segunda-feira, 30 de julho de 2012

A Desconhecida

Nome Original: La Sconosciuta
Diretor: Giuseppe Tornatore
Ano: 2006
Elenco: Kseniya Rappoport, Michele Placido, Claudia Gerini, Piera Degli Esposti e Pierfrancesco Favino.
Prêmios: David di Donatello de Melhor Atriz (Kseniya), Fotografia, Diretor, Musica e Filme.
A Desconhecida (2006) on IMDb

A depravação faz parte da base do ser humano. Ver um desfile de mulheres de máscaras e de lingerie, sendo observadas através de um pequeno buraco consegue prender e alimentar desejos mais profundos num ser humano, como num Big Brother in loco. Conturbado por flashbacks, vemos um passado que deveria ser afundado e esquecido por nunca dever ter existido. Como um ritual visto em “De Olhos bem Fechados”, com um sadismo vindo de “Jogos Mortais”, somos levados a um mundo longe do cotidiano e mais próximo da realidade do que deveríamos. Com cortes ensandecidos entramos numa roda gigante de emoções num thriller à Hollywood nas mãos do manipulador de emoções de Cinema Paradiso, Giuseppe Tornatore.

Se a história de Irina fosse contada de forma cronológica, certamente o filme não teria a menor graça, pois saberíamos o que motivaria a sua busca, tornando um filme previsível. Ao vermos a recém-chegada imigrante ucraniana, obcecada por conseguir um emprego em frente de onde mora numa cidade da Itália, nada mais comum. Mas essa obsessão torna-se algo doentio por uma família em específico, com a qual, certamente tem alguma ligação no passado, mas que só saberemos por meio de cortes que mostram o passado obscuro. Não adianta falar muito do filme, pois não quero ser vítima de matadores de divulgadores de spoilers.


Apesar do estranhamento para quem espera outros “Cinemas Paradisos”, o filme é instigante, te prende na cadeira e tem uma marca registrada dos filmes do diretor: Ennio Morricone, que dá a medida certa para cada nova tomada, acompanhando o ritmo frenético que a película se embrenha, mas nunca sem perder o controle. “A Desconhecida” é mais do que um simples thriller, levanta uma questão muito comum nos filmes europeus, mas que nunca deixará de ser importante, que é a questão da imigração, da xenofobia. Há também uma crítica ferrenha acerca de prostituição e tráfico de menores. Questões que ferem os princípios básicos da sobrevivência, mas que é são barreiras que nunca serão desfeitas.  Um filme que vai do belo ao pútrido, mas que não cai na baixaria ou na vala comum. A trama muito bem amarrada cria expectativas inesperadas, sendo um dos melhores suspenses que vi nos últimos tempos. Não é de duvidar que a Nina da novela “Avenida Brasil” tenha um pouco de inspiração em Irina de “A Desconhecida”.


Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Sessões Brasil: Superoutro

Nome original: Superoutro
Diretor: Edgar Navarro
Ano: 1989
Elenco: Bertrand Duarte e Nilda Spencer
Prêmios: Melhor Super-herói Brasileiro por Fernando Moreira dos Santos, Melhor Média Metragem, Direção e Prêmio Especial do Juri do Festival de Gramado 89.
SuperOutro (1989) on IMDb


Esta semana passando os olhos pelo jornal vi a notícia que o filme homem aranha 4 já ocupa o pódio nacional das estreias do mês.O fato despertou em mim a curiosidade de encontrar um super herói no cinema brasileiro.Qual não foi minha felicidade  e surpresa ao me deparar com o anárquico,tropicalista,raulseixista, ocultista,masoquista,egoísta e  leninista marxista Superoutro.
Enquanto procurava um herói imediatamente me vieram à mente lembranças de  Macunaíma e Capital Nascimento, mas vi que o poder mesmo estava no escatológico, desnutrido e insano Superoutro  daí busquei me aprofundar nesse personagem mitológico nacional e acabei descobrindo algumas coisas sobre ele e,por conseguinte,sobre todos nós.

Superoutro se transforma em super-herói depois de ser atropelado por uma moto numa rua escura em direção à qual ele corre por ter pensado ser a luz a vinda do anjo Gabriel. Como qualquer super-herói seu fim é salvar o mundo de uma ameaça extrema, mas contrariamente aos seus parceiros tradicionais ele se insurge contra um vilão que não se assemelha aos de hollywood.Seus inimigos são a Sra.Miséria e a facção do Descaso e da Desigualdade.
De qualquer modo, é desse ambiente malévolo,injusto e marginal que se lança Superoutro,isto é, o "outro" como todos sabemos habita as profundezas de nossos inconscientes e, por vezes, e em alguns casos, ele escapa do limbo e se implanta na realidade.Esse é o seu superpoder o de na loucura de sua situação denunciar, escrachar e ridicularizar o público diferentemente do que fazem os heróis do bem, aliás, sejamos sinceros, às favas o Bem.Respondamos hipocrisia com hipocrisia.
Superoutro é um esquizofrenico nascido para se livrar do ambiente extremamente desigual em que se insere. Ele, contudo o faz da forma mais caótica possível, neste sentido, Edgar Navarro foi muito feliz porque o filme conquista o interesse de espectador logo na primeira cena em que um louco grita de dentro da noite:
ACORDA HUMANIDADE!
Porque quando cotejo com os super heróis tradicionais vejo nosso herói como melhor? Por uma diversidade de fatos,por exemplo, porque ele rouba comida dos turistas, vê revista pornô, recita Castro Alves, dança Banda Mel, assombra transeunte, joga bosta no motorista parado no farol, rouba colar de católica, toca bronha assistindo o “rola entrando” do Silvio Santos, come oferta de macumba e ouve vozes, declara que vai voar em público e desperta a compaixão de uma crente e de um cara idêntico ao presidente Lula que grita abaixo à burguesia ao som do Hino da Internacional Comunista.
Contra tudo e todos, na sua realidade criada, Superoutro cumpre o seu dever patriótico bipolar esquizoide de voar e após decretar ABAIXO A GRAVIDADE se lança do elevador Lacerda na Bahia se torna a pomba da eternidade que,a propósito,não existe,ou seja morre ou não.O filme agrada grego e baianos porque tem dois finais.

Mas afinal de contas o que esse filme mostra?
Bem, em tudo tem subjetividade, mas eu acho que o filme tem um pé na antropofagia porque parodia despudoradamente a noção de heroísmo e, ao mesmo tempo, lida com uma questão muito grave que persiste e que pode ser compreendida como um contexto de extremas disparidades sociais, infelizmente, um pretérito-presente que se quer futuro.
Paralelamente o filme mistura o nacional e o universal seja na noção de Superhomem, seja nas relações que estabelece entre o interno e o externo unindo como se fosse um mosaico um todo com tudo,que reflete a nossa identidade em contraposição, mas também em contato com outras culturas já que há menções a Glauber e a Fellini, à Chitãozinho e Xororó e Fautso Fawcett, Caetano e Nino Rota, berimbau e opera, poesia com orgsmasmo e outos que tais miscigenantes que me parece só nós conseguimos desenvolver e aprimorar.
Finalmente, eu queria deixar registrado a qualidade artística de Bertrand Duarte que deu vida à essa personagem maravilhosa multifacetada cujos delírios lúcidos encantam,apesar de ininteligíveis,mas talvez por isso mesmo,faz com que eu ponha no rol de super-heróis nacionais,em primeiro lugar,o SUPEROUTRO.

"Auriverde pendão da minha terra que a brisa do Brasil beija e balança"

Fernando Moreira dos Santos
Sessões Brasil

terça-feira, 17 de julho de 2012

Para Roma com Amor


Nome Original: To Rome With Love
Diretor: Woody Allen
Ano: 2012
País: Itália, Estados Unidos e Espanha
Elenco: Woody Allen, Alec Baldwin, Roberto Benigni, Penélope Cruz, Judy Davis, Jesse Eisenberg, Greta Gerwig, Ellen Page e outros.
Sem Prêmios.
Para Roma, com Amor (2012) on IMDb



Lá vou eu escrever sobre mais um filme de Woody Allen. Aliás, um grande prazer!
Venha para Roma, que temos muitas histórias! Para Roma, com amor. Penso que seria muito mais apropriado uma vírgula no título.
Já é suspeito qualquer texto que eu escreva sobre Woody Allen, por mais que a crítica tenha caído de pau nos últimos anos, ainda sinto e vou sentir isto por mais alguns anos, espero, que sair para ver Woody Allen é um dos melhores programas de cinema a fazer. Algumas risadas, contextualização e reflexão sobre o nosso tempo sempre acontecerão em meio a uma fragrância quase insuportável de pipoca de balde.
Para Roma, com Amor - reforço que seria muito mais apropriado uma vírgula no título, talvez seja para Roma como uma análise bem grossa lambuzada de KY.  Destruir estereótipos com piada inteligente, holofotizar idiotices dos anos 2000 e de quebra, claro, expor o relacionamento alheio.


