segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

As Melhores Coisas do Mundo

Nome Original: As Melhores Coisas do Mundo
Diretor: Laís Bodansky
Ano: 2010
País: Brasil
Elenco: Fernando Miguez, Denise Fraga, Fiuk, Caio Blat, Ananda Carvalhosa, Gabriela Rocha, Zé Carlos Machado e Paulo Vilhena.
Prêmios: Melhor Filme, Filme pela Crítica, Diretor, Direção de Arte, Fotografia, Roteiro, Ator (Fernando Miguez) e Edição de Som no Cine PE.
As Melhores Coisas do Mundo (2010) on IMDb


Todas gerações da juventude já foram retratadas na história do cinema. Mas porque essa fase da vida sempre é motivo de retratação? Sempre foi o momento de conhecer novidades, explorar experiências, querer a fase adulta, fugir da infância. Mas a primeira decepção de um ser humano quase sempre é a mesma: porque eu cresci? A identificação com os problemas com as obrigações e responsabilidades faz com que os adolescentes tornem-se temerosos à vida real que os adultos são obrigados a seguir.

Mano é como qualquer maninho por aí. Novo, cheio de sonhos, idéias e quereres. É você, foi você, é seu filho, seu neto. Ele está mais próximo do que você imagina. Ele só quer ser mais um, pegar umas menininhas, curtir com os amigos, trocar uma idéia, viajar, tocar um instrumento, trocar confissões com o irmão. Mas descobrir que os pais se separarão porque o pai vai morar com outro homem muda toda a rotina da casa. Ninguem pode saber. Nem ele queria saber. Aliás, nenhuma família constituida gostaria. Mas a vida não é feita do que queremos.

Pedro, irmão de Mano, retrata um dos maiores problemas da juventude atual. A depressão atingi cada vez mais gente cada vez mais cedo. Problemas de relacionamento com a família e com a namorada fazem com que jovens embarquem em rumos dolorosos e improváveis. A melancolia divulgada em um blog de auto destruição poética é o escape à uma vida que não deve ser vivida. É o alerta para que pais e educadores ouçam, busquem entender e enxerguem a realidade por trás de cabelos na cabeça cabisbaixa que escondem os olhos vermelhos de tanto chorar de dores que não deveriam ser vividas por ninguém, quanto mais por jovens.



Laís Bodanzky consegue com “As Melhores Coisas do Mundo” um retrato primoroso da juventude atual, mostrando uma grande diversidade de estilos em um mesmo lugar, assim como a vida real. Os jovens de classe média podem se ver na tela. São eles com voz. E os pais, verem que a vida dos filhos vai muito além de cadernos, computadores e amigos. Retratar uma juventude transviada aos olhos dos pais reacionários não seria mostrar a verdade. Denise Fraga, como mãe dos meninos, está estupenda, entre a ética de professor e mãe sem entender o que acontece, mostra o quanto é real o afastamento entre pais e filhos na vida real.

“As Melhores...” deixa detalhes marcados na mente. Como não lembrar do olhar da Carol mudando de direção no momento do beijo, no tempo de Mano parado enquanto o mundo segue seu ritmo incontrolável. Seja com o bullying inconsciênte, no ônibus indo e voltando, ao ouvir Something. É um dos melhores filmes de 2010, com uma história que podemos ouvir todos os dias, recheado da técnica perfeita aliada a um roteiro dinamico, atual. Ela prova que o cinema brasileiro é mais do que desgraça, mais do que o sertão árido e perverso, mais do que uma melancolia infindável. O cinema brasileiro pode ser grande. É grande!

Se “A Rede Social” retrata a geração Y com propriedade, “As Melhores...” retrata o que será a W, dialogando com naturalidade e perfeição sobre essa juventude média, excluida, criativa em criar mundos exclusivos e impenetráveis. Já vimos rebeldes, hippies e revolucionários. Agora é a vez de ouvirmos as vozes dos jovens sem voz, sem esperança, sem força. Cada um em seu blog, em seu mundo virtual, em seu diário, vomita medos e insegurança. Comer e sobreviver é o que nossa juventude faz, com a força de uma ameba contra um dinossauro, como um bichinho virtual, apenas com a certeza que a vida terá o fim, mesmo que o suicídio seja a via mais fácil (ou difícil) para chegar lá.



O elenco jovem cheio de surpresas ótimas e atuações precisas, até porque eles estão alí interpretanto a sí proprios na vida real. Miguez é destaque como Mano, ótimamente acompanhado por Gabriela Rocha como Carol. A grande surpresa fica pela surpreendente atuação de Fiuk como o melancólico-suicida Pedro. Seu estereótipo ajuda a compor o personagem disconexo e confuso. Essas “crianças” amparados pelos “vovôs” Denise Fraga, Caio Blat e Paulo Vilhena formam um elenco harmonioso. Laís novamente consegue emocionar, nos envolver. E cada vez que toca Something, é impossível não ficar tocado.


Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

The Wonders - O Sonho Não Acabou

Nome Original: That Thing You Do!
Diretor: Tom Hanks
Ano: 1996
País: EUA
Elenco: Tom Everett Scott, Liv Tyler, Johnathon Schaech, Steve Zahn, Ethan Embry, Tom Hanks e Charlize Theron
Sem Prêmios. Indicado ao Oscar de Melhor Canção Original.
The Wonders - O Sonho Não Acabou (1996) on IMDb
Se a intenção era criar uma música que transcendesse a história e ficasse marcada na história, Tom Hanks conseguiu. Deixar o filme no top dos grandes clássicos pop, talvez chegue numa dessas loucuras transviadas que faz de trash em cult. “The Wonders” cria uma bem-querência sobre a música, o clima juvenil, criar uma banda, as paqueras, as intrigas e um olhar acalorado por ver alguns grandes artistas em início de carreira. Não me venha dizer que não conhece o filme, senão o sonho acabou. Duvido que você não se pegue cantarolando That Thing You Do.

Criar uma banda é um sonho de muitos quando jovens. Alguns até conseguem, chegam lá. Mas crescer, aparecer em 1964 onde as informações eram poucas e as músicas só tinham o rádio para serem veiculadas, deixava tudo na esfera do sonho. Muito ensaio, dedicação e esforço não adiantam se não há talento. E os Oneders faziam tudo isso, só faltava soul, ginga, força. Faltava alma que só um grande baterista pode dar. E isso acontece quando Guy Patterson entra na banda no lugar do titular que acabara de quebrar um braço. Na batida, na mudança, no improviso tudo mudou. Oneders que era uma bandinha de uma cidadezinha criou asas, chamou atenção dos empresários, mudou de nome, criou vida como The Wonders e conquistou a America. Mas nem tudo são flores. As bandas costumam ter problemas diversos. Mas não espere ver um Keith Richards e seus problemas com álcool e drogas. Aqui, os meninos dos Wonders estão mais para Restart do que para pedras rolando e o maior problema visto é o de relacionamento, discordância musical e mulher. Ah, sempre elas.


