terça-feira, 25 de setembro de 2012

Os Infiéis



Nome Original: Les Infidèles
Diretores: Fred Cavayé, Michel Hazanavicius, Emmanuelle Bercot, Alexandre Courtes, Eric Lartigau, Jean Dujardin e Gilles Lellouche.
Ano: 2012
País: França
Elenco: Jean Dujardin e Gilles Lellouche.
Sem Prêmios

Os Infiéis (2012) on IMDb
 

A infidelidade já foi tema de incontáveis filmes de todos os países. É um tema universal e que universalmente não consegue ter uma resposta do porque ela existe. Mas perguntamos por que um pombo é atropelado, por que as mulheres usam vidro do metrô como espelho ou por que uma folha de papel é capaz de causar uma dor maior do que o de uma queda? Não. A busca pela monogamia cabresteira é uma obsessão da humanidade desde que a maça foi comida pelo desejo do diferente, que faz com que todos os seres humanos deem aquela olhadinha para o lado, uma virada de cabeça, um arrepio ao ouvir uma voz. O universo masculino sempre é mais ligado a esse assunto, mas há para todo o gosto, pois homens, mulheres... não há distinção de gênero, cor ou raça para traição. Nada sei, só sei que a situação faz o adúltero.

O grande atrativo de “Os infiéis” são os nomes de Michel Hazanavicius e, principalmente de Jean Dujardin, grandes vencedores do último Oscar por “O Artista”. Dujardin nunca me convenceu em seus outros papéis, o considerava o Keanu Reeves francês: um rosto, um papel. Mas em “O Artista” esse seu rosto único caiu bem por conta da necessidade da expressão facial e aqui pude ver outro ator. Parece que o careca dourado na estante fez bem a ele. Seu parceiro em quase todos mini-filmes é Gilles Lellouche. Aliás, a semelhança entre os dois é algo espantoso.


Seja num par de amigos e parceiros na noite em busca do objetivo de comer Paris toda, numa pastiche terapia dos Infiéis Anônimos, num dentista que não consegue acompanhar o ritmo da juventude de sua amante, um homem em uma convenção que só quer bater uma punhetinha antes de dormir ou ainda numa contração do esfíncter, as histórias podem ser hilárias, improváveis ou bem reais, mas que o assunto principal é essa tal infidelidade. A minha predileta é do casal que após um jantar faz juras de ter um papo aberto sobre o passado e sobre infidelidade. Uma beleza que, por momentos, nos faz lembrar “Cenas de um Casamento” de Ingmar Bergman. Calma, não se empolgue... O exagero pode ser fatal.

Há uma filmografia completa sobre o assunto. “A Mulher doLado” é a melhor tradução sobre o adultério que já vi nas telas. Menção honrosa para “Perdas e Danos” e ao brasileiro “Histórias de Amor Duram Apenas 90Minutos”. Ah, há também “De Olhos Bem Fechados” do Kubrick. (Se eu ficar lembrando, vou fazer um post só sobre isso – não é má idéia). “Os Infiéis” não tem profundidade e nem é a sua intenção. Ele está mais para um “E aí, Comeu?” francês do que qualquer outra coisa, porém o seu grande problema é, por questões obvias, a (falta de) evolução do filme. Filmes em forma de esquetes, feitas por diretores diferentes, nem sempre costumam gerar bons resultados, mas há de se dizer que a sua proposta de fazer rir é atingida em alguns momentos, mesmo que precise apelar em muitos deles. Não sei se mereceria algum premio ou se terá a mesma sorte que “O Artista” no Oscar de 2013, mas eu já o coloquei em uma lista: a maior quantidade de bundas que vi em menos de 2 horas nos últimos anos de cinema. Já é alguma coisa.




