sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Trapaça





Nome Original: American Hustler
Ano: 2013.
Diretor: David O. Russell
País: EUA.
Elenco: Christian Bale, Bradley Cooper, Amy Adams, Jennifer Lawrence e Jeremy Renner.
Prêmios: Globo de Ouro de Melhor Comédia/Musical, Melhor Atriz (Amy) e Melhor Atriz Coadjuvante (Jennifer), Bafta de Melhor Roteiro Original, Atriz Coadjuvante e Maquiagem/Cabelo, Screen Actors de Melhor Performance de Elenco.
Trapaça (2013) on IMDb
 

Fui trapaceado. Eu já imaginava que seria isso, mas tentei e dei uma chance. Viver e deixar ser nos deixa alerta contra possíveis erros que acontecem à nossa volta. Estamos preparados para que o tombo seja menor. Estamos cientes do que pode acontecer. Trapaças são sempre traiçoeiras, mas quando sabemos com quem estamos lidando, já sabemos do risco. David O. Russel , seu idiota, eu não cai na sua “Trapaça”. Aliás, você nunca me enganou, ou melhor, nunca me encantou. Não sei porque você é tão renomado e laureado. Seus filmes se sustentam sempre na seleção de elenco . “O Vencedor” poderia chamar “Christiam Bale (mais uma vez) no limite”. “OLado Bom da Vida” pode ser “O Lado bom do filme é a J.Law.” e “Três Reis” poderia ser renomeado para “Três atores bons pra caramba”. David, parabéns por ainda ser tão renomado. Você certamente tem costas quentes ou anda fazendo muitas trapaças por aí.

Falar mal é muito legal e fácil, mas vamos contar um pouco de “Trapaça”. Irving Rosenfeld é um malandro que trabalha em diversas áreas com dinheiro que brota de suas liberalidades de serviços. Acompanhado por Sydney Prosser, sua amante e comparsa, eles passam a negócios de rendimento fácil. O FBI os descobre e são forçados a colaborar com uma investigação do mundo da máfia, numa operação liderada por Richie DiMaso a fim de diminuir a pena deles. A partir daí idas e vindas de investigações, armadilhas, envolvimento com políticos, tornam a ação perigosa e complexa. Quando o Prefeito Carmine Polito é envolvido. Muita coisa muda. E quando a esposa de Irving, Rosalyn aparece, o jogo muda de cenário. Tudo muda. Como era esperado.

A premissa é muito boa e atual, mesmo aqui no Brasil seria interessante ver retratado uma operação de Polícia para flagar más condutas de congressistas. Mas a forma que é montada tornou-se uma história confusa, complexa, por vezes sem conexão e sem emoção. Até pelo nome do filme já imaginávamos que tudo poderia mudar. Os anos 70 estão lindamente representados, no que há de melhor no filme. Apesar do elenco estrelar, quem realmente brilha é Jeremy Renner, que apareceu para nós em “Guerra ao Terror” e prova ser um ótimo ator. Amy Adams também tem bons momentos, mas realmente chama a atenção pelo sexy appeal dos decotes que usa. Todos os outros estão insossos (como o filme), overacting, deixando tudo muito cansativo. Muito se falou que é uma homenagem a Martin Scorsese. Coitado do Martin que fez o melhor filme do ano até o momento – “O Lobo de Wall Street”. “Trapaça” é o pior filme do Oscar e conseguiu ser o pior do diretor queridinho da Academia.

Vitor Stefano
Sessões

12 Anos de Escravidão




Nome Original: 12 Years a Slave.
Ano: 2013.
Diretor: Steve McQueen.
País: EUA e Reino Unido.
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Quvenzhané Wallis, Lupita Nyong’o, Paul Giamatti, Paul Dano, Michael Fassbender e Brad Pitt.
Prêmios: Oscar, Globo de Ouro, Bafta e AFI Awards de Melhor Filme e Melhor Ator Principal (Ejiofor), Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante (Lupita) e de Melhor Roteiro Adaptado.

12 Anos de Escravidão (2013) on IMDb
 

Quem viu “Hunger” ficou chocado. Quem viu “Shame” ficou impactado. Quem viu “12 Anos de Escravidão” está anestesiado.  McQueen conseguiu mais uma vez. Com outro formato, com outra abordagem, com outra estética, mas se fez ouvir novamente. Filmes de escravidão e da causa negra existem aos montes, mas quase sempre estereotipados, visão parcial ou mesmo sem função.  Há histórias que já ouvimos e outras que nem sabíamos que existia. Um homem livre sequestrado e levado à condição de escravidão. Como alguém poderia fazer isso? Da mesma forma como ainda hoje pegam alguém e o acorrentam no poste. A barbárie ainda é a mesma. A história nunca mais será tão dolorosa e horrorosa.

Solomon Northup, um homem distinto, família formada, casa montada e violinista de mão cheia. Um homem da sociedade. Um fato chama atenção. Estamos em 1853. Solomon, negro livre do Estado de Nova Iorque. Sua distinção chama tanta atenção que é convidado a se apresentar num circo. Acorda acorrentado numa masmorra. Como choque de realidade uma palmatória e muitas pancadas nas costas marcam a sua pele. Sangra. Clama ser homem livre. Por isso é açoitado ainda mais. E isso não para. Entre trocas e cessões, Solomon passa por diversas casas grandes, alguns com mestres compadecidos e outros sanguinários. Ao seu redor escravos vivendo como escravos, inclusive sexuais. Todos seus mestres sabem de suas qualidades e distinção, o que torna ainda mais difícil de enganá-los, mas não devem podem se livrar dele. Um negro valioso. Uma carne valiosa, mesmo que arrancada a chicotadas. 


Michael Fassbender, queridinho de McQueen mais uma vez está impecável como o sanguinário e aloucado escravagista Epps. Lupita Nyong’o como Patsey, escrava protegida e reprimida de Epps, está impressionante. Ejiofor (Solomon) representa o horror por sua expressão. Maravilhoso. Mas nada seria tão bom se não fosse um ótimo roteiro de uma das passagens mais tenebrosas da história que precisava ser relatada. E não seria tão triste não fosse o olhar de Steve McQueen, certamente um dos melhores diretores da atualidade, corajoso, ousado e inteligente. Um negro como Solomon. Solomon está em todo negro. Solomon está no topo de toda sociedade . Solomon é exemplo. Solomon vive. Viva McQueen.

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Nebraska




Nome Original: Nebraska
Ano: 2013
Diretor: Alexander Payne
País: EUA.
Elenco: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk e Stacy Keach.
Prêmios: AFI Award – Filme do Ano, Melhor Ator (Dern) do Festival de Cannes e Prêmio da Audiência no Festival Internacional de Rotterdam.
Nebraska (2013) on IMDb
 

Uma mentira e um crédulo. É tudo o que precisamos para ter uma história. Simples, direta e deliciosa. Isso é “Nebraska” o novo filme de Alexander Payne, reconhecido pelo delicioso “Sideways” e o premiado “Os Descendentes”, mas que será agora lembrado por este novo filme. Payne colocou elementos dos seus filmes anteriores misturados e resultou em seu melhor filme. Não é apenas um road-movie ou um simples conflito familiar. “Nebraska” se constrói em torno de Woody Grant, senhor, teimoso, alcoólatra e que acredita ter ganhado um milhão de dólares naqueles cupons de revistas. Todos sabem ser uma mentira, mas ele está determinado a deixar Billings no estado de Montana, aonde mora, e ir até Lincoln, Nebraska. 830 milhas. Ele o fará, nem que seja a pé. Nem que seja contra toda a família. Nem que seja a última coisa a fazer. 

