quinta-feira, 31 de março de 2011

Magnólia


Título Original: Magnólia

Direção: Paul Thomas Anderson
Ano: 1999
Elenco: Tom Cruise, Jason Robards, Julianne Moore, William H. Macy, Philip Seymour Hoffman.
Prêmios: Urso de Ouro (2000), Globo de Ouro - Melhor Ator Coadjuvante (Tom Cruise, 2000), Filme do Ano no Festival Internacional de Cinema de San Sebastian
Magnólia (1999) on IMDb



"O que você pensou
Quando você, primeiro,
Começou isso?
Você conseguiu
O que queria
Agora você mal consegue suportar isso,
Agora, você sabe, isso não vai parar,
Não vai parar, não vai parar...
Até você aceitar!"

Há um tempo na vida em que é preciso estar de pé e sozinho. A hora de descobrir o que te levou a ser o que se é. "Conhece-te a ti mesmo"... Em algum momento a ficha cai, a gente se toca. Difícil é saber se isso já aconteceu ou se vai acontecer daqui a 82 minutos. Se acontecer, pode até haver uma chuva de sapos ou, o mais provável, pode não haver nada e sua vida continua exatamente como está.

"Existimos a que será que se destina?" Essa 'rosa pequenina' é magnólia, uma bela flor. Magnólia que partilha conosco a 'dulcíssima prisão' da existência. Estamos contemplados com 'a dor e a delícia' desta vida, severina ou prazenteira.

Los Angeles é uma grande cidade. São Paulo também. Se em Magnólia são nove estórias se intercruzando, quantas haverão de se desenvolver diante de nossos olhos durante 82 horas? Quem é a primeira pessoa que você vê quando acorda? Quais são os sonhos dessa pessoa? Qual o número do sapato? E depois? Café da manhã ou você acorda tarde? Corra pra não se atrasar. Não! Hoje, não. Que se foda seu chefe (pilantra explorador!), que se fodam as contas. Durma até mais tarde (que se foda o mundo inteiro). Durma até a data do seu aniversário de trinta anos (o tempo está passando). Pise fundo (sinal vermelho). Hoje é o dia que você vai sair de casa, seus pais nem desconfiam (vão sentir sua falta). Não volte nunca mais, não mande notícias. Envie cartas de amor. Não seja ingrato. Volte. Mude de idéia. Leia qualquer livro. Não perca tempo lendo qualquer livro. Sirva-se. Aprenda um novo idioma. Arranje um novo emprego. Novas roupas. Esqueça sempre de fazer bem a quem te ama. Seja um filho-da-puta! E não se esqueça da doçura. Seja amável. Não seja falso. Rasgue dinheiro. Escreva outra carta de amor. Rabisque as paredes. Beije sua própria boca. Grite, soque a parede. Sinta-se feliz. Pronto! Acabou? Não... Isso não vai parar. Nunca estará acabado. Por isso ande (não precisa correr). Ninguém precisa te dizer o que fazer. Dê sua mão para o tempo. Durma um pouco, descanse. Sinta falta de alguém. Acalme-se. Não vai parar. Fique quieto. Salve-se. Vá caminhar, você vai ver como melhora. Tente pensar em outra coisa. Esqueça. Mude de assunto. Se organize melhor. Pense nos seus objetivos. Não seja ingrato. Seus filhos. Seus pais. Seu marido, sua namorada. Seus sonhos? Sonhe. Pé no chão, hein! Duzentas gramas de muzzarella! Não, prefiro cerveja. Vamos beber? Pare de beber. Não dirija. O pior cego é aquele que não quer ver. Já sei, vamos ao cinema? Tá chato. Prefiro brócolis. Calma, calma. Deixa eu te fazer um carinho? Deixa eu gostar de você? Deixa eu ser especial pra você? Vamos comprar um barco. Navegar é preciso. Nada é preciso. Tanta coisa. Tantos dias. É a vida. Ser ou não sei, eis a questão. Chega! Agora eu vou mudar. Serei feliz. Essa coisa de felicidade não existe. Felicidade é um estado. Felicidade é São Paulo ou Minas Gerais? Não seja tão mau-humorado. Coma mais fibras. Você me faz tão bem. Não vai embora. Te amo! Nunca mais olhe na minha cara. Te odeio. Te quero. Vem cá? Traz o violão? Canta comigo? Vamos fazer um macarrão? Não, eu quero ser feliz. Quero o divórcio (quero o divórcio!) Te amo mesmo assim. Não vai parar. Viver é bom. Vida loka! Vamos brincar? Te amo. Mais um pouco... Agora! Isso não vai parar. Queria que esse dia durasse pra sempre. Não, não vai. É bom, é bonita. Seu nome é Magnólia.

"If you could, save me!"


Mateus Moisés
Sessões

quarta-feira, 30 de março de 2011

Os Incompreendidos – Nouvelle Vague e suas apreciações

Título Original: Les quatre cents coups
Direção: François Truffaut
Ano: 1959
Elenco: Jean-Pierre Léaud, Claire Maurier, Albert Rémy, Patrick Auffay , Guy Decomble
Prêmios: Cannes de Melhor Direção e Prêmio OCIC e Bodil de Melhor Filme Europeu.
Os Incompreendidos (1959) on IMDb

Os franceses presentearam a sétima arte com um dos movimentos mais notórios da História do Cinema, foi através das lentes francesas que o mundo descobriu um novo olhar sobre as filmagens, um olho particular, um olho autor-diretor. O Nouvelle Vague é um dos gêneros, se é que podemos assim enquadrá-lo, mais impressionantes e cultuados do cinema até hoje. No entanto, há uma característica além-tela que soa bastante desagradável neste movimento cinematográfico que é a idéia ou ideologia de que não é cinema para qualquer um. Bem, o que quero dizer eu com isto?