Vitor Stefano
Sessões

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Um Conto Chinês

Nome Original: Un Cuento Chino
Diretor: Sebastián Borensztein
Ano: 2011
País: Argentina e Espanha
Elenco: Ricardo Darín, Ignácio Huang e Murial Santa Ana.
Prêmios: Melhor Filme Iberoamericano do Goya, Menção Honrosa de Melhor Filme no Festival de Havana, Melhor Ator, Atriz Coadjuvante e Filme da Academia Argentina de Cinema.
Um Conto Chinês (2011) on IMDb
 

Tudo o que é Sólido Desmancha-se – Ponderabilidade do absurdo e esperanças em declínio

A expressão “um conto chinês” é utilizada pelos argentinos para se referir a uma grande mentira. Contudo, não se deixe enganar. Por mais improvável que sejam as histórias deste filme, todas estas supostas mentiras são baseadas em fatos reais.
De forma poética e simples, “Um Conto Chinês”, convida a uma terna reflexão sobre a ponderabilidade do absurdo.
O que é, afinal, um absurdo? Uma vaca despencar do céu? Uma amizade entre duas pessoas que não entendem uma só palavra do que conversam? Uma guerra?
O ponto de partida deste intrigante enigma é o igualmente imponderável encontro entre um argentino e um chinês.
Roberto (Ricardo Darín), veterano da Guerra das Malvinas, vive recluso em sua casa em Buenos Aires, leva uma vida automática como dono de uma loja de ferragens, tem como único hobby colecionar recortes de notícias absurdas e se satisfaz com sua vida isolada. Não faz questão de ter amigos, como também não se deixa seduzir pela cunhada do jornaleiro, Mari (Muriel Santa Ana), de Mendoza, apaixonada por ele. Sua rotina é absurdamente repetitiva, metódica e neurótica, mas, apesar disso, tudo vai bem nesta monotonia cotidiana até que um chinês, Jun (Ignacio Huang), depois de ser roubado e arremessado de um taxi, entra em sua vida e aparece para desestabilizá-lo [ou seria estabilizá-lo?]. Jun, após perder a noiva em um acidente completamente inimaginável, uma vaca despenca do céu em cima dela, desembarca na Argentina a procura de seu tio, único parente vivo, cujo endereço está tatuado no braço; é um rapaz afobado, não conhece ninguém e não fala uma palavra em castelhano.
As vidas destes dois intrigantes personagens se cruzam de forma imponderável, levantando importantes questões sobre a [in] tolerância entre as diferenças.
Com problemas de comunicação devido aos idiomas completamente distintos, a contragosto, os dois passam a conviver de forma estranha e nem sempre pacata, esperando o momento em que alguém salve o chinês naquela terra de desconhecidos. Depois de uma tentativa frustrada de encontrar o tio chinês, Jun passa a ajudar Roberto em sua loja de ferragens, ao mesmo tempo começam a dividir o mesmo teto sem ao menos se gostarem. Esta situação absurda que tira do eixo a vida de Roberto o deixa cada vez mais indignado, pois tudo o que ele quer é se isolar do mundo e praticar suas manias. Porém, em sua anti-sociabilidade, ele começa a se mostrar um homem muito criativo para contornar a situação. A falta de comunicação que permeia sua vida entra em choque e esta experiência do exótico é enriquecedora.
Outro tema que se insinua no enredo é o tempo: os relógios, o prazo que o argentino estabelece para que Jun saia de sua casa, a rotina, o tédio, o comodismo em que às vezes cai e quanto tempo leva para percebê-lo. Entretanto, é durante essa convivência que é possível enxergar os quão parecidos são os dois personagens, mesmo que eles não se compreendam verbalmente, apenas por gestos, expressões ou histórias de vida.
Nesse meio tempo, Roberto parece extremamente inacessível, como se o acolhimento do chinês fosse apenas um favor temporário. Espera-se que eles se apeguem, mas isso nunca fica tão claro. Sofrido pelas mazelas do passado, Roberto aprendeu a ficar sozinho, não dá abertura nem a um possível novo romance em sua vida, ao mesmo tempo em que transmite sua dificuldade em aceitar no que se transformou. Sua rotina fala muito sobre como sua vida virou mero acaso, apenas aceitