sexta-feira, 29 de julho de 2011

Um Cão Andaluz

Nome original: Un Chien Andalou
Diretor: Luis Buñuel e Salvador Dali
Ano: 1929
País: França
Elenco:Simone Mareuil, Pierre Batcheff, Dali, Buñuel, Marval, Robert Hommet, Fano Messan
Prêmios: Sem prêmios
Um Cão Andaluz (1929) on IMDb

Minha mãe e minha avó diziam tantas coisas quando uma mariposa entrava em casa e hoje começo a entender alguns porquês. Sem saber quem era Dali ou Buñuel já existia na sabedoria popular um considerável entendimento do surreal que a vida apresenta.

Hoje completam-se 28 anos da morte de Luís Buñuel. Poucos lembrarão ou saberão disto. Poucos no século 21, a não ser estudiosos e curiosos bem direcionados conseguirão acesso a metade de sua obra. É uma pena, particularmente não vi nada até hoje de Buñuel que não estivesse perto ou superasse a linha do grandioso. São aqueles filmes que quando terminam deixam você grudado na cadeira, mudam o seu estado corporal por alguns momentos. Aqueles filmes que deixam grandes e/ou insignificantes interrogações. Claro que você não vai entender tudo ou ter resposta para tudo aquilo, no entanto você se reconhece e este reconhecimento automático é que te captura e faz você ver de novo e de novo. Ver de novo o novo que se revela no mesmo, os novos automatismos, as novas identificações, as novas dúvidas.



O “Cão Andaluz” é um destes filmes de dúvidas. Com menos de 20 minutos é possível ser interminável. Caio em lugar comum, porém não consigo vê-lo se não como um filme de sonho. Sei que este filme deve já ter sido objeto de muitos estudos em arte e cinema e que qualquer coisa escrita aqui possa exalar um amadorismo dos mais safados. Acho que gosto de ser safado. Então em nome desta safadeza sujeito, os que querem continuar lendo, aos meus entendimentos das metáforas e visões de “O Cão Andaluz”, um tanto baseadas nos entendimentos que a minha mãe e minha vó imprimiram na criança que se surpreendia ao ver uma mariposa entrar pela janela da cozinha.



Era uma vez...

Um prólogo. O próprio Buñuel afia uma navalha. Sabe o que fará. Sabe que é preciso mostrar aos espectadores que ali está acontecendo um filme diferente. As relações não vão surgir a partir do olhar, mas com o partir do olhar. O corte da navalha torna-se a metáfora do olhar que precisa ganhar um outro estado para experiência de “O Cão Andaluz”. O olho precisa estar aberto. É como se Buñuel tivesse a intenção de dizer: – “O que até hoje foi apreciado por estes olhos e fizeram deles o que são podem e deverão ser esfacelados por este filme.”

Oito anos mais tarde...

Em grande parte da sequência a atenção é voltada não para os personagens, mas para os lugares e objetos. Um livro que cai aberto no quadro de Veermer*, uma caixa que parece ser um elo entre os personagens, a bicicleta, a rua, os automóveis...
A atenção volta-se para as figuras humanas, quando uma jovem no meio da rua cutuca uma mão jogada no asfalto com uma varinha. Os passantes e o casal central na janela olham aquilo. A polícia intervém: “Está tudo bem, vá para casa.” A moça, agora com o olhar menos perdido e com uma expressão serena, que aos poucos vira expressão de susto, é atropelada. Morreu nova e o que fez durante a vida se não tatear, cutucar antes para chegar perto, ou nunca chegar.
A visão do atropelamento da jovem manifesta no homem da janela um desejo sexual incontrolável. O filme desperta para o tema da pulsão sexual. A tara é forte, um desejo capaz de arrastar pianos recheados de burros e todas as concepções que foram assimiladas pela educação e religião. É como se todas as prisões da moral convencionada não fossem suficientes para reverter aspectos da condição animal e instintiva do ser humano.

Por volta das três da manhã...

Prostrado e preocupado na cama, alguém bate a porta do homem. Este chamado que parece ser sua consciência e seu entendimento de o que é certo e errado. Há uma autopunição, um arrependimento.

Dezesseis anos antes.

A morte se apresenta. O homem olha para si mesmo e a percepção do que ele se torna o conduz ao suicídio. A ideia de alienação é presente, pois ao mesmo tempo em que ele tira a própria vida, tira a vida de um outro. Um homem que se descolou de si mesmo e não sabe para onde, nem para que continuar.
A morte do marido torna-se a alforria da mulher que não quis relacionar-se com o luto (ela é indiferente à mariposa) e ganha o mundo para encontrar o primeiro homem que aparece. A escolha é totalmente sua e este homem será importante na sua vida, este homem é a personificação do seu alívio. Caminhar a beira do mar é a despreocupação e encontrar os objetos que acompanharam o marido gastos, sem serventia e expostos ao tempo é uma referência a libertação desta mulher.

Na primavera...

Amantes enterrados até a altura dos cotovelos. A impressão é de que juntos eles estacionaram, aquele sentimento que os fazia transitar, os aprisionou e mais que isto imprimiu a eles um estado vegetativo.

Este post ficou enorme para os padrões atuais da internet. Aliás, ele deveria ser muito maior. Foi necessário cortar e enquadrar. E o pior, talvez não seja nada disso dito aqui. Tratando-se da obra de Buñuel sempre haverá objeções e novidades a pontuar. Que surjam milhões de significados. Desvendar estas obras passa por um processo pessoal, de pesquisa e de imaginação. Espero que tenha despertado interesses.