É ponto pacífico que estas produções realizadas na França, sobretudo na década de sessenta são de um hermetismo proposital, que por muitas vezes não vislumbra uma comunicação direta com o público. Suas intenções são subjetivas e pessoais, mas é uma subjetividade e uma pessoalidade que dá trabalho ao cabeção, aliás pira o cabeção. Pois bem, detendo estas características tão fechadas na sua linguagem, este cinema é utilizado por pseudo-informados-ensimesmados como instrumento capaz de elevá-los a um patamar superior, a uma autodignificação e a um auto-enaltecimento. Certo! Só para exemplificar é o tipinho que por n vezes se utiliza de vocábulos estrangeiros em uma conversa trivial, que discute aquela cena, se preocupando em dizer o ano e detalhes da vida do diretor sem ninguém ter perguntado nada, que reproduz falas do filme, que tem opiniões infalíveis todas cuidadosamente catalogadas no Google... Ah! Um bando de características, nos comentários vocês podem escrever mais coisas sobre os tipinhos.

No entanto, o que é realmente lamentável constatar é que ainda em nossos dias, estes frescos têm lugar cativo em rodinhas e são por alguns, tratados como se houvesse alguma real profundidade naquilo que estão exibindo para o mundo. A aprovação e aceitação destes comportamentos sustentam a teoria de que é bastante aceita a intelectualidade rasa, os floreios e a simples retórica – se o domínio de poucos acordes já é suficiente para impressionar em uma roda de herdeiros da casa grande e senzala por que raios é preciso aprender a tocar violão?

Voltando ao que interessa – “Os Incompreendidos” de Truffaut – e peço desculpas por abrir um parêntese tão enorme, mas o parentênse faz-se necessário justamente por estarmos tratando aqui de um diretor do mesmo importantíssimo movimento de Godard, Chabrol, Resnais e Rohmer que conseguiu transcender ao hermético. Truffaut consegue comunicar às massas com facilidade sem perder suas características autorais, sua forma, sua verdade cinematográfica, sua densidade. Não é fechado em si mesmo, não detém em si mesmo todos os seus significados e pode emocionar a menos instruída das criaturas. Em “Os Incompreendidos” o tema da infância e da denúncia social vão de encontro direto a um inconsciente coletivo universal.

Como este post está ficando enorme, falo mais de Truffaut outra hora. Pode ser retomar os temas de “Os Incompreendidos” ou outro filme com o personagem Doinel, veremos. Deixo só um gostinho, porque sei que o tempo na internet é raro e fico feliz demais se consegui prender sua atenção até aqui, mas tenha mais um minuto e vinte segundos e assista abaixo a cena que coloca em cheque a competência de muito cineasta por aí.



Fica então a dica: caso ainda não tenha se entendido pomposo o suficiente para assistir ao cinema da Nouvelle Vague comece com Truffaut e verá que estes “ismos” impostos por uma meia dúzia de retardadores do processo civilizatório é um joguinho bem rasteiro. Não se faz mau uso da genialidade alheia.

Leandro Antonio
Sessões

terça-feira, 29 de março de 2011

VIPs

Título Original: VIPs
Direção: Toniko Melo
Ano: 2011
País: Brasil
Elenco: Wagner Moura, Gisele Fróes, Juliano Cazarré, Jorge D'Elia, Milhem Cortaz.
Prêmios: Melhor Filme, Ator (Wagner Moura), Ator Coadjuvante (Jorge D’Elia) e Atriz Coadjuvante (Gisele Fróes) no Festival do Rio.
VIPs (2010) on IMDb


Acabei de ver "VIPS" no cinema e a única coisa que consegui fazer foi chegar em casa sentar na frente do computador e escrever esse texto.

Eu desconhecia o trabalho do diretor Toniko Melo, mas passo a ser um fã a partir de agora. Logo no ínicio vi que a O2 assinava o filme com patrocínio do BNDES e a Universal International. Mas vi que algo ali seria grandioso depois de ter lido que a produção era de Fernando Meirelles.

Com efeito, "VIPs" é uma ótima história de um jovem Marcelo (bizarro) que ao perceber na escola que tem capacidade de imitar vozes e trejeitos de outras pessoas começa a se passar por outras pessoas. Isso se deve também ao fato de ter um convívio familiar sui generis.

Só mantém contato com a mãe (Gisele Fróes) e ainda assim, distante. Ao mesmo tempo em que sonha conversar com o pai que é piloto de avião, profissão que Marcelo anseia mais que tudo, mais do que si mesmo.

Para isso se transforma em outras pessoas, vira Dummont e parte para o Mato Grosso do Sul onde começa a pilotar avião para um traficante e numa das cenas mais belas do filme canta tempo perdido da Legião Urbana. Sim, Wagner Moura, no papel de Dumont é Renato Russo! Depois disso se transforma em Carrera, traficante de renome internacional e um dos mais hábeis pilotos que a polícia federal já ouviu falar.


Posteriormente, de volta ao convívio com a mãe, Marcelo se faz passar pelo filho do presidente da Gol, Henrique Constantino, e no carnaval de Recife em meio a High Society imbecil é entrevistado pelo mais escroto dos apresentadores: Amaury Jr, que abraça a história.


Não contarei o fim quem quiser que vá ao cinema assistir porque vale cada minuto.

