segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

São Paulo Sociedade Anônima

Nome original: São Paulo, Sociedade Anônima
Diretor: Luis Sérgio Person
Ano: 1965
País: Brasil.
Elenco: Walmor Chagas, Ana Estrela e Eva Wilma e Darlene Glória
Prêmios: Prêmio de Público na 1a. Mostra Internacional do Novo Cinema de Pesaro (ITA), Prêmio Cabeza de Palenque no VIII Festival Internacional do Filme de Acapulco/México, Prêmio Governador do Estado, da Comissão Estadual de Cinema de São Paulo; Prêmios Saci do Jornal O Estado de S.Paulo para melhor Direção, montagem e filme.
São Paulo, Sociedade Anônima (1965) on IMDb


Crônica da catarse humana que a monstruosidade da cidade grande causa nos seres humanos comuns, personificados na pele de Carlos, representante de todos os paulistanos. Uma fábrica de robôs prontos para sobreviver dia após dia somente pensando em como seria a vida em outro lugar, mas onde sempre restará a idéia de nunca sair daqui. São Paulo é um organismo vivo. Nós, reles mortais moradores da cidade grande, somos parafusos de uma cidade que nunca para. A vida dessa metrópole nunca será melhor representada do que em “São Paulo S/A”. Luis Sérgio Person captou de todas as formas, nos reflexos, asfalto e em contra-plongeé imagens definitivas dessa cidade grandiosa, acolhedora, cinza e sofrida, num dos maiores filmes nacionais já realizados em todos os tempos.

Walmor Chagas e Eva Wilma
LSP faz um retrato, centralizado na história de Carlos, em uma montagem digna de usuários de LSD com repetições, retornos, pensamentos soltos, desamores e muita sensibilidade. As histórias dos grandes amores do personagem de Walmor Chagas são como as paixões que essa cidade desperta em quem aqui habita. São amores finitos com finais indecifráveis e saudades eternas daquela que mesmo à milhares de milhas distantes, está presente, é inerente ao paulistano. A vida por aqui pulsa mais rápido, vive menos, morre mais, mas é viciante o ritmo, a loucura, o stress e a grandiosidade de um território que parece não ter fim.

No meio da ebolição do crescimento dessa selva de concreto a partir da chegada de grandes montadoras na década de 60, São Paulo tornou-se um estacionamento de carros. Como numa atualização de “Tempos Modernos” à paulistana, vemos os operários em sua labuta diária, controlada e disciplinada. E Carlos cresce, vive essa mudança e crê que sua vida pode ser regrada, cronometrada e ajustada. O casamento com Luciana, vivida pela jovem e bela Eva Wilma, deixando suas Ana e Hilda de lado, seria o recomeço, deixar o passado enclausurado em uma lembrança morta. A vida seria vivida como manda o ritual aristrocrata. Trabalho, casa. Casa, trabalho. Seria assim, caso Carlos fosse a peça certa em uma máquina ajustada. Essa cidade não consegue domar todos. Temos os alienados, os rebeldes asfaltados, os pensadores voando, os astronautas sociais, os caixeiros viajantes que sempre retornam. A cidade permite tudo e todos são Paulo. Não há santidade que possa catequizar os viciados nesse organismo chamado São Paulo.


“São Paulo S/A” é uma obra-prima definitiva sobre a maior cidade da America Latina. O peso da trilha sonora encaixa perfeitamente num desenrolar de uma vida que roda-roda e não sai do lugar. Quem mora na capital paulista sabe exatamente as agruras deliciosas de viver nesse esgoto a céu aberto com um emaranhado de mortos-vivos e sub-vida subterrânea. Quem não vive, passa a imaginar viver nessa engrenagem enorme que é impossível libertar-se completamente. Luis Sergio Person faz de São Paulo S/A uma pintura insubstituível entre pontos históricos e sombras sobre a entediante leveza de viver disputando espaço entre poças, prédios, carros e túmulos. Querer fugir é regra, conseguir e prosseguir é impossível. A vida por aqui é um eterno recomeço.

Recomeçar.
Sempre Recomeçar.
Recomeçar.
Recomeçar.
Aceitar recomeçar.

Em São Paulo é necessário recomeçar a cada segundo. E nada mudou desde 1965 e “São Paulo S/A” é mais atual do que deveria ser.

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Touro Indomável

Nome Original: Raging Bull
Diretor: Martin Scorsese
Ano: 1980
País: EUA
Prêmio: Oscar de Melhor Edição e Ator e Globo de Ouro de Melhor Ator.
Touro Indomável (1980) on IMDb



Filmes sobre lutadores existem às pencas. Enumerando-se rapidamente, assim de cabeça: "Rocky I", II... 350, "O Boxer" (com Daniel Day Lewis), "Ali" (com Will Smith), "Menina de Ouro" (do Clint Eastwood), "O Campeão" (do Franco Zefirelli), "O Lutador" (do Aronofsky com Mickey Rourke) etc. Mas o que diferencia "Touro Indomável" dos outros é que neste, o fato de o protagonista ser um lutador, é secundário. Mais do que um filme de luta, é antes de tudo um drama psicológico complexo e uma cine-biografia clássica.

O filme de Matin Scorsesse é baseado em um livro autobiográfico que narra a trajetória de Jake La Motta, vivido por Robert De Niro em esplêndida atuação, um boxeador branco dos anos 50, muito talentoso em sua arte ao mesmo tempo em que é um desastre nas relações familiares. Trata-se de um sujeito destemperado, extremamente ciumento, possessivo, ignorante e violento. Ele quer ser dominador, mas não consegue dominar nada nem ninguém. Então ele transforma toda sua raiva e frustração pessoal em combustível extra para usar em seus combates.

Jake La Motta é apaixonado por sua mulher Vickie (Cathy Moriarthy) mas é bastante ciumento e possessivo e sempre perde as estribeiras. Ela é uma mulher muito linda, chama a atenção onde quer que vá e, por isso, ele sente que cedo ou tarde irá perdê-la. Seu irmão Joey (Joe Pesci) trabalha como seu empresário. Jake não quer os grandes nomes do ramo, com medo de ser passado para trás. Ele realmente acha que pode conseguir tudo sozinho, por meio de sua determinação e punhos. Joey o ama de verdade e agüenta, na medida do possível, todas as burradas que seu irmão faz fora dos ringues.