Leandro Antonio
Sessões

* A Rendeira, do pintor holandês Johannes Vermeer (1632-1675), considerado uma das influências de Salvador Dali.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Melhor Ator do Cinema Nacional

Ser ator é permanecer em um estado que aparentemente não é o seu. Só aparentemente, pois em uma busca interior mais atenta é possível tirar de um corpo e de uma emoção o que convenciona chamar-se de personagem. O ator vai buscar em si mesmo, a dose de fantasia, de ilusão e do restante da humanidade que existe nele. É este trabalho, não havia melhor nome que “atuação”, que transmite ao outro as sensações, euforia, desejo, repugnância, suadouro... De repente tudo é verdade até que subam os créditos.

E de repente, o Sessões resolveu fazer uma lista dos melhores atores nacionais. Uma boa rinha de galos brasileiros, mas após as escolhas pessoais (para ver os votos individuais, clique aqui) e talvez viciadas de cada sessônico chegou-se à lista que segue.

Caio Blat - São Paulo (SP), 1980
Principais Filmes: Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos, As Melhores Coisas do Mundo, Os Inquilinos, Batismo de Sangue, O Bem Amado, Baixio das Bestas, Carandiru, Lavoura Arcaica e Xingu

Chico Diaz - Cidade do México (México), 1959
Principais Filmes: Amarelo Manga, Baile Perfumado, Policarpo Quaresma, Benjamin, Anjos do Sol, Praça Saens Peña, O Contador de Histórias e Utopia e Barbárie

Daniel de Oliveira - Belo Horizonte (MG), 1977
Principais Filmes: Cazuza, A Dona da História, Zuzu Angel, Batismo de Sangue, A Festa da Menina Morta e 400 Contra 1

Grande Otelo - Uberlândia (MG), 1915 - 1993
Principais Filmes: Samba em Berlim, Fantasma por Acaso, Este Mundo é um Pandeiro, Carnaval no Fogo, Também Somos Irmãos, Carnaval Atlântida, Assalto ao Trem Pagador, Macunaíma, Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia, O Homem do Pau-Brasil, Cassy Jones - O Magnifico Sedutor

João Miguel - Salvador (BA), 1970
Principais Filmes: Cidade Baixa, Cinema,Aspirinas e Urubus, O Céu de Suely, Deserto Feliz, Mutum, Estômago, Se Nada Mais Der Certo, Hotel Atlântido, A Suprema Felicidade e Xingu

Lázaro Ramos - Salvador (BA), 1978
Principais Filmes: O Sabor da Paixão, Madame Satã, Homem do Ano, O Homem que Copiava, Carandiru, Nina, Meu Tio Matou um Cara, Quanto Vale ou é por Quilo?, Cidade Baixa, A Máquina e Saneamento Básico - O Filme

Leonardo Medeiros - Rio de Janeiro (RJ), 1964
Principais Filmes: Lavoura Arcaica, Cabra-Cega, Quanto Vale ou é por Quilo?, O Cheiro do Ralo, Não por Acaso, Nossa Vida Não Cabe Num Opala, Feliz Natal e Budapeste

Lima Duarte - Sacramento (MG), 1930
Principais Filmes: Trilogia do Terror, A Queda, O Crime do Zé Bigorna, Os Sete Gatinhos, Lua Cheia, Boleiros, A Ostra e o Vento, Palavra e Utopia, O Auto da Compadecida, Eu Tu Eles, 2 Filhos de Francisco, Depois Daquele Baile, Boleiros 2 e Assalto ao Banco Central

Matheus Nachtergaele - São Paulo (SP), 1969
Principais Filmes: O Que é Isso, Companheiro?, Anahy de las Missiones, Central do Brasil, O Primeiro Dia, Castelo Rá-tim-bum - O Filme, O Auto da Compadecida, Cidade de Deus, Amarelo Manga, Narradores de Javé, Nina, Crime Delicado, Tapete Vermelho, A Concepção, Árido Movie, Baixio das Bestas, Encontro com Milton Santos, A Festa da Menina Morta e O Bem Amado

Milhem Cortaz - São Paulo (SP), 1972
Principais Filmes: Domésticas, Carandiru, Cabra-Cega, Nina, Querô, O Cheiro do Ralo, Tropa de Elite, Nossa Vida Não Cabe Num Opala, Nome Próprio, Se Nada Mais Der Certo, Meu Mundo em Perigo, Lula, O Filho do Brasil, Tropa de Elite 2, VIPs e Assalto ao Banco Central

Paulo Autran - Rio de Janeiro (RJ), 1922 - 2007
Principais Filmes: É Proibido Beijar, As Sete Evas, Crônicas da Cidade Amada, Terra em Transe, A Máquina, O Ano em que Meus Pais Sairam de Férias e O País dos Tenentes

Paulo José - Lavras (RS), 1937
Principais Filmes: O Padre e a Moça, Todas as Mulheres do Mundo, Edu, Coração de Ouro, Macunaíma, Cassy Jones - O Magnifico Sedutor, Eles Não Usam Black Tie, O Homem do Pau-Brasil, Ilha das Flores, Anahy de las Missiones, Dias de Nietzsche em Turim, O Homem que Copiava, O Vestido, Person, Saneamento Básico - O Filme, Juventude, Quincas Berro D'Água e O Palhaço