Depois desse filme tive a confirmação de que Wagner Moura é de uma qualidade dramática surpreendente. A tal ponto de não conseguir vislumbrar no panorama do cinema nacional e internacional um ator tão versátil e que consegue dar vida a papel/papéis tão complexos e distintos. Cabe um palavra de reconhecimento também pelas participações sempre significativas de Milhem Cortaz , Juliano Cazarré e a própria Gisele Fróes.

O filme é baseado no livro homônimo que está na minha lista de livros a ler. Abaixo um link de como Marcelo do Nascimento ludibriou o programa socialite de Amaury Jr.



Fernando Moreira dos Santos
Sessões

sexta-feira, 25 de março de 2011

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo

Nome Original: Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo
Diretor: Karim Aïnouz e Marcelo Gomes
Ano: 2009
País: Brasil
Elenco: Irandhir Santos
Prêmios: Melhor Fotografia e Direção no Festival do Rio e Melhor Som, Prêmio FIPRESCI e Terceiro Prêmio Gran Coral no Festival de Havana.
Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (2009) on IMDb



Trabalho... trabalho … trabalho... Eu preciso disso pra sobreviver, não é apenas um modo de acumular riquezas, é como conseguirei sobreviver às agruras que o mundo nos impõe. A monotonia dos mesmos gestos, das mesmas paisagens e das mesmas pessoas dão sentidos à minha vida , mas isso só acontecia porque ainda não conhecia minha galega. Ah, galega... Tudo perde sentido quando me lembro de você. O sol brilha mais forte, o vento uiva o perfume de sua pele molhada, o tempo voa quando estou com você e quando não estou, parece que os deuses do amor querem provar que a saudade que sinto é maior que meu amor por um deus qualquer. Galega, como eu conseguirei ficar 30 dias longe de ti, no meio desse mato sem mato, dessa terra sem gente, desses rochedos eternos no horizonte? Minha vida não tem mais sentido. Trabalhar me dá angústia por não poder tê-la ao meu lado nas 24 horas do dia. Mas não se esqueça jamais: Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo.


Com o passar dos dias, tudo vai ficando ainda mais difícil. Nada muda, as rochas perderam o sentido, as flores, que tu tanto ama, aparecem repentinamente à minha frente mesmo nesse deserto inóspito. Não há ninguém. O som do meu carro só toca músicas de amor, maravilhosas que me faz lembrar de quem eu menos deveria pensar. Não agüento nem ouvir os refrões porque a dor da distância de quem se ama é monstruosa. Não porque não te ame mais, pelo contrário. O meu ódio por mim mesmo por ainda amá-la, mesmo depois de ter sido acachapado sem esperar é mortal. Um pé na bunda é inesquecível, ainda mais quando sentimos que amor cresce quando o perdemos. Ou quando perdi o juízo por amar mais você do que a mim mesmo. Ai... é amor... é amor... Música desgraçada. Amor é o cacete. Mas agora a verdade é que Viajo Porque Preciso, Não Volto Porque Ainda te Amo, sua vaca.

Aiiii... Essa viagem está melhor do que eu poderia imaginar quando a comecei. Estou queimando meus carmas, meus fantasmas, meus demônios. Estou na ativa novamente, como um verdadeiro alfa. Visito feiras onde as maiores pechinchas são por mulheres baratas, cheias de vidas, histórias e muito amor para me dar. Amor... é, quem diria que o sentido do sentimento poderia mudar em tão pouco tempo. Cada vez mais meu pensamento não existe para você. Você é apenas um resquício de um passado que estou terminando de enterrar, só falta por a cal e o fogo para exorcizar o mal que você fez ao deixar um homem que tanto lhe amou. Sua vagina nunca mais será querida, tenha certeza disso. A podridão do mundo recairá sobre tudo que você tocar! Saiba, aqui, todas as mulheres me querem e eu quero todas. Não entenda isso como uma vingança barata, ela sairá cara pra você! Aqui sou eu mesmo. Aqui sou livre para fazer o que quiser. Se quiser pular de um penhasco em busca do sonho maior da humanidade de voar, eu o farei, porque você não me prende mais nessa mesquinha vida pacata que vivia ao seu lado. Viajo quando eu quiser, e volto quando eu bem pensar.



“Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” é a maior expressão de verdadeira arte dentro do cinema. De impactante estranheza inicial as imagens feitas para um documentário e adaptadas a um roteiro inventivo da maravilhosa dupla Aïnouz/Gomes, narrado em off com a dramaticidade teatral por Irandhir Santos formam uma ficção experimental, envolvente e angustiante. Aliás, o fato de não vermos o geólogo José Renato é de uma delicadeza impar, pois os cenários desérticos, as fotografias desfocadas e a narrativa descritiva nos fazem imaginar as ações como quisermos. Quase como ouvir histórias pelo rádio. Incluir termos técnicos de uma profissão tão improvável em filmes e transformar frases de caminhão e músicas brega em poesia é outro trunfo da dupla. “Viajo...” é mais que um retrato de um homem provando do sabor da perda e tendo que aprovar sua masculinidade perante si própria. É o retrato do maior medo do ser humano: a solidão. A viagem só durará até quando a solidão permitir. E o amor, ah, o amor... Quem saberá descrever esse sentimento tão falado e tão pouco exercido. Não Viajo, Porque Não Sei o Que é o Amor.

Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 23 de março de 2011

O Enigma de Kaspar Hauser

Nome Original: Jeder für sich und Gott gegen alle
Diretor: Werner Herzog
Ano: 1974
País: Alemanha
Elenco: Bruno S., Walter Landengast, Brigitte Mira, Herbert Achternbusch, Michael Kroecher entre outros
Prêmios: Grande Prêmio do Júri, Prêmio FIPRESCI e Prêmio do Juri Ecumênico em Cannes
O Enigma de Kaspar Hauser (1974) on IMDb

É com este relato que o espectador é induzido a testemunhar o universo do “achado” Kaspar :

“No domingo de Pentecostes do ano de 1828 recolhemos na cidade de Nuremberg uma criatura abandonada que, mais tarde chamamos de Kaspar Hauser. Ele mal sabia andar e só pronunciava uma frase. Depois contou-nos que logo após nascer viveu preso num calabouço. Ignorava o mundo exterior e a existência dos seres humanos, pois lhe deixavam alimento à noite enquanto dormia. Não tendo noção do que era uma casa, uma árvore ou a fala... até que um homem entrou onde ele jazia. O mistério de sua origem nunca foi esclarecido.”

“Você não escuta este grito horrendo ao redor e a que chamam de silêncio?”

Um esclarecimento a fazer é que aqui não farei uma análise ou comentário padrão do filme. O que mais interessa, desta vez, é o recorte, a ilustração. Tirem suas conclusões e assistam ao filme. Cada um por si e Deus contra todos.



A vida é absoluta. A natureza humana é mutante. E o que se quer dizer com isto? Todo humano é igual enquanto ser que vive, respira, reproduz, envelhece e morre. O que diferencia os seres humanos é, em suma, seu condicionamento diante das suas experiências. Já é repertório de muitos autores e de muito copy and paste as questões que relacionam natureza e cultura, natureza e política. Mas, este que vos fala, não tinha visto isto ainda tão claramente estes ensaios se não no diálogo entre Lord Stanhope e Kaspar durante o maior clímax social da vida do protagonista – uma festa. Quando Kaspar é provocado em meio às pessoas a dizer alguma coisa com espontaneidade. Ele verdadeira e simplesmente e com todo o respeito que consegue decodificar, afirma:

“Vossa Senhoria, a única coisa interessante em mim, é a minha vida.”

Momento poético sem dúvida. No entanto, o que pode haver de interessante em um homem além da vida? Tenho uma resposta: Suas paixões e representações advindas do convívio em sociedade. É, haverão de existir outras respostas plausíveis... Estou aguardando!

Por falar em momentos poéticos, não há como abandonar o momento em que Kaspar ensaiando a sua nova habilidade – as primeiras letras – escreve ao Sr. Daumer:
“Há alguns dias eu semeei meu nome com pés de agrião. E eles pegaram bem. E isto me deu tamanha alegria que mal posso expressar. Mas, ontem ao voltar do passeio notei que alguém entrou no jardim e espezinhou meu nome. Chorei por muito tempo então resolvi semear de novo.”

O que é o ser humano e o que nos diferencia das outras espécies animais? Por que chora, por que espezinha o nome dos outros, por que concebe a arte? E sobretudo, por que pergunta?

Leandro Antonio
Sessões

Um belo ensaio sobre o filme está disponível na página do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa

Para fazer download deste e de outros filmes de Werner Herzog clique aqui.

terça-feira, 22 de março de 2011

Person

Nome Original: Person
Diretor: Marina Person
Ano: 2007
País: Brasil
Elenco: Luis Sérgio Person
Prêmios: Menção especial no Festival Latino Americano de Trieste.
Person (2007) on IMDb


Retratar um dos maiores cineastas que esse país já teve dá um documentário e tanto. Vê-lo sob os olhos de outros gigantes do cinema, é ainda mais fantástico para a compreensão do homem e do artista. Para tornar-se definitivo, só faltava ter a mão da família. Pois é, “Person” é definitivo sobre o maior cineasta paulista de todos os tempos. Uma vida que acabou cedo mas uma obra que nunca deixará a prateleira dos maiores filmes brasileiros de todos os tempos. Numa inversão de papéis, L.S. Person é o personagem e Marina Person, tantas e tantas vezes filmada pelo pai, a cineasta. Retratar o próprio pai, que faleceu aos 39 anos, quando as filhas ainda eram crianças, não deve ter sido tarefa fácil para uma estréia, mas definitivamente foi como vê-lo, abraçá-lo e conversar muito com ele. Como um diário, mas sem lamentos, apenas com a felicidade de poder ter “encontrado” seu velho.

Recheado de fotos e filmes caseiros em Super 8, as lembranças familiares de Luis Sérgio Person são recheadas de elogios ao pai carinhoso e ao marido zeloso. Já o cineasta é desnudado por si só, através de entrevista concedida pouco antes de sua morte, e pelos seus grandes amigos e parceiros de trabalho. A escolha dos depoentes foi certeira, com grandes nomes do cinema nacional como Eva Wilma, Raul Cortez, Carlos Reichenbach, Walmor Chagas, Paulo José, José Mojica. Os momentos de maior exploração estão nos depoimentos de seu grande parceiro: Jean-Claude Bernardet, o maior teórico sobre cinema brasileiro, contando dos momentos de criação vividos com o Person.



Mesclando dizeres e trechos dos seus filmes, “Person” fica marcado na memória por retratar um dos nossos maiores. Eryk Rocha versou liricamente sobre Glauber em “Rocha que Voa”, Marina retratou, conheceu e apresentou Person à uma geração que só ouve falar sobre o cinema político dos anos 60 e que só cultua Glauber por parecer hype e na verdade nada sabe do que foi retratado na tela. Eu não sei.

