segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Apenas o Fim

Nome Original: Apenas o Fim
Diretor: Matheus Souza
Ano: 2008
País: Brasil
Elenco: Gregório Duviver e Érika Mader.
Prêmios: Melhor Filme e Menção Honrosa no Festival do Rio e Melhor Roteiro no Prêmio Contigo! de Cinema.
Apenas o Fim (2008) on IMDb


A cada frase o fim se aproxima. A vida é uma eterna busca pelo fim. Das mais doloridas até as que nem percebemos. O fim está chegando, mas até lá, vamos aproveitar do melhor modo. Nos relacionamento não é diferente. Há algo melhor do que DR? Nunca haverá. Seja por motivo óbvios, inexistentes ou absurdos, para quem não a vive, pode ser divertido e surreal..

O diretor, Matheus Souza, concluiu “Apenas o Fim” com apenas 20 anos.  Um projeto de cinema universitário, feito com ajuda de amigos, colegas de sala e da faculdade, onde se passa toda a trama. Aliás esse é um filme incomum. Apenas 2 personagens em idas e vindas sobre o fim. Apenas sobre o fim, que pode tomar formas diferentes dependendo do conteúdo, do momento, da visão ou da perspectiva.

Matheus Souza
Adriana e Antônio freqüentam a mesma faculdade e namoram. Quando, a quanto tempo e como o fazem não sabemos e nem nos importa. Sabemos apenas que estamos diante dos últimos momentos dos dois juntos como namorados. Ela rumará numa viagem para algum lugar e decide terminar tudo, mas essas últimas horas podem ser ocupadas com duas opções: transando ou discutindo a relação. Antônio, de aparência totalmente nerd, prefere a segunda e apesar da beleza de Adriana, a escolha é totalmente acertada.

Durante a caminhada nos corredores da PUC-RJ, entrecortada com flashbacks do casal, quase sempre na cama - não espere cenas de sexo - relembram os momentos em que estiveram juntos, perguntas, respostas ou desabafos fazem parte de um diálogo completamente embasado na influencia pop que os jovens de 20 e poucos anos viveram nos anos 2000. Com citações que vão de Vovó Mafalda, passando por Star Wars, Godard, O Senhor dos Anéis, Woody Allen e Britney Spears, “Apenas o Fim” é mais do que uma viagem ao namoro dos personagens, mas sim um retrospecto do que foi ser jovem no começo desse século.



“Apenas o Fim” é um sopro de vida no cinema nacional. Juventude na tela e por trás dela mostra que jovens aparentemente comuns podem fazer dessa arte uma ferramenta importante para falar com quem quiser ouvir.  Gregório Duviver e Érika Mader estão ótimos como jovens normais e à beira de um precipício do fim do começo de suas vidas.

Vitor Stefano
Sessões

domingo, 18 de setembro de 2011

A Corrente do Bem

Nome Original: Pay it Forward
Diretor: Mimi Leder
Ano: 2000
País: Estados Unidos.
Elenco: Kevin Spacey, Haley Joel Osment e Helen Hunt
Prêmio: Melhor Ator Coadjuvante no Blockbuster Entertainment Award.
A Corrente do Bem (2000) on IMDb



Um grande professor é aquele que é inesquecível, que nos remete a memórias boas, à boas lições. Não há um pingo de lembrança de docentes que deixam sair mais cedo, que não ligam pra bagunça, que não estão nem aí para os alunos e os deixam fazer o que quiser. Lembramos dos que realmente entenderam o que é ensinar e o fazem com respeito e compreensão. Vivemos uma crise educacional sem fim, mas há esperança nos que ainda persistem com braveza e coragem. Uma escola aparentemente barra pesada, numa Las Vegas suja e ofuscada pelos neons, 7º ano, bagunça na sala, facas entrando em meio à detectores de metais, crianças aparentemente desprovidas de princípios. Tudo isso já nos é apresentado logo de cara. Ai já teremos todo o desfecho e compreensão do filme. Mas Eugene, um professor de Estudos Sociais chega impondo limites, regras e já de cara propõe um desafio, um trabalho: “Como mudar o mundo?”. Um menininho bem bonitinho, Trevor, ousa a perguntar de volta: “ E o senho, o que faz para salvar o mundo”? . Que atrevimento à um docente, ainda mais à Eugene. Mas Trevor tem seus motivos para ser revoltado. Sua mãe vive de seu trabalho em boates noturnas, seu pai surge de vez em quando, sempre embriagado e batendo em Arlene.