As performances das músicas nessa ascendência da carreira são empolgantes, incentivadoras de bate perna, marcar a batida com a mão, balbuciar o refrão e deixar-se empolgar com o clima das apresentações. É o grande trunfo. A atuação da banda em atividade é muito boa, totalmente convincente, ao menos a um cego quando o assunto é coordenação instrumental e um mero ouvidor de música. Ao vermos tantos rostos familiares em jovens sem experiência, atuando aparentemente sem pretensões tudo fica mais acolhedor. Amparados pelo grande Tom Hanks, as belas Liv Tyler e Charlize Theron roubam a cena e são as que tiveram maior sucesso na carreira, mas não podemos esquecer-nos de Steve Zhan, Tom Everett Scott e Giovanni Ribisi que conseguiram algum nível de aparição ao grande público. O ostracismo ficou mesmo pelo líder da banda Johnathon Schaech que não fez mais nenhum papel de grande importância.

Adam Schlesinger foi o criador do grande trunfo de “The Wonders”, ótimamente utilizado por Tom Hanks, produtor e diretor do filme. “That Thing You Do” é grandioso chiclete nos tímpanos de qualquer ser humano que tem o sentido da audição. O filme empolga, envolve e deixa um belo sorriso nos rostos de quem o vê. Apesar do sonho sempre virar realidade e deixar de existir.


And i try and try to forget you girl... Ah, agora não sai mais da cabeça...

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A Última Ceia

Nome Original: Monster’s Ball
Diretor: Marc Foster
Ano: 2001
País: EUA
Elenco: Billy Bob Thorton, Halle Berry, Heath Ledger e Sean Combs.
Prêmios: Oscar e Urso de Prata de Melhor Atriz para Halle Berry.
A Última Ceia (2001) on IMDb


O pior do ser humano está dentro dele mesmo. Esquecer esse pior, só depende de si próprio. Mas quando a instituição da família não suporta e sobrepõe o mal existente, a vida fica ainda mais dificil. As atitudes não condizem mais ao que aprendeu e ao catequismo moral que somos atribuidos por toda a vida. As reações de ações descontroladas e de inconformidades que o mundo causa são incompreendidas aos que vêem com os olhos cheios de pudores e preconceitos, porém normal e aliviador a quem a angustia domina e mata aos poucos.

Hank é um ser amargo, inescrupuloso. Sua função como guarda penitenciário em uma prisão do sul americano é a sua maior glória. Destruir sonhos dos outros era uma obrigação, dos negros, um prazer. A veia separatista dos brancos à maioria negra do Sul é histórico e com Hank, é genealogicamente incorporada pela pessoa de seu pai, Buck, que é cuidado pelo policial. Sonny segue os passos do pai, não na ideologia, mas sim, na carreira. Sonny é o maior contraponto de Hank. Nem parecem pai e filho, parecem os maiores inimigos dos antigos westerns, em duelo marcado por ódio, nojo e sangue. A vida em família parece mais a vida de um bunker em guerra. Só a tragédia para fazer pensar.


Já a vida de Letícia é digna de uma via crucis. Lawrence, seu (ex)marido, pai de seu filho, será executado na cadeira elétrica. Suas visitas, diz ela, são exclusivamente por conta de seu filho, que tem um grande problema de obesidade infantil, e a própria mãe é na ânsia de controlá-lo, só cria um fantasma para o pequeno. Tudo poderia mudar? Só fatos grandiosamente incontroláveis e dolorosos para alterar o rumo de uma vida sem sucesso e sem perspectiva de futuro. O futuro de Letícia não parece pertencer à Deus, parece que o Diabo controla cada passo. A desgraça é tão corriqueira que não há como pensar em paz em tempos de caos. Uma atendente afro-americana de lanchonete, com a cruel morte do marido e com o filho problemático. Só a tragédia para fazer mudar.


As tragédias das vidas de Hank e Letícia são mais parecidas do que seria imaginável. A mudança no momento crítico encontra-se no apoio de mutilados, onde apenas apoiando-se um no outro seriam capaz de seguir em frente. A raiva, o sexo, a culpa e o tesão é apenas um toque de fuga no sentimento da desgraça humana. A vida seguirá, com um vazio, mas com novas perspectivas de paz. O futuro é uma incógnita, mas indubitavelmente será melhor do que o passado, que nunca será esquecido. A saudade sempre estará lá.

“A Última Ceia” vai além do drama dos personagens. É uma complexa análise de temas crueis e incômodos. O preconceito, a morte, a pena de morte, o separatismo e o sexo no cinema. Muito falou-se do filme por conta da tórrida cena de sexo entre Hank e Letícia, vividos por B.B. Thorton e Halle Barry. O vigor com qual foi filmado e vivido, dentro do momento do filme, é uma cena de libertação, de impulso e de fuga do mundo real. Apesar dos movimentos pelvicos e nus, a sexualidade fica implícita após tanta carga dramática que causou tal atividade. Exagerado, talvez. Mas a força trágica deixa o sexo selvagem com ares de uma caminhada numa estrada de terra numa tarde chuvosa e sem vida no horizonte.


A doação dos atores em seus papéis é definitivo para que o trabalho de Marc Foster fosse reconhecido. Ele que depois faria “Em Busca da Terra do Nunca”, já mostrava aqui que trabalhar com um elenco de ponta é fácil para ele. Halle Barry em seu maior papel, consagrado e marcante por ser a primeira mulher negra a ganhar um Oscar, B.B. Thorton sempre impecável, Heath Ledger em um pequeno papel, porém impactante e Sean Combs fazendo sua primeira atuação de grande reconhecimento. Sean é conhecido também como Puffy Daddy, atualmente, P. Diddy, grande rapper e produtor musical. “A Última Ceia” é impactante, dolorido mas deixa uma ponta de esperança quando tudo parece perdido.

Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Divagações de Fernando: O cinema é o divã

É muito importante que quebremos nossos preconceitos artísticos.