De fato, muitos pontos para Woody Allen, mas neste filme há um senão. Qual? Claro, Woody atua – Não é uma atuação das piores, mas se saiu qualquer nota quem sou eu para comentar? Visto que arrancou algumas gargalhadas de três fãs que estavam na fileira de trás. Quem sou eu também para falar mal dos fãs? Deixa, deixa pra lá...
Sou obrigado a dizer que as atuações de Penélope Cruz, Roberto Benigni e todos os italianões tornam-se a graça mais sofisticada e canastrona do filme ao mesmo tempo.
Não há muito que dizer de mais um roteiro, direção e atuação de Woody Allen de minha parte. Aliás, tem um monte de gente dizendo caminhões sobre (o que consegue ser legal também, embora legal muita coisa consiga ser). Deixa que digam!  Sem xurumelas, no fim das contas fica a recomendação – Está pensando em ir ao cinema com este frio que tem feito no Brasil? Entre em uma das salas de Para Roma Com Amor.


Leandro Antonio
Sessões

segunda-feira, 16 de julho de 2012

E aí, Comeu?

Nome Original: E aí, comeu?
Diretor: Felipe Joffily
Ano: 2012
País: Brasil
Elenco: Bruno Mazzeo, Marcos Palmeiras, Emilio Orciollo Netto, Dira Paes, Tainá Müller, Juliana Schalch, Laura Neiva, Seu Jorge, Murilo Benício e José de Abreu.
Sem Premios.
E Aí... Comeu? (2012) on IMDb


Quando vi as primeiras chamadas, ri do nome e temi o fim do mundo. Quando aproximou-se da estreia, vi entrevistas e torci o nariz. Quando finalmente estreou, nem me interessei. Quando me vi sentado na poltrona do cinema, vendo trailers de filmes que pretendo ver, como “Na Estrada” e “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, ao apagar das luzes, virei para minha esposa e disse: “Acho que vai ser uma merda” e ela prontamente concordou e disse uma bomba. Cinema cheio, pessoas falando muito e alto, já gargalhando na espera de rir durante as próximas duas horas. Constato que o imã de tantas pessoas quase que esgotando os bilhetes é Bruno Mazzeo, a razão maior de eu, em condições normais, não estar lá. Mas ingresso dado é ingresso usado. Agora, com certeza, me perguntarão: E aí, sofreu muito? Apesar do clichê, morri de rir, sai do cinema com a impressão que meu fígado estava desopilado e pensando que a comédia brasileira pode ressurgir. Talvez seja muita pretensão ou um tiro de sorte, porém prefiro esperar o melhor a pisar na cabeça do que já está condenado à cadeira elétrica.

A premissa é simples. Três amigos que adoram sentar no mesmo barzinho, se possível no mesmo lugar e tomando sempre a mesma cervejinha. Vemos que o Bar Harmonia é quase um QG, uma taberna onde só se pode falar sobre relacionamentos. Cada um em seu momento, com seu problema, com seus dilemas. Não importa dizer qual o nome dos personagens ou se suas pretendentes está te chifrando, é menor de idade ou é viciada em liberdade, o que realmente importa é que a cada novo encontro, novas ideias são expostas, sempre acompanhados de sua cervejinha e com os melhores pitacos do mundo vindos do garçom Seu Jorge, que já se engraçou com ruiva, japonesa e, obvio muitas loiras, mas as suas prediletas são as mulatas. Sabe tudo. Talvez às mulheres, o filme é muito ogro, mas para os homens sabem como esses papos são corriqueiros e naturais, e por muitas vezes, necessários.