Impressionante, e que não poderia deixar de ser citado, foi a dedicação de De Niro ao papel. Além de atuar com brilhantismo, mostrando a personalidade doentia de La Motta com perfeição, a preparação e dedicação física para as duas fases distintas do filme é notável. Quando ele faz a parte do auge da juventude e esplendor físico do boxeador, o ator apresenta-se incrivelmente em forma. Por outro lado, quando ele é o La Motta aposentado, dono de bar, bonachão, ele é realmente outra pessoa e está , verdadeiramente, com pouquíssimos truques de maquiagem, uma pessoa mais velha e bem acima do peso.

"Touro Indomável" é um filme que trata de relações humanas, de fúria, e de coisas que o dinheiro não pode comprar. Dentro dos ringues, Jake era um monstro imbatível. Fora dele, um ser humano repleto defeitos e problemas. Apresentava-se forte para os outros, mas por dentro era um menino fraco e indefeso. Sua personalidade forte era o oposto de seu interior frágil, característica marcante de um troglodita infeliz. Não é um drama que pretende fazer chorar, mas o resultado não poderia ser mais brilhante.



Carlos Nascimento
Sessões

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Fahrenheit 451

Nome Original: Fahrenheit 451
Diretor: François Truffaut
Ano:1966
País:Reino Unido
Prêmio: Foi indicado ao Bafta e ao Festival de Veneza
Fahrenheit 451 (1966) on IMDb


Fahrenheit 451 é uma obra em que o cinema se apropriou da literatura transformando um livro em uma história cinematográfica.

Do ponto de vista da literatura Fahrenheit 451 é uma distopia sobre o mundo de amanhã. Com efeito, seu autor, Ray Bradbury, um simpático senhor grisalho apaixonado por bibliotecas construiu uma narrativa em que a leitura era considerada ilegal e por extensão a sociedade era proibida de pensar.

O livro se divide em três partes muito bem delimitadas em que um “bombeiro” de nome Guy Montag exercendo seu ofício nesta sociedade futurista se vê, após algumas conversas com sua vizinha Clarisse, em uma profunda crise existencial. Passando a questionar o seu emprego, suas amizades, sua vida conjugal e o seu papel na sociedade. Sociedade na qual a função precípua dos bombeiros é atear fogo em obras literárias. Respondendo a um aviso de denúncia os bombeiros partem em direção às casas em que se suspeita haverem livros e ao acha-los incinera os.

O lema dos bombeiros em Fahrenheit 451 é “Reduza os livros às cinzas e,depois,queime as cinzas”,seu símbolo é uma salamandra e o primeiro capítulo traça a tomada de consciência de Guy Montag de que algo está errado com o que ele mesmo faz.

Ainda na primeira parte nos é apresentada a necessidade de se acabar com os livros. O protagonismo, no livro, fica a cargo do capitão dos bombeiros Beatty que faz um belíssimo discurso sobre o porquê de cercear as pessoas do mau que todo livro contém.

O capitão Beatty explica a Montag:

“...sempre se teme o que não é familiar....todos devemos ser iguais....por certo você se lembra do menino de sua sala na escola que era excepcionalmente “brilhante” era quem sempre recitava e dava as respostas,enquanto os outros ficavam sentados com cara de cretino,odiando-o.Um livro é uma arma carregada na casa vizinha...os bombeiros,portanto,recebeream uma nova função,a guarda de nossa paz de espírito,a eliminação de nosso compreensível e legítimo sentimento de inferioridade...”


A segunda parte diz respeito ao encontro de Montag com um senhor também amante de livros que vivia na marginalidade e o universo alienado que sua mulher-Mildred vive.A caracterização do ambiente de Fahrenheit 451 é feita através de muita tecnologia aplicada a sociedade com fins de entretenimento e alienação.

As paredes da sala de Montag, por exemplo, tem telões em que Mildred é chamada a participar através da interação entre programas dramáticos e superficiais.

O capítulo três se inicia com a surpresa de Montag que atendendo a uma ocorrência percebe que param para queimar livros em sua própria casa.Aqui,ele se revolta e acaba ateando fogo ao próprio capitão Beatty num acesso de raiva e foge para as florestas lá encontra um grupo de homens-livros.Homens que se tornaram livros através da memorização dos mesmos.Sua ética prescreve que eles imprimiram os livros quando a era de sombras passar e farão o mesmo quando outra chegar.Da floresta,Montag vê a sociedade em que viveu toda a sua vida explodir sob o calor de uma bomba atômica dado que estavam em guerra,contudo,a população não era informada do que acontecia no mundo,os meios de comunicação não os queria infeliz.

O filme de Truffaut é em alguns momentos muito fiel ao Livro mas do meio pro final ele deixa bastante coisa pra fora. Por exemplo, em Trauffaut a sociedade dos homens livros passa a viver junta e não chegam a ver a sociedade de Montag ser destruída. Também o papel do Senhor ( Faber)que auxilia Montag em sua fuga para fora da cidade não tem a mesma acolhida que no livro.Truffaut também não faz referência aos diversos elementos que permeiam o livro que dizem respeito a tecnologia usada para o controle como por exemplo,o cachorro sabujo,que é um cachorro eletrônico e a grande importância dada no livro para a velocidade.

De modo geral, a alienação de Mildred é bem retratada e o poema que Montag lê para ela e suas colegas em tom de desafio e provocação parecem ter ficado melhores retrados por Trauffat.Por ser o primeiro filme de Truffaut em inglês e seu primeiro filme a cores,pode se dizer que saiu bom.

Mas aparte o debate entre livro e cinema o que convém ressaltar ,seja das páginas de Fahrenheit 451,seja das imagens do filme é o aspecto de crítica a qualquer tipo de censura que possa ser imaginável num mundo vindouro. Em outras palavras, o título de Fahrenheit 451 já alerta para a temperatura que o papel queima e o porquê de ser tão importante para a vida em sociedade a liberdade de expressão e de pensamento.

Pode se inclusive,perguntar qual a finalidade dos livros?Será que eles,efetivamente, fazem com que as pessoas sejam infelizes? O caminho do conhecimento se assemelha a um labirinto sem saída?

A minha idéia é em partes sim mas isso não é demérito nenhum.

A consciência de algumas coisas de que tomamos conhecimento pode facilmente por algumas pessoas para baixo. Deixá-las mal. É óbvio que sim. Mas isso não é um argumento válido para se abolir a leitura que é senão a melhor forma de conhecimento que possuem os homens para se manterem ativos e também felizes.

