terça-feira, 25 de novembro de 2014

Dois Dias, Uma Noite





Nome Original: Deux Jours, Une Nuit
Ano: 2014
Diretor: Jean-Pierre e Luc Dardenne
País: Bélgica, França e Itália
Elenco: Marion Cotillard, Fabrizio Rongione e Catherine Salée.
Prêmios: Grand Prix no International Cinephile Society Awards e Melhor Filme no Sydney Film Festival.
Dois Dias, Uma Noite (2014) on IMDb





Mais uma vez os irmãos Dardenne conseguem emocionar. Conseguem expor a Europa diferente dos cartões postais. Quem leu meu post de “O Garoto da Bicicleta” já leu isso, mas é que eles certamente são os diretores mais contemporâneos que existem. Eles expressam na tela o povo, a vida real, a história que você viveu, vai viver, viu alguém viver. Os Dardennes conseguem sempre fazer pensar, refletir, fazer que nós, meros expectadores, estejamos refletidos na tela. A personagem principal é Sandra. Uma trabalhadora comum, após retornar de licença por depressão tem seu emprego na mão dos seus colegas, que por votação preferem ficar com o bônus de mil euros ao invés de perder esse benefício e ver a colega retornar ao seu posto. Com ajuda de algumas colegas e sempre incentivada pelo marido, Sandra consegue que seja feita uma nova votação. Era uma sexta-feira. Ela tem o final de semana para convencer a maioria dos colegas que precisa retornar ao emprego. 

Numa via-crúcis real, Sandra passa por altos e baixos, vergonha e coragem, força e fraqueza por esses dois dias. Uma mulher complexa, que sofreu muito nos últimos tempos, que precisa dessa força, dessa mudança para recomeçar. Ela precisa convencer a maioria. E como convencer alguém de abrir mão de mil reais mensais? Mas e a solidariedade? Uma maravilhosa história baseada em histórias que realmente aconteceram em época de desemprego nos anos 60, ambientada para a atual concorrência desleal.  Marion Cotillard volta a ter um papel de destaque, bem volátil, como a personagem pede. Os Dardenne fazem um filme sensível, duro e belo. Um pequena pérola.


Num mundo onde o dinheiro manda, difícil que a solidariedade ainda tenha espaço para respirar.

Vitor Stefano
Sessões

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Boyhood – Da Infância à Juventude


Nome Original: Boyhood
Ano: 2014
Diretor: Richard Linklater
País: EUA
Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke e Lorelei Linklater
Prêmios: Urso de Prata de Melhor Diretor, Reader Jury of the “Berliner Morgenpost” e Premio Guild of German Art House Cinema do Festival de Berlim, Prêmio da FIPRESCI do Festival de San Sebastián.



Não há inventividade. Não há criação. Não há novidade. E não há nisso nenhum demérito, pelo contrário. Richard Linklater é, talvez, o cineasta mais corajoso da América. Representante do cinema independente, ele não será “raptado” pela seara hollywoodiana, mantendo seus filmes com seus roteiros, seus conceitos, suas convicções e, certamente, com seus ideais. Apesar da independência é diretor de filmes de grande sucesso, sendo mais um trunfo para si. Quentin Tarantino colocou seu “Jovens, Loucos e Rebeldes” entre seus 10 filmes prediletos de todos os tempos. A trilogia “Antes do Amanhecer” fez um sucesso arrebatador e é um dos filmes de romance mais queridos do público e crítica, “Escola de Rock” é um sucesso cult, cativante e divertido e “Waking Life” e “O Homem Duplo” são feitos em rotoscopia, quando atores são transformados em animação live action. Mas é inegável que com “Antes do Amanhecer” ele conquistou sua fama. Um dinâmico roteiro aliado à criativa direção e formato (sem cortes) já alçaram Linklater a um patamar de interesse coletivo. Como disse, ele não criou nada, apenas fez algo incomum numa época onde a mediocridade reina no Mundo de Diretores de Cinema. “Boyhood” acompanhar o mesmo elenco por 12 anos, vendo todas as mudanças (físicas e psicológicas) dos personagens. Algo que não é novo, mas é, novamente, ousado. “Boyhood” é um dos melhores do ano. “Boyhood” é um marco cinematográfico. Linklater brilha mais uma vez.

