terça-feira, 31 de maio de 2011

Perdas e Danos

Nome Original: Damage
Diretor: Louis Malle
Ano: 1992
País: Reino Unido e França
Elenco: Jeremy Irons, Juliette Binoche, Miranda Richardson e Rupert Graves.
Prêmios: Bafta, ALFS Award e NYFCC Award de Melhor Atriz Coadjuvante (M. Richardson), Sant Jordi de Melhor Ator (Irons) e Atriz Estrangeiros (Binoche).

Perdas e Danos (1992) on IMDb



Uma sociedade perfeita não sabe até onde pessoas perfeitas erram. A sociedade moderna, em ua errática estrutural e cavalar, não se suporta erros. A intensidade deve ser moderada, a ganância inexistente, a ética acima de tudo e a parcimônia de vivermos todos num mundoharmônico. Nem num mundo idealizado por filósofos do século IV seria assim. Os conflitos humanos estão aí para determinar o futuro de todos. Se Jesus morreu para nos salvar, era melhor ele ter pensado duas vezes. Olha aonde chegamos.

Políticos corruptos são cada vez mais comuns de vermos e continuam impunes. Mas nem só de escândalos monetários eles vivem. Isso é uma prática que era famosa no passado. Cada vez mais essa raça se envolve em casos ainda mais dúbios para essa sociedade (em busca de ser) perfeita. Dr. Fleming é um líder do parlamento inglês, de família perfeita, com uma conduta política pura. A aparição Anna Barton mudou todo o comportamento “lórdico” do político. A namorada de seu filho desperta nele os sentimentos mais carnais e animais, nunca antes demonstrados - sempre na auto-mutilação de sentimentos para manter a aparência divinal que a vida moderna exige.


Muda a rotina, busca o anonimato, vive numa fuga eterna, mantêm as aparências, a canibalia desperta no coito e a vida segue normalmente, num sonho de deuses e demônios. Tudo isso na mente de Dr. Fleming. Anna, em sua beleza gélida, com um ar puro, desperta os melhores sentimentos no político e cria o caos na vida de uma família tradicional e normal - fria e distante. Anna é uma espécie de anticristo, a anti-heroína, onde seus sentimentos inexistem e onde suas perdas são os pilares de sua existência. Os danos são irreversíveis, mas como uma perfeita viúva negra (explicitado por suas roupas sempre no tom escuro) vive de sua auto-misericordia. A mistura cataclísmica entre Irons e Binoche transpassa para nós que no ato sexual tudo estava fora da ordem. Mas a ordem deles era querer estar fora dela. O mundo além daquilo é oco e isso fica claro com a indignação da Sra. Fleming e no olhar incrédulo da filha mais nova.


Anna demonstra bem o que a sociedade é (e quer). Um monstro de beleza angelical. Para todos perfeita, internamente morta. Somos adoradores de mortos e idolatramos o funesto. Nos vestimos de preto para demonstrar que a nossa auto-piedade vai além dos desejos pessoais. Se existe o bem e o mal, somos o filho dos dois. Malle mantêm sua fama de agitador social e faz com “Perdas e Danos” uma das maiores críticas à sociedade moderna, onde os sentimentos são controlados por uma miserável e aparente paz sem medir as conseqüencias.

Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus

Nome Original: The Imaginarium of Doctor Parnassus
Diretor: Terry Gilliam
Ano: 2009
País: Reino Unido, Canadá e França
Elenco: Heath Ledger, Christopher Plummer, Lily Cole, Andrew Garfield, Jude Law, Colin Farrel e Johnny Depp.
Prêmios: Satellite Award, Leo e CDG Award de Melhor Figurino.
O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus (2009) on IMDb