Apesar da revolta, Trevor é um menino meigo e doce. Cuida da casa como dono, responsável ao extremo e zelo ao cubo com sua mãe, uma alcoolatra. Juntar professor e mãe seria sua maior felicidade. E para salvar o mundo? Trevor apresenta à sala a corrente do bem. Mas o que seria isso?


Sim, ajudar três pessoas e essas três ajudarem mais três, e assim por diante. Essa idéia é nova? Não. Essa idéia é revolucionária? Não. Mas e colocar essa idéia em prática é fácil? Não. Mas Trevor começa, tenta, faz. Ao seu redor só se vê negatividades, como ver o futuro melhor. como o mundo poderia melhorar? Só vendo sua mãe feliz, ai sim, seu mundo estaria completo. Mas uma corrente só é uma corrente se não tiver quebras. Uma vida só é completa quando sua missão está cumprida. Uma dor imensuravel nos abaterá.

Um filme dolorido e que, apesar de sua força melodramática (por horas até forçado demais), nos faz pensar não apenas nas atitudes para melhorar o mundo, mas sim a importância de um bom docente em nossas vidas. Somos um catalizador de informações, obrigações, intenções e querências, mas só filtramos o que entendemos que é bom para si. Um bom orientador, uma boa estrutura familiar, um ótimo professor fazem toda a diferença quando o assunto é caráter. Pensemos sim no próximo, mas pensar sempre em melhorar é o melhor para todos. “A Corrente do Bem” emociona e é feito para isso, inclusive usado aos montes como motivacional. H.J. Osment fez de sua infância uma arte. Spacey tem uma ótima atuação, com poucos excessos, ao contrário de H. Hunt está cheio deles num papel pouco convincente para a atriz, onde nem seu biotipo a ajuda muito. Não podemos deixar de citar a canastrice em forma de "ator" Jon Bon Jovi. Porém, refletir é preciso. Viver é preciso. Aprender é preciso. Só com um grande guia - seja ele quem for. Mas o que mais importa é que essa corrente chegue e fique para que as gerações futuras consigam ter educação de qualidade, civilidade e um futuro.



Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Filmes sobre Religiosidade

Buscar a religiosidade é uma busca individual. Seja pelas religiões, crenças, certezas ou incertezas, cada ser é capaz de indentificar-se com algo que vai além do plano terrestre. Há os que não encontram e os que não querem buscar. Mas há uma filmografia longa e complexa sobre o tema, porém fugirei de filmes bíblicos. Então vamos à algumas dicas de filmes sobre religiosidade.

Luz Silenciosa


Estamos no norte do México diante de uma comunidade isolada e única. Os menonitas tem com habitos únicos, falam um dialeto próprio e são muito fechados. A família de Johan e Ester mais seus 6 filhos está em crise. Ele se apaixonou por uma outra mulher, ferindo sua fé e fidelidade, criando uma crise existencialista. A expressão sisuda e rígida dos personagens faz parecer impossível compreender seus sentimentos. O diretor Carlos Reygardas fez um filme lento e único. A beleza expressa nas imagens faz parecer um quadro em movimento. É um filme difícil, mas nos faz pensar nas diversas formas de representação da fé.

Dúvida 



Como o próprio nome diz, este é um filme sobre dúvida. A fé é capaz de causá-la por conta de sua misticidade, crença no invisível e certeza de algo intocável. Em meio à crise que a Igreja Católica vive, vemos a tradicional escola St. Nicholas onde a conservadora Irmã Aloysius Beauvier, busca frear o fervor das mudanças que o Padre Flynn está incorporando à instituição, seja nas missas ou na sala de aula. Esse embate diz muito sobre as dúvidas céticas causadas pela fé (ou por sua falta). Temas como preconceito, pedofilia e livre-arbítrio permeiam esse filme potente e que nos faz pensar na força que a crença faz por nós. Imperdível e com grandes atuações de todo elenco, em especial de Meryl Streep e Phillip Seymour Hoffman.