Jorge Ben Jor é o responsável pela trilha sonora, alegre como sempre, mas aqui com certo respeito e saudosismo por seu amigo. As imagens captando Marina de costas ouvindo as histórias de seu pai, ou em frente às câmeras retratando as suas lembranças fez um filme de culto à seu pai para si, para sua família como uma memória póstuma. Cortesmente cedeu à nós a oportunidade de conhecer o mais íntimo de Person. Não apenas de Luis Sérgio, mas sim de toda a família. E definí-lo é definitivamente imposível. Não há adjetivos palpáveis àquele turbilhão de inventividade dentro daquele corpo. E nada melhor que ouvir "Domingas" (nome da irmã de Marina) na voz de Jorge Ben.


É impossível não querer rever a obra de Person. Indo além dos definitivos e (merecidamente) aclamados “São Paulo Sociedade Anônima” e “O Caso dos Irmãos Naves”. Ver tudo, até os que ele mesmo considerou erros imperdoáveis. Person está em todos eles, seja no olhar, no personagem, na ideologia ou mesmo na vontade de se divertir. “Person” é um marco para fazer renascer um personagem único da história cinematográfica brasileira. Vamos recomeçar, eternamente.

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 18 de março de 2011

O Que Você Faria?

Nome Original: El Método
Diretor: Marcelo Piñeyro
Ano: 2005
País: Argentina, Espanha e Itália
Elenco: Eduardo Noriega, Najwa Nimri, Eduard Fernández , Ernesto Alterio, Carmelo Gómez e Natalia Verbeke
Prêmios: Butaca de Melhor Ator Catalão (Eduard Fernández), CEC Award e Goya de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coajuvante (Carmelo), Canvas Audience Award, Prêmio da União Espanhola de Atores Adriana Ozores e Eduard Fernández
O Que Você Faria? (2005) on IMDb


O que voce faz num processo seletivo? É quem você é, finge ser alguém melhor ou não consegue fazer absolutamente nada pois sua grande vontade de adentrar a um novo emprego é apequenado pelo medo da mudança e da nova vida que poderia vir? Toda mudaça exige atitudes, mas diminuir-se numa seleção, não é exatamente o tipo de ação que pode ser tomada. E aí, o que você fará? Essa pergunta se repete diversas vezes antes de pensarmos em pensar em uma resposta à um simples pedido,corriqueiro em todas dinâmicas de grupo: Apresente-se. As pernas tremem, mas só percebe-se isso até abrir a boca e ver que a voz treme muito mais. Porque tanto medo, porque tanta insegurança se é apenas para falar de si, sem mentiras. Ali na frente, todos estão em condições iguais, mas só entra quem for diferente, positivamente diferente. Seja você mesmo, sempre. Nas dinâmicas, nas entrevistas, na vida. Essa é minha dica e você, o que faria?


“O Que Você Faria?” tem um enredo atípico, único e absolutamente incrível sobre dinâmicas de grupos. Um projeto primeiramente expressado nos palcos dos teatros e muito bem transportada ao cinema por Marcelo Piñeyro. A idéia é uma seleção de emprego com um método inovador, chamado Método Grönhom. Sim, teria tudo para ser o mais entediante dos filmes, com executivos cheios de pompas, querendo sobresair-se diante dos outros e querendo impressionar o mediador. Aí está o grande mote, não há um mediador. Toda a seleção e dinâmica são propostas por computadores diante dos candidatos, que interagem e durante as etapas vão se degladiando, buscando câmeras e microfones para atuar diante da platéia invisível. Apenas a secretária, com abruptas interrupções dá algumas dicas sobre o método. Dicas ou pegadinha? Como vamos saber, se o mundo das dinâmicas são estágios inexistentes num mundo real.

Tudo fica ainda mais tenso com os protestos contra o FMI que avassalam as ruas de Madri. Todas variáveis são importantes dentro da seleção, seja sobre aspectos da vida amorosa, política ou propriamente profissional. E quando percebemos que há todo tipo de estereótipos naquela sala, desde a ousada até o machista, do calculista ao militante, podemos prever tudo, menos qual será o resultado. Na sala misteriosa, não há como saber o que realmente está acontecendo, mas a medida das “provas”, percebemos que qualquer passo em falso é fatal e mostram mais do que devem. A eliminação é sumária e impiedosa, sem chances de retratação, afinal discutir com um computador seria motivo bastante para ser eliminado com a chancela de insanidade. Com a permanência dos mais fortes, novas fases vão chegam, e psicologicamente a dificuldade aumenta. Pra nós, que apenas estamos vendo, nos divertimos com a capacidade humana em degladiar. Esse método pode ser revolucionário mesmo.



Entre dúvidas e certezas, “O Que Você Faria?” é um ótimo retrato sobre seleção profissional, além de um filme leve e interessantíssimo sobre o aspecto humano. Toda surpresa desmascara o ser humano e o Método Grönhom, aqui, é o carrasco. O elenco está em sintonia, com ótimas atuações e totalmente convincentes como executivos em busca de novas oportunidades e ao longo das etapas do processo vão tirando o auto-controle. Sabemos que achar um novo emprego não é fácil, mas não precisava ser tão difícil. Mas na vida, tudo é difícil mas nossa missão é facilitá-la! E ser você mesmo ajuda muito, principalmente, numa seleção profissional.

Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 16 de março de 2011

Filmes Baseados em Fatos Reais

Histórias de superação sempre são inspiradoras para seguir os caminhos da vida. Quando os relatos retratados no cinema são baseados em fatos reais, o público fica ainda mais atento, pois se já aconteceu uma vez pode acontecer novamente. O sucesso de histórias reais no cinema está no fato do ser humano identificar-se com a realidade possível ao alcance dos olhos, tirarem as lições e corrigir os erros. O ser humano gosta de olhar na tela e ver a si próprio. Veja algumas histórias reais e retratadas no cinema com muita qualidade e intensidade.