Ser lembrado como último filme de Heath Ledger é um atrativo, mas ter Terry Gilliam por trás dessa produção pode ser ainda mais interessante. Poucos “loucos” sobrevivem nessa terra de gigantes, neste mundo de seres inimagináveis, onde a imaginação leva aonde nenhum entorpecente consegue. Voar, mudar de corpo, morrer e renascer, estar lá sem nem nunca ter saído do lugar. Dr. Parnassus vai além do Mágico de Oz e consegue nos levar à um mundo tão inusitado: dentro de sua mente, num mundo criado só para ele. Uma espécie de um circo dentro de “A Origem”. Gilliam consegue transpor o limite do aceitavel e a fantasia real renasce nos sonhos dos mais céticos. Ledger está vivo na mente de Parnassus, no mundo do Dr., na história... Ledger é o próprio Parnassus e que assim viva eternamente até nas mentes menos criativas. Gilliam, por você, Live Forever!


Um filme criativo e delicioso sobre até onde o ser humano pode ir. Até onde não sabemos mas vai longe, mas sempre voltará para o seu berço, como um imã que perde sua conectividade por um tempo, mas volta como num instintivo sentimento animal. Ambição, ganância, empreendedorismo e inventividade caminham juntos em busca de um objetivo inovador e visionário. Ultrapassar a linha da verdade e caminhar para os sonhos nos dá a esperança de que o que se sonha, viva dentro do sonho, para que o (des)equilibrio da Terra não invada os mais puros quereres.


A vida é muito mais realidade do que sonho. Ao menos, é isso que penso quando sonho. Nem que seja no Mundo Imaginário que criei. Ou quem eu sou dentro dos meus sonhos criou na minha mente.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Donnie Darko

Nome Original: Donnie Darko
Diretor: Richard Kelly
Ano: 2001
País: EUA
Elenco: Jake Gyllenhaal, Maggie Gyllenhaal, Holmes Osborne, Patrick Swayze, Seth Rogen e Drew Barrymore
Sem Prêmios.
Donnie Darko (2001) on IMDb


Eu não quero entender. Eu já senti. Não sei se ainda vivo, se estou morto, se Gretchen é a mulher da minha vida ou se ela morreu sem que tivessemos ao menos um encontro labial. Minha irmã ficou mesmo com Frank, uma raposa travestida de coelho. Um mal caráter, meu cunhado. Ex-futuro, já esteve presente nas lembranças visionárias dos meus pais. Ah, meus pais. Ah, que vidinha pacata nesse fim de mundo, com cenários maravilhosos, de monotonia enquadrada. Nem a fatídica turbina de avião que me matou mudou algo. Estou aqui ainda, sob a batuta de meu melhor amigo: eu mesmo. Nem os remédios ou a terapia conseguem me ajudar mais do que esse ser aí no espelho. O grande coelho? Ah, é um passatempo para os momentos mais catastróficos. Percebem que ele só aparece quando eu quero? Não? Eu já não tenho controle sobre ele. Ele está em todos os lugares o tempo todo. Uma força sobrenatural, um ser digno de adoração, uma esécie de Nostradamus misturado com Jesus Cristo. Serei eu o Salvador da espécie humana? Os leporídeos estão salvos. Se eu tivesse apenas 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos de vida, faria tudo para salvar o mundo, mas estive muito ocupado aproveitando cada segundo e buscando explicações para o que está acontecendo comigo. Eu me perdi no tempo ocupado com esses buracos no peito das pessoas. Eu estou sem controle. Eles me obrigam a fazer as coisas que estou fazendo. Eles... Só preciso descobrir quem. Professores, estudiosos, gurus, uns animais. De que adianta passar um conhecimento para morrermos sem sabermos nada dessa vida. Os mistérios ninguém decifra, não há explicação, só aprendemos a viver e viver é sentir, seja no passado ou no futuro. Mas é exatamente essa a idéia. Eu não entendi. Mas eu vi e senti Donnie Darko.



Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Os Inquilinos - Os Incomodados Que se Mudem


Nome Original: Os Inquilinos - Os Incomodados Que Se Mudem
Diretor: Sérgio Bianchi
Ano: 2009
País: Brasil
Elenco: Marat Descartes, Ana Carbatti, Fernando Alves Pinto, Zezeh Barbosa, Caio Blat, Leona Cavalli, Aílton Graça e Cássia Kiss.
Prêmios: Melhor Atriz Coadjuvante (Cássia Kiss) e Roteiro no Festival do Rio, Melhor Filme, Diretor e Roteiro no Festcine Goiânia, Melhor Filme, Ator (Descartes) e Atriz (Carbatti) no Festival de Cinema Luso-Brasileiro e Melhor Filme, Diretor e Ator (Descartes) do 7º Prêmio Fiesp/Sesi - SP.
Os Inquilinos (2009) on IMDb


Num mundo muito próximo do real, vemos a vida passar pela janela. Não abrimos muito para quem não percebam que estamos de olho. Cuidar um pouco da vida alheia não faz mal para ninguém. Saber o que acontece, uma fofoca é comum, bom para relaxar, pra saber o que nossos filhos e cônjuges andam fazendo pela redondeza. Vejo o mundo daqui de dentro, com um olhar através das grades de ferro é a maior certeza de que o medo das ruas nos deixa enclausurados, como um cárcere. Observar a vida pela janela é uma espécie de BBB sem Bial, sem poesia e sem um milhão de reais.

O casal Valter e Iara são típicos moradores da periferia paulistana em busca de se ver cada vez mais longe das favelas. Libertar-se dos fantasmas que a orla onde vivem é a meta de vida do casal. Iara cuida de casa e fuma. Valter trabalha durante todo o dia e estuda à noite, nessa eterna busca pelo crescimento, seja lá para onde for. Os dois filhos pequenos são a razão de viver do zeloso casal. Mas essa vida pacata, onde o dia a dia é visto como uma escada para alcançar um status que a sociedade exige, muda por conta dos novos vizinhos que alugaram a casa dos fundos do Sr. Dimas. Aquela vizinhança nunca mais seria a mesma. Festas, bebedeiras, barulho, vagabundagem. Julgá-los como o demônio no meio dos cordeiros tornou-se inevitável, mas o temor de enfrentá-los domina e congela. Indefectivelmente o pior acontecerá se nada for feito. Só não sabemos quem pagará o caro preço pela inércia que a paúra urbana nos causa. Uma paranóia delirante apesar da sobriedade das firmes paredes da angústia. Esses inquilinos...


Sérgio Bianchi é reconhecidamente o maior cineasta político brasileiro vivo. Não pense em partidos, bandeiras ou propaganda, mas sim no escancaramento da verdade vivida pelo povo e que não é visto no cinema comum. De tão escancarado seus filmes anteriores foram deixados de lado, taxados de complexos, duros demais, difíceis e loucos. Não nego que é um cinema duro de se ver, mas importante demais para entender o Brasil em cada momento. Ao contrário dos moradores que retratou, Bianchi é valente, bravo, destemido e faz um cinema verdadeiro para pessoas que não se escondem atrás das grades que tem a vida usurpada. Em “Os Inquilinos” o equilíbrio foi encontrado e a crítica impositiva dos outros longas aqui dá espaço para subjetividade, onde os problemas estão lá, mas não sangrando e chocando. Vemos, pensamos e vivemos essa vida urbana que roda atrás de aparências de um sistema que destrói sonhos e causa o câncer da subserviência nos seres mais (im)puros. Um cinema palpável, de liberdade poética invejável e que define bem o que é a vida social. Vida longa à Bianchi.

Leia o poema Morte do Leiteiro de Carlos Drummond de Andrade. A arte, a poesia e o lúdico imita a vida. A vida como ela é, aqui de forma menos sofrida:

Há pouco leite no país
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.


Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas,
seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.


Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro.
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto
Com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma pequena mercadoria.


E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.


Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.


Mas este entrou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.


Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.