Raul Cortez - São Paulo (SP), 1932 - 2006
Principais Filmes: O Caso dos Irmãos Naves, Capitu, Beto Rockfeller, Roberto Carlos a 300 km por Hora, Pecado Sem Nome, Amor de Perversão, Aguenta, Coração, A Grande Arte, Lavoura Arcaica, Person e O Outro Lado da Rua

Rodrigo Santoro - Petrópolis (RJ), 1975
Principais Filmes: A Ostra e o Vento, Bicho de Sete Cabeças, Abril Despedaçado, Carandiru, A Dona da História, 300, Não Por Acaso, Os Desafinados, Che, Che 2 - A Guerrilha, O Golpista do Ano, Meu País e Heleno

Selton Mello - Passos (MG), 1972
Principais Filmes: Lamarca, O Que é Isso, Companheiro, Caramuru - A Invenção do Brasil, Lavoura Arcaica, Lisbela e o Prisioneiro, Garotas do ABC, Nina, O Coronel e o Lobisomem, Árido Movie, O Cheiro do Ralo, Meu Nome Não é Johnny, Os Desafinados, A Erva do Rato, A Mulher Invisível, Jean Charles, Lope e O Palhaço

Wagner Moura - Salvador (BA), 1976
Principais Filmes: Sabor da Paixão, Abril Despedaçado, Deus é Brasileiro, O Homem do Ano, Carandiru, Nina, Cidade Baixa, A Máquina, Ó Pai Ó, Saneamento Básico - O Filme, Tropa de Elite, Romance, Tropa de Elite 2 e VIPs

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Equipe do Sessões

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Sessões entrevista: Krzysztof Kieślowski

Hoje arrumando algumas tralhas no apartamento, encontrei um livro que comprei num qualquer sebo – O Diário Antropológico 2002, assim se chama esse livro perdido no baú do meu quarto e da memória. É um projeto das disciplinas de Antropologia Filosófica e Antropologia Teológica da Faculdade Santa Marcelina feito pelos alunos através de exercícios e de reflexões. Até aí nada de mais, não fosse um dos motes para o livro uma entrevista com o senhor cineasta Krzysztof Kieślowski. A entrevista foi cedida ao jornalista Ken Shulman, da revista Newsweek, em Perugia, Itália em 1995 e publicada no Estado de São Paulo em 1996, um dia após o falecimento do diretor polonês.

Pensei, por que não transcrever esta entrevista para o Sessões? É rápida, porém diz muita coisa sobre o período de maior “badalação” na vida deste diretor – a década de 1990. Também é possível perceber traços de personalidade e da sinceridade daquele que sem saber ou não, estava chegando ao final da vida.

Embora Krzysztof Kieślowski tenha em sua filmografia dezenas de filmes, por aqui, o que mais se conhece e se difunde deste cineasta é sua famosa e premiada Trilogia da Cores, já comentada aqui no Sessões. Reconheço que também não sei muito sobre, mas ainda há tempo para saber. Vamos a entrevista:


“Desejo estar em paz comigo mesmo, mas nunca estarei.”


Quase todas as suas obras importantes estão baseadas em dogmas ocidentais. Será esse o papel da ciência e da arte: redefinir e reapresentar valores tradicionais?

Kieślowski – Não estou certo de que cinema seja arte. Se o for, esta poderia ser uma de suas funções.

Se o cinema não é arte, o que é?

Kieślowski – O cinema é uma maneira primitiva de contar histórias. E o homem sempre sentiu necessidade de contar e escutar histórias. Mas, a câmera cinematográfica registra apenas o que está diante dela. Imaginem tentar filmar a frase: “Ele começou a vir vê-la cada vez menos, até que parou inteiramente de vir.” Essa é uma frase que ocorre frequentemente na literatura. Mas, você não pode filmá-la, porque fala de tempo, de um relacionamento entre duas pessoas. Se você tentasse, precisaria de meia hora.

Por que o senhor escolhe fazer filmes se é a forma inadequada?

Kieślowski – Eu não escolhi essa profissão. Ela simplesmente aconteceu. Faço filmes para estabelecer um diálogo com as pessoas, mas com cada indivíduo que vem ver meu filme. Quero que meu espectador faça as mesmas perguntas que faço a mim mesmo. Por que devo viver? Por que devo acordar pela manhã? Por que tenho de ir trabalhar? O que ocorrerá depois de minha morte? Gostaria que meu espectador entendesse que não está sozinho em seus temores, em suas dúvidas e em sua sensação de que muitas vezes a vida não tem sentido. Essas são perguntas que não têm respostas.

Seus filmes mais recentes tratam da alienação. O homem é mais solitário na década de 90?

Kieślowski – Sem dúvida. Quanto mais rico é um país, mais solitários são seus habitantes. Nunca vi pessoas tão sozinhas como na Suíça, onde filmei A Fraternidade é Vermelha.



Será que o homem está mais isolado nos países ricos do Ocidente do que estava na Polônia e nos países do bloco oriental sob o império soviético?

Kieślowski – Sem dúvida. O sofrimento une as pessoas, enquanto a abundância e a riqueza dividem os povos. Em nosso tempo, o sucesso está muito em moda. A força está na moda. E, para ser forte e bem sucedido, é preciso lançar fora todos os escrúpulos. E, ao fazer isso, a pessoa se torna solitária, porque perde todos os amigos.

O senhor é bem-sucedido?

Kieślowski – Não. Sou bem-sucedido profissionalmente. Mas, no verdadeiro sentido da palavra, na maneira como entendo isso, não o sou. Entendo o sucesso como a realização dos próprios desejos. E eu não posso conseguir isso jamais, porque desejo estar em paz comigo mesmo. Nunca estarei.

