com muito sangue,com muitas lágrimas,aprendemos que o tempo da História não é o nosso tempo.Que a história é uma senhora lenta,caprichosa,às vezes louca,muito difícil,muito complicada,muito misteriosa.Muito mais misteriosa do que nós cremos que ela seja.E que não nos dá a mínima bola.Que não nos obedece,Porque o tempo dela é um tempo infinitamente maior que o nosso.”

Utopia e barbárie é uma obra em que todos nós estamos inseridos,queiramos ou não,vivemos ativamente ou contemplativamente,os ativos tendem a sonhar com algo melhor;os contemplativos tendem a se concentrar no hoje. Aqueles desejam o futuro porque o presente,de certa forma,não está agradando,não se coaduna com o espiríto do tempo;estes olham e passado e pensam em conservar o que já conseguiram.Os utópicos caminham em direção à utopia,dois passos dão,dois passos ela se afasta;aceleram e o horizonte acelera de igual maneira;Os bárbaros querem parar - porque a estrada do desenvolvimento humano é esburacada-quando param o mundo para com eles.Então,ao fim e ao cabo,a utopia serve para que se esteja sempre caminhando e a barbárie é um pedra na qual ,amiúde,os homens tropeçam.



Pos scriptum protestum: A coisa que me incomodou, enormemente, depois que sai do cinema foi a constatação da quantidade ridícula de salas de exibição que o filme estava passando.Contei três,no início,mas quanto fui assistir só estava passando em um:Cine Bombril.Em conversa com especialistas descobri que isso se deve à basicamente três coisas:Distribuição,Produção e Exibição.A produção é irretocável,a distribuição e a exibição deixaram muito a desejar.

Deveria ser alvo de críticas contundentes os órgãos de áudio visual deste país e a própria secretária de cultura do estado de São Paulo que atribui pouca atenção aos grandes esforços(o filme demorou 20 anos para ser produzido) com a desculpa de que não há demanda.Eu gostaria de dizer que acho isso uma coisa completamente lamentável.

Porcaria americana enche todas as salas do país,documentário bom,aparece em três salas do Estado mais rico.É necessário um pouco mais de barbárie para com os Avatares para que possamos construir nossa própria Utopia.Definitivamente não consigo compreender porque tanta dificuldade em se ver isso,uma vez que não é necessário muita inteligência para ver que porcaria é porcaria e biscoito fino é biscoito fino!

Sílvio Tendler configura-se,portanto,simultaneamente o maior documentarista do país e também o maior cidadão em ostracismo imerecido.Ostracismo que vale lembrar, é uma palavra grega para mandar para fora da pólis os indesejados.Quão alto os gregos me fazem rir!!!Civilizadíssimos,mataram Platão depois foram dominados pelos Bárbaros e com razão:A república que condena seus próprios artistas tem alguma coisa de podre que,cedo ou tarde,atrai os Bárbaros.

Morte à esperança utópica!!!!!
Viva a imbecilidade das nossas instituições audivisuais!!!
Viva ao mercado que amputa o cinema nacional!!!
Viva....

Fernando Moreira dos Santos, Enraivecido!
Sessões de Cinema

Cinéma Erotique

Nome Original: Cinema Erotique
Diretor: Roman Polanski
Ano: 2007
País: França
Elenco: Jean-Claude Dreyfus, Sara Forestier, Sylvia Kristel e Édith Le Merdy
Parte do Projeto Cada um com Seu Cinema em comemoração do 60º Festival de Cannes.



Tudo que Polanski gosta está nesse curta. Ele conseguiu inserir vários aspectos que são visíveis em toda a sua filmografia em apenas 2 minutos e 40 segundos de vídeo. Além do obvio erotismo por conta do nome do curta, o humor negro e um certo suspense cercam aquela sala de cinema quase vazia. Cinemão clássico, filme semi-erótico e um casal na platéia. Nos remete aos cinemas do centro da cidade de São Paulo que viraram exibidores das produções, digamos, sobre o amor livre. Deixaram o passado cinematográfico do nosso centro histórico a mercê de desrespeitadores da 7ª arte. Mas ainda bem que o Cine Marabá retornou para dar um pouco mais de vida cinematográfica ao centrão paulistano.