Cena de "Noites de Cabíria" de Federico B(F)ellini
Bellini* e Bodard* acho que devem ser zuados por serem intelectualóides. Veja, eu conheço dois filmes do Bodard e vi que têm valor estético e tal, porque me fizeram refletir e me tocaram de uma maneira sensacional, as minhas sensações, digo

Eu admito uma incapacidade de gostar de Almodóvar, porque um cara no cursinho era tão cheio de si, parecia ser o moderninho do mundo, saca aqueles que se acham na crista da onda do cinema, menos do que apreciam a parada para si mesmos.

Penélope Cruz e Pedro Almodóvar
Tipo, parecem que gostam para falar que gostam e não porque são tocados pela obra. Daí eu ter muita dificuldade com Almodóvar e é foda isso, porque a professora de espanhol da facul, é doente por Almodóvar. Ela mostrou um filme dele que não saiu aqui, acho que se chamava Tacones Vermelhos ou Distantes*, não lembro mas a tradução era tipo o barulho dos tamancos e tal e eu achei absurdamente bom. Me perdi no roteiro várias vezes e fiquei pensando comigo mesmo que cabeça poderia conceber uma história tão boa e bonita com interpretações monstros, mulheres de uma personalidade marcante pra caralho e de diálogos destruidores.

Mas, lá de baixo veio o preconceito: "Almodóvar é tudo! Que se dane o cursinho hoje eu vou ver o filme do Almodóvar pela oitava vez!!!!” e o bosta do muleque queria prestar RI (Relações Internacionais) hoje faz Ciências Sociais lá na facul. Quando ele me viu, virou a cara, mas eu fui falar com ele e disse que tava fazendo aula de cinema de optativas. Ele olhou de um jeito arrogante e perguntou: "O que você entende de cinema, Fernando?". Acentuando o RRR, tipo Ferrrrrrrnando!!!!!

Eu abreviei a conversa dizendo que graças a Deus sabia muito pouco e o que tenho aprendido se devia ao blog – comentei pra ele isso – ele deu uma risada, meio que meneando a cabeça e disse: "Sei, blog de cinema Ferrrrrrrnando? Sessões? UAuahuahauahu...."

Daí ele perguntou o que eu tava fazendo falei que era RI (Relações Internacionais) e saí fora. Disse que precisava escrever sobre um filme pro blog. Ele deve ter ido assistir algum outro filme do Almodóvar pra comentar nas roda de amigos e ter o que falar é claro, muito importante que se tenha o que falar hoje em dia!!!!!

Então, acho que o ambiente – e o Sessões tem colaborado para isso – é um fator que exerce uma influência pesada na nossa apreciação e julgamento. De qualquer forma, tenho tido uma boa experiência com Almodóvar mas ainda não me sinto seguro para escrever sobre ele. Às vezes ele me parece mais um pintor do que um cineasta e eu acho que gosto mais de escrever sobre filme do que falar das cores de uma tela. O foda é que o Kurosawa é pintor, mas a abordagem dele em sonhos me cativou a ponto de eu rascunhar umas coisas sobre ele.

Cena de "Os Sete Samurais" de Akira Kurosawa
Woody Allen é um fodão que pra mim poderíamos passar completamente sem. Não li nada sobre ele, não vi nenhum de seus filmes e discordo frontalmente daqueles que o amam. Acho uma bosta, mas desconfio que se eu compreender a obra do cara minhas resistências a ele se reduziriam pra casa do zero. Ou não posso continuar odiando porque não é o meu gosto estético.

Mas eu luto todo o dia contra o meu preconceito a alguns filmes e a algumas abordagens estéticas. Importante isso, meu professor falou muito sobre os filmes do Tarkovski e outros filmes de arte, aqueles bem cansativos, e depois terminou a aula com uma frase que se contrapunha a tudo que ele havia dito. Em conclusão, disse ele: "é maravilhoso e não é pra qualquer espectador". Detestei a conclusão porque me soou elitista. Expus isso. E ele rodopiou longamente e caiu no mesmo lugar....afirmando que era inescapável...essa condição....

"Vai tomar no cuú", pensei!!! Depois balanceei, porque talvez ele tivesse razão. Deixei quieto tava tarde pra caralho e eu tinha uma hora de viagem de volta pra casa ainda......

Cena de "Solaris" de Andrei Tarkovski

Eu torço para que chegue um dia em que os limites do cinema sejam reduzidos a nada. Não seja possível mais diferenciar um filme de ficção científica de um documentário nem um filme de arte de um filme comercial, nem de arte sacra da profana.

Fernando Moreira dos Santos
Sessões

Agora veja mais divagações, agora durante a colação de grau do profissional de relações internacionais:



Edição e Publicação: Vitor Stefano e Leandro Antonio. O texto foi extraido de um e-mail longo, inteligente e diariamente corriqueiro de Fernando Moreira dos Santos.

Glossário:

* Bodard = Referência sessônica ao diretor francês Jean-Luc Godard.
* Belini = Referência sessônia ao diretor italiano Federico Fellini.
* Tacones Lejanos ("De Salto Alto") de Pedro Almodóvar

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Tempos de Paz

Nome Original: Tempos de Paz
Diretor: Daniel Filho
Ano: 2009
País: Brasil
Elenco: Dan Stulbach, Tony Ramos e Daniel Filho
Prêmios: Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de Melhor Figurino, Roteiro Adaptado. Melhor Ator (Stullbach) no Prêmio Contigo! de Cinema.
Tempos de Paz (2009) on IMDb

Guerras e ditaduras são temas já clássicos do cinema moderno. Sempre há novos filmes sobre essas desgraças que dominaram, dominam e sempre dominarão esse mundo capitalista-e-aparentemente-livre. A Segunda Guerra Mundial e a Ditadura Brasileira já foram retratadas com muita dureza na tela grande. Mas aqui, com “Tempos de Paz” as memórias e lembranças de dois seres humanos, cada um na sua visão, montam esse lindo retrato de como as pessoas podem ser um pouco melhores apesar do caos que nos cerca..

Se esperamos tortura e escravidão de um mundo tranformado em campo de batalha, temos nas personas de Segismundo e Clausewitz uma redenção. Nunca em perdoar as barbaries e lembranças que o “ditadorzinho” de nome deselegante, mas de reconhecer que não há muito o que fazer quando estamos sob a batuta de uma onda maior. Como um tsunami de perversidades numa terra de ninguem. Já Clausewitz mente. Sim, agricultor, ator, vidente, psicanalista ou advogado tanto faz. Ele só quer a “Terra Esperada”, a cura para suas dores, a vida para a morte anunciada. E qual é a penitencia que pagamos por estarmos vivos? Viver... Viver é um sacrifício. Basta viver... para estar vivo. E que aliviem nossas dores com os prazeres do mundo.