Na Polônia comunista, sob a lei marcial, o Senhor travou uma luta constante contra a censura do governo.

Kieślowski – O que nós, os escritores e os cineastas, tentamos fazer foi coexistir com a censura. Burlá-la, enganá-la. Foi uma boa lição. Exatamente como todo limite, toda restrição é uma inspiração. Acredito que muitas descobertas intelectuais e artísticas na Europa Oriental foram feitas por causa da censura.

O senhor coexiste com uma indústria ocidental que faz filmes caros e deixa a audiência definir o final.


Kieślowski – É um absurdo. Em meus filmes, sou eu quem decide isso. Para isso é que sou pago. Arte não tem nada a ver com democracia, é autocrática.

Estado de São Paulo, 14/03/1996

Leandro Antonio
Sessões

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Uma Prova de Amor


Nome Original: My Sister’s Keeper
Diretor: Nick Cassavetes
Ano: 2009
País: EUA
Elenco: Cameron Diaz, Abigail Breslin, Sofia Vassilieva e Alec Baldwin.
Prêmios: Teen Choise Award de Melhor Drama e Melhor Atriz Principal (Abigail) e Atriz Coadjuvante (Sofia) no Young Artist Award.
Uma Prova de Amor (2009) on IMDb

Toda a vida só vivi para viver o hoje.


A urgência por viver cada dia como se fosse o último é um brado dos desesperados pelo medo da morte. Fazer com que viva eternamente, em carne e osso, é o egoismo dos descrentes no bem alheio. O câncer do câncer é querer que viva a todo custo, sem pensar no sofrimento do mortal. Quem crê, creia que há vida além. Que não crê, creia que nem toda dor é suportável. Esse câncer matará a todos, e só aí saberemos até onde conseguimos lutar. A dor dos que ficam é bem menor da de quem tentou viver.

Quando Sara e Brian descobrem que Kate, sua filha caçula, está com leucemia e que nenhum deles ou o primogênito Jesse eram compatíveis para a doação de medula, um procedimento incomum lhes é recomendado: ter um novo filho, que teria grandes chances de ser sua salvação. Após a fertilização in-vitro nasce Anna. Mas Sara esqueceu que ali tinha mais do que a salvação para uma vida, havia outra vida. Por 11 anos a pequena Anna foi submetida à diversos procedimentos, operações, retiradas - tudo em prol da saúde de Kate, que só piorava. Os rins começaram a dar sinais que estava para parar e quando um novo procedimento - agora a doação de um rim - uma bomba cai sobre a família: Anna processou seus pais em busca de “emancipação médica”, onde ela tem direito a decidir o que é feito com seu corpo.



Sara descontrola-se. Perder a sua filhinha é impensável. Negar a sua real condição é impossível. A cegueira pela cura faz de todos à sua volta meros coadjuvantes num Eden de mãoe e filha - Sara e Kate. Mas esse mundo não é assim. Seu descontrole é motivo de causar ódio em quem vê - porém é impossível julgar uma mãe que vê seu filho rumo ao caixão. Talvez seja a maior dor do mundo. Mas a cura, com a negação de ajuda da irmã, torna-se missão impossível. Apenas a vontade de quem está acamada não foi levada em conta. Só uma irmã para ouví-la. Viver os dias como o último é a maior conquista para quem está condenado a morrer antes de amanhã.

Impossível ficar isento após “Uma Prova de Amor”. Seja a trilha, as lindas imagens, o roteiro melodramático. Tudo é conhecido por nós, mas nem por isso conseguimos não nos emocionar. Como acontece com “Sempre ao seu Lado”, é impossível não molhar o lenço. Cameron Diaz está surpreendetemente ótima num papel dramático. Consegue nos fazer sentir o ódio mortal por uma mãe desesperada que toma atitudes mais descontroladas - mas que não ouso em julgar. Abigail Breslin é uma joia que desde “Pequena Miss Sunshine” me prende. Apesar de toda a dramaticidade alcançada, temos aqueles momentos de risos chorosos por conta de intervenções de quebrar as pernas. Nick Cassavettes se prova um diretor capaz de produzir dramas de encher os cinemas de lágrimas (como já havia feito com “Um Amor para Recordar” e em "Um Ato de Coragem") e ações de animar os animais mais brutos (como com “Alpha Dog”). Uma característica ímpar no cinema atual. Outro filme de boa repercursão de NC é “Um Ato de Coragem” com Denzel Washington.

Em “Uma Prova de Amor” não importa o final. Não importa a vontade individual. O que importa é a intensidade. Do amor, da dor e do sentimento. Chora por não ter, chora por perder, chora por amar. Mas as lembranças pelos momentos de felicidade permanecerá. Um sorriso...


Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 18 de julho de 2011

C'était un Rendezvous

Nome Original: C'était un Rendezvous
Diretor: Claude Lelouch
Ano: 1976
País: França
Elenco: Claude Lelouch
Prêmios: Menção especial no Cracow Film Festival.
C'était un rendez-vous (1976) on IMDb



Atrasado estou. Corro, corro, corro. Vou chegar, eu preciso chegar na hora sem deixar minha amada esperando por mim. Seria um erro. Não apenas um, seria o maior dos erros deixar uma dama tão distinta, minha futura amada, meu sonho, esperando um segundo sozinha pelas ruas de uma Paris linda e gelada. Assim poderia perdê-la para outro amante que se apaixonasse por sua beleza exalada em pequenos detalhes, deixando-o como me deixou:de queixo caido e pernas bambas. Não vejo sinal, carros, pessoas. Só a vejo. Não posso me prender em leis criadas para tirar minha liberdade de fazer o que quiser. Porque devo parar para meros pedestres que vão me deixar mais tempo longe da minha paixão? Porque devo dirigir meu carro com paciência? Porque eu vou me punir com esse tempo interminável? Eu cansei de esperar. Vou acelerar, colocar a 5ª marcha e não tirar mais até meu destino. Só preciso chegar, pois vivo estarei apenas quando conseguir vê-la. Corre... corre... corre... Cheguei. Minha vida agora tem sentido.


Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 14 de julho de 2011

É Proibido Fumar

Nome Original: É Proibido Fumar
Diretor: Anna Muylaert
Ano: 2009
País: Brasil
Elenco: Glória Pires e Paulo Miklos
Prêmios: APCA de Melhor Diretor e Atriz, Fiesp de Melhor Filme, Roteiro e Atriz, ACIE de Melhor Filme, Atriz e Trilha Sonora, Melhor Filme de de Ficção, Diretor, Roteiro Original, Montagem e Trilha Sonora no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2010, Melhor Filme, Ator, Atriz, Atriz Coadjuvante (Dani Nefussi), Roteiro, Direção de Arte, Montagem e Trilha Sonora no Festival de Brasília, Melhor Filme, Atriz, Diretor, Figurino e Trilha Sonora no Prêmio Contigo! de Cinema Nacional.
É Proibido Fumar (2009) on IMDb


Segredos são feitos para serem descobertos de forma cadenciada e sorrateira. Segredos que vão para o túmulo são segredos inexistentes. Mentir pra que? Esconder a verdade é fugir da vida real. Procurar sarna para se coçar é atraso de vida. Não dá para continuar assim, criando inimigos em cada esquina. Ah, esqueça, vamos acender um cigarro e esquecer dos problemas da vida. Fumando, encontramos outro problema, ainda mais que aqui, é proibido fumar.

“O cigarro parece meu amigo, mas é meu inimigo”.
O filme de Anna Muylaert tem no cigarro um coadjuvante. Mas daqueles dignos de prêmio. A história de Baby é tipicamente comum. Solteirona convicta, vive entre umas aulinhas de violão, e briga com suas irmãs, tem um amigo inseparável - o cigarro. Entre um trago e outro, percebe que está prestes a ter um ataque de nervos ao constatar que está ficando mesmo é para titia. Buscar um romance é saida mais rápida e definitiva. E quem é esse vizinho novo, descolado, músico. Quem é? Max, é separado e vive numa boa. Gosta de curtir a vida, sem se prender a nada, só tocando eu violão. Aliás, para Max, o violão é o cigarro de Baby. Juntar as trouxinhas será a obsessão de Baby, mas não deixará de ser interessante para os dois, cada um com suas manias e segredos.

O cigarro apenas significa a fuga. A obsessão por posse faz de Baby uma bomba relógio. Seja por conta de um sofá de sua tia que faleceu, pela aparência ou pelo ciumes que a Stellinha, ex de Max, está causando ela. Deixar de fumar, no meio desse bombardeio de ansiedade só a transformará numa potencial serial-killer. Baby é uma mulher de espécie comum - só sossega quando atinge o objetivo, independente de como chegou lá. Chegou. Marcou. Matou. Tudo o que ela queria ela conseguiu. Sofá, Max... agora só falta acabar com seu amigo, já que suas atitudes pra conquistá-lo não são mais segredo. Vamos acender um cigarro, saber da margarina, da Carolina, da gasolina. Max, você já sabe um pouco mais de mim, Baby.





Glória Pires e Paulo Miklos estão perfeitos quarentões e em sintonia fina nesse grande filme de Muylaert. Seja sobre cigarro, obsessão, mentiras e realidades, “É Proibido Fumar” nos leva a um mundo muito próximo do nosso, que poderiamos conviver com eles. Temos um senso de proximidade que causa relaxamento, como se víssemos a vida deles pela janela. Um filme terno apesar da temática. Anna é uma das diretoras mais competentes de nosso cinema. Com “Durval Discos” arrebentou e agora em seu segundo longa consegue um resultado mais maduro. “É Proibido Fumar” a coloca na lista das grandes diretoras do nosso cinema.

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 12 de julho de 2011

Distrito 9



Nome Original: District 9
Diretor: Neill Blomkamp
Ano: 2009
País: África do Sul, EUA, Nova Zelândia e Canadá
Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt.
Prêmios: Melhor Filme de Estréia (Neill Blomkamp) no Austin Film Critics Award, Chicago FCA Award no Boston SFC Award e Melhor Maquiagem na Escolha do Público pelo Broadcast Film Critics Association Awards.
Distrito 9 (2009) on IMDb


"Distrito 9" é de tirar o fôlego. Partindo de uma história de uma nave alienigena que por acidente permanece na terra por 20 anos, e acaba formando uma indesejável população alien no nosso mundo. Se já não bastasse a idéia ser inventiva, o filme é carregado de questões sociais que assolam o mundo moderno, como: super população aliada a pobreza e a tirania dos governantes, os aliens (chamados de camarões por causa da sua semelhança com o crustáceo) são estabelecidos numa grande favela em Johannesburgo mas por causa de interesses governamentais e por seu modo nada normal de viver serão obrigados a deixar suas casas. Assim como nas favelas cariocas, no "Distrito 9" existe além da extrema pobreza, o crime organizado que ao invés de traficarem drogas traficam comida de gato, tem também a prosituição e o comercio ilegal de armas. Agora porque eu estou falando tudo isso? Simples: é só pra se ter uma idéia da genialidade do roteiro, que aliado a uma produção caprichadissima fazem um baita filme de ficção, diga-se de passagem, algo raro no cinema atual.