Chico Xavier - O Filme


A história do maior médium espírita do Brasil se tranformou em um dos maiores sucesso de bilheteria dos últimos tempos do cinema nacional. A história de vida de Chico Xavier é recheada de delicadeza, simplicidade e sabedoria e sua transposição ao cinema foi feita de forma categórica. Atuações precisas de um elenco ótimo, além de uma direção certeira, fazem do filme uma lição de vida, de espiritualidade e mostra ao público em geral uma visão ampla do que é o espiritismo sem ser pregador. Um filme para todas as crenças, credos e nacionalidades. Uma lição de vida, além da vida.

O Espelho 



O soviético Andrej Tarkovski fez um filme muito complexo e de uma sensibilidade incrível. Há momentos sublimes com a trilha sonora perfeita, para unir histórias fora de ordem e com nuances de sonhos cheios de mensagens. Olhares perdidos num lindo campo mostram a força da natureza, que tem papel decisivo em nossas vidas. O ser humano só existe pois temos essa conexão com os elementos do mundo que existe ao nosso redor. E que haja fé para sobrevivermos eternamente. 'O Espelho' é obra necessária para tentar entender a profundidade da existência e o sentido de raizes que criamos com o nosso passado que não nos deixam alçar vôo. Apenas tentar

Esse tema já foi abordado por uma infinidade de filmes. Relembre esses, outros e comente.

Parte desta matéria foi veiculada na Revista City Penha, edição 52, de setembro de 2011


Equipe Sessões

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual

Nome Original: Medianeras
Diretor: Gustavo Taretto
Ano: 2011
País: Argentina, Espanha e Alemanha.
Elenco: Pilar López de Ayala, Javier Drolas, Inés Efron e Rafael Ferro
Prêmios: Melhor Filme Estrangeiro, Prêmio do Juri Popular e Melhor Diretor no Festival de Gramado.
Medianeras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual (2011) on IMDb

Já que o amor simplesmente acontece. Mais conveniente é comentar o que sustenta as medianeras.



Arquitetura. Como a interpretamos para quem ela é feita e quais são os seus processos. Consciente ou inconscientemente criamos relações com este amontoado de instalações que vice-versa nos cerca, que nos protege, que nos oprime, que nos cabe, que nos comporta, que nos reflete, que nos espacializa e especializa, que nos adapta.

Qual é o recheio deste amontoado de tijolos empilhados, piche, fiação, madeiras e concreto armado? O recheio que está dentro e fora de tudo isso é a vida humana. A vida humana que está acontecendo até no segundo em que o clique da máquina registra o cartão postal. A vida humana que está acontecendo e é fortemente sentida pelos melancólicos. A vida humana que está acontecendo e é imitada pela arte. A vida humana que aconteceu há dezessete segundos e está acontecendo agora e que acontecerá daqui a dezessete segundos.

- Quem está nesta foto? Você?
- Não.
- Então quem é?
- É o Obelisco.
- Ah! É verdade. Só achei parecido.

O acontecimento vida humana inventou-se de viver neste troço chamado cidade. Cidade que se infutura e permanece no passado dentro do mesmo quadro. Que se enfeita e se enfeia dentro do mesmo quadro. Postada, comentada e fria. A matéria morta que parece imitar o ser humano. Parece que nos imita simplesmente porque nos reflete. Uma fotografia de todos em volta de mesa de aniversário de oito anos não armazena o que são aquelas almas, ou o que se passava por elas naquele instante do flash, como os postais não revelam o que de fato é uma cidade. É como se a cidade também conseguisse fingir um sorriso amarelo. Xis. Facebook.


Como a cidade pulsa. E embora muitas vezes nem se queira dar por isso, os outros seres que habitam dentro dela pulsam, riem, sentem e sofrem como eu.

Imaginamos e não imaginamos, construímos e somos construídos. “Tá vendo aquele edifício, moço, ajudei a levantar...”