Da garrafa estilhaçada.
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

O restante da filmografia de Bianchi será alvo de comentários aqui no Sessões em breve. Os incomodados que se mudem.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Cinema na Sala de Aula

O cinema é uma arte universal e que atinge todos. Cada vez mais o uso de filmes dentro da sala de aula é constante. Uma prática que facilita o aprendizado pelo seu lado lúdico mas que desperta o lado cognitivo do aluno. Seja com filmes históricos, de guerra, documentários, ficções com um tema claro, o cinema consegue passar informações, se bem trabalhado, que facilita a atividade do docente à frente da sala e o aprendizado dos alunos. Desde o ensino fundamental até faculdades já utilizam essa experiência na revolução da educação do país e na busca pelo aprendizado em tudo que nos ronda. Para inspirar as escolas a darem esse passo seguem quatro dicas de filmes que se passam em escolas e salas de aulas, com lições e críticas aos problemas do sistema educacional que assolam o mundo todo.



Entre os Muros da Escola - A atual França é composta por uma diversidade étnica enorme e a intolerância entre os grupos está refletida nas salas de aulas. O professor François vive diariamente em um recinto que em nada parece o que deveria ser um local de aprendizado. Não há respeito ao mestre, não há interesse e não há educação básica, aquela vinda de casa. Este filme é um retrato de como a profissão de docente é cada vez mais difícil e menos valorizada. Temos grandes embates e as soluções não são as que realmente nós queremos ver. Mas é porque a verdade sobre o que acontece dentro dos muros, é difícil. Clima documental que o filme nos passa deixa tudo ainda mais denso, como se estivessemos sentados na última carteira vendo aquela barbárie acontecer. Que não seja a regra, mas temos muitas exceções por todo o mundo educacional.


Escritores da Liberdade - Este filme, estrelado por Hilary Swank, tem uma temática muito próxima à “Entre os Muros da Escola”, porém é ambientado nos EUA e, apesar de ser baseado em fatos reais, é mostrado de forma ficcional. A novata professora Erin tem a dificil missão de dar aula à sala mais complicada daquela escola. É envolvimento com gangues, grupos formados, uma verdadeira panela de pressão pronta para explodir. A professora consegue entender os defeitos e com técnicas educacionais consegue aos poucos “domar” aqueles “bárbaros” e ensinar além da Lingua Inglesa, um pouco de respeito. Uma lição de mudança comportamental individual e coletiva.


Clube dos Cinco - Fim de semana na escola como penitência. Essa é a base de todo o filme que mostra cinco alunos totalmente diferentes integrados na mesma biblioteca em castigo à atitudes tomadas durante a semana. Aos poucos, com esperteza, sensibilidade, graça, empatia o grupo harmonizá-se como uma pequena família formada em uma tarde. As dificuldades pessoais expostas e compartilhadas fazem dessa comédia dramática de John Hughes um marco da rebeldia dos anos 80. O grupo unido naquele sábado será pequeno clube a partir daquele dia e que dificilmente se separará, apesar da preocupação com as aparências. Grande história de como a escola e sua comunidade podem determinar como cada ser humano sairá de lá.

O Clube do Imperador - A escola St. Benedict’s sempre foi conhecida por ser exclusiva à nata da sociedade norte americana. Apenas os filhos dos poderosos poderiam adentrar e desfrutar da possibilidade de ser ensinado neste recinto. William Hundert (Kevin Kline) é um professor responsável e muito culto, sempre citando os filósofos gregos e romanos, na busca pela formação do caráter daqueles alunos. Tudo vai muito bem e dentro da ordem até que Sedgewick Bell, filho de um importante senador entrar na escola, contestando e criticando o ensino da escola. Apesar dos embates o Sr. Hundert vê em Bell um potencial incrível a ser trabalhado, porém entende que o caráter não pode ser formado, ele já está dentro de cada um, apenas as arestas podem ser aparadas. Grande filme sobre educação e os limites da possibilidade de ensino. Temos nesse filme de 2002 grandes atores da atualidade em uma fase muito jovem, como Emile Hirsch (Na Natureza Selvagem), Paul Dano (Sangue Negro e Pequena Miss Sunshine) e Jesse Eisenberg (A Rede Social).