Talvez eu tenha gostado mais do que normalmente gostaria por não esperar nada do filme. Com as últimas empreitadas de Mazzeo com “Cilada.com” e do diretor Felipe Joffily com “Muita Calma Nessa Hora”, “E aí, comeu?” era uma premonição do fim do cinema do gênero comédia para o Brasil, mas com um texto inteligente de Marcelo Rubens Paiva e um elenco afiado e inspirado, o filme surpreende, com piadas de baixo calão, com uma pegada machista, com um papo desencanado e com palavrões saindo das bocas como perdigotos invisíveis de um bêbado falando com um poste, faz rir a valer.  Apesar das previsões obvias e da busca do nada por coisa alguma, o passatempo é deveras divertido. Destaque pelas intervenções do personagem de Marcos Palmeiras sobre os momentos íntimos a dois. Não esperem profundidade de “Afinal, o que querem as mulheres?”, não busquem respostas às questões nunca respondidas, a idéia é apenas ver, rir e depois juntar os amigos na mesa de um bar para filosofar sobre a importância da mulher na vida de nós, homens. Pra falar a verdade, filosofar é falar de putaria.

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Sessões Brasil

Sessões Brasil é um espaço criado, dentro do sessões, para facilitar a vida dos seguidores  e melhor organizar os comentários sobre cinema.

Aqui estarão todos os filmes que comentarmos de cunho nacional, desde ficção até documentário, bem como curtas e eventuais outras produções audiovisuais. Nossa intenção com esse gesto é acompanhar, divulgar, criticar, discutir, discordar, analisar, aplaudir, repudiar, escrachar, escaldar e tudo o mais que vier á mente sobre o cinema auriverde.

O Povo Brasileiro





Eu sinceramente não sei se você já se perguntou sobre o que é ser brasileiro? Já se questionou sobre o que somos? Você já tentou prever qual será o impacto que nosso país terá daqui a 50 anos no mundo? Você já se viu ante uma cultura estrangeira e teve uma crise de identidade? Você está de acordo quando dizem que nosso povo é feliz e cordial, passivo com a corrupção e flexível com a ética e a coisa publica?

Eu já fiz várias dessas perguntas e encontro em mim respostas das mais variadas. Às vezes  sinto me um patriota; outras o um espelho de várias raças bem ao estilo um tanto liberal e idiota de um universalista cuja pátria é o mundo.

De qualquer forma sabe-se, que tentativas de explicação sobre o Brasil sempre existiram. Basta que nos lembremos dos nomes clássicos como Caio Prado Júnior, Sergio Buarque de Holanda, Gilberto Freire, Raymundo Faoro, Florestan Fernandes entre outros, cada um buscando encontrar uma resposta para a pergunta que ainda ninguém respondeu: O que é o Brasil?

 

Dentro desse rol de estudiosos acho que uma das mais memoráveis abordagens é a de Darcy Ribeiro (1922-1997), que foi antropólogo, político, ensaísta, intelectual e um homem dos quais o país deve orgulhar-se de ter dado guarida (pós-anistia).


Esse senhor de óculos fundo de garrafa e trejeitos humildes produziu uma pérola de 435 páginas chamada o Povo Brasileiro na qual ele percorre as origens do nosso país, da nossa identidade e por extensão, de nós, brasileiros filhos do pau Brasil. Toda a produção da obra mor de Darcy Ribeiro está no documentário homônimo em que diversos especialistas tentam entender o Brasil em seus próprios termos, isto é, tentam esboçar uma explicação sobre o que somos.


O documentário, apesar de extenso, não deixa nada a desejar frente ao livro que lhe serviu de base, por se valer claro de recursos audiovisuais que um livro não comporta.

Nele são apresentadas nossas três matrizes fundamentais: a indígena, a negra e a portuguesa e como a partir disso engendramos - por meio de um relacionamento, ora apaixonado, ora violento - um ser novo: um ninguém nos dizeres de Darcy;e dessa “ningüendade” nasceu o povo brasileiro.




“Surgimos, nos dirá Chico Buarque lendo a obra de Darcy, da confluência, do entrechoque e do encadeamento do invasor português com índios silvícolas e campineiros e com negros africanos, uns e outros aliciados como escravos.”


O documentário é dividido em 10 partes cada uma explicando uma matriz cultural do Brasil desde o seu período de descobrimento até o país de hoje abordando os diversos “brasis” que coexistem dentro do Brasil: o Brasil crioulo, caboclo, sertanejo, caipira, gaucho, matuto e gringo.

