segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Ida




Nome Original: Ida
Ano: 2013
Diretor: Pawel Pawlikowski
País: Polônia, Dinamarca, França e Reino Unido
Elenco:Agata Kulesza e Agata Trzebuchowska.
Prêmio: Melhor Filme pela Audiência, Melhor Diretor, Melhor Roteiro e Melhor Fotografia no European Film Award, Melhor Atriz (Kulesza), Roteiro, Design de Produção, Filme e Produção no Festival Internacional de Gijón, Melhor Filme no London Film Festival, Prêmio FIPRESCI do Festival Internacional de Toronto.
Ida (2013) on IMDb


A solidão. A Segunda Guerra e seus reflexos já foram alvo de incontáveis filmes. A destruição, o heroísmo, a tensão, o sofrimento, o retorno. Qualquer guerra revela nuances inimagináveis de qualquer ser humano, mas a solidão é devastadora sempre. Tudo foi alterado. Religião, economia, política, educação, militarização, vida. A vida mudou para sempre. A Guerra nunca deixará de existir. Suas marcas são inesquecíveis, incuráveis e permanecerão sempre doloridas. E a solidão sempre será motivo para refletir. A solidão sempre será motivo para não voltar a errar. A solidão será solitária, só, ausência, inesquecível.

Polônia. Aos 17 anos, a noviça Anna está prestes a confirmar seus votos com a Igreja Católica. Porém, antes da confirmação, a madre a obriga a conhecer seu único parente vivo, sua tia Wanda. Reluta, mas ouve a voz divina, a voz da obrigação. Assim que se encontram há uma tensão, um descaso, mas Wanda sabe muito, quase tudo, sobre Anna. Não é Anna, é Ida. Wanda é uma juíza, por profissão, respeitada no país, mas que vive uma vida amargurada, depressiva e ousada. Esse choque de realidade entre uma mulher inocente e uma que já decidiu a vida de muitas outras pessoas é um convite (uma nova obrigação) à jovem explorar o mundo, fora da solidão do convento, de seu mundo, de sua convicção. Wanda ajudará Ida a descobrir seus antepassados. Vai em busca dos corpos de seus pais. Uma viagem pelo interior, entre paradas, perguntas e pressões, a dupla vai criando uma conexão, criando uma empatia apesar do claro vale ideológico existente.



“Ida” é um corte único, uma visão diferente desse momento histórico. A imagem quadrada, remetendo às televisões antigas, a belíssima fotografia branco e preto, as imagens do campo, de casas antigas, cemitérios, hotéis antigos dão aconchego a nós, expectadores. As imagens quase nos aliciam a entrar de cabeça nessa aventura das duas. Agata Kulesza e Agata Trzebuchowska estão fabulosas, intensas. Pawel Pawlikowski fez um dos melhores filmes desse ano não apenas pela beleza das imagens, das grandes atuações, da ótima história. Ele fez um grande filme sobre o vazio, sobre o silêncio, sobre a solidão. É impossível descrever ou entender um ser solitário. “Ida” estará por anos em nosso subconsciente. Ida e Wanda.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O Senhor do Labirinto




Nome Original: O Senhor do Labirinto
Ano: 2010
Diretor: Geraldo Motta Filho
País: Brasil
Elenco: Flavio Bauraqui, Maria Flor e Irandhir Santos
Prêmio:
Melhor Filme na escolha do júri popular do Festival do Rio de 2010



Um ser de divina loucura. Entre delírios, conhecemos Bispo e as vozes que o seguem. Elas lhe dão diretrizes e punem. Bispo ouve Deus e os anjos, que o declaram com o Salvador. Jesus na Terra. Na verdade o sergipano está num hospício no Rio de Janeiro e sua força física, adquirida na Marinha e por ser pugilista amador, o deixa em vantagem nessa prisão. Ele é chamado de xerife, tem a chave e todos os vigilantes confiam nele, principalmente Wanderley. Seu convívio com os demais internos é tranquilo, na qual não aparenta muito contato. Ele vive num mundo só seu, com os seus, com quem crê, com quem vê sua aura divina. Entre devaneios cria o castelo do Rei dos Reis, com representações: miniaturas, estandartes, barcos e roupas, se prepara para a subida aos céus. Jesus Bispo. Suas criações atrai curiosidades e até um documentário sobre ele e suas obras foi feito. Foi exposto em grandes galerias e na Bienal de Veneza. Bispo não morreu, ele foi para perto dos seus. Bispo está eternizado.



Nunca tinha ouvido falar de Arthur Bispo do Rosário, como acredito que muitos nunca ouviram. Ignorância pura. Um artista puro, que conseguiu sobrepor o estigma de louco e brilhou com sua delicadeza e visão peculiar do mundo. O filme é pesado. Tem um inicio conturbado e muito intenso, com câmera rápida e no ombro, mostrando o mundo como visto aos olhos de Arthur e suas vertigens. Chega a dar vertigem. Mas uma montagem confusa, com muitos cortes entre takes que não precisavam existir, fragilizam o filme como obra cinematográfica. Outro pecado é a maquiagem do personagem Wanderley quando fica idoso. A luz escancara os detalhes do rosto de Irandhir Santos, chegando a dar impressão de ser mal feita. Um pequeno pecado, mas tudo é superado enquanto vemos Flávio Bauraqui. Ele faz Bispo. Ele é Bispo. Bauraqui faz a sua grande interpretação da sua vida, numa intensidade que comove, que perturba, que enche a alma. Sua entrega faz arrepiar. Não conhecia o artista Arthur, mas sei que Bauraqui nos trouxe ele, e lá dos céus ele agraciou o ator. Geniais, Arthur Bispo do Rosário e Flávio Bauraqui.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Procurando Elly


Nome Original: درباره الی
Ano: 2009
Diretor: Asghar Farhadi
País: Irã e França
Elenco: Golshifteh Farahani, Shahab Hosseini, Taraneh Alidoosti e Merila Zare’i.
Prêmio: Melhor Roteiro e Grande Prêmio do Juri no Asia Pacific Screen Awards e Melhor Diretor no Festival de Berlim.
À Procura de Elly (2009) on IMDb




Quando se fala de filme iraniano, grande parte do público já vira a cara, pensa numa história de guerra ou mesmo do fanatismo religioso que acomete o país do Oriente Médio. Quem está mais interado no cinema daquele país nas últimas décadas, sabe que pode esperar algo de uma qualidade altíssima. Apesar das constantes intromissões governamentais, os diretores, atores e produtores continuam sua produção criticando, ousando e buscando o que a arte pode oferecer de melhor, a liberdade. Kiarostami (“Gosto de Cereja”), Panahi (“O Círculo”) e Farhadi (“A Separação”) são os mais famosos cineastas iranianos e através deles é que desvendamos que o Irã e os iranianos não são o que aparentam. O iraniano é mais parecido com o brasileiro do que imaginamos. Se você não acredita nas palavras desse que escreve, veja “Procurando Elly”. É um filme incrível, que poderia ser em qualquer lugar do mundo.

Quando um grupo de casais resolve se encontrar e ir para o litoral comemorar o retorno de Ahmad. Ele volta da Alemanha, após uma separação. Sepideh convida Elly, professora dos seus filhos, para, quem sabe, apresentar os dois. Elly é bem recebida por todos, e até rola um clima, apesar dela sempre aparentar receio e preocupação. Sua mãe não anda bem. Um fim de semana muito divertido, à beira do Cáspio, crianças se divertindo, homens conversando sobre tudo, fumando seu narguilé, mulheres fofocando. Repentinamente Elly some. Tensões, culpa, busca, desespero, perda de controle. Enquanto todos buscam Elly, conhecemos os habitantes daquela casa. Em uma situação limite os humanos tornam-se animais irracionais, o lado selvagem sobrepõe à razão. Quem é Elly? O que ela fazia ali? Porque ela foi? A culpa torna-se tema central e causa o caos. 


Fahradi faz com maestria a direção desse filme. A tensão criada é exacerbada com o constante som do mar. A espera pela moça, as buscas, o caos. Impossível não se envolver, não se desesperar, não imaginar o que pode acontecer. Atores excelentes dão mais veracidade aos acontecimentos. O cinema iraniano é um dos que mais cresce nos últimos anos por fazerem filmes que ultrapassam suas fronteiras. É um cinema mundial!

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Confia em Mim


Nome Original: Confia em Mim
Ano: 2014
Diretor: Michel Tikhomiroff.
País: Brasil
Elenco: Mateus Solano e Fernanda Machado.
Sem Prêmio.


Quando nada funciona, não há milagre que salve. 

Nem a presença de um ator cativante salva uma catástrofe. Nem um roteiro baseado em fatos possíveis e que acontecem todos os dias. Nem com uma atriz global e bonita. Nem falando sobre culinária, um assunto que todos gostam. Nem se Meryl Streep fosse a protagonista daria jeito. Uma trama interessante, sobre Caio, um enganador profissional, que ganha dinheiro nas costas de mulheres que caem na sua lábia. A vítima da vez é a chef de cozinha Mari que tem o sonho de abrir seu próprio restaurante. Com uma relação conturbada com a família e abalada psicologicamente, cai como uma patinha na ladainha do canastrão. 