Após diversas tentativas de ir caminhando, sempre interrompida pelos filhos ou pela mulher, David, o filho mais novo, contrariando a mãe ranzinza e o filho bem sucedido, cede e decide fazer a vontade do pai. Por paisagens lindas visitamos o interior dos Estados Unidos com a sensação de que estão parados no tempo, claro que o branco e preto dão ainda mais essa impressão. Mas é uma linda impressão. Entre uma parada e outra sempre há espaço para uma cerveja. Às vezes mais do que uma. Mas uma parada é especial para Woody. Hawthorne, antiga cidade, onde conheceu sua esposa, onde deixou amigos, onde está o resto de sua família. Instantaneamente Woody vira uma celebridade por estar milionário. O seu novo status trás à tona uma infinidade de pessoas com más intenções ou felizes por sua glória. Mas não importa o que está no passado, o melhor é o road movie que David faz dentro da alma de seu velho pai.

“Nebraska” é de uma beleza encantadora. É de uma delicadeza impar. É uma deliciosa empreitada para o íntimo de um ser tão distinto. Repito que Payne fez seu melhor filme e isso não é pouco. É uma delicia, revigorante, libertador. Bruce Dern estava em minha mente apenas como um ator médio, pai da Laura. Bom, Laura, você é filha de Bruce Dern e sempre será. Que grande ator. Que grande atuação como Woody Grant. É o ponto central que acompanhamos com muita graça e vontade. No compito geral “Nebraska” é uma maravilhosa reflexão do relacionamento entre pai e filho, em ser bom e ser humano. É, definitivamente, uma questão humana.

Vitor Stefano
Sessões

Clube de Compras Dallas




Nome Original: Dallas Buyers Club
Ano: 2013
Diretor: Jean-Marc Vallée.
País: EUA.
Elenco: Matthew McConaughey, Jennifer Garner e Jared Leto.
Prêmios: Oscar, Globo de Ouro, Screen Actors Guild Awards de Melhor Ator (Matthew) e Melhor Ator Coadjuvante (Leto), Sebastiane Award no Festival de San Sebastian.
Clube de Compras Dallas (2013) on IMDb
 

Anos 80. Década perdida. Pra quem? Pra criatividade dos roteiristas e diretores de cinema não. Jean-Marc Vallée fez dois filmes belíssimos, com temas parecidos sobre problemas próximos mas com abordagens diferentes. O primeiro foi “C.R.A.Z.Y.” de 2005 que já comentamos aqui. Um sucesso de público e crítica na abordagem da família Beaulieu, seus preconceitos, drogas, homossexualidade. Vallée agora em 2013 vem com seu maior trunfo. “Clube de Compras Dallas” é uma pequena obra de arte. Motivos não faltam: Atores, Direção, Roteiro e Montagem estão em perfeita harmonia e em alto padrão. É a coroação de Matthew McConaughey.

1985. Ron Woodroof, texano, eletricista, homofóbico, beberrão e peão. Um macho alfa. Aos 10 minutos de filme ele é condenado a 30 dias de vida por estar com a saúde bem debilitada em decorrência do diagnóstico do vírus HIV. Como poderia? Homem, heterossexual. Não poderia. Época dos primeiros estudos de medicamentos para a estabilização da AIDS, com testes direto em humanos por conta do medo de surto ou contaminação global. Ron quer o medicamento. Ron não quer morrer. Ron suborna o faxineiro do hospital. Ron toma como se fosse à salvação. Aos 30 minutos, após queda da imunidade de forma absurda é hospitalizado e conhece Rayon, um travesti também com AIDS, que conhece um médico mexicano com um coquetel de medicamentos não aprovado pela legislação americana. Entre disfarces, contrabando e muita vontade de viver, Ron supera a condenação, desafia os governantes, as empresas farmacêuticas e revoluciona. Seus 30 dias duraram muito mais. Um grande homem. 