Wikus Van De Merwe é o chefe do plano de desocupação e no dia da ação acaba se contaminando com um fluido que o faz aos poucos se tornar um "camarão". Isso seria péssimo para sua vida, mas algo maravilhoso para a industria bélica mundial pois somente os aliens tem o poder de manejar suas poderosas armas. E não ficam só nas explosões e efeitos especiais. A ficção torna-se humana a partir do momento que a vida - dos aliens ou dos humanos - torna-se descartável num mundo tão igual para os desiguais.


Quem for assistir ao filme se segurar na cadeira porque a fita vira uma viagem alucinante de pura adrenalina, explosões, tiros, conversas emocionantes e nenhuma solução facil para a história... talvez eu esteja exagerando pela emoção de ter acabado de ver o filme, mas aposto que Distrito 9 já nesceu classico/cult e, ao lado de "Lunar", serão lembrados daqui a 20 anos como "Blade Runner" e "Laranja Mecanica" são lembrados até hoje. Espero não estar exagerando... Mas isso aqui, é só para humanos.

Vitor Stefano
Sessões

domingo, 10 de julho de 2011

Taare Zameen Par- Every Child is Special. Cinema indiano?

Nome Original: Taare Zameen Par
Diretor: Aamir Khan
Ano: 2007
País: Índia
Elenco: Darsheel Safary, Aamir Khan, Tisca Chopra, Vipin Sharma, Sachet Engineer, Tanay Chheda, M.K. Raina.
Prêmios: Melhor Ator (Darsheel Safary), Roteiro, Diretor e Filme no Filmfare Awards, Melhor Artista Infantil (Darsheel Safary), Diálogo, Diretor, Letra de Música, Roteiro, Ator Coadjuvante e Diretor Promissor.
Taare Zameen Par (2007) on IMDb

O típico filme de Bollywood é, aos olhos do Ocidente, uma criatura exótica. (...) O enredo é quase sempre uma variação em torno de três personagens – um mocinho valente, um vilão de bigodes retorcidos e uma mocinha virginal (e virgem). A Índia que deu origem ao Kama Sutra definitivamente não é a mesma que abriga Bollywood: a moral sexual indiana é uma das mais inflexíveis do mundo. Casais não se beijam em público nem na tela. Quando a temperatura começa a esquentar entre o mocinho e a mocinha (e é praxe haver uma cena do "sári molhado", em que os dois se atiçam mutuamente sob as águas de uma cachoeira ou de uma fonte), dá-lhe dança. Segundo os especialistas, esse tipo de filme sempre terá lugar de honra na produção de Bollywood. Primeiro, porque ele é de grande apelo junto ao imenso contingente rural e tradicional do país. Depois, porque esse exotismo é indivisível de seu charme.
Para tudo! Aqui começa a discussão, aliás quero ver se os comentários dos leitores vão pontuar alguma coisa a respeito. O texto acima foi extraído da matéria de Isabela Boscov para a Edição 1949 da Revista Veja, disponível em http://veja.abril.com.br/290306/p_124.html.



Para tudo, por quê? Penso que tende-se a querer enquadrar as culturas em modelos pseudodidáticos, como se tudo coubesse num quadrado. Pois bem, soa absurdo pensar que a maior produção de cinema do mundo, o país que comporta um sexto da população do mundo, com tantas línguas oficiais, dialetos extraoficiais e milênios acumulados de transmissão cultural possa caber em um quadrado. Não precisa ser especialista em cultura indiana para saber que não. Podem existir informações verídicas e até boas intenções nestes esforços de síntese. Mas não se sabe até que ponto este reducionismo, mas desinforma que informa.

Por uma questão de condução, de educação e de ignorância mesmo é difícil os entitulados ocidentais, de tradição e orientação ocidental ter alguma compreensão sobre o que se passa além do lado de lá do também intitulado meridiano zero e daí a aceitação dos modelos. Mas em sendo alguém do lado de cá, como acessar referências desta cultura que fujam do estereótipo, do exótico ou do anormal?

Deve-se dar mérito a alguns que buscam isto, Irani Cippiciani no Núcleo Prema e o já entrevistado pelo Sessões Ibirá Machado. Claro que deve haver muitos outros no Brasil que fazem trabalhos dignos de alto valor e devem ser citados, aliás, comentários estão a serviço disto também.

Tudo isto para chegar ao exemplo de “Taare Zameen Par”. Um filme tocante, de linguagens e anseios universais que faz chorar aos mais atentos e alerta para algumas questões que a escola não consegue suplantar nem aqui nem na Índia. Surpreende por uma caprichada fotografia e por "capturar" o espectador na primeira cena. Muitos filmes indianos são longos. Taare... tem duas horas e meia, mas não tem dancinhas o tempo todo não e não cansa. Há musicais sim, mas estes são parte da transição e do enredo. Aliás músicas ora bonitinhas, ora tocantes, mas sem dúvida muito bem compostas e pontuais dentro da trama.