Bradbury talvez quisesse nos alertar para o caráter ideológico do real. Em termos simples ideologia é crença de que a perspectiva é verdadeira. Como o livro data de 1953 e por essa época se elevou nos EUA uma acusação de que os órgão federais norte-americanos estavam completamente ocupados por agentes soviéticos infiltrados no governo o que veio a ser considerado improcedente e seu expoente caído em descrédito o famigerado e alcoólatra Senador Joseph Macarthy,o que preocupa é que toda ficção pode se tornar realidade.

Se isso não é assim o que foi a condenação de Sócrates que não a incapacidade de se tolerar a divergência de idéias? E o que dizer de Jesus Cristo e o império Romano cuja crucificação é o símbolo maior de intolerância a novas ideias?

E a incapacidade de se aceitar o discurso das minorias raciais, étnicas, sexuais, religiosas, aliás, a religião é um prato cheio quando o assunto é censura e porque não discutirmos todos os assuntos tabus que ainda hoje existe?

Sem contar o recentíssimo caso dos Wikileaks que deixou governos já desmoralizados sem nenhuma condição de justificar suas políticas.


É bom sempre que nos lembremos de que quem começa queimando livros logo passam a queimar também seres humanos.

De modo que eu acredito que a liberdade de expressão influi decisivamente na mudança das formas aceitadas de se viver em sociedade. É a idéia que incomoda que deve ser extirpada da sociedade sob pena de ganhando publicidade ela ganhe também adeptos que lhes aceitem e defendam.Daí a importância da dúvida,da incerteza,dos questionamentos e por extensão,dos livros.

Em uma palavra, mudanças que se operaram na história todas são de alguma forma afetadas pela liberdade de se pensar diferentemente é aí que reside o principal inimigo de qualquer autoridade desconectada dos interesses de seu povo.

A escolha deste filme e deste livro se deve às tentativas que pairam no jornalismo brasileiro de controle social da comunicação. Com o qual eu não compactuo.Não se pode deixar justamente quem tem o poder de governo controlar o que pode e o que não pode ser dito ou por quem pode ou não ser dito. Não importa quão suja seja a notícia, quão espúria seja a ética do jornalista o brilho da verdade deve cegar toda a mentira. O que é verdadeiro não se pode macular.

O capitão Beatty apresenta sua idéia de forma triunfal a qual eu reproduzo aqui à título de contra modelo.

“....não se pode construir uma casa sem pregos...se não quiser um homem politicamente infeliz,não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver;dê-lhe apenas um.Melhor ainda,não lhe dê nenhum.Não as coloque em terreno movediço como filosofia e sociologia,aí reside a melancolia...”

É preferivel sermos infelizes mas podermos expressar toda nossa infelicidade do que sob essa justificativa termos a impressão pálida de felicidade.


Em resumo,para que não sejamos cães pavlovianos em um sociedade admistrada e controlada,quando não totalitária convém que censuremos toda a censura,uma vez que seu produto real é a não adoção de reformas públicas,a não união das pessoas em prol de mudanças,os livros que nunca serão escritos,os filmes que nunca serão filmados,a arte que nunca será feita.

Fernando Moreira dos Santos
Sessões

Alguma Coisa Assim

Nome Original: Alguma Coisa Assim
Diretor: Esmir Filho
Ano: 2006
País: Brasil
Elenco: Daniel Tavares, Caroline Abras, André Antunes .
Prêmios: Melhor roteiro para curta-metragem na Semana Internacional da Crítica no Festival de Cannes, Prêmio Especial do Júri no Festival de Cinema Iberoamericano de Huelva,
Melhor Atriz, Filme e Direção no Festival de Gramado, Melhor Filme - Júri Popular no Festival Internacional de Cinema de Kiev, Melhor Direção no Curta Santos, Melhor Curta no Festival de Biarritz Cinemas et Cultures d'Amerique e Melhor Curta brasileiro no Prêmio Itamaraty.


Noite, balada, amigos, bebida, som, pista, luzes. É o cenário perfeito para diversão, risadas, bem estar, desligar do mundo. Não quando sua companhia não faz a mínima idéia do que realmente você quer. Eu peço gim, você cerveja. Eu como misto quente, você foie gras. Quero você, você não me quer. E a noite de Caio e Mari é mais ou menos assim. Mas a amizade semrpe será preservada.

Mari e Caio saem na noite paulistana a fim de curtir. Ela a fim dele. Ele querendo saber do que realmente ele gosta e quer. Mari não sabe o que fazer, a princípio apoia, depois mantêm-se distante, numa reação normal ao inesperado. Banhado à sombras, som e luzes psicodélicas, “Alguma coisa Assim” é mais ou mesmo alguma coisa assim. Caio busca Mari, não sabe o que dizer e diz tudo mesmo sem saber exatamente o que queria dizer. A vida dele ficou confusa naquela noite. Talvez aquela balada fosse o começo de um entendimento do que realmente queria. Aos dois.

Num momento de reflexão, perdemos a visão, que embaça pois não há o que ver mas sim o que pensar. Esmir Filho abusa dos desfoques - parece-me uma marca registrada - criando uma expectativa e causando uma calma sobre o que realmente pode acontecer. Mas aí, só os dois pensando e sonhando com as mesmas coisas.

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Além da Vida

Nome Original: Hereafter
Diretor: Clint Eastwood
Ano: 2010
País: EUA
Elenco: Matt Damon, Cécile De France, George e Frankie McLaren e Bryce Dallas Howard.
Sem Prêmios.
Além da Vida (2010) on IMDb


Destinatário:

Clint Eastwood
4000 Warner Blvd.
Bldg. 16
Burbank, CA 91522-0811
USA

Mr. Clint Eastwood, escrevo-lhe essa carta pois ontem vi seu novo filme, Hereafter, em cartaz aqui no Brasil. Essa história de 3 pessoas totalmente diferentes que em lugares distantes tem seus caminhos cruzados por conta de eventos que ultrapassam o concreto e mundial. E não sei se o senhor sabe, temos uma onda de filmes sobre fenômenos religiosos que foram grandes sucesso em 2010. Não tenho dúvidas que esse público adorará seu “Além da Vida”. Não estou aqui para ensinar absolutamente nada ao senhor, quem sou eu para isso, muito menos para traçar um paralelo de seu último trabalho com a febre-espírita-cinematográfica desse longínquo país. Quero apenas fazer algumas considerações, e espero que não me entenda mal, muito menos despreze-me por conta disso. Pontuarei para simplificar:

1 - Parabéns pela iniciativa de fazer um filme sobre comunicação com os mortos. É um tema difícil e ainda pouco explorado no cinema por preconceito, mas você, conhecido desbravador, dá a cara à tapa e tenta. Porém, é um filme incompleto. Falta algo, mas ainda estou processando as mensagens no meu cérebro e não identifiquei. Talvez falte o essêncial em filmes dessa temática: alma.

O criador e seu queridinho

2 - O Matt é um ótimo ator e está muito bem como o médium George. Acredito que você deve insistir com ele em mais outros filmes. Talvez, para você, ele torne-se o De Niro do Scorsese ou a Penélope do Almodóvar. Sei que você abandonou a atuação, e particularmente prefiro vê-lo por trás das câmeras, mas sinto que George encaixaria perfeitamente para o senhor, exceto pelos lances românticos.

3 - Como sempre você sabe escolher os coadjuvantes de seus filmes como poucos. Você tem o dom de encontrar em qualquer lugar do mundo grandes atores inexistentes ao grande público e apresentá-los. Os gêmeos Marcus/Jason estão maravilhosos e têm grande potencial. Ah, muito obrigado por nos agraciar e nos trazer as belas (e competentes) Cécile De France e Brice Dallas Howard aos nossos olhos.

Os gêmeos George e Frankie McLaren, que roubam a cena em "Além da Vida"

4 - Parabéns pelas composições da trilha-sonora que o senhor criou. Lindas, tocantes e belas. Cada vez mais fico espantado com a grandiosidade de atributos que tira da cartola.

5 - Contar 3 histórias num mesmo filme exige uma montagem dinâmica. Acredito que esse é o maior pecado de “Além da Vida”. A agilidade e fluidez do filme ficou comprometida pela linearidade de como as histórias foram contadas e se entrelaçam. Certamente se você tivesse chamado o Iñarritu ou o Arriaga - em nenhum momento pense que compararia sua história com a deles, mas entenda que eles tem um histórico recente de ótimos trabalhos de montagem nos filmes que realizaram - para auxiliar na montagem, teríamos um filme grandioso, envolvente e você poderia ter brincado mais com as imagens de seu além.

6 - Talvez você não devesse ouvir o produtor Steven Spielberg e ter nos poupado de tantos efeitos, principalmente na cena do tsunami, e de arrastar além do necessário o filme. Não eram necessárias os 129 minutos de filme e conhecendo o trabalho de Steven, certamente isso é dedo dele, mas espero, incredulamente, que ele não tenha interferido em sua obra.

Infelizmente saí do cinema com uma interrogação. À primeira vista, não me agradou, mas você, Clint, pode fazer o que quiser que acompanharei e sempre tentarei entender a essência da mensagem que você tentou passar. Quem sabe daqui uns anos eu ame “Além da Vida”, você é capaz disso. Com “Invictus” tive com uma sensação melhor, talvez por conta da história tão grandiosa e mais palpável. Mas infelizmente nesses seus dois últimos trabalhos ficam aquém do restante de sua filmografia recente. Você, capaz de promover sensações de gozo cinematográfico, como quando saí da sala de cinema após ver “Gran Torino” ou depois de ver e rever “Sobre Meninos e Lobos”. Mas acontece, não dá para acertar sempre e você é bom em acertar.

Matt Damon, Bryce Dallas Howard, Cécile De France e Clint Eastwood

Entenda essa carta não como crítica, mas como a impressão de um fã que ama seu trabalho. Mas não se preocupe, sempre serei seu fã, mesmo que daqui pra frente você somente faça filmes que firam meus sentimentos mais profundos. Você é mestre e sempre será meu guia como amante dessa arte tão perversa.

Obrigado por tudo.

Vitor Stefano
Sessões

P.S.: Deixo essa carta aberta a outros amantes de Clint Eastwood e que viram seu último filme, “Além da Vida”. Quem ainda não viu, veja, pois o cinema pode causar dimensões diferentes em cada um de nós.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

De Niro e Scorsese

Há diversos diretores que gostam de trabalhar com os mesmos atores seja por confiança, conhecer o grupo ou por se sentir em casa. Isso acontece com os outros, já com Martin Scorsese e Robert De Niro parece mais uma família. As 8 produções em que a dupla trabalhou junto são sucesso absoluto e marcaram a história do cinema. E mais do que grandes filmes, De Niro sob a batuta de Scorsese incorporou personagens históricos que sempre são lembrados como maiores interpretações da história do cinema:







Johnny Boy
Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973) - O início dos anos 70 foi marcado por uma avalanche de filmes sobre Máfia italiana nos Estados Unidos. E aqui, Scorsese conta uma história quase biográfica, traçando o submundo que vivia em sua infância. De Niro incorpora o protagonista Johnny Boy, um jovem revoltado e agressivo, que por conta de suas dívidas de jogo sempre está em confusões. Um início brilhante da parceria.







Travis
Taxi Driver (1976) - A história do motorista de taxi Travis é mais do um filme, é um marco na vida de qualquer cinéfilo. Num roteiro envolvente e brilhantemente realizado por Scorsese, Robert de Niro encorporou um personagem complexo, conturbado e intenso, ficando marcado para sempre na história. Uma das frases mais famosas do cinema foi dita aqui: “You talkin' to me?” é praticamente um hino, um brado da memória desse brilhante personagem vivido por um De Niro em alta performance. Agraciado com a Palma de Ouro de Cannes.







Jimmy Doyle
New York, New York (1977) - Aqui podemos perceber a versatilidade do duo. De filmes de máfia, dramas, migram a um musical estrelado por Liza Minnelli, na pele da cantora Francine Evans. Já Robert vive Jimmy Doyle um saxofonista que passa por momentos turbulentos em seu romance com a cantora. De Niro aprendeu a tocar saxofone antes das gravações para dar veracidade ao personagem. Marcante, inesquecível. Não se fazem mais musicais como antigamente.







Jake LaMotta
Touro Indomável (Raging Bull, 1980) - Outro marco. Não há como lembrar-se de filmes de boxe sem lembrar-se da cine biografia do lendário Jake LaMotta. A retratação e preparação de um lutador de boxe foi retratada com precisão pelo diretor, baseado na vida desregrada que tinha o pugilista. O ator passou por um processo de treinamento pesado com o próprio LaMotta. Um sacrifício que valeu a pena, recompensado pelo Oscar de Melhor Ator. Um dos melhores filmes de esporte de todos os tempos.







