quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Mãe Só Há Uma


Nome Original: Mãe Só Há Uma
Ano: 2016
Diretora: Anna Muylaert
País: Brasil
Elenco: Naomi Nero, Daniela Nefussi, Matheus Nachtergaele, Luciana Paes e Marat Descartes.
Prêmio: Teddy Bear no Festival Internacional de Berlim.
Mãe Só Há Uma (2016) on IMDb


Ser adolescente nunca é fácil. É um momento crucial da vida onde escolhas, novidades, decisões podem ser decisivas para a vida toda. Os conflitos internos e dúvidas são verdadeiras guerras mundiais para um menino de 17 anos. Quando tudo parece estar uma loucura, Pierre descobre que foi raptado na maternidade e quem ele ama e chama de mãe é um verdadeiro monstro. Um amor, um monstro que tirou um filho de outra família. E não o fez apenas uma vez já que sua irmã menor também foi raptada. Na verdade, Pierre é Felipe. E na verdade, Felipe não é ninguém. A rebeldia juvenil que surge normalmente agora explode. Quando sai da casa simples e pobre para a casa imponente e abastada dos pais biológicos ele não se reconhece. Quem sou? Felipe ou Pierre? Quem são essas pessoas que me amam e que não me veem há 17 anos? E eu que não os conheço preciso amá-los? Mas...eu me amo? Quem sou eu?

O amor é algo que nasce, cresce e precisa ser adubado. Quando uma situação limite acontece a força interna ganha força e você precisa se impor. Felipe/Pierre se impõe com sua nova família. Porta fechada, roupas extravagantes, escolhas de passeios inusitados para a família tradicional. No afã do amor, a nova família transforma Felipe numa uma espécie de circo e o leão surge e ruge. O irmão (biológico) mais novo é o verdadeiro contraponto, cheio de sí, cheio de confiança e arrogante. Parece um mini adulto. Felipe ainda não. Não temos uma família, não temos diálogo. Não conseguimos ver, incomoda. Uma relação que não fala, apenas sente.


Um filme potente, impactante e diante de um dilema tão complexo não cai na pieguice natural. Nem o fato de ser inspirado em fatos reais o deixa cair nessa armadilha. A escolha de esconder a mãe raptadora logo no início é acertada para que o foco seja mesmo em Felipe/Pierre. Já há muito conflito num único personagem. Anna que tem uma carreira constante, competente e atingiu o "estrelato" com "Que Horas Ela Volta?". “Mãe Só Há Uma” é seu menor (também em duração) e melhor filme. As incompletas sensações, os hiatos, os silêncios são tudo, são imperfeitos perfeitos. Pierre/Felipe é a imperfeição. É tudo que queriam. É nada. É uma linda atuação do estreante Naomi Nero. É um dos melhores filmes nacionais do ano ao lado de "Boi Neon" de Gabriel Mascaro e "Aquarius" de Kleber Mendonça Filho. É um ano fabuloso do cinema nacional. Anna, muito obrigado (de novo)!

Vitor Stefano
Sessões 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Aquarius


Nome Original: Aquarius
Ano: 2016
Diretor: Kleber Mendonça Filho
País: Brasil 
Elenco: Sonia Braga, Humberto Carrão, Maeve Jinkings, Irandhir Santos e Carla Ribas.
Prêmios: Melhor Filme do Festival de Sydney, Melhor Filme pelo Juri no World Cinema Amsterdam, Prêmio Especial do Juri no Festival Latino Americano de Lima, Melhor Atriz (Braga) e Prêmio Especial do Juri no Festival Biarritz Internacional de Cinema Latino Americano.
Aquarius (2016) on IMDb


A vida de Clara. A vida de Aquarius. A vida.

Estamos no Recife, anos 80. Música boa tocando num lindo prédio, uma praia cheia de gente, sexo, drogas e nessa noite agradável conhecemos Clara, jovem mãe de três filhos, de cabelos curtinhos a la Elis Regina e que passou recentemente por um câncer de mama. Nesse prédio mora uma tia de Clara. Catapultados para os dias de hoje na mesma praia, vemos a mesma Clara, já na terceira idade e vivendo no mesmo Edifício Aquarius. O prédio nanico entre os monstros arranha céus da praia de Boa Viagem. Ela agora com cabelos longuíssimos, vive só - sempre acompanhada de sua fiel empregada. Os outros apartamentos do prédio estão vazios. A construtora Bonfim, tradicional na cidade, comprou todas as unidades, exceto da sexagenária. Seria ela uma vovó ranzinza que só sairá de lá morta ou é uma ativista revolucionária em defesa de sua propriedade? O mercado quer engoli-la. Dizem que ela deveria sair por segurança, modernidade e conforto que só os novos apartamentos podem oferecer. Mas e as raízes? E a identidade? Não há quem nos venda, isso só nós podemos cultivar.

Clara é uma mulher inteligente, forte, de caráter e impositiva. A pressão silenciosa que a incorporadora faz para que ela saia do apartamento está alinhada com a força das instituições mais opressivas existentes: imprensa, política, igreja e sociedade – incluindo todos, inclusive seus próprios filhos. Clara está só. Ela tem seus discos, as músicas que marcaram sua vida, suas memórias, suas coisas que dão certo alento. Clara está cheia de vida ao seu redor. Clara resistirá a todo e qualquer assédio. De peito aberto, mesmo que mutilado, com seus cabelos soltos, ela é uma espécie de Sansão moderno. Uma abnegada. Uma mulher de fibra, de peito.



O filme é lindo em sua caracterização dos anos 80, desde a escolha de trilha sonora fabulosa e muito bem encaixada - de Queen a Reginaldo Rossi – passando por uma direção de atores muito boa, mas é claramente impossível não dizer que se trata de um filme de Sônia Braga. Para Sônia Braga. Sua força na tela, sua beleza - física e da personagem- faz com que ela leve o filme nas costas, totalmente feito para ela brilhar. E ela brilha, fazendo talvez o papel de sua vida. Kleber Mendonça Filho faz mais um belíssimo filme com diversas características já conhecidas dos seus curtas e do ótimo "O Som ao Redor", como uso constante do zoom in, a criação de clima psicológico e o uso de flashbacks/visões entre pesadelos que cria uma tensão constante. Também tem Recife e imóveis. Mas, o principal de seus filmes: tem vida, tem gente. KMF é um diretor de capacidade ímpar. A duração é maior do que necessária, mas não tira a força e nos prepara para o que veremos - uma espécie de Davi contra Golias. Os cabelos de Clara é clara referência à prova da resistência, da luta, da vida. Clara é um personagem incrível. Sônia Braga é incrível.

Tentar dissociar o filme de toda polêmica que o cercou referente ao Oscar e aos protestos em Cannes é difícil, mas possível. O filme em si é maior do que a pequenice de boicote da direita ou apoio cego da esquerda. O filme é sobre resistência, sobre abnegação, sobre ser vivo, ser humano, ser cidadão e isso é maior do que apoiar A ou B. Não se deixe contaminar com os discursos extremistas (de nenhum dos lados), veja e apoie cinema nacional. Gostar ou não depende do olhar, mas crie o seu e nunca veja pelos olhos de outrem. "Aquarius" é grande. Kleber Mendonça Filho é ótimo. Sonia Braga é uma estrela e é a representação maior do nosso cinema.

Viva "Aquarius"! Viva a liberdade! Viva Sonia Braga! Viva a vida!

Vitor Stefano
Sessões
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