O já citado Ibirá Machado quer ver este filme nas telas do Brasil e para isto criou um abaixo-assinado com esta finalidade. Aliás, até hoje não há brasileiro que tenha visto e não gostado deste filme. É preciso dizer que os comentários também poderão identificar os insatisfeitos com a trajetória do menino Ishaan. São todos bem vindos!
O filme está na internet e hoje são encontradas cópias dubladas deste filme na Praça Benedito Calixto em São Paulo, manufaturadas pelo democrático mercado da cópia. É só passar lá no sábado.

Como a intenção não é fazer um post longo, os motivos para tentar ver este e outros filmes do cinema indiano foram parcialmente colocados. Pode ter ficado com cara de “sermão da montanha” ou “dizer o que penso desta vida, preciso demais desabafar....”, É o que tem para hoje. Boa semana!

Leandro Antonio
Sessões

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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Filmes de dar água na boca

Como 10 de julho é dia da Pizza, selecionei filmes que tem em seu centro das atenções delícias gastronômicas. Certamente após vê-los você devorará uma redonda - que já tem variações quadradas, mini e até frita. Aproveitem o mês com essas delícias de filmes.

Comer, Rezar e Amar

O Best-seller de auto ajuda virou filme. Elizabeth decide passar um ano longe de tudo que construiu após mais uma decepção amorosa. Viajar é a decisão para livrar seus fantasmas do passado. Em três lugares totalmente distintos retoma seu amor por si própria. Na Índia, rezou. Em Bali, amou. E na Itália, comeu. Com imagens maravilhosas e pratos de fazer babar, “Comer Rezar e Amar” tem justamente na Itália os maiores momentos no filme. Julia Roberts está bem no papel de Elizabeth num filme de altos e baixos, mas que nos abre apetite de fazer devorar uma pizza inteira. São os prazeres da vida. Veja e o trailer e comece a babar com as lindas imagens.



Sideways - Entre umas e Outras



Vinho e pizza é uma combinação ótima. Sideways é uma deliciosa (e embriagante) comédia dramática onde Miles dá de presente de despedida de solteiro a Jack uma viagem aos vinhedos da Califórnia. Nessa louca despedida, conhecem duas mulheres com gostos muito próximos aos deles. A tentação através do vinho torna-se um fantasma e desistir do casamento é uma possibilidade. Destaque para o roteiro e para o sempre ótimo Paul Giamatti como Miles, o enólogo depressivo desse maravilhoso filme. Peça sua pizza e abra um bom vinho para rir e chorar com Sideways.

Ratatouille


Remy ama cozinha e inventar novas receitas. Seu sonho é virar um grande chef. Mas, infelizmente, sua família o recrimina por isso. Até aí, tudo bem, não fosse o fato de Remy ser um rato. Essa maravilhosa animação mostra a cozinha por um ângulo não muito comum, mas de forma muito lírica e envolvente. As aventuras do ratinho se tornam ainda mais gostosas quando o vemos cozinhar, inclusive o prato francês que dá nome ao filme. Apesar de tudo ser animado, a fome baterá ao ver o lindo ratinho cozinhar com tanta expertise. Uma delícia de filme que agradará a todos. Uma das Melhores Animações de todos os tempos.

Um Bom Ano

Quando Max, um empresário bem sucedido nos EUA, recebe a notícia que seu tio Henry morreu suas memórias, esquecidas pela vida agitada que leva, retornam à infância passada na França com seu ente querido. A maior memória: degustação de vinhos feitos por Henry. Sua ida à propriedade para vender o imóvel faz com que sua vida de homem de negócios seja deixada de lado por um tempo para retomar os prazeres da vida. Vender suas memórias não será nada fácil. Ainda mais quando se apaixona. Mais um filme com vinhos e que embalará os apaixonados com ótimas atuações de Russel Crowe e da bela Marion Cotillard. E a frase dita no vídeo abaixo é uma das mais marcantes do cinema atual: "Pardonne mes lèvres. Elles trouvent la joie dans les endroits les plus inhabituels" (Perdoe meus lábios. Eles acham prazer nos lugares mais incomuns).



Parte dessa matéria foi veiculada na Revista City Penha - nº 50, edição de julho de 2011 para comemorar no frio e o dia da pizza.

Quais outras dicas de filmes com delícias para aquecer o frio?

Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Meia Noite em Paris

Nome Original: Midnight in Paris
Diretor: Woody Allen
Ano: 2011
País: EUA, Espanha
Elenco: Owen Wilson, Rachel McAdams, Kurt Fuller, Mimi Kennedy, Marion Cotillard e participações deliciosas.
Prêmios: Oscar de Melhor Roteiro Original e Globo de Ouro de Melhor Roteiro
Meia-Noite em Paris (2011) on IMDb



Tempo: Presente, passado e futuro. Em qual tempo se vive mais? Em um passado que nunca foi seu, mas com o qual você se identifica, estuda, pesquisa, imita? Ou um futuro, um casamento, uma casa em Malibu, alguns móveis de curvas europeias. Quem é que vive no presente? Em que tempos se vive?

Cortando um pouco este papo de tempo e babando um pouco o ovo do Woody Allen - desculpem pelos exageros – já vi muitos filmes que defendem a cultura francesa desenfreadamente, mas esta homenagem ainda faltava. Vou me esforçar para neste curto post não entregar nada versus nada do filme, pois quero muito que quem agora lê tenha as mesmas surpresas e os mesmos encontros que eu tive durante a sessão de Meia Noite em Paris há uns dois ou três dias no ano de 2011. O que vou deixar com certeza é um bando de perguntas que também não serão respondidas com o filme, mas ilustradas com o tempero engraçado, leve e intelectualizado do Woddy-Incansável-Allen.