Robert Pumpkin
O Rei da Comédia (The King of Comedy, 1981) - Aqui vemos Robert de Niro em outro papel diferente. Rupert Pumpkin é um psicopata, fã do comediante Jerry Langford (Jerry Lewis), que pensa ser engraçado a nível profissional. Com essa certeza na mente, sequestra o apresentador a fim de que ele dê uma chance de aparecer e mostrar seu talento. De Niro dá um show de atuação. Esse filme foi tão marcante emocionalmente para a dupla Scorsese-Niro, que só voltariam a trabalhar 7 anos após “O Rei da Comédia”.







Jimmy Conway
Os Bons Companheiros ( Goodfellas, 1990) - Um dos maiores filmes já feitos. Não apenas do gênero crime. Scorsese dá uma lição de como se fazer filmes de crimonosos. A ascensão e a queda de Jimmy Conway, Henry Hill e Tommy DeVito ao longo de três décadas é uma obra-prima. De Niro é Jimmy e está na companhia de maravilhosos atores, que criaram uma quimica totalmente perceptível através da tela. O entrosamento é natural e as criações de roubos, sequestros e assaltos incrivelmente arquitetadas. Um filme definitivo.







Max Cady
Cabo do Medo (Cape Fear, 1991) - Só faltava um suspense/terror. Agora não falta mais. O filme conta a história de Max Cady, um psicopata que sai após 14 anos de prisão por estupro e sai em busca de vingança contra o seu ex-advogado, Sam Bowden (Nick Nolte). O foco no defensor é que por conta das muitas falhas na sua defesa, Max foi para a cadeia. Mas não será apenas uma vingança fria. Além de Sam, ele aterrorizará toda a sua família, porém de forma inteligente para não sofrer novo processo. De Niro é imortalizado com seus papéis de psicopata.







Sam "Ace" Rothstein
Cassino (1995) - A última obra da dupla (até o momento) é outro marco na história. Em uma época que Las Vegas é controlada pela Máfia, Scorsese faz um filme enorme, em tamanho e força. De Niro é o milionário e mafioso Sam "Ace" Rothstein, um chefe de força e capaz de destruir toda uma cidade, mesmo que por dentro.



De Niro e Scorsese fazem um casamento perfeito entre ator e diretor. E essa dupla já está em contato para retomar essa parceria memorável. A próxima tacada do duo será “The Irishman”, outro filme de máfia e rumores dizem que seguirão juntos na cinebiografia de Frank Sinatra. É esperar e ver essa dupla dinâmica em outro projeto, certamente, maravilhoso e marcante.

Vitor Stefano
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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sempre ao Seu Lado

Nome original: Hachiko: A Dog's Story
Diretor: Lasse Hallström
Ano: 2009
País: EUA e Reino Unido
Elenco: Richard Gere, Joan Allen, Cary-Hiroyuki Tagawa e Sarah Roemer.
Sem Prêmios.
Sempre ao Seu Lado (2009) on IMDb


Uma história de fidelidade e amor devocional entre humanos é ficção. Num mundo onde as desgraças são cada vez mais comuns e corriqueiras, tornando-se habituais aos nossos olhos e ouvidos, ver uma bondade, uma caridade ou uma verdade, é motivo de felicidade, condecoração ou até exemplo, onde fazer o bem deveria ser o comum. Mas os homens nascem para guerrear e lutar por tudo que está à nossa volta. Com os seus “irmãos” não seria diferente, e hoje pensamos que é do dia a dia quaisquer maldades feitas entre dois humanos. Mas há um tipo de crueldade contra um ser que não é tolerado: alguém fazer mal à um animal de estimação é praticamente pior do que assassinar a mãe e a avó com tortura ditatorial. Os animais ganharam espaço de ser humanos e em muitas vezes são mais bem tratados que muitos homens, como podemos ver em “Ilha das Flores”. E lá eram porcos. Imaginem se fossem cachorros?

Com tudo que os humanos já fizeram entre si, resta a nós respeitar e amar esses animais que são mais humanos que muito animais com telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor. A história de “Sempre ao Seu Lado” é mais uma dessas que emocionam e nos faz querer cada vez mais contato com esses animaisinhos peludos. A história é baseada em fatos reais e conta a história de respeito e fidelidade entre o professor universitário Parker e um cachorrinho da raça Akira. Após encontrá-lo na saída da estação de trem, o professor decide levá-lo para casa até o verdadeiro dono aparecer. Mas diversas solicitações da mulher de não ficar com o filhotinho, o cão ganha espaço e conquista o professor. Hachiko é o nome do pequeno. No dia a dia os dois criam uma ligação única e especial. Eles vão juntos à estação de trem e no horário de volta, Hachi vai novamente à estação à espera do dono, o único dono, retornar para voltarem para casa juntos. É esse tipo de dedicação que não é possível em seres que preferem perder a vida no transito, brigar, trair e matar. Hachi e seus iguais, jamais fariam isso.



Infelizmente, um fato quebra toda a rotina da dupla. Para Hachi seria uma espera eterna. Durante 9 anos ele continuava lá, sob chuva, sol, neve ou vendaval. Não havia um dia sequer que a espera pelo seu único e verdadeiro dono mantinha-se viva. É inacreditavel como isso pode acontecer, mas aconteceu. Uma história com um enredo maravilhoso. O filme é bom, um ótimo desidratador aos amantes de animais, porém um roteiro simples até por conta de ser uma história sem sem muitos acontecimentos, porém seu grande trunfo é a dramaticidade e a mensagem de esperança que a história real nos deixa. Lasse Hallström parece ser um diretor com grande apreço pelos caninos. Após aparecer para o mundo com o marcante “Minha Vida de Cachorro”, que faz uma alusão negativa do animal, cria uma boa refilmagem à la Tio Sam de “Hachikô monogatari”. Prepare o lenço pois é uma história sobre sentimentos que nenhum ser (chamado) humano seria capaz de realizar. Nem se vivesse uma vida de cachorro.

Vitor Stefano
Sessões

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Lixo Extraordinário

Nome original: Waste Land
Diretor: Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley.
Ano: 2010
País: Brasil / Reino Unido
Elenco: Vik Muniz.
Prêmios: Amnesty International Film Prize e Panorama Audience Award no Festival de Berlim, Melhor Documentário no Festival Internacional de Seatle e Prêmio da Audiência de Melhor Documentário (Cinema Mundial) no Festival de Sundance.
Lixo Extraordinário (2010) on IMDb


É muito difícil escrever sobre um retrato tão impactante. As emoções que ele nos causa são as mais profundas dentro de um poço de sentimentos soltos num submundo que criamos dentro de nós. Vive-se para morrer. A sobrevivência é a dolorosa passagem de um estado físico vivo à um estado de putrefação, onde nossa alma é liberta através dos gazes que nós, lixos, exalamos à todo momento. O lixo que criamos é a extensão morta de nossas vidas. É o melhor retrato do que realmente somos e exatamente para onde vamos.