Leandro Antonio
Sessões

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Filmefobia

Nome Original: Filmefobia
Diretor: Kiko Goifman
Ano: 2008
País: Brasil
Elenco: Jean-Claude Bernardet.
Prêmios: Candango de Melhor Filme, Montagem, Direção de Arte e Ator (Jean-Claude) no Festival de Brasília e Melhor Primeiro Trabalho (para cineastas em sua estréia na direção) para Kiko Goifman.
FilmeFobia (2008) on IMDb


Fobia: s.f. Medo obsedante, angustiante, que certas doenças provocam em circunstâncias determinadas. Esta palavra entra como composto nos nomes de diversas espécies de medos doentios: agorafobia, medo mórbido do vazio e do espaço; claustrofobia, medo de ficar encerrado; ereutofobia, medo de enrubescer; acrofobia, medo das alturas, entre outros.

Um sufixo pode dar sentido à diversas palavras com diversos significados. Conhecê-lo em seu auge, sob medo, por insanidade, aceitando ser visto por quem quiser no momento em que desejar é um exercício de tortura. A premissa do filme-documentário “Filmefobia” é interessantissima. Vamos discutir sobre os medos das pessoas fazendo-as enfrentá-las. Medos de anão, ratos, pombos, sangue ou palhaços, não importa, eles estarão frente a frente. Sem um profissional gabaritado sobre o assunto acompanhando, o amadorismo das discussões da equipe de produção é de causar fobia. O medo que vemos estampado na tela pode ser uma mero jogo de cena, um jogo de cartas marcadas, ou, como Jean Claude procura, única imagem verdadeira é a de um fóbico diante de sua fobia. Sua fobia é estar enclausurado em sua mente genial em um corpo que rui.

Quem não conhece Jean-Claude Bernardet não sabe o que é cinema nacional. O nosso maior estudioso está à frente das câmeras, como personagem instigador das fobias, como por trás delas, procurando, vendo e filmando os ataques das sensações mais imprevisíveis dos fóbicos que toparam estar à mercê da produção de um filme. Jean é um teórico por obséquio, e quando se vê diante de sua realidade, idoso, dificuldade de andar, de enxergar, aidético, gay assumido com uma filha e um gênio do nosso cinema que gosta de ver algo diferente nas telas grandes vai à luta e busca com seu pupilo Kiko Goifman um choque, um experimentalismo. Aparecer, buscar explicações, experimentar ou apenas egocentrizar sua própria imagem podem ser motivos para aceitarem ser confrontados com seu pior medo. A produção quer apenas filmar e colocar as imagens mais assustadoras na tela. Vemos o desenrolar do filme, nas filmagens, nos bastidores ou simplesmente no dia a dia do personagem central.



Em uma espécie de Jogos Mortais nacional onde Jean-Clo é o boneco assassino, em busca de imagens verdadeiras e que marquem sua memória fotográfica comprometida pelo câncer ocular. O sangue que corre em suas veias com o vírus HIV é imaculado, mas o dos outros escorrendo em suas mãos é a liberdade. Ver a fobia dos outros estampada nos rostos, com explosões de extases, repulsa ao extremo e atuações dignas de premiação, demonstram o quanto esse filme não tem roteiro, como ele não tem rumo, como ele é apenas de e para Jean Claude Berdardet. Não importa se é documental ou ficcional, pois quando a fobia dos outros passou a ser seu relento, perdeu o sentido e a sua produção ficou comprometida. Mas está comprometida pelos fóbicos, pela direção ou como meio de intrigar o público que o vê?