O que as viagens estão revelando para Woody Allen. "Meia Noite em Paris" é uma viagem para muito longe de Nova Yorque – uma relação espaço-tempo considerável. Woody Allen no cenário europeu que mais motiva e inspira no mundo segundo estatísticas dos Conventions Visitors Bureau mundo afora é para imaginar um monte de coisas, mas mesmo quem conhece os melhores trabalhos do cineasta fica gratamente surpreso.
E o que buscam as pessoas com as viagens? Um lugar que não existe. A paisagem revela a identidade. Vejo o que meus olhos querem ver. Uma terra que não existe mais, mas que eu fui buscar. Um tempo. Uma Era de Ouro.



Quantos vêm ao Rio de Janeiro buscando uma bossa que existiu nos anos 60? Ou vão a Sierra Maestra querendo os vestígios e heróis? Ou vão a Londres para ver os Beatles, o movimento Punk, a corte da Rainha Vitoria? Quantos vão e vêm com o desejo de viajar não só no espaço, mas também no tempo? E quais os poucos que conseguem?
Tanta pergunta e tanto delírio. Laissez faire, laissez paisser, just regarder le film.

Leandro Antonio
Sessões

P.S.: Confesso que depois de Meia Noite em Paris, imagino o dia em que Allen filmará no Rio de Janeiro.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Qualquer Gato Vira-Lata

Nome Original: Qualquer Gato Vira-Lata
Diretor: Tomás Portella
Ano: 2011
País: Brasil
Elenco: Cleo Pires, Dudu Azevedo, Malvino Salvador, Gregório Duvivier e Álamo Facó
Sem Prêmios
Qualquer Gato Vira-Lata (2011) on IMDb


A comédia romântica passa por uma crise existencial. Maior do que as crises sempre apresentadas na tela. E “Qualquer Gato Vira-Lata” é um retrato claro dessa fase difícil. Além do mais, segue uma tendência nacional de ser incapaz de fazer uma boa adaptação de peça teatral para a tela grande. Baseada na consagrada peça de Juca de Oliveira, “Qualquer Gato Vira-lata tem uma Vida Sexual Mais Saudável que a Nossa”, o filme tem momentos engraçados com falhas de ritmo, atores em péssima jornada e humor sem sal, hum habitue no gênero. A típica comédia de teatro com inspiração no humor de televisão que tentam exaustivamente transpor para o cinema, aqui, mais uma vez, sem sucesso.

Tati, à primeira vista, é a menininha perfeita. Isso dura até o pé na bunda que o Marcelo dá nela. A partir daí o filme poderia chamar: “Tati à beira de um ataque de nervos”. Ou melhor, “Marcelo à beira de um ataque de loucura por conta da Tati à beira de um ataque de nervos”. Seria, provavelmente, o maior título de um filme na história, um título merecido para um filme sem merecimento de prêmios. Como disse, o pé na bunda muda tudo na vida dos personagens. Tati busca reconquistar Marcelo e ele só quer curtir com a mulherada e os amigos, em especial com o hilário Magrão, Álamo Facó - o único que se salva quando o assunto é atuação. Ele aparece na tela e o riso é certo. Um humor discutível, porém perto do mar de péssimas interpretações, dignas de deixar Steven Seagal se sentindo Sean Penn, Facó é quem tenta (e por vezes, consegue) salvar o filme. Veja suas pérolas nesse mar de lama.



Como é uma comédia romântica, a mudança acontece que no auge da tristeza Tati cai numa aula de biologia dentro de um shopping e vê o Professor Conrado dando uma aula de Biologia atestando sobre a harmonia entre as conquistas amorosas dos humanos e as atitudes dos animais. Calma. Eu sei. É difícil mesmo. Nada é crível, natural ou simplesmente atrativo. Conrado, se nem Freud conseguiu decifrar as mulheres quem é você para tentar? Mas seguindo... Nessa aula só a participação de Gregório Duvivier como o aluno non-sense é que pode parecer que estamos num filme que vai até o fim. Aliás, é uma característica do filme: começo desastroso e aos poucos melhora, ou nossa percepção acostuma-se com o absurdo e encaramos de forma melhor a idéia e narrativa. Então entre encontros e desencontros, a tese vira real e Tati a cobaia. Como é óbvio, Conrado e Tati ficarão juntos ao final. Não é spoiler, é uma comédia-romântica, o que vocês esperavam? Que o professor virasse travesti e a mocinha ficasse sozinha, depressiva e morresse de overdose? É a obviedade em tela.



Personagens surgidos sem explicações, histéricos e uma história óbvia fazem de “Qualquer Gato Vira-lata” um filme condenado ao esquecimento eterno e relembrado apenas como uma opção para a sessão da tarde. Malvino Salvador deixa o lado galã da novela das 7 de lado e vive um professor cheio de absurdos exageros, uma espécie de caricatura do estereótipo. Dudu Azevedo é o bombado-asno Marcelo. Cléo Pires surge bonita (não tanto quanto já foi), atuando apenas para o gasto. No frigir dos ovos, “Qualquer Gato Vira-Lata” é uma história conhecida que já foi melhor contada várias vezes. Quem gosta de rir sempre da mesma história, gostará do filme.

Vitor Stefano
Sessões
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