Mas o extraordinário é que em um lugar sem vida, só com almas dentro de corpos inanimados buscando uma sobrevida nesse mundo. Os que lá habitam já não ouvem, não cheiram, não sentem mais nada. Estar alí é uma exclusão voluntária de um Estado que já lhes excluiram. Este cemitério de vida morta é o Aterro do Jardim Gramacho, o maior aterro do mundo em quantidade de lixo. Os urubus à procura de alimento, dividem o espaço com esses seres invisíveis que lutam por qualquer objeto que traga um pouco de humanidade e reflexão para sentir-se vivo. Percebemos que alí há mais vida do que nos palácios governamentais, casarões imperiais expalhados pelo mundo. No Gramacho a luta é diária, lutando com garra e querer viver é a arte dos catadores de material reciclável. Mas a arte mudaria o modo de entender onde essa batalha interminável, finalmente, acabará.

Vik Muniz no Aterro do Jardim Gramacho
Vik Muniz é o maior artista plástico brasileiro da atualidade e um dos mais influentes no mundo. E o que essa luta da sobrevivência no Gramacho teria a ver com arte moderna? Absolutamente nada, até Vik vislumbrar um novo projeto. A idéia vai além de transformar material reciclável em arte. É transformar catadores em pessoas visíveis, seres humanos reais, transformadores da própria vida e artistas, que seja, por pelo menos um dia. Vik tem uma biografia invejável e pouco comum no mundo elitizado das artes. Viveu uma infância pobre, sem luxos, sem conhecer museus. Hoje, ao lado de Jean-Michel Basquiat, são os maiores expoentes de que a arte é universal: todos fazem, todos vêem, todos entendem. Você também pode. Os catadores do aterro também podem e fizeram. Aprecie sem moderação.
 
A partir da premissa, estamos diante de alguns personagens surreais, escolhidos e conduzidos por Vik e seu assistente Fábio à uma experiência maravilhosa, transformando o dia a dia dos que não viam futuro, não viam vida naquele lugar. A transformação é gradual, passo a passo, selecionada, tirando escombros de sacos cheio de restos, cavando até encontrar um luz no fim do túnel, ao subir no andaime e ver que cada um deles deixou de ser apenas um ponto no meio daquela cidade do lixo e passou a ser uma obra de arte. Vik é mostrado de forma imaculada, com muita inteligência e sabedoria, entendendo cada passo que dava, com cautela e buscando apenas o benefício da Associação dos Catadores. E não deve ser diferente disso. Vik é um orgulho nacional.







Se Jorge Furtado revolucionou o documentário mundial, abrindo os olhos à questão do lixo com “Ilha das Flores”, aqui Vik vai além. Nos mostra uma solução, um meio, um ideal aos catadores de lixo do Jardim Gramacho. É uma espécie de “Nascidos em Bordéis” dentro da “Ilha das Flores”. “Lixo Extraordinário” é uma biografia definitiva não de Vik Muniz, mas sim de cada ser humano, representando Tiões, Irmãs, Zumbis, Isis, Valteres... É arrebatadora a sensação causada por “Lixo...”. Um projeto estupendo. É ver beleza e profundidade onde pensamos só haver morte e barbárie superestimulado pelos sons criacionistas de Moby. É obrigatório vê-lo para entender melhor como não somos nada e que um dia, lixo viraremos. É reconhecer o trabalho de pessoas invisíveis. É ver a vida como vida, não como preparação da morte. Do lixo vim e ao lixo retornarei, mas que seja um lixo extraordinário.

Explore essa experiência: vai mudar seu conceito de vida.

Site Oficial 
Site de Vik Muniz

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Tony Manero

Nome original: Tony Manero
Diretor: Pablo Larraín
Ano: 2008
País: Chile e Brasil
Elenco: Alfredo Castro, Paola Lattus, Héctor Morales, Amparo Noguera e Elsa Poblete
Prêmios: Grand Coral e Melhor Ator no Festival de Havana, Golden Tulip - Melhor Filme no FEstival Internacional de Istambul, Melhor Ator no Festival Cinemanila e KNF Award no Festival Internacional de Rotterdam e o Prêmios Especial do Juri do Festival de Varsóvia.
Tony Manero (2008) on IMDb


‘Stayin’ Alive’. É assim que vive Raúl Peralta. Vai vivendo a vida do jeito que ela está. Não há muito o que fazer, parece tudo já perdido. A vida resume-se a envelhecer tentando não pensar que a velhice está consumindo o seu corpo e mente. Raúl só está vivo por aqueles detalhes que nenhuma divindade explicaria. Não por periculosidade mas por falta de objetivos. A psicopatia traveste um ser calmo e tranquilo, que apenas preocupa-se em estar vivo, apenas respirando. Mas por trás de um homem há seu alter-ego, buscando a juventude e beleza de seu grande ídolo: Tony.

Raúl quer ser Tony Manero, personagem imortalizado por John Travolta no filme “Os Embalos de Sábado à Noite”. Mas ele só pensa no Tony do glamour e da dança, sem se preocupar com os pseudo-problemas sociais que o personagem original vivia nos “Embalos...”. Era apenas pela dança, pela juventude, pelo sucesso com as mulheres, pela liberdade conquistada que Raúl criou essa fixação. Ele quer, ele será, ele é Tony Manero. Essa busca torna-se obsessão naquele Chile de 78. A liberdade que o seu ídolo transcende, não é real aos que viviam sob a sombra da ditadura de Pinochet. Esse não é o tema central de “Tony Manero”, mas é citado com leveza, para não fecharmos os olhos à barbárie promovida pelo ditador.

A querência por ser quem realmente não se pode ser deixa Raul num estado mental conturbado. Todos os problemas que o personagem de Travolta poderia ter e consegue diluir com a dança, Raúl consegue envolver-se e tornar sua mente sã em sádica. Apesar de ver inúmeras vezes “Os Embalos...” no cinema, Raúl quer atingir a perfeição, com detalhes e trejeitos. É isso que ele quer. Não importa como nem porque o objetivo está traçado. Muito além de um simples concurso de imitadores, muito além de uma cópia chilena, Raúl é o Tony Manero real, de carne e osso, sem a beleza, sem o charme - mais um cidadão em busca de reconhecimento, sem exatamente saber o que é o sucesso. Independente das consequências, ele chegará lá, sem medir esforços, sem impedir que o seu ímpeto mais podre e nefasto surja. E surgirá!