Porém, com muita classe e elegância, sem perder o pudor, Polanski consegue dar sensações diferentes em pouco tempo. Ele é polêmico e um cineasta de mão cheia. Não há como negar essas duas qualidades!

Ótimo curta do ótimo DVD 'Cada um Com seu Cinema' para o 60º aniversário do Festival de Cannes, prêmio que venceu por 'O Pianista'. Todos os cineastas fazem a sua percepção sobre o amor no cinema. E temos resultados maravilhosos, como do franco-polonês.

(escrito posterior a apelos conclusivos)

Como é perceptível pelos comentários, a falta da legenda nos levam a um mundo incompleto, onde conseguimos sentir o que vemos, mas não entendemos porque nem o que estão fazendo. Portanto, segue esse mesmo vídeo, em velocidade duplicada, com legendas para compreensão do humor por trás de um ótimo curta. Talvez o sexo fique no segundo plano, como ele merece (nesse vídeo). Aproveitem e comentem. Se puderem, vejam sem e com a legenda e percebam a graça por trás de julgamentos pré concebidos. Veja:



Vitor Stefano
Sessões

sábado, 5 de junho de 2010

Roman Polanski em São Paulo

Já tá escancarado aí na foto do senhor ao lado que neste mês, o Sessões homenageia de maneira singela e simpática o cineasta Roman Polanski. É aquele lance de comentar a obra e dar pitaco na vida do homem. Daí, não sei se com algum propósito ou despropositadamente, rola também na cidade de São Paulo uma exposição sobre o cara. Dá só um liga na notícia que acabo de ler, publicada pelo Diário do Grande ABC, por Adriana Feder:

A Cinemateca Brasileira, em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, apresenta a exposição Roman Polanski. Ator. Diretor, em homenagem à trajetória de um dos maiores cineastas vivos e ativos do mundo. Realizada a partir de quinta-feira na Sala BNDES da Cinemateca Brasileira, com entrada franca, a exposição recupera toda a trajetória do diretor por meio de cartazes, fotografias e stills dos filmes que ele dirigiu e nos quais atuou. Serão apresentados em ordem cronológica, desde os filmes estudantis feitos na Escola Nacional de Estudos Superiores em Cinema, Televisão e Teatro de Lódz até as produções mais recentes.
Em complemento, haverá uma extensiva mostra de filmes, em cartaz na Cinemateca e no Centro Cultural São Paulo, da qual fazem parte todos os longas-metragens de Roman Polanski como diretor.
Polanski atuou em filmes de cineastas poloneses consagrados e em filmes de sua própria autoria. Para apresentar ao público esta faceta pouco lembrada do artista, a exposição inclui, além de inúmeras fotografias do cineasta atuando, uma apresentação multimídia com trechos dos diferentes papéis interpretados por ele.
Outro destaque é a coleção de cartazes de seus filmes, pertencentes ao acervo do Museu de Fotografia de Lódz. São mais de 50 cartazes de todo mundo, apresentando diferentes versões nacionais para os pôsteres de cada filme, produzidos por artistas como Roslaw Szaybo, Wieslaw Walkuski e Jan Lenica. A exposição já foi apresentada na Polônia, Alemanha e Inglaterra.

A exposição "Roman Polanski. Ator. Diretor", começou na quinta-feira, dia 03, na Cinemateca Brasileira - Largo Senador Raul Cardoso, 207, São Paulo. Tel.: 3512-6111 (ramal 215). Grátis. Até dia 27. Entra no site, na home já vai ter um banner piscando, quase que te chamando para entrar com a faca n'água: http://www.cinemateca.gov.br/


No Centro Cultural São Paulo, a mostra também começou na quinta-feira e vai até o dia 13. Confira a programação aquiiiiii!

É isto. Qualquer coisa, vai comentando e a gente vai se entendendo. Sugestões, críticas, beijo pra família, vale homem com homem e mulher com mulher e até repulsa ao sexo.

Abraços,

Sessões

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