 

Mar Adentro - A história de Ramon Sampedro, vivido por Javier Barden, é polêmica, cheia de encanto e esperança pela liberdade. Após um pulo no mar, as pedras o deixaram tetraplégico, porém, totalmente lúcido. Ramón esteve recluso dessa prisão chamada cama e o que mais queria é a liberdade, que no caso dele, a morte. Suas cartas, escritas com a boca e com a ajuda de seu sobrinho tornaram-se sua voz, sua força e um marco na história da legislação espanhola sobre a eutanásia. Polêmico mas com ares de obra-prima, esse filme de Alejandro Amenábar vem para levantar assuntos delicados com a família, a sociedade e com o próprio ser humano conseguindo determinar seu próprio futuro. “Quando não se pode fugir, aprende-se a chorar sorrindo”.


O Escafandro e a Borboleta - Jean-Dominique Bauby é um mulherengo, bon vivant, vive na alta sociedade, editor da revista de moda Elle. Subitamente um derrame cerebral faz tudo mudar. Após 20 dias inconsciente, acorda, mas sem movimentos em todo corpo exceto pelo olho esquerdo. A partir daí Jean Do cria um mundo a parte. Ouvimos seus pensamentos, vemos através de seu olho e vivemos enclausurados em um escafandro. Relembrando sua vida dentro de sua mente, cria forças e emociona com sua vontade de viver e escrever seu livro, homônimo do filme. Sim, escrever com um método criado ao piscar do olho. Emocionante, inesquecível e reflexivo. Linda história, fortificado com a grande atuação de Mathieu Amalric, que nos passa toda a angustia de estar preso em um corpo, com a mente em pleno vapor.


Na Natureza Selvagem - A rebeldia juvenil é corriqueiramente abordada na vida real e nos cinemas. Porém a história do americano Christopher McCandless é marcante. Vendeu tudo, peitou a família, buscava novos ideais, queria aventura, buscava vida, mudou de nome. Chris agora era Alexander Supertramp e partiu com destino ao Alasca. E sozinho nessa longa caminhada percebeu que seus estudos, encontros e vida social de seus vinte e poucos anos de nada valeram perto da experiência da vida selvagem. A vida é muito mais do que viver. Lindo filme dirigido pelo ator Sean Penn e com uma trilha sonora que casa perfeitamente com o ideal de vida desse jovem, e nos ajuda a dar mais valor à nossa vida e vivê-la intensamente.



O Contador de Histórias - Roberto Carlos Ramos é mais um menino como muitos no Brasil, vindo de família pobre, cheio de irmãos e sem esperança. Sua mãe, na expectativa dar uma base o encaminha à FEBEM. Essa é a história de muitos nesse país, porém a vida de Roberto Carlos muda a partir da entrada da francesa Margherit na sua vida, fazendo uma pesquisa sobre meninos irrecuperáveis. Todos os medos, as fugas, as histórias, a vontade de mudar são pano de fundo para essa história linda de recuperação, bondade e que levanta questões importantes sobre atividade pública na questão de recuperação e cuidado dessas crianças. Roberto Carlos cresce, aparece e hoje é conhecido mundialmente, considerado um dos maiores contadores de histórias do mundo. Linda história contada por Luiz Villaça num filme nacional que não teve grande repercussão, mas merece nossa atenção.

E você, gosta de filmes baseados em fatos reais ou isso é uma informação desnecessária na hora de escolher qual filme verá? Gosta mais da verdade das histórias que aconteceram ou a criatividade da criação da mente humana?

Outros filmes baseado em fatos que já foram comentados no Sessões: Helter Skelter, Mary e Max - Uma Amizade Diferente, VIPs, O Homem Elefante, Frost/Nixon, Sempre ao Seu Lado, A Rede Social, Valsa com Bashir, Mãos Talentosas - A História de Ben Carson, Escritores da Liberdade, Diários de Motocicleta, O Pianista, Invictus, entre outros...

Quais outros filmes baseados em fatos reais são memoráveis? Comente!

Esta matéria foi veiculada na Revista City Penha, edição 46, de março de 2011.

Equipe do Sessões

segunda-feira, 14 de março de 2011

Vício Frenético

Nome Original: Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans
Diretor: Werner Herzog
Ano: 2009
País: EUA
Elenco: Nicolas Cage, Eva Mendes, Val Kilmer e Xzibit.
Prêmios: Prêmio do Juri Oficial no Festival de Dublin, Melhor Ator no Festival de Toronto e o Prêmio Christopher D. Smithers Foundation Special Award do Festival de Veneza.
Vício Frenético (2009) on IMDb


Nicolas Cage já fez de tudo para não vermos mais filmes que ele estrela. Suas sucessivas escolhas errôneas de personagens caricatos, sem força ou simplesmente ruins, fizeram com que sua boa impressão de outrora se tornou repúdio e ódio. Não há como um ator que considero bom, tornar-se tão inexpressivo e inconseqüente de suas escolhas. Se ele não fosse o escolhido para o papel, certamente teria visto “Vicio Frenético” há mais tempo. Mas essa angustia em ver Cage nas telas me fez esperar, ir com calma, sem pressa pra ver mais um possível desastre. Pois é, agora já posso dizer: arrependi-me de não ter visto antes. Cage tem mais um crédito. Graças ao Herzog.

Pense num ser errado. Esse é Terence McDonagh, vivido por Cage. A veia corrupta de um policial só pode vir de dois casos: falta de pagamento ou vício no que mais deve combater. No caso, a heroína e a cocaína são seus grandes amigos do dia a dia. Mas logo na primeira cena vemos um salvador, um herói, um humano. Porque a mudança tão drástica? Aquele cara que se machucou para salvar a pele de um marginal prestes a morrer afogado pela enchente do Furacão Katrina não existe mais? As drogas o transformaram num ser que ele não é ou que na realidade ele é? Quem sabe verdadeiramente o que as drogas podem fazer... Quem sabe o que a polícia pode e deve fazer... Está tudo fora da ordem... (isso é um problema) mundial...

Nesse submundo suburbano onde quem deve defender ataca e a sociedade fica a mercê de toda escória que o mundo do tráfico trás. É como uma nuvem preta: sabemos que choverá, mas não conseguimos fazer nada, além de nos fechar em nossas casas e esperar passar o pior. O tráfico é assim. Se não nos fechamos, ele nos pega, nos transforma em um membro ativo dessa sociedade alternativa. Mas há como controlar? Ou nenhum mal é tão ruim que não possa piorar? Essa é uma questão muito filosófica para conseguirmos destrinchar em apenas uma análise fílmica. “Vício Frenético” nos leva a uma insana sensação de proximidade com a realidade. As vertigens de xxx, são as vertigens da sociedade que vê apenas o que quer ver. Na loucura, ver iguanas é muito melhor do que olhar no espelho.



Eva Mendes como prostituta-namorada de Terence, vive um papel duro, mas de forma muito convincente no papel de Frankie. Cage está impecável. Suas manias viciáticas e a dor nas costas durante toda a fita faz com que percebamos a puresa dos detalhes numa atuação. Sim, no contexto geral é ótima, mas nos detalhes é impecável. Herzog volta à grande forma após o (apenas) bom “O Sobrevivente”. Mas vindo desse alemão com tanta história pra contar, podemos sempre esperar filmes classudos e porque não, eternos. “Vício Frenético” é com certeza um dos melhores lançados em 2010, graças ao Herzog. Graças a Cage, ressurgindo das cinzas das películas cinematográficas.

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 11 de março de 2011

Lope

Nome Original: Lope
Diretora: Andrucha Waddington
Ano: 2010
País: Espanha / Brasil
Elenco: Alberto Ammann, Pilar López de Ayala , Leonor Watling , Luis Tosar, Miguel Ángel Muñoz, Selton Mello e Sônia Braga.
Prêmios: Goya de Melhor Canção Original e Figurino.
Lope (2010) on IMDb

Não se fazem mais conquistadores como antigamente. Até porque não há mais nada para inventar. Lope é um dos que deve ser copiado quando o assunto é poesia e provocar encantamento. Ser apresentado a um anônimo, conhecer sua grandeza e importância na história da literatura mundial é o grande trunfo do filme de Andrucha Waddington. Seja com sua força e rapidez com a espada, sua inteligência e desenvoltura com as letras ou ainda sua desinibição e charme irresistível com as mulheres conseguem cativar todos (primordialmente as mulheres) numa película visualmente linda e que há muito nãos víamos: um filme de amor.



Félix Lope de Vega y Carpio após retornar da guerra, busca um meio de vida para não retornar àquela batalha desnecessária. Leva a vida escrevendo para outros, cartas, contos e poemas e assim conseguia viver a vida. Com seu grande talento, chama atenção de Elena, filha do dono da companhia de teatro, que o contrata para trabalhar. Não como dramaturgo, não para ter suas comédias interpretadas. Ainda não. Conquistou Elena, com quem viveu um tórrido romance às escondidas. Aos poucos conquistou a confiança de quem poderia lhe abrir as portas da dramaturgia e fez suas comédias chegarem ao público, que o amava e queria mais.

Lope é uma mistura de Zorro sem máscaras e Don Juan poeta. Sua sensualidade está nos sons emitidos por seus lábios, processando seus pensamentos mais velozes em estrofes milimetricamente feitas para enfeitiçar e arrebatar qualquer dama que esteja a menos de 100 km de distância. O argentino Alberto Ammann dá vida à Lope, com sua beleza hispânica e maquiagem sempre impecável, com suas unhas pretas, cabelo despenteado e barba por fazer. Um afago às damas da platéia.



Além de Ammann, temos grandes atuações. As belas damas conquistadas pelo dramaturgo são Pilar López de Ayala, como Elena e Isabel, seu grande amor, vivida por Leonor Watling, que vimos quase imóvel em Fale com Ela. Atores brasileiros também estão no elenco dessa produção espana-brasileira, mas com ares de Torre de Babel. Sônia Braga tem uma aparição meteórica como mãe de Lope. Já Selton Mello tem papel importante e, apesar de seu sotaque abrasileirado, deixa sua marca como o importante conde português, Marqués de Navas, louco para conquistar Isabel, com seu poder e pseudo-poética. Andrucha consegue mais um marco em sua carreira. Após nos deixar boquiabertos e sujos com terreno arenoso de “Casa de Areia” nos agracia com a beleza dos textos e com imagens marcantes de “Lope”. O Brasil continua marcando no cinema lá de fora. Que continue assim.

Além de retratar o começo da história do “monstro da natureza”, como Cervantes chamava o dramaturgo, o filme marca com os figurinos, a fotografia e as maravilhosas locações, de tirar o fôlego. A sensualidade exposta pela câmera próxima também deixa efeitos colaterais nos expectadores. De técnica inquestionável, a história adulta de Lope ganha vida com um enredo cheio de entreveros, uma vida feita de conquistas, de um homem que marcou seu tempo com sua habilidade de brincar com as nossas mentes através de palavras que já ouvimos, já lemos e que nunca deixarão de nos seduzir. A poesia está em alta. A poesia sempre estará por conta de senhores como Felix Lope da Vega, ou simplesmente Lope.