Além de ser bastante didático é ilustrado por especialistas de diversas áreas que fundamentaram sua vida acadêmica nesse campo tão profícuo que mistura história, antropologia, economia, literatura e sociologia. A narrativa se desenvolve naturalmente sem rupturas como se o processo de formação do Brasil tivesse se dado a partir de continuidades, miscigenações e amalgamas várias tudo ao som da voz de Matheus Nachtergaele.



Apesar de se voltar às origens, o próprio Darcy Ribeiro no documentário tece considerações interessantes sobre os nossos possíveis futuros. E neste sentido ele me parece assaz entusiasta sem que com isso seu pensamento deixe de ser poético e positivamente utópico. Ele diz que Canadá e EUA,assim como a Austrália nada mais são do que povos transplantados da Europa,ao passo que o Brasil, juntamente com a América Latina seria uma civilização em construção permanente cuja identidade porque fundamentada na mestiçagem se faz mais plural, necessariamente mais aberta ao diálogo e consequentemente mais tolerante.

Eu acalento minhas dúvidas sobre o quilate da tolerância brasileira no que concerne à sociedade, mas aceito a ideia de que somos mestiços por definição, sendo indistinguível um português, um italiano ou um alemão que aqui tenha se adaptado.

Por fim, o documentário é maravilhoso e vale as longas horas dispensadas. Apesar de não responder todas as questões esclarece algumas coisas sobre um povo em eterna crise existencial - indício a se comprovar - de que  talvez assim o seja, por trazer em si mesmo, o mundo inteiro.

Fernando Moreira dos Santos
Sessões Brasil

terça-feira, 3 de julho de 2012

Nove Rainhas

Nome Original: Nueve Reinas
Diretor: Fabián Bielinsky
Ano: 2000
País: Argentina
Elenco: Gastón Pauls, Ricardo Darín, Leticia Brédice.
Prêmios: Melhor Ator Estrangeiro (Darín) no Festival de San Jordi.
Nove Rainhas (2000) on IMDb
A grande virtude de um gatuno é aliar sua astucia, rapidez e inteligência para enganar o ser a ser furtado. Também é necessário ter sangue frio e não pensar em ter peso na consciência. Há ainda a preocupação com quem está ao seu lado, em quem você pode confiar, se é que há alguém para confiar nesses momentos. A vida de um contraventor segue uma rotina desregrada onde a oportunidade aparece a cada piscar e é necessário estar pronto para agir. Há quem faça isso por compulsão, há quem faça por necessidade, porém há quem seja profissional em roubar. Precisamos ficar de olho bem aberto para não ser a próxima vítima, seja em Mumbai, Nova Iorque ou em Buenos Aires.

Roubar um pão ou um milhão tanto faz, mas a vida de Marcos e Juan tem nuances muito iguais. Coincidências marcam as vidas de quem vive na linha entre o certo e errado. Marcos demonstra-se um “dono de suas ações”, já Juan parece um pinto no meio do lixo, com sentimentos incontrolados, deslumbra-se com tudo, quer tudo, mesmo com o medo de principiante. O acaso os uniu, a vida bandida é repleta de surpresas que não se podem controlar. A ética numa profissão é tão importante quanto o próprio ato da sua atividade, mas num labor sem escrúpulos, quem tem um pouco de bom senso, leva a melhor, nem que seja o respeito à própria família. A vida de Marcos é uma eterna corrida contra a vida comum, já Juan demostra a cada passo que começa bem na sua atividade, parece dominá-la com sua frieza e movimentos calculados. A vida bandida só fere e surpreende mesmo que seja para conseguir a independência financeira à custa dos selos falsos das tais rainhas.

“Nove Rainhas” é mais do que um excelente filme, tornou-se um marco do “Novíssimo cinema argentino” por conta da morte precoce (aos 47 anos) do diretor Fabián Bielinsky num hotel de São Paulo em 2006. Com apenas 2 filmes (o outro é o ótimo “Aura” de 2005) ele é um mártir de um cinema que é autoral sem perder a sua identidade e capacidade de fixação. Falar de Ricardo Darín é chover no molhado. Sempre ótimo, com atuação sempre intocável. Por esse motivo digo que o destaque é Gastón Pauls na pele do “novato” Juan, onde a trama corre em torno dele, com surpresas a cada novo frame, com o viciante som ambiente sempre ao fundo. “Nove Rainhas” é obrigatório. Bielinsky vive eternamente nas telas do mundo, nas ruas de Buenos Aires.

Vitor Stefano
Sessões

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