“Tempos de Paz” é mais do que uma história sobre o holocausto e a ditadura nacional. É uma homenagem ao oficio de ator. Tanto pela chegada do ator Clausewitz no Brasil, mas, principalmente, pela atuação estupenda do ator Dan Stulbach. Mais do que escrever milhares de adjetivos, veja esse trecho onde o polonês recém-chegado declama “A Vida é um Sonho” de Calderon de La Barca.


Isso é uma homenagem ao mundo do teatro, à arte de atuar, ao respeitável público que merece o agraciamento por grandiosas realizações. A arte de adaptar teatro ao cinema é complexa e costumeiramente equivocada, mas em “Tempos de Paz”, a capacidade de Daniel Filho é provada e comprovada com a adaptação de “Novas Diretrizes em Tempos de Paz", de Bosco Brasil, mudando a visão de que ele só é capaz de grandes produções e comédias-televisivas transformadas em longa-metragens. Há certa graça em ver uma peça finalmente bem transformada em filme, algo nada comum, principalmente nessas terras. Mas os louros definitivamente ficam com a grandiosidade de Dan Stulbach, que espalha seu brilho à todos e à tudo ao seu redor. A vida não pode ser vivida sem esse amor. A esperança de dias melhores é real e que venha mais “Tempos de Paz”.

Vitor Stefano
Sessões

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Cinema e Literatura: Lars Von Trier e Marquês de Sade

Nome original: Dogville e Justine:As desditas da virtude
Diretor: Lars Von Trier e Marques de Sade
Ano: 2003 e 1791
País: Co-produção de Vários países Europeus
Dogville (2003) on IMDb
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
É de muito interesse a relação de amor e ódio que estes polêmicos artistas conseguem despertar nos corações de seus cultuadores e detratores, talvez a causa se encontre no fato de que eles contam histórias que nos fazem pensar em assuntos tabus e de aceitação complicada. O que os torna “persona non grata”.

Estou falando de Lars Von Trier e de Donatien Alphonse François mais conhecido como Marquês de Sade. Aparentemente não haveria motivos para escrever sobre duas personalidades distintas no tempo e no espaço, nas artes e na vida não fosse o fato de que os dois partiram do mesmo ponto de vista filosófico para se expressarem: Lars no cinema; Sade na Literatura/teatro;ambos compartilham de uma visão pessimista do homem, da sociedade e da moral.

Esse tema da descartabilidade moral do homem e a perversão da sociedade pode ser visto em duas obras de relevo destes dois artistas. No caso de Lars Von Trier analisarei Dogville e no caso de Sade analiso a obra Justine - as desditas da virtude- e estabeleço paralelos entre elas apontando suas semelhanças e seus pontos de divergências.

Datado de 2003, Dogville por seguir alguns dos 95 dogmas – que é algo discutível do ponto de vista dos estudiosos - alguns o considerando como um manifesto artístico outros como uma mera jogatina marqueteira voltada à divulgação de seus participantes – estabelece, de chofre, uma distinção que acompanhara os telespectadores durante suas quase 3 horas: não há cenários,isto é, nesta vila, a igreja, casa, escola e assim por diante, o que deveria ser paredes são apenas linhas coladas com fita crepe no chão determinando o nome e o espaço de cada lugar. A região é alguma parte anecumênica das montanhas rochosas e seu interior é apresentado por uma câmera que vem do plano superior e a voz do narrador que se apresentará ao longo do “conto” ora algo imparcial,ora algo escrachado, ora imbuído de uma ironia fina e cortante.


O filme é sobre uma garota – chamada Grace, interpretada por Nicole Kidman – que chega à dogville fugindo de um grupo de capangas e é recebida pelo autointitulado filosofo local Thomas Edison Jr, que convence a população a dar abrigo à Grace em troca desta se fazer querida pelo grupo, já que ela é uma outsider.

Para tanto, Grace procura ser útil ao grupo embora sem saber como. Ao perceber o seu deslocamento em Dogville, o filósofo a aconselha a começar por “something that you would like done but that you don’t think is necessary”.Aos poucos, Grace passa a ser aceita na vila, mas ao mesmo tempo um contratempo vem fazer com que sua permanência em dogville torne-se mais custosa.

Trata-se da polícia que está a sua procura e os habitantes de Dogville, para se manterem sob o perigo das investidas da força pública começam a “mostrar seus dentes”.Com a desculpa de permanecerem calados Grace é submetida à exaustão física, humilhação moral e abusos sexuais.

Já o conto Justine -les malheures dês las virtues- pertence ao século XVIII e nele Sade nos trás a história de uma garota que sofre os maiores infortúnios para se manter virtuosa. Brevemente, temos duas irmãs (Justine e Juliette) opostas uma da outra.

Juliette se rende aos vícios da sociedade francesa e alcança o seu topo, Justine, se preserva de toda a hipocrisia e padece os maiores suplícios no subsolo da escada social burguesa.

O conto narra a história de uma maltratada o que faz com que o leitor sinta sentimentos de pena e compaixão mas antes que tais sentimentos tenham tido tempo de se sedimentar Justine fala com amor da pessoa que a maltrata o que gera uma contradição na mente de quem lê.

 








Desta forma, tanto quanto em Dogville quanto em Justine os opressores são tratados com enfermos que precisam de tratamento, que gera pena, aquele idéia velha do tratamento do bom samaritano: “tratar bem ainda que sofra”. Os supliciadores, nos dois casos, possuem as mais diversas caras – padres, colegas, velhos, ricos e pobres.

O que fica é a ambivalência, a cegueira, a dependência e a solidão destes mártires femininos cuja única tristeza na vida é não terem podido ajudar esses seres miseráveis que as oprimem.

Tanto Grace quanto Justine padecem de um complexo de masoquismo moral em que o sofrimento que recebe serve para expiar a culpa de si mesmo. Há uma estranha forma de sacrificar a subjetividade em prol do outro. O fundamental é que o outro goze. A diferença é que cada uma tem um destino .Grace se subleva –após uma conversa franca e creio mais belas do cinema de Lars - com seu pai e genocida Dogville e Justine morre com um raio que entra pela boca e sai pela vagina.

Em síntese: Lars adora Sade, mas Sade é mais sádico.
Justine está passando no Satyros. Dogville deveria passar todos os dias no canal aberto.