“O vinho, quanto mais envelhece mais calor ganha; pelo contrário, a nossa natureza quanto mais vive, mais vai esfriando.”

Jorge Drexler consegue nos dar um pouco de Lope nos dias de hoje com “Que el Soneto nos Tome por Sorpresa”, linda música da trilha sonora, com imagens do lindíssimo filme.


Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 8 de março de 2011

Inverno da Alma

Nome Original: Winter’s Bone
Diretora: Debra Granik
Ano: 2010
País: EUA
Elenco: Jennifer Lawrence
Prêmios: C.I.C.A.E. Award e Reader Jury of the "Tagesspiegel" no Festival de Berlim, Melhor Filme e Roteiro do Festival de Sundance.
Inverno da Alma (2010) on IMDb

Se era pra sofrer, que tivessem um pouco misericórdia de nossos sentimentos. Se queriam que ficassemos imóveis, tentando entender e buscar enigmas por trás daquele rosto jovem e já sofrido, conseguiram. Chega a ser asfixiante de tão duro é “O Inverno da Alma”. Aquela certeza que nada dará certo, rumando como um rio, com obstáculos duros, mas que nada mudará sua tragetória. Se fosse o Inferno da Alma poderiamos já premeditar tal sofrimento compartilhado nossos sentimentos com Ree.

Uma menina de 17 anos é o pai da casa. Sua mãe é depressiva mórbida, seus irmãos menores, são muito pequenos para qualquer atividade. Seu pai, procurado pela polícia por produção de drogas, oferece a casa que sua antiga família vive como fiança. E aí a vida começa a tomar contornos ainda mais dramáticos para não perder a única coisa que lhe resta. A busca por esse pai ausente, maléfico e insignificante é o que torna toda essa busca horrorosa, pesada e dramática, sem ser dramalhão ou piegas. Onde a vida não tem tanto valor assim, Ree é um passarinho voando solitaria numa região cheia de abutres antigos, cheio de valores contestáveis e atitudes deploráveis. O interior dos EUA já foi retratado milhares de vezes, desde os Westerns até os filmes dos Coen, mas a sinceridade imposta na câmera de Debra Granik chega a ser preocupante. A vida não pode ser tão sofrida para alguem, muito menos para alguem com apenas 17 anos. Não pode. Mas assim é a lei daquela selva. Assim que ela deve viver para sobreviver. Se pensarmos que essa realidade é um filme, precisamos dedicar momentos de adoração à Jennifer Lawrence.

Cru. Impiedoso. Uma estranha forma de criar um mundo tão próximo do real. Tantas caminhadas ao encontro da solidão e para perceber que está só, desamparada e sem esperança num mundo a parte, com realismo de causar náuseas. Nem a jovialidade do querer, do buscar, do conhecer dá ânimo à vida. Buscar soluções para tudo é muita pretenção pra quem ainda nem chegou à fase adulta. Pra quem sofrerá para chegar lá. Como um ritual, viver é mais dificil que morrer. E se dizem que quem é apressado come cru, aqui não há opções. Ou come-se cru, ou morre de fome, como um animal, em seu instinto mais interno. O inverno chegou, a lenha queima mas de nada adianta, a alma já está congelada de tanto doer. Se tiver problemas de coração ou de emoção, evite, pois a sua também ficará gélida depois de ver "Inverno da Alma".

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 3 de março de 2011

Recife Frio

Nome Original: Recife Frio
Diretor: Kleber Mendonça Filho
Ano: 2009
País: Brasil
Elenco: Pedro Bandeira, Andrés Schaffer, Julio Rocha.
Prêmios: Melhor Ficção, Filme pelo Juri Jovem e Juri Popular no Curta Cinema - Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro. Melhor Roteiro, Filme e Diretor no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Melhor Roteiro e Diretor no Cine PE. Melhor Filme no Mostra de Cinema de Tiradentes, no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (GO) e no Festival Luso-Brasileiro de Santa maria da Feira.



O ser humano é o provocador de tudo o que acontece ao nosso redor. Somos responsáveis pelo que cativamos e pelo que destruimos. Se “Uma Verdade Inconveniente” retrata o que a fizemos com a camada de ozônio, aqui podemos ver como um sinal divino, de luz, ou de ameaça com um meteorito que tranforma uma cidade quente em chuvosa e sem graça. Recife torna-se São Paulo. São Paulo é o deserto agora. Quem dizia que o Sertão vai virar mar, esqueceu de dizer que a cidade virará Saara. Mas nem tudo é verdade! Duvidemos até das mais inconvenientes...

Quando absurdo passa por verdade, aí está uma idéia original criativa e que deve ser observada. Recife Frio é tão absurdo quanto São Paulo Cidade sem Enchente. Quem poderia imaginar uma cidade atingida por um meteorito mudaria todo o clima, do sol à chuva eterna, das praias aos shoppings lotados. Uma ficção científica possível, apesar dos cômicos exageros, onde a mudança de comportamento vai além de um simples acontecimento. A mudança está em cada um. Recife talvez nunca seja frio, mas quem é de lá, pode ficar.

A culpa toda é de Kleber Mendonça Filho que brinca de brincar de mudar tudo. Faz de uma idéia louca, um filme louco, mas que faz rir, refletir e imaginar o que leva alguem a pensar em algo assim. A criatividade é um recurso inacabavel e Kleber nos prova isso. Grande feito, um dos melhores curtas dos últimos tempos. Merece ser visto e o absurdo é não querer ver. Papai Noel que se mude pra Recife!

Vitor Stefano
Sessões
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