Se há um nome a ser exaltado com “Tony Manero”, é Alfredo Castro. O ator está impecável, numa memorável atuação, com seu olhar despretencioso e profundo apesar de um personagem de mente conturbada. Alfredo imortaliza um personagem que parecia já consolidado e confortavel das gavetas das mentes cinéfilas. Larraín consegue com um filme de aspecto estranho, por vezes sujo, asqueroso e incômodo, um resultado brilhante, apresentando-nos imagens grosseiras e cruas na tela. E tudo isso parece ser arte pura. Um filme necessário; um marco no novo cinema latino-americano. E Raul está errado em suas atitudes? Talvez, mas Larrain não pretende julgá-lo pois faz parte da natureza humana de Raúl Castro, ou melhor, Tony Manero.

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Quebrando a Banca

Nome original: 21
Diretor: Robert Luketic
Ano: 2008
País: Reino Unido, EUA e França
Elenco: Jim Sturgess, Kevin Spacey, Kate Bosworth e Laurence Fishburne.
Sem Prêmios.
Quebrando a Banca (2008) on IMDb


Cartas. Cassinos. Apostas. Jogo de azar. Há especialistas que não pensam assim. Jogos é para fracos. O que deve ser feito é contar. Pena que contar nos cassinos é proibido e duramente combatido pelos seguranças e patrulheiros por trás dos olhos das câmeras que vigiam tudo 24 horas por dia. Lá dentro há a impressão que é sempre dia, tudo está lindo, o sol está raiando e pensar que o tempo não está passando vicia a mente. Assim como a utopia de vencer quando o que se está fazendo é arriscar por um jogo de azar. Azar de quem não sabe contar... Ou de quem sabe, mas não sabe disfarçar.

Ben Campbell é um estudante do M.I.T. de Boston e tem um único objetivo. Acumular 300 mil para transferência para a Escola de Medicina de Harvard, já que vem de uma família trabalhadora e que não tem como bancar a vida estudantil do rebento. Mas ele, humilde, simples e obstinado trabalha para acumular o valor necessário. Infelizmente, esse tipo de aluno nos EUA sofre muito e dificilmente consegue seu objetivo. Mas subtamente aparece uma novidade na vida dele. Fazer parte de uma equipe de 21. Sim, o famoso blackjack.

Sob a batuta do professor Rosa já fazem parte do grupo: Jill, Choi, Kianna, and Fisher. Dos estudos do jogo e de sinais para a prática nas mesas, Ben integra-se à equipe com facilidade e supera as espectativas de todos, chamando a atenção. Obviamente causa ciumes e cria algumas situações dentro do grupo, mas o que realmente impressiona é a inteligência desses alunos da M.I.T. tentando subverter o sistema. Chega a causar inveja e mudar totalmente seu pensamento. Por vezes esquece de quem era em Boston. E pensar que tudo isso aconteceu de verdade.


Com uma boa linguagem e roteiro dinâmico o diretor Robert Luketic faz seu melhor filme. Após uma carreira de comédias românticas como “Legalmente Loira” e mais recentemente “A Verdade Nua e Crua”, faz de “Quebrando a Banca” mais do que só mais um filme sobre cassinos. Por trás das cartas temos inteligencia, rapidez, ganância e traição. Onde há dinheiro há seres humanos querendo sobrepor outros seres humanos, se é que esses animais alimentados por papel com valor definido por outros animais são humanos. Kevin Spacey, que sempre está bem, faz um ótimo papel como professor arrogante e disciplinador. Já os louros ficam por conta do jovem Jim Sturgess, que está estupendo em “Across the Universe” e aqui está atuando como gente grande. Um dos jovens com melhores perspectivas do cinema americano. O menino cresceu e estrela esse filme rápido, envolvente e cada vez que vejo fica melhor. Vale a pena como um ótimo passatempo e dá uma vontade de se perder nas luzes de Vegas e tornar-se um viciado em roletas, cartas, caça-níquel... Alguem me acompanha?

Vitor Stefano
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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ímpar Par

Nome Original: Ímpar Par
Diretor: Esmir Filho
Ano: 2005
País: Brasil
Elenco: Adriana Seiffert, Alvise Camozzi, Imara Reis, José Rubens Chachá e Sarah Oliveira.
Prêmios: Melhor Curta de Ficção no Festival de Huelva, Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Kiev, Melhor Curta no Kodak Film school Competition - Etapa Brasil, Melhor Curta - Júri Popular no Festival de Cinema de Campo Grande.


Estamos numa fábula. Poderia ser um musical, já que tudo funciona, é belo e sincronizado. Mas essa não é uma das comuns que se lê todos os dias ou aquelas criadas pelos irmãos Grimm. Até a Cinderela ficaria feliz em participar desta, só para ganhar um par de sapatos novinhos. Mas aqui, Cinderela é Helena e o príncipe é o sapateiro. O som das cordas do violino saúdam os moradores, abre o dia, convoca o sol à brilhar naquela cidadela de ruas de paralelepípedos e de sapatos.

Um sapateiro dedicado e conhecedor de sua arte é o centro das atenções. Atrás daquele balcão identifica e sabe exatamente qual número, gosto e modelo certo para os possíveis clientes que transitam à frente da vitrine. Seus sapatos são lindos. Porém é uma cidade com costumes arraigados. Para que ter mais de um par de sapatos se só se pode usar um por vez. Deixe-os serem usados até não aguentarem mais. Uma cidade pronta para o futuro, contra o consumismo barato e a produção em massa. Um exemplo. Mas a fábula não é essa e nem poderia ser. Uma das transeuntes fixa o olhar do sapateiro que não decifra o tamanho de sua sustentação. Aí flui uma maravilha de curta-metragem, que tem uma micro participação da irmã do diretor, Sarah Oliveira.

O roteiro é costurado com o carinho que o sapateiro tem pelos pés de Helena. Sem a densidade e dramaticidade de outras produções, Esmir Filho prova ter o dom de realizar curta-metragens. Ele tem o cinema nas veias, apesar da pouca idade. É uma revelação e um diamante que temos que cuidar com muito zelo para construir mais para o nosso cinema que é tão maltratado e que não reconhece os seus realizadores. Não vou brindá-los com um som ao violino, mas é uma parceria maravilhosa que já pensei antes de ver o curta pelo nome. César Camargo nos pianos e Pedro Camargo Mariano na voz interpretando “Par ímpar”.