Não há como ver “Clube...” e não falar do senhor McConaughey. Ele é um astro que superou a barreira do grandalhão amado pelas mulheres pelo seu físico, atuando em filmes fáceis como em “Como Perder um Homem em 10 Dias”, “Sahara”, “EdTV” e “Somos Marshall”, porém me chamou atenção em “Magic Mike”, que apesar de aparecer 80% do filme sem camisa, havia ali um bom ator. Seu Ron Woodroof entrará para a história. Uma transformação tão absurda quanto à de Cristian Bale de “O Maquinista”. Tanto Matthew quanto Jared estão magérrimos, dando a impressão de que a doença realmente está em seus corpos. Ambos merecem todos os louros possíveis. E que a cada quebra de tempo uma imagem sempre fique congelada, como um flash de memória que não deve ser esquecido. Vallée conseguiu novamente surpreender com uma história cheia de nuances tristes, mas com humor apurado, olhar sem preconceito e cheio de belezas. E sem ser repetitivo. Um grande filme.

Vitor Stefano
Sessões

O Lobo de Wall Street



Nome Original: The Wolf of Wall Street
Ano: 2013
Diretor: Martin Scorsese
País: EUA.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Matthew McConaughey, Jean Dujardin, Jon Favreau e Christine Ebersole.
Prêmios: Globo de Ouro de Melhor Ator (DiCaprio), Filme do Ano no AFI Awards.
O Lobo de Wall Street (2013) on IMDb


Contaram a quantidade de FUCK ditos durante o filme. Tem a indicação de censura máxima possível. Houve muita polêmica referente aos nus e cenas de sexo. Criticaram que o personagem principal não lembra tanto assim a vida que a inspiração teve. Acusaram de circo a bolsa de valores. Valores foram totalmente jogados na boca do lixo. Reclamaram das “intermináveis” 3 horas de filme. Apontaram o dedo por glamorizar um contraventor. E porque tudo isso? Porque Martin Scorsese, gênio, fez um de seus melhores filmes, com um personagem genial, com um cenário sensacional e tem DiCaprio, em mais uma parceria de primeiro nível. É um dos melhores filmes do ano. É fodidamente impecável.


Baseado nas memórias de Jordan Belfort, “O Lobo de Wall Street” conta a trajetória de picos e vales desse personagem único que revolucionou Wall Street nos anos 80. Genial e inconsequente. Louco e gênio. Ladrão e “Robin Hood”. Um ser extraterreno num corpo humano. Uma vida que tinha tudo para ser pacata, mas se tornou uma verdadeira odisseia. Casado com a amiga da adolescência, logo o mundo corporativo o engoliu para festas, bebedeiras, drogas, putas e um pouco mais de tudo isso. No meio de tudo isso dinheiro, que gera mais dinheiro, que gera mais dinheiro. A ganância é um fator preponderante para ser um bom broker. Há uma certa testosterona nas veias dessa classe que parece não haver no restante. Um conselho. Uma métrica. Um modelo. Criou-se um lobo. Um monstro. Uma lenda. Há momentos em que sutilmente lembra “Pegue-me se For Capaz” tal as artimanhas que o mesmo usa para fugir do FBI. Mas a ganancia, como disse, está lá e isso é implacável. Cega.


Scorsese é fabuloso em tudo que já fez nessa vida. Não erra. É arrebatador. Por 3 horas você fica preso na cadeira sem querer se mover a não ser para rir dos absurdos que passam na telona. Não por acaso chamou tanta atenção, de crítica e público. É um ritmo que nunca vi num filme com tal duração. Não há um minuto desnecessário. Não há como não se envolver. Com atuação beirando a perfeição, DiCaprio reafirma sua grandiosidade como ator. É um camaleão que está lá de corpo e alma. Doação total. Jonah Hill surpreende e está excelente como coadjuvante. Jordan pode até ser visto como um modelo, mas cada um verá se positivo ou negativo aos seus olhos, mas não haverá um ser humano que poderá negar que “O Lobo de Wall Street” é fabuloso.

Vitor Stefano
Sessões.
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