A experimentação, as traquitanas gigantes, o sadismo das imagens, a análise do “sentir medo” do outro, as conversas dos rumos da produção, a vista do back-stage nos faz pensar que “Filmefobia” é um filme caseiro com ares de arte com resultado de mentes insanas em busca de mudanças de concepções físicas sobre um assunto que não conhecem. “Filmefobia” é o acaso das artes experimentais em forma de sangue, horror e uma boa dose de atuação, tudo com o manto de Jean-Claude Bernardet, o que credencia Kiko Goifman a voar vôos solos e altos, mas sem a muleta de seu tutor. Só espero não ficar com fobia de filmes a partir de agora. Para evidenciar o show de horrores, veja algumas das cenas do filme:


Fobia de Anão

Fobia de Pêlos e Cabelos

Fobia de Lesma

Fobia de Ralo

Fobia de Palhaço

Fobia de Morte (e Flores)

Fobia de Penetração

Fobia de Ratos

Para explorar mais quem é Jean-Claude Bernardet, leia a sensacional matéria "Autoficções de um pessoa laboratório" na edição 60 da Revista piauí.E na edição 61 o excelente crítico Eduardo Escorel faz uma confissão e crítica da reportagem da edição anterior. Quando for liberada para acesso ao site, linkarei aqui.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Sétimo Selo

Nome Original: Det sjunde inseglet
Ano: 1957
Direção: Ingmar Bergman
País: Suécia Elenco: Max von Sydow, Bengt Ekerot, Nils Poppe, Bibi Andersson e Gunnar Björnstrand.
Prêmios: Prêmio Especial do Juri no Festival de Cannes, Melhor Filme do Ano e Melhor Diretor Estrangeiro no Festival de San Jordi e Silver Ribbon de Melhor Diretor de Filme Estrangeiro do Sindicato de Críticos Italianos.
O Sétimo Selo (1957) on IMDb


"Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo houve um silêncio no céu por cerca de meia hora. Eu vi sete anjos diante de Deus e a eles foram dadas sete trombetas." (Apocalipse, 8:1-2)

Olhando para o céu vemos uma ave solitária deslizando sob as nebulosas. Seria um chamado divino ou um mal presságio. Idade Média, sistema feudal em decadência e com a poderosa trinômio mortífero no auge guerra, peste e fome, só poderia levar o cavaleiro Antonius a pensar no obvio. A Morte lhe ronda e sabe que dificilmente conseguirá vencê-la, mas a convence de que é necessária mais uma chance - uma partida de xadrez. Continuar vivendo com a proximidade da indesejada das gentes, é algo improvável: quer mesmo é descobrir sua o porque, como e o que estamos fazendo por aqui. As questões filosóficas e religiosas são o foco de sua busca enquanto o fantasma não o vence. O Juizo Final se aproxima.


Olhando para a parede vemos Jesus Cristo na cruz, com olhar sofrido e morto por e para todos nós. Nossa salvação estava em sua vida. E Antonius quer apenas um sinal explicando o como porque do fim. As pessoas morrendo, a peste aproximando, a guerra matando. Em seus momentos mais solitários é que vemos a salvação, um encontro. Mas as duvidas começam a provocá-lo e se vê tapeado pela Morte novamente. A Morte seria um recado celestial? Naquele momento só se pode pensar que é a ausência do divino. A vida do cavaleiro ainda seguiria com os seus companheiros.

Olhando para frente vê-se uma trupe de teatro ambulante, divertindo o público, tirando um pouco do pesar que pressiona os ombros dos moradores dessa Europa devastada pela Guerra dos 100 anos e da Peste Negra. Rir, cantar e sonhar fazem parte da vida lúdica e ideal. Viver de arte signfica morrer de fome, mas a felicidade compensa tudo. Como num segundo ato da peça, entrando num climax impensado, vemos um cortejo, um ritual. Pessoas se chicoteando, imagens sendo carregadas, cruzes rastejadas, leprosos, amputados, anões, idosos, crianças, todos em um rito na crença da salvação e numa punição pelos pecados cometidos. Uma imagem forte, que choca de ateus e cristãos. A peregrinação passa mas seu impacto fica. O silêncio arrebata. A religião é um alento ou uma castração?


Olhando para o morro vemos a Morte acompanhada. Sua vinda foi certeira, mas piedosa. Seja ela Deus, Diabo, anjos ou demônios, ela é a única certeza. Antonius foi arrebatado sem respostas concretas mas conseguiu vencer sua companheira mortuária, enganando-a - mesmo que temporariamente - deixando que os artistas do teatro fugissem num caminho livre, limpo e iluminado. Sua perguntas pela religiosidade e pelo existencialismo ainda são uma incognita, mas a sua certeza é que, cedo ou tarde, a morte tirará todos para dançar.