Fernando Moreira dos Santos
Sessões

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Minhas Mães e Meu Pai

Nome original: The Kids are All Right
Diretor: Lisa Cholodenko
Ano: 2010
País: EUA
Elenco: Annette Bening, Julianne Moore e Mark Ruffalo.
Prêmios: Prêmio Teddy de Melhor Filme no Festival de Berlim, Globo de Ouro de Melhor Filme Musical/Comédia e de Melhor Atriz em Musica/Comédia para Annette Bening. 4 Indicações ao Oscar.
Minhas Mães e Meu Pai (2010) on IMDb



A constituição das famílias modernas parecem mudadas. É cada vez mais normal vermos mudanças na estética de composição dos membros com a liberdade sexual e homoafetiva. Em “Minhas Mães e Meu Pai”, Nic e Jules formam um casal que vivem tranquilamente com seus filhos Joni e Laser, como uma família comum. Para o casal não há nada de errado em ter duas mães. Mas, como nasceram? A partir dessa dúvida de Laser, a busca pelo doador dos espermas que os germinaram, começa a desestruturar o alicerce da família moderna perfeita. Um pai? Duas mães? O pensamento liberal está cada vez mais presente nos jovens. Que aprendamos com eles a respeitar e tentar entender tudo isso que parecia contrapor as impostas “regras da vida”.

Ver casais gays na telona já tornou-se normal nos últimos tempos. A liberdade de expressão e a sexualidade cada vez mais é aceita por essa sociedade ocidental-mutante. No filme, a relação do casal vivido pelas incríveis Annette Bening e Julianne Moore é demonstrado da forma mais corriqueira possível. Quando Paul (Mark Ruffalo) surge como pai biológico, a vida perfeita parece um castelo de areia que a onda vem e leva. O ideal estético imposto pela sociedade repõe barreiras que já haviam sido sobrepostas. Porque não um homem e uma mulher? Porque não tentar? Se esses filhos são tão maravilhosos, o gene masculino certamente o é. E com a aproximação dos filhos com o “novo” pai criam conflitos e fantasmas na vida do casal.



Com certo apelo emocional, “Minhas Mães e Meu Pai” consegue tocar em pontos clichês já abordados pelo cinema porém de forma sutil e leve. Se a história fosse de um casal heterossexual, teriamos aqui mais uma histórinha para Tela Quente e totalmente esquecível. Contar histórias de homoafetividade entre mulheres obviamente é mais fácil e mais “aceitável” pelos terráqueos do que entre homens. Lisa Cholodenko acerta na simplicidade, exatamente onde Aluizio Abranches errou ao tentar acumular tabus em “Do Começo ao Fim”. Aqui temos um grande elenco com atuações precisas, que vão além do casal lésbico formado pelas duas ótimas atrizes, mas vejo Ruffalo em um de seus melhores papéis, calmo e natural, como Paul deve ser. As crianças também tem certo apelo. Alguns momentos de felicidade são causados nesse drama da “vida real”, porém ainda há quem o considere uma comédia. A vida real nunca pode ser classicada num só gênero, mas que tenhamos muito do que rir, porque vivemos para chorar.

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Como Era Verde Meu Vale

Título Original: How Green Was My Valley
Diretor: John Ford
Ano: 1941
País: EUA
Elenco: Walter Pidgeon , Maureen O'Hara, Anna Lee, Donald Crisp, Roddy McDowall
Prêmios: Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Diretor de Arte, Melhor Fotografia
Como Era Verde Meu Vale (1941) on IMDb

Esclarecimento:
Este filme merece figurar em qualquer pauta sobre o Oscar, foi o grande vencedor de 1941 e colecionou 5 estatuetas: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Diretor de Arte e Melhor Fotografia. Nossa! Para que esclarecer isto? Vamos adiante!



“Como Era Verde Meu Vale”, o título já é um suspiro de nostalgia. Nostalgia que resulta no que eu chamo de cinema perfeito, resultado da equação: Entretenimento+Emoção+ X. Tudo bem que esta é uma equação simples, em se tratando de filmes, as equações podem chegar ao cúmulo e tornar-se até inequações, mas que importância tem isto? Vamos adiante!

Tem gente que tem saudade até do que não viveu, acredita? Pois é, isto aí sou eu! “Como Era Verde Meu Vale” é um filme que define uma parte de mim que aprendi a reconhecer. Meus 27 anos carregados de passados fizeram-me voltar a 1941 e rever o grande vencedor do Oscar:

Um senhor, ao qual John Ford não quis revelar o rosto, enrola seus pertences no velho xale de sua mãe. É a última vez que verá seu vale como é hoje, pois é muito mais nítido e próximo um vale que o tempo talvez tente, mas não consegue distanciar. De começo, o homem já diz algo que faz muito sentido aos saudosos congênitos:

“Estranho que a mente esqueça tanto do que se passou há apenas uns instantes, e retenha, de forma clara e viva a memória do que se passou anos atrás, de homens e mulheres mortos há tanto tempo. Porém, quem dirá o que é real e o que não é? Posso crer que todos os meus amigos se foram, quando suas vozes continuam exultantes em meus ouvidos? Não. E continuarei a dizer não e não outra vez, pois eles continuam vivos em minha mente. Não há cerca, nem barreira em torno do tempo passado. Você pode voltar e viver o que quiser dele, se puder lembrar. Portanto, ao fechar os olhos, meu vale como é hoje, pode desaparecer e o vejo como ele era quando eu era garoto. “

Algum filósofo já deve ter dito isto, mas se não, me atrevo dizer eu: A felicidade não pode ser condição do tempo presente, ela existe de fato no paraíso glorioso do passado e é a ambição e busca para um tempo futuro. O que resta no presente é fechar os olhos para ver os verdes vales do ontem e vislumbrar vales ainda mais verdes (diferentes) do amanhã. Os verdes de outrora fazem pensar que valeu a pena e os louros do futuro motivam na fuga da melancolia. O agora é importante porque é o tempo da percepção. A vida é um jogo de três tempos.

“Como Era Verde o Meu Vale” traz a sensação da viagem. Convida o espectador a passear pelo seu próprio tempo e sua própria história tendo o cinema como condução.