Uma realização frouxa, sem consistência. Chega a ser insossa. Uma pena ver Matheus Solano ainda com alguns trejeitos de Felix. Uma pena uma realização ruim de uma boa ideia. Uma pena ser brasileiro, num ano tão bom do nosso cinema. 

Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Sessões Promoção - O Senhor do Labirinto - PROMOÇÃO ENCERRADA

O cinema brasileiro vem ano após ano conquistando o público e crítica. Claro que há muitos erros e muitos problemas, como a distribuição de salas, falta de incentivo, massacre dos blockbusters sobre os filmes menores.


"O Senhor do Labirinto" é um desses filmes dizimados pelo sistema cinematográfico brasileiro. Ele foi exibido no Festival do Rio de 2010 e só agora consegue seu espaço para entrar no roteiro comercial. Mas, o que é "O Senhor do Labirinto"?:

Conta a história de Arthur Bispo do Rosário, homem de origem simples, vítima de uma doença mental, que viveu assombrado por misticismos e alucinações nas instituições psiquiátricas pelas quais passou, entre 1938 e 1989, ano de sua morte. Ao longo do filme, vemos Bispo do Rosário em meio aos seus períodos de clausura na Colônia Juliano Moreira (Rio de Janeiro), onde viveu e produziu, por 50 anos, um acervo de bordados, estandartes e assemblages que ganharam postumamente o Brasil e o mundo com seus insuspeitos traços de arte pop contemporânea. Que história!

Veja o trailer:




Como não querer ver esse filme? O Sessões tem o prazer de levar 2 felizardos aos cinemas para ver essa pérola sobre um brasileiro único. Para isso, os dois primeiros a responderem as perguntas abaixo nos comentários desse post levarão um par de ingressos, uma caneca e uma camiseta do filme. Top, né?*

PERGUNTA: Qual doença acometeu Arthur Bispo do Rosário? De qual Estado é o artista?

Resposta: Esquizofrenia / Sergipe

Vencedores:
Camila Borca
Gustavo Magno

Seja rápido e não deixe de se identificar para enviarmos o prêmio.

* Ingresso válido de 2ª a 4ª feira, exceto feriados, em todos os cinemas em que o filme estiver sendo exibido, exceto nos cinemas do Grupo Estação.Classificação indicativa:16 anos.

Equipe Sessões

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Sétimo





Nome Original: Séptimo
Ano: 2013
Diretor: Patxi Amezcua.
País: Argentina e Espanha
Elenco: Ricardo Darín e Belén Rueda.
Sem Prêmio.
Sétimo (2013) on IMDb



Ricardo Darín é um fenômeno. Não há outra palavra para descrevê-lo. (Quase) Todos os filmes em que o argentino atua entram em cartaz no Brasil e a grande maioria com bom público. Mesmo que por vezes ele faça corriqueiramente o mesmo papel (homem de meia idade, classe média, com dilemas pessoais), ele consegue cativar o público. Seu charme atrai as mulheres, mas não a ponto de afugentar os homens. O cara é cativante e muito bom ator. Por mais que, por vezes, faça escolhas não tão boas, o público estará lá por ele. Desde “Nove Rainhas”, de 2000, ele se tornou habitué dos cinemas cult e criou um elo com o público que não acabará. Só nesse ano ele esteve em cartaz no Brasil com 3 filmes: o interessante “O que os Homens Falam”, o novo queridinho do público “Relatos Selvagens” e “Sétimo”.


Deixe-me contar o que acontece com “Sétimo”. Um pai, advogado envolvido num grande caso, vai todos os dias até a casa da ex-mulher buscar os filhos para leva-los ao colégio. Na hora de descer, ele vai de elevador e as crianças de escada, numa brincadeira para ver quem chega primeiro ao térreo. Só que nesse dia os filhos somem na descida. Sequestrados e ele vai fazer de tudo para encontra-los são e salvos. Parece um daqueles filmes da Tela Quente feitos com o Jason Statan ou do Liam Neeson. Só que não. É um filme com Darin. E só isso o faz um filme melhor? Faz (mas não faz milagres)! A trama é simples, é um filme relativamente curto (90 minutos) e com reviravoltas comuns de filmes dessa natureza. Mas Darín é generoso com o filme, trazendo toda as atenções para ele e seu personagem. Desesperado, frágil e inconstante. Outro bom destaque é Belén Rueda, famosa por “Mar Adentro” e “O Orfanato”, que faz Delia, a mulher separada de Sebastián. Há quem saiba o que aconteceu com as crianças logo no começo do filme, mas eu prefiro ver e tentar me abstrair da tentação de descobrir o que acontecerá. É um bom passatempo, mas, só o é porque tem Ricardo Darín como protagonista

Vitor Stefano
Sessões
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