Olhando para dentro só vemos a esperança. Olhando para fora, só vemos a penitência.


Morte jogando Xadrez de Albertus Pictor (1440-1507) - Diocese de Estocolmo
 Olhando para o filme nos vemos embasbacados com uma obra de arte bizantina. Uma sublime demonstração da beleza unida à temática dificil, num resultado inesquecível, muito falado e pouco conhecido. Locações lindas, um branco e preto hipnotizante, atuações fortes, maquiagem impressionante - se bem que falar de aspectos técnicos sobre filmes de Ingmar Bergman é chover no molhado. A mensagem e o impacto conseguido pelos silêncios constrangedores entrecortados com músicas fortes e densas são de causar paralisia. Assim como Antonius, não temos respostas concretas, mas fazer pensar é a característica desse gênio chamado Ingmar Bergman. “O Sétimo Selo” faz o restante do cinema parecer estar diante do Juizo Final, pois Bergman achou o Paraíso.

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Melancolia

Nome Original: Melancholia
Ano: 2011
Direção: Lars Von Trier
País: Dinamarca, Suécia, França e Alemanha
Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, Alexander Skarsgård e John Hurt.
Prêmios: Melhor Atriz em Cannes para Kirsten Dunst.
Melancolia (2011) on IMDb

Os rituais. O protocolo. O esperado. As convenções. A normalidade. As doenças que o mundo cria na mente humana. O fim do mundo. A beleza da dor.

Os primeiros minutos de Melancolia são de uma plástica que faria Monet molhar a coluna. Um prólogo banhado em ópera, imagens em slowmotion e referências a grandes obras de arte. Tudo meticulosamente dirigido e editado, fazendo com que o expectador tenha a certeza de que um filme graúdo o espera. Aliás, os cartazes e fotos promocionais do filme são todos extraídos destas cenas iniciais. Ali referências claras à Kubrick em seu irrepreensível “2001 - Uma Odisseia no Espaço”. Aliás, música clássica e dança de corpos celestes é algo que se bem copiado não denota insuficiência de criatividade.



E de fato, um grandioso trabalho que proporcionou um resultado que faltam as palavras para descrever, mas acho que a expressão comum no nordeste “não vale o que o gato enterra” nunca soou tão ajustada. Meu Deus! Que filme ruim! Lars Von Trier conseguiu chegar ao filme mais estético, cabeça e enfadonho que me lembro de ter visto na vida.

E não vá dizer que não tenho sensibilidade ou know-how para avaliar. Não me gabando de nada e com testemunhas de peso, posso dizer que tenho um pouquinho da verve sim. Entendi tudinho e vi claras referências a filósofos contemporâneos que o povo sai falando por aí, geralmente sem muito conhecimento de causa. Isso, isso – eu estou falando de Niestzche e Schopenhauer.

Mal estar da civilização, a fragilidade do ser humano, rituais antropológicos estão ilustrados ali de uma maneira pessimista mostrando que a busca da felicidade é a invenção mais tonta dos últimos séculos. Tá, mas as metáforas são mal empregadas, as conclusões das cenas são um tanto óbvias, depois do prólogo nada é surpreendente em momento algum.

No entanto, dar crédito a quem merece há de ser feito. Kirsten Dunst venceu em Cannes como melhor atriz e de fato, vi ali um esforço atlante dos atores em tirar algum caldo de toda aquela pataquada e Dunst ou qualquer outro ali não conseguiu maquiar o equívoco que foi este filme na carreira brilhante de Trier, porém houve tentativas. Afinal, a cara deles estava para bater também.

Importante registrar que ao sair do cinema eu ouvi uma conversa saída de um grupinho de três jovens e entre os comentários deu para escutar um: “Que ótimo filme, adoro as coisas deste cara!” Será que eles estão tão sugestionados quanto a protagonista do filme e serão os melancólico-depressivos de amanhã a espera do fim do mundo?

Já dizia Noel Rosa: “Onde está a honestidade?”

Leandro Antonio
Sessões
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