Leandro Antonio
Sessões

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Em Busca da Terra do Nunca

Nome Original: Finding Neverland
Diretor: Marc Foster
Ano: 2004
País: EUA e Inglaterra
Elenco: Johnny Depp, Kate Winslet, Dustin Hoffman, Julie Christie, Radha Mitchell e Freddie Highmore.
Prêmios: Oscar de Melhor Trilha Sonora.
Em Busca da Terra do Nunca (2004) on IMDb


Um conto de fadas é feito mistérios, magias, musica, criatividade e de um bom contador de histórias. Viver num mundo do faz de conta é um modo de aliviar as dores do mundo que teimam em pressionar nossos ombros, jogando-nos contra o chão. A vida já nos é muito dolorida para vivermos apenas no mundo real. Só é possível aliviar tudo isso, com uma boa dose de felicidade. Que nos embriaguemos com tal pó mágico e que a Terra do Nunca seja o verdadeiro Paraíso.

A biografia do autor teatral Sir James Matthew Barrie pode ser considerada uma fábula. Uma linda história sobre deixar o pensamento aberto e ativado para vermos o que é invisível e entender o que é inexistente. Um exímio contador de histórias em crise, encontra na família Davies sua inspiração. Com a viuva Sylvia e seus filhos se liberta da vida monótona, sem alegria e anti-inspiradora. Encontra a inspiração que parecia morta e que trazia desconfiança sobre seu trabalho. Vivendo essa nova realidade, James entra num novo mundo, deixando os aspectos terrenos no passado e criando novas perspectivas e criando uma realidade paralela. Porém, enquanto o ceticismo do pequeno Peter ainda persistiu, não houve magia e libertação. Os Meninos Perdidos da Terra do Nunca só existe quando todos estão no mesmo barco. Só assim misturariam índios, jacarés, fadas, piratas e tudo que cabe na mente pura dos pequenos. Só assim Peter Pan nasce.



A história vai além do modo de criação da famosa peça do Sir Barrie. Vai muito além de um filme infantil contando a história de Peter Pan. Conta a história da transformação, da mudança, do real ao imaginário. E o grande trunfo é exatamente os problemas e dificuldades que nos trazem para o chão e nos fazem refletir sobre os problemas do mundo e os problemas que criamos para as nossas vidas. Tudo é lindo quando acreditamos que é. Todos podemos ter a vida perfeita, é só querermos e acreditarmos. Mesmo quando a mais adversa das notícias ocorre, devemos acreditar... em tudo que quisermos.

O suiço Marc Foster mostra-se um diretor muito eclético. Migra de filmes de gêneros totalmente diferentes, com propostas dúbias, mas sempre realiza com muita força. Após o polêmico e estraçalhador “A Última Ceia” dirige essa linda história do criador de Peter Pan. Também é de Foster “Mais Estranho que a Ficção”, “O Caçador de Pipas” e “Quantum of Solace”. Como disse, tem um leque de diversos trunfos em suas mãos, que não ficam no senso comum. Sua maior virtude está na ousadia e da força que dá aos personagens, por vezes, sobrepondo seu próprio trabalho. Aqui ele trabalha com um elenco consagrado, liderados por Johnny Depp que apesar da veia mística e excêntrica, está ótimamente normal nesse filme. Com ar humano e porte inglês, vive com maestria, em um de seus melhores trabalhos, o criador da famosa peça, sobrepondo a grande Kate Winslet. Outros nomes de peso do elenco são: Dustin Hoffman, Julie Christie, Radha Mitchell e o próspero Freddie Highmore, que vive Peter. Destaque à linda trilha que invade e marca na nossa mente. Apesar da temática infantil, é um filme que todos devem ver e repensar o sentido da atitudo de acreditar.


Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Homem Elefante

Nome original: The Elephant Man
Diretor: David Lynch
Ano: 1980
País: EUA
Elenco: Antony Hopkins, John Hurt, Anne Bancroft e John Gielgud.
Prêmios: Indicado a 8 Oscars e Bafta de Melhor Ator, Direção de Arte e Filme.
O Homem Elefante (1980) on IMDb
A qualidade de ver as pessoas além das aparências não são condicionadas pelos tempos vividos nem pelas condições sociais, ela reside, sobretudo no interior do ser humano de forma latente sem manifestação em todas as pessoas.

Mais uma brilhante forma de mostrar o homem como ele é em profundidade em suas mais diversas facetas.

O homem elefante é um filme do mais cultuado da atualidade Sr. David Lynch que narra o verídico caso do Sr.Joseph Merrick (no filme chamado de John Merrick) que sofreu de uma doença conhecida como síndrome de Proteus(em referência ao deus grego que se metamorfoseava em monstro para fugir daqueles que vinham lhe perguntar sobre o futuro),apesar de alguns especialista também falarem em neurofibromatose .A doença se caracteriza pelo surgimento de deformações na pele,que crescem de forma desproporcional no rosto e em partes do corpo deixando seus portadores com a aparência de aleijões.

O filme se inicia com uma sessão de Freak Show em que ,anões,mulher peluda,Homem que sopra fogo são aos poucos introduzidos em cena e os policiais interditam a prática e afirmam que esse tipo de espetáculo deve acabar por ser uma forma de se aproveitar das pessoas com este tipo de deficiência. Neste meio, porém está um médico –Frederick Treves(Anthony Hopkins) que fica interessado em assistir o show intitulado de O Homem Elefante - John Merrick (John Hurt).

Não obstante, o médico é impedido por aquele que se auto intitula o dono-sócio do homen elefante Sr.Bytes (o que já denota certa falta de escrúpulo) e é obrigado a pagar mais para vê-lo.Após perceber que Bytes tem tratado o homem elefante de forma humilhante e degradante o médico, então passa a cuidar de John Merrick e a trata-lo como uma pessoa normal levando-o para o Hospital.

O homem elefante então passa a ser o espetáculo, da aristocracia vitoriana ao invés de ser sujeito a um freak show circense.Todos vão visita-lo,todos tornam-se amigos e ao mesmo tempo John Merrick vai mostrando sinais de uma humanidade muito mais além daqueles que o cercam.

No entanto, alguns arruaceiros invadem o quarto de John e o forçam a novas humilhações, ao que o Sr.Bytes o toma de volta pra si -refere-se ao homem elefante por “meu tesouro”- e o leva para a Bélgica para de novo ser sua fonte de renda em show de bizarrices. Embriagado, Sr.Bytes espanca e trancafia o homem elefante numa jaula com macacos e com a ajuda de outros freaks consegue fugir e voltar para a Inglaterra.


Lá é levado a uma peça de teatro por sua amiga Sr.Kendal (Anne Bancroft) e ao final da peça é ovacionado de pé por todos os presentes. De volta a clínica termina uma maquete da igreja de São Filipe e realiza o maior desejo de sua vida: Dormir como todos dormem,deitado.Em virtude do tamanho e do peso da cabeça dormir deitado para o homem elefante significaria quebrar o pescoço.E ele dorme.