Parte desta matéria foi veiculada na Revista City Penha, edição 48, de novembro de 2010. E certamente voltaremos a falar sobre cinema na sala de aula de forma mais completa e contundente.

Sessões

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Entrevista com o Diretor Bruno Veiga Neto

Quantas histórias e acordes existem, separam ou juntam os estilos? Jazz e samba, dois gêneros de pegada, de tato, de ritmo. "Do Jazz ao Samba" é o filme do diretor Bruno Veiga Neto, que nos cedeu gentilmente esta entrevista que apesar dos tons descontraídos que o jazz e o samba podem carregar, traz um assunto que é urgente no meio cinematográfico e não é de hoje. Confira, comente, colabore.


Sessões: Conte-nos um pouco sobre o projeto “Do jazz ao samba”.
Bruno Veiga Neto: O filme “Do Jazz ao Samba” não será somente um filme sobre a relação entre esses dois gêneros musicais, mas uma homenagem ao jazz e ao samba, que tanto contribuíram para a música que temos hoje, e aos amantes da boa música que irão encontrar nesse filme momentos memoráveis com grandes artistas brasileiros e internacionais. O documentário “Do Jazz ao Samba” irá colocar a música brasileira no lugar que merece, nivelado com os grandes gêneros musicais do planeta.
Eu não era um amante do Jazz, me tornei depois que comecei a produzir esse documentário. É impressionante começar a entender como esse gênero influenciou não só a Bossa Nova, mas a maioria dos gêneros musicais que se vê hoje inclusive no “mainstream”.
Não é de hoje que a música brasileira é venerada no exterior. Desde o advento do “Orfeu Negro”, filme que em 1960 ganhou entre outros prêmios o Oscar, que o samba misturado com a harmonia do jazz conquistou o mundo. Trazido para Nova Iorque por figuras públicas do jazz como Stan Getz e Charlie Byrd, o ritmo foi empacotado e distribuído mundo a fora como a nova sensação do momento, posteriormente gravada até por Elvis Presley e Frank Sinatra, as duas figuras mais poderosas do showbiz daquela época.

Aqui pelo Brasil artistas da “Nova Bossa” como Roberto Menescal, Carlos Lyra e Nara Leão seguiam fazendo sua música sem muito conhecimento do que estava acontecendo lá fora. Menescal conta em sua entrevista que quando chegou a Nova Iorque, deu de cara com grandes nomes do Jazz, como Gerry Mulligan, Canobal Adams, entre outros. Feliz com a “coincidência”, foi descobrir que todos estavam à sua espera, pois a versão instrumental de “Desafinado” já havia estourado por lá e todos queriam conhecer os autores desse novo ritmo, que fascinou os músicos desacostumados com tamanha “malemolência”.

O filme “Do Jazz ao Samba” vai mostrar esse processo de “exportação” da música brasileira desde Carmem Miranda, passando por Ari Barroso, Milton Nascimento, Ivan Lins, Chico Buarque até os dias de hoje, onde a música eletrônica, misturada com os clássicos do samba, lotam as pistas de dança na Europa e em todo planeta.

Nomes como Ivan Lins, Elza Soares, Marcos Valle, Diogo Nogueira, Haroldo Costa, Léo Gandelman, Tárik de Souza e Roberto Menescal já deram seus depoimentos. Também foram entrevistados artistas da nova geração, como Moyseis Marques, que participou do ressurgimento da Lapa como pólo cultural do Brasil, Marcel Powell, filho de Baden Powell e Mariana de Moraes, neta do grande Vinícius de Moraes.

O filme contará também com músicos internacionais como Will.I.Am, integrante do grupo Black Eye Peas, Jay Kay, do Jamiroquai e a cantora Norah Jones, além de outros artistas e músicos que foram influenciados e são declaradamente apaixonados pela música brasileira.