Acompanhamos na tela a vida de Mason a partir dos 5 até os 18 anos. Segundo filho de pais separados, vemos as agruras da infância incerta com o pai ausente, a mãe insegura e vivendo romances incertos, dúvidas sobre o futuro, aflições naturais de uma criança em evolução e brigas constantes com a irmã maior. E acompanhamos toda evolução, desde a mudança física a mudança de perspectivas. As descobertas e evoluções. Das agruras emocionais da mãe com novos relacionamentos, as amizades que vem e vão com as mudanças de cidade e as mudanças de comportamento. Tudo muda, menos os atores. 39 dias de filmagens em 4200 dias de produção. O pequeno Mason tornou-se um jovem e acompanhamos tudo. Ellar Coltrane apenas o interpreta, mas também vimos seu crescimento, assim como vimos Patricia Arquette engordar/ emagrecer/engordar e vimos Ethan Hawke ficar com rugas e cabelos brancos. Os personagens envelheceram, assim como os atores, o que torna tudo mais cativante, sincero, verdadeiro. É quase impossível distinguir Mason de Ellar. Num indústria de prazos e retorno, Linklater é mesmo ousado.


“Boyhood” é mais que um filme: é uma experiência cinematográfica e uma reflexão sobre família.

Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Sound City

Nome Original: Soundcity
Ano: 2012
Diretor: Dave Grohl
País: EUA
Elenco: Dave Grohl, Krist Novaselic,Paul MacCartney,Lars Ulrich
Prêmio: Escolha oficial de 2013 Festival de Sundance.





Imagina você que começou a tocar guitarra depois de ter ouvido Nirvana e Jimi hendrix com 13 anos, depois de ter economizado 200 reais mesada, compra sua guitarra strato na Teodoro e começa a fazer um som. Depois imagine que você , já mais velho assiste como foi a história do estúdio que deu origens aos albuns que você sempre ouvia no talo quando era mais jovem.

Soundcity é isso. Um documentário que consegue unir quase tudo que eu mais gostei na vida e colocar em forma de filme. 



Acho que se trata de algo superlativo de vários pontos de vista: Primeiro, porque não é dirigido por um diretor, nem um documentarista, é dirigido com maestria, registre- se, por ninguém menos que o baterista do Nirvana que depois veio a assumir a guitarra e a voz do Foo Fighters. Segundo: não se trata de somente um documentário é um registro de um dos estúdios que deram origens a albuns como o Nevermind (Nirvana), Bombtrack (Rage Against the machine) , Rated R (Queens of the stone Age) que tocou recentemente no Brasil , como todos os ingressos esgotados, a propósito.






Permeiam o longa entrevistas e testemunhos de diversos músicos que passaram por lá, bem como os donos, os técnicos de som e a atendente. Eles explicam a genialdade e a espontaneidade de um tempo que hoje já não existe mais, pelo menos não em sua maioria. Explico. SoundCity era um estúdio que não tinha frescura, não existia a possibilidade de gravar uma parte de uma música e depois outra e no computador colar, separar ou ajustar a bel prazer do cliente. Não, ali o papo era reto. Guitarra, baixo, bateria tudo microfonado, aperta-se o REC e o que sair saiu.

Nessa toada, Dave consegue provocar,ainda que de leve, um debate extremamente atual que é o papel das tecnologias digitais na criação musical. Com ferramentas como o Protools que praticamente permitem a qualquer pessoa criar música em casa a procura por estúdios diminui e aqueles que não conseguiram se adaptar a essa realidade faliram.


Mas o diretor não é arrogante ao ponto de fechar o assunto. Ele até vê com bons olhos e enxerga esses diversos softwares como instrumentos e ferramentas na criação musical.

Outro cume do filme são as jams que o diretor realiza com nomes "desconhecidos" do rock como Paul Maccartney, Krist Novoselic, Josh, Homme,Trent Reznor etc etc.



Pra mim, assistir Soundcity foi lembrar de uma adolescência que já passou, mas que se mantém nos dias atuais até porque quem curte sabe música é vida interior e diminui a dor da nossa grande solidão




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Fernando Moreira dos Santos
Sessões 

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