David Lynch
As cenas iniciais são as mais lynchianas do filme por trazer a possível referência à morte ou ao sexo com elefante da mãe de John Merrick.Além disso a forma que a cena é montada tende a levar o espectador àquele conhecido e estranho universo de "Cidade dos Sonhos", "Últimos dias de Laura Palmer" ou "A Estrada Perdida",embora,a sensação seja só passageira. Essa abertura retoma pelo meio do filme num pesadelo do Homem Elefante.

A questão moral
A meu ver,ao fazer esse filme a ideia era não mostrar a animalidade de uma pessoa do ponto de vista de sua aparência exterior, mas enfatizar aquilo de pior que há em nós mesmos quando o assunto é aquilo que não se conhece, quando se está diante do outro e ele é extremamente diferente, medonho e abominável.

O próprio John Merrick em um chá vespertino reconhece isso em sua fala a mais um casal dos vários da aristocracia inglesa que vieram lhe visitar para depois, quiçá, contar a experiência aos amigos mal conseguindo conter horror que sua aparência lhe causava:

“As pessoas se assustam com aquilo que não conhecem. Eu também não entendo. A minha mãe era tão bonita”

O que salta aos olhos é o dilema que cerca o Dr.Treves que se pergunta em tom de crise existencial se não houvera ele se transformado em um Sr.Bytes,isto é,justamente aquele que humilhava o pobre homem por expô-lo ao público e, de alguma forma,ter feito famaàs expensas da desgraça do homem elefante já que como acadêmico e médico sua fama aumentara e de certa forma ele se assemelhou ao fazer de John Merrick um objeto mudando o público mas da mesma forma criando um certo espetáculo sobre a condição do doente.

Se do ponto de vista da moral Dr.Treves se compara ou não com o algoz Sr.Bytes fica a cargo do telespectador determinar. Eu acredito que por ter tido esse insight o Dr.Treves está acima de Bytes moralmente porque ele se questiona sobre seus atos serem certo ou errado e no final acaba por despertar uma relação de amizade e respeito.

A amizade é retratada pela atriz de teatro senhora Kendal que é uma das primeiras da alta sociedade inglesa á ir conhecer o Sr.John Merrick e a sua visita é muito especial porque acaba por trazer à tona a sensibilidade e gentiliza que se encontra abaixo do corpo deformado de John eles têm uma agradável conversa em que falam de teatro e recitam Shakespeare.


O filme traz a temática do apego a vida,da confiança,da esperança sem deixar de ser um filme atual por mostrar a baixeza de caráter, o oportunismo e preconceito social em relação aquilo que foge a normalidade, além de ser uma dura crítica à hipocrisia social de qualquer época. Até hoje, quem nunca parou no trânsito para contemplar um acidente que atire a primeira pedra.Eu não consigo precisar o que vem a ser isso mas me parece uma espécie de voyeurismo sádico de ver no outro sofrendo motivo de imenso prazer. De certa forma é um filme que alerta para aquilo que há de diferente na vida social e isso pode se estender, inclusive, à minorias,étnicas,raciais,de genêro,religião,sexuais e culturais. Quantas pessoas já não foram tratadas como homens elefantes por se vestir diferente ou por pensar diferente ou por terem tal ou qual deficiência física?

Desconfio que o mundo atual esteja repleto de homens elefantes e o comportamento pode ser tanto à lá Sr.Bytes quanto à lá Sr.Treves.É importante que consigamos responder com sinceridade a pergunta se o que importa a sociedade é a aparência física ou a grandiosidade do caráter e da personalidade.

A atuação
O que me fascina na forma do Antony Hopkins atuar é que ele tem um jeito gentlemen de ser. Parece um lorde inglês e na verdade é. Só pra dar um exemplo embora não precise dadas as atuações em "Vestígios do Dia" e a Trilogia do Hanibal. Uma cena bastante relevante para ver a qualidade do ator é nas cenas em que há uma tomada com o rosto do ator e ele tem de chorar. Isso acontece quando o Dr. Treves vai pela primeira vez, assistir ao espetáculo do Homem elefante.Sua expressão é esta.Rola uma lágrima.A noção de quão abominável e o quão dura deve ser a vida de John Merrick nos é dada por uma única lágrima.


Não podemos deixar de reconhecer o poder de encenação daquele que representou o próprio protagonista o Sr. John Hurt consta que a maquiagem era pesada e levava mais de dez horas para ser feita o que forçou o ator a desenvolver um jeito próprio de andar equilibrando o peso do corpo com o da cabeça.

A parte mais emocionante é quando da perseguição por uma porção de pessoas que correm atrás de John no metrô para vê-lo de perto.

Nesta ocasião, o homem elefante dá um grito lancinante de silenciar a todos.


“No! I’m not an elephant.
I’m not an animal.
I am a humam being
I am a man”

E por fim a brilhante Anne Bancroft aqui não mostrando suas belas pernas como em a "Primeira Noite de Um Homem", mas correspondendo à altura do papel.

A música final é de autoria de Samuel Barber e é o Adágio para Cordas que também foi usado por Oliver Stone em Platton um filme a ser comentado em data futura.

Polêmica
Há um texto interessante no The Guardian sobre uma jornalista que analisa o que é/foi verídico na vida de Joseph Merrick e compara com o que foi retratado no filme.Ela acaba concluindo que o homem elefante real foi de uma grandiosidade de caráter muito maior que o do filme.

Acho questionável.

Fernando Moreira dos Santos
Sessões

Cisne Negro

Nome original: Black Swan
Diretor: Darren Aronofsky
Ano: 2010
País: EUA
Elenco: Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Barbara Hershey e Winona Rider.
Prêmios: Globo de Ouro, BAFTA e Oscar para Natalie Portman como Melhor Atriz.
Cisne Negro (2010) on IMDb

Medo, pavor, horror. Estou diante de um ser apocaliptico. Tem aparência humana mas sua pele parece não aguentar a ânsia de alcançar o seu destino. Uma mente perturbada e auto destrutiva que é corrompido pelos próprios anseios e pelas influências externas. Visões, sombras, monstros permeiam os pensamentos de uma mente suja, perversa, sádica e dissimulada. Em ambientes escuros, cheio de símbolos, sexualidade aflorada... Sobe o letreiro e descobrimos que estamos a ver mais uma obra de Lars von Trier.