Músicos como Mike Ryan, completamente apaixonado pelo “Samba Jazz” e pelo jeito brasileiro de ser. Mike é trompetista, etnomusicólogo e compositor de samba/jazz/fusion desde o início da década de 70, já tendo tocado na Austrália, África do Sul e Brasil, onde mora há 15 anos. Aqui sua paixão virou negócio. Mike abriu uma casa de jazz na Lapa, o TriBoz, onde recebe artistas brasileiros e estrangeiros toda semana.
Ele ainda é autor do livro "SALF: Samba Brasil World Music", editado por Almir Chediak, trabalho muito conceituado sobre os ritmos e estilos que foram influenciados pelo samba, como o samba-jazz, o samba-funk e o samba-reggae.

S: A forma de captar recursos não é usual para produções artísticas. Quais os caminhos e as pedras que levaram a entender como sendo a "captação popular" uma forma de viabilizar o projeto?
BVN: O filme, assim como outros filmes do cinema brasileiro, sofre com a falta de patrocínio. Eu estou investindo do meu bolso desde o início das filmagens, mas cheguei num ponto onde preciso de verba para continuar. O processo de edição, finalização, mixagem e masterização é um processo caro. Fora os custos de aquisição de direitos para utilização dos fonogramas e material de arquivo no filme. Dependendo do que seja necessário, fica inviável sem apoio financeiro. Já recebemos propostas de exibição na Holanda, China, Canadá, Estados Unidos e Índia mesmo antes do filme ficar pronto, somente pela divulgação do trailer provisório em inglês através da internet. Pediram que mandasse o filme quando ficar pronto para avaliação. Por isso estamos correndo!

Uma solução que encontrei foi o novo sistema de financiamento já muito utilizado fora do Brasil chamado “Crowd Funding”, ou financiamento coletivo. Nesse sistema, amantes do samba, jazz e bossa nova poderão colaborar com qualquer quantia para que o filme fique pronto. São contribuições pelo cartão de crédito, com valores que correspondem a prêmios como o nome nos créditos finais como agradecimento especial, vagas em oficinas de cinema e até a aparição no filme como figurante e participação na equipe de filmagens e na edição.

Sites como Kickstarter e RocketHub já movimentam milhares de dólares em projetos de filmes, produção de Cd’s e até shows musicais.

Um dos maiores exemplos de financiamento coletivo é o do filme "Blue like jazz", que tinha como meta arrecadar US$ 125 mil e recebeu US$ 346 mil de 4.495 americanos. As filmagens já começaram e o filme deve ser lançado ainda esse ano.

Para quem quiser participar, o documentário “Do Jazz ao Samba” está em parceria com o site Incentivador.com

S: Samba + Jazz. De onde veio a inspiração?
BVN: Eu estava em Nova Yorque para cobrir o Festival de Cinema Brasileiro em Nova Iorque para a Inffinito, empresa realizadora, e uma amiga minha fotógrafa chamada Mari Vianna, me convidou para visitar um Pub de Jazz no Harlem, um dos únicos remanescentes que faz jazz para o povo, diferente de outros clubes que se estruturaram para receber turistas. Lá comecei rodando um curta metragem, mas a medida que fui entrevistando os jazzistas percebi que todos, quando sabiam que eu era brasileiro, falavam da música brasileira como se estivessem falando de algo divino. Teve um dos músicos que até aprendeu a falar protuguês para entender as músicas da Bossa Nova, em especial Tom Jobim. Foi isso que me motivou a produzir um longa metragem sobre a influência da música brasileira no Jazz e seu reconhecimento no exterior, muitas vezes desconhecido pelo público brasileiro.

S: Como conseguiram fazer as entrevistas, sendo artistas internacionais tão difíceis para ter acesso?
BVN: Não foi uma tarefa fácil não. O que me ajudou foi o trailler provisório que montei, a partir do material filmado em NY. A partir dele fui conseguindo a credibilidade necessária para marcar as entrevistas, todos viam que era um projeto sério. A partir daí fui montando o blog e as coisas foram clareando. Hoje temos muitos artistas engajados no projeto, a receptividade do enfoque foi maravilhosa. Estamos nesse momento viabilizando um show com grandes nomes para interpretarem standarts de Jazz e Samba numa linda noite. Mas para isso dependemos de verba.