“Se você não me disser, vou descobrir”. Pois é, o sapateiro, de um modo ou de outro, descobriria, Helena.

Vitor Stefano
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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Grandes Esperanças

Nome original: Great Expectations
Diretor: Alfonso Cuarón
Ano: 1998
País: EUA
Elenco: Ethan Hawke, Gwyneth Paltrow, Chris Cooper, Anne Bancroft e Robert De Niro
Sem Prêmios
Grandes Esperanças (1998) on IMDb


Todas esperanças são criadas para serem ultrapassadas, positiva ou negativamente. Grandes esperanças não devem ser criadas nunca, pois quanto maior, mais difícil sentir os pés no chão, ter consciência do que está acontecendo. Saber o que quer, mantendo-se concentrado e com o foco no alvo, tudo dará certo. Mas quando as expectativas são criadas por conta do sentimento, não há gravidade que nos faça retornar à realidade. Uma atitude pode mudar sua vida.

A história começa com um susto. O pequeno Finn é surpreendido por um ser surgindo da água, um foragido da prisão que precisa de ajuda para despistar a polícia. Acometido pelo medo, o pequeno faz exatamente o que ele pede. Óbvio que o sigilo deve ser mantido. Um trauma para toda a vida. Porém, uma paixão poderia apagá-lo. A fria e bela Estella, cuidada pela ranzinza e rica Sra. Dinsmoor, aparece em sua vida. Paixões de infância parecem sempre bobas e ingênuas. Para Finn, um carma. Após um lindo primeiro beijo (veja abaixo), ele parou, congelou e só despertou quando a viu partir para o mundo, buscando sua felicidade.


O desenhista da adolescencia tornou-se homem, esqueceu o passado e tentou viver uma vida normal naquela cidade litorânea. Mas o destino parecia ao seu favor, quando um convite à criar uma exposição em Nova Iorque. Ser arremetido pela presença de Estella no meio da cidade o faz retornar seus sentimentos mais profundos e escondidos. Só assim para que retomasse a inspiração para tornar-se um grande homem, bem sucedido e à altura dela. Quando os sentimentos ficam escondidos por muito tempo, eles retomam com força e alterados. Porque o abandono? Porque sumiu? Porque não tive chance? Finn queria mesmo era tê-la, como um objeto comprado na liquidação. Uma mistura de angústia, possessão, vingança e paixão o consomem. Mas para que tudo isso se a vida não é vivida solitariamente. Uma atitude pode mudar tudo. Pro bem ou pro mal. A escolha é sua.


De Cuarón (dos ótimos "E Sua Mãe Também" e "Filhos da Esperança") podemos sempre esperar o melhor. Infelizmente, aqui não é o seu melhor, mas faz um filme belo por sua história e força dos personagens. A escolha dos atores infantís e adultos foi muito boa pela semelhança física entre as duas fases e pelas atuações. Hawke é um ator quase que esquecido do grande público, mas merece mais consideração. Faz aqui um papel difícil e belo. Já Paltrow está exuberantemente bela, longe da atriz sem sal e fria que costumeiramente aparece em outras atuações, como em “Amantes”. Destaque também à grande Anne Bancroft e a Robert De Niro que são coadjuvantes de peso, mas com muita importância, nessa trama. Num mundo onde a esperança é a última que morre, o fim começa quando a vingança contamina a mente.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Desafio no Bronx

Nome original: A Bronx Tale
Diretor: Robert De Niro
Ano: 1993
País: EUA
Elenco: Robert De Niro, Chazz Palminteri, Lillo Brancato e Kathrine Narducci
Sem Prêmios
Desafio no Bronx (1993) on IMDb

A se julgar pelo nome, jamais veria. Pensando na cabeça por trás dele, não há porque não ver. Robert de Niro nos trás aqui uma pequena continuação do filme mais aclamado sobre a máfia italiana nos Estados Unidos de todos os tempos: O Poderoso Chefão, do qual ele participou da 2ª parte substituindo Marlon Brando como Vito Corleone. Mas não pense naqueles costumes da década de 40 mas sim de 60 num bairro onde reinava a população do país da bota e a xenofobia era lei obrigatória aos moradores de lá. Apesar do tema, a inspiração da direção é uma clara referência à Martin Scorsese, seu bom companheiro.

A história do pequeno Calogero filho do motorista de ônibus Lorenzo. O bairro é conhecido pela força e domínio de Sonny, gangster controlador. E aquela imponência, liderança e popularidade sempre foram espelho para o menino, invejando toda aquela força. Porém, na ânsia de cuidar e zelar pelo futuro do filho, Lorenzo, uma laranja boa no meio de tantas ruins, tenta protegê-lo de todos os modos, da infância à adolescencia, de tornar-se um novo Sonny. A adolescência é um momento difícil de qualquer um, e a influência dos amigos sempre tem peso muito grande e costuma ser o pesadelo dos pais. Obvio, com a família Anello não seria diferente e a sombra dos gangsters estava mais perto do que queriam. Veja os princípios que o poderoso chefão Sonny dá ao jovem Lorenzo.


O Bronx estava passando por uma mudança, conhecida no mundo todo, que é a dominação pelos negros, fato que foi consolidade apenas nos anos 70, onde foi criado o movimento hip-hop. Essa transição também é mostrada em “Desafio no Bronx”, visto que a comunidade negra já começava a aparecer e andar pelas vielas do condado prioritariamente italo-americano-albino, causando uma verdadeira revolução, banhada à sangue e perseguição racial. Lorenzo, apesar de ouvir os conselhos de Sonny, sempre teve personalidade forte e só ficou comprovado isso ao apaixonar-se por uma negra. Com certo temor, no medo de não decepcionar seus iguais.

“Desafio no Bronx” com muito tiroteio, brigas, palavrões e embates marca a estréia de De Niro na direção, além do papel maravilhoso como pai de Sonny. Não é um grande filme e não é um filme que será sempre lembrado na história, porém é uma ótima retratação da história verdadeira de um dos bairros mais “amaldiçoados” de Nova Iorque. Um verdadeiro conto, mas nunca seria de fadas. Os dominadores e os humilhados só existem porque os seres humanos são egoístas. Há apenas um conselho válido: o fraterno. No fim, quem perde, é a humanidade, se é que ela existe.

Vitor Stefano
Sessões
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