A bela, impecável, ingênua. A busca pela perfeição por uma garota singela, bela e perseverante, na luta por sua redenção. Ou pela redenção da mãe, sacrificada para ver o seu sucesso nas mãos de sua cria. Sua relação com as colegas de palco é conturbada, com o professor de paixão, mas nada mais a atrai do que a consagração e o louvor do aplauso do público. O destino está escrito e a música com a dança conduz, liga e dá vida no filme dirigido por Pedro Almodóvar.



Não conseguiria misturar esses dois cineastas. Nunca, assim como as sinopses contadas acima. Mas pensando bem, essa mistura poderia ser muito mais real do que qualquer ficção. Só um ser poderia fazê-lo com maestria. Um diretor que está no mesmo nível dos realizadores citados: Darren Aronofsky. O seu “Cisne Negro” vai além de um thriller psicológico. Ele é um conturbador mental, impossibilitando qualquer distanciamento dos sentimentos aflorados e corrompidos pelas imagens, diálogos e trilha sonora. É a história real de um mundo que nos força a ser perfeito e, a todo custo, atingir os objetivos traçados por uma sociedade consumista de excremento e derrotas dos concorrentes.

As vísceras estão à mostra, necrosando o resto do corpo, destroçando a alma e nos enjoa só de pensar, choca naturalmente e destrói os sonhos. Estes não existem, eles são apenas esperanças de uma vida que nunca chegará. Sexo, auto-flagelação e dor serão sentidos por quem vê, numa transposição ao cisne indefeso em processo de mutação. Nina só queria finalmente atingir o ápice, aparecer, ser alguém. E para ser alguém no ballet (e na vida), só muita perseverança, despertar cedo e ter muito talento. Mas era a vez de Nina, mesmo com todos os fantasmas que a rodam, seja as concorrentes, as amigas, o professor ou mesmo a mãe, bailarina frustrada. A vida não é nada fácil para Nina. Além de todos esses fantasmas, há ela. Nunca percebemos, mas sempre o maior inimigo é você mesmo.

Aronofsky sempre nos impressiona por imagens fixadoras, roteiros improváveis, idéias revolucionárias. Um diretor com 5 longas e todos de nível sensacional alcança com “Cisne Negro” um patamar que só os grandes diretores alcançaram. Aqui ele vai além das loucuras e psicoses vividas pelos personagens de seus outros filmes. Muito além. Aqui vemos uma Natalie Portman raquítica com membros finos como os de um verdadeiro cisne. Sua atuação é praticamente perfeita e a coroará. Mila Kunis está ótima na pele de concorrente/amiga de Nina. O perverso e corretivo professor é vivido por Vincent Cassel, que é um dos maiores atores da atualidade, com escolhas profissionais das mais diversas, desde um roteiro aclamado e concorrente ao Oscar a um filme brasileiro de ótima qualidade como “À Deriva”. Isso faz um grande ator: escolhas e talento.



Atores? Diretor? Roteirista? Prêmios? Expectadores? De nada importa. A angústia e sequelas criadas em nossas mentes após vermos essa maravilhosa obra, jamais serão curadas. As lágrimas serão capazes de curar a dor? Não, apenas a autoflagelação até a morte agonizante seria capaz de exorcizar esse fantasma criado. Adeus! Brilhe, glorifique-se e descanse em paz.

Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Frost/Nixon

Nome original: Frost/Nixon
Diretor: Ron Howard
Ano: 2008
País: EUA, Reino Unido e França.
Elenco: Frank Langella, Michael Sheen, Sam Rockwell, Kevin Bacon e Rebecca Hall
Prêmios: Evening Standard British Film Award de Melhor Ator (Sheen), Sierra Award do Festival de Críticos de Las Vegas de Melhor Filme, Edição, Roteiro, Diretor e Ator (Langella) e Satellite Award de Melhor Roteiro Adaptado.
Frost/Nixon (2008) on IMDb


Um duelo. Uma batalha. Dois gladiadores na arena montada para uma guerra grandiosa. Talvez a maior guerra que aquele país já viu e que realmente queria ver. Após 3 anos da queda do mais experiênte, um jovem despretencioso quer enfrentá-lo, cara-a-cara, sem medo das artimanhas do duelista e para isso prepara-se, ao seu modo, com alguns assistentes de alto gabarito no meio. Será a batalha do século. O grande embate seria um sucesso enorme, comercialmente e para um dos oponentes. Só vendo para crer. Não estamos falando do documentário “Quando Éramos Reis” com a memorável luta entre Foreman e Ali. Aqui a briga é mais suja: David Frost X Richard Nixon e o mediador é Ron Howard, que faz um dos melhores filmes políticos dos últimos anos.

David Frost é um bem-sucedido apresentador de programas na Austrália. Após alguns contratempos nos EUA, teve seu programa cancelado e foi brilhar na terra dos cangurus. Mas só isso não lhe satisfazia. Ele queria algo grandioso para conseguir retornar à terra do Tio Sam. Movendo um batalhão imagina que entrevistar o político menos querido do momento seria um grande sucesso. Porém para isso, seria necessário um grande investimento. E seria necessário mais do que seu carisma e despojamento, para se preparar, levantar fundos e encarar Nixon.

Após o escândalo Watergate, o presidente Richard Nixon renunciou por conta dos boatos de envolvimento no caso. E essa marca ficou para sempre no povo, na política americana e, principalmente, em Nixon. Após 3 anos de reclusão absoluta é a hora de reaparecer e sob a batuta de seu fiel aliado Jack Brennan viu em Frost um adversário fraco e vislumbrou a oportunidade de ouro para bradar novos coros de vitória, numa retomada política nunca antes vista. Com o estudo do oponente previa-se um êxito obvio.



O embate é histórico e não há mistério sobre o êxito de Frost e derrocada de Nixon, porém não se contente em saber isso e desmotivar-se a ver o filme. Toda a trama é costurada milimetricamente e de uma veracidade quase maior que a vida real. Langella e Michael Sheen tem atuações maravilhosas, talvez as maiores de suas vidas, apoiados por coadjuvantes monstros. Ron Howard, conhecido por diversos êxitos, tem aqui seu melhor trabalho, ao lado de “Uma Mente Brilhante”. E pensamos que “A Rede Social” tem um grande roteiro, ágil e versátil, em “Frost/Nixon” temos um de qualidade ainda melhor e com um tema muito mais espinhoso. Genial retratação política e se você ainda não viu por imaginar um filme monótono e que só teve destaque por politicagem, não desperdice a oportunidade de ver um dos melhores filmes políticos já feitos e um dos melhores da última década.

Vitor Stefano
Sessões
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