S: Agora um pouco sobre você. Qual é sua formação no cinema?
BVN: Eu já trabalho com audiovisual há mais de 15 anos, produzindo documentários e séries de tv para canais como Multishow, Canal Brasil, STV, etc. Destaque para a direção do programa de turismo cultural “Mastercard Destino Brasil”, que rodou mais de 200 locais do país mostrando suas riquezas naturais e culturais, sempre com foco no cinema. Também dirigi a série de musicais “Projeto Novo Canto” para a STV, programas musicais que apresentavam o melhor da nova safra de músicos sempre apadrinhados por grandes nomes da MPB. Zeca Pagodinho, Milton Nascimento, Elba Ramalho entre outros participaram desse projeto. O documentário “Do Jazz ao Samba” é a minha primeira experiência no cinema.

S: O que o motiva a fazer cinema e como você descobriu-se diretor?
BVN: Acho que o que me motive é o mesmo que motiva a grande maioria de cineastas. Eu gosto de contar histórias. Mas eu particularmente, adoro as histórias reais, por isso escolhi o documentário. E amo o Brasil. Acho que as manifestações culturais brasileiras são muitas vezes mais reconhecidas e valorizadas por pessoas de fora do Brasil. Por isso tenho como foco filmes que falam da cultura brasileira.

S: Como estreante em longas, qual a sensação de colocar em prática este projeto? E a expectativa da captação?
BVN: Eu na verdade estou muito feliz somente por ter começado! É muito difícil nesse país colocar em prática um projeto, muito nem saem do papel! E foi por isso que optei arregaçar as mangas e começar, pois acredito que depois que começa coisas vão acontecendo para te ajudar a concluir. Mas tem que começar. Com relação à captação, nós estamos testando uma nova maneira de se captar verba para projetos culturais. Não sei se conseguiremos fugir da coisa de aprovar o projeto nas leis de incentivo, entrar em editais, pois o “CrowdFunding” está apenas começando no Brasil. Mas acredito que em pouco tempo já poderemos ter esse mecanismo como um formato de financiamento paralelo as empresas privadas ou estatais, leis de incentivo e editais.

S: Tem outros projetos a serem realizados?
BVN: Sim, com certeza tenho muitos! Rs
Estou dirigindo além desse filme mais dois, que estão em andamento meio que em paralelo. Um sobre o Oswaldo Montenegro, em parceria com o diretor Jorge Brennand Jr. e outro sobre a relação de Canudos, sertão da Bahia, com as favelas do Rio de Janeiro.

S: Vendo no site da produtora BRC-1 vimos o projeto de cinema na escola. Como você vê a possibilidade de integrar a cinematografia com o conteúdo curricular? E como trazer o mundo de trás das câmeras para a realidade de jovens?
BVN: Esse é um projeto muito gratificante. Eu já há alguns anos levo o cinema para as escolas através de oficinas e exibições de filmes e com certeza o resultado é muito positivo. As crianças e jovens tem uma injeção de motivação, junto com aumento de auto-estima, aprendem a trabalhar em equipe e respeitar a hierarquia. Tudo isso além de aprender um ofício que pode os inserir no mercado de trabalho. O mercado audiovisual tem crescido muito, e cada vez mais abre espaço para técnicos como operadores de audio, caboman, iluminadores, assistente de cameras, etc. Eu tenho no meu círculo de amizades casos de profissionais como operadores de cameras e produtores que vieram de comunidades carentes, e hoje são profissionais respeitados.

Para participar e ajudar na finalização do filme “Do Jazz ao Samba” clique aqui. E entre aqui para acessar o blog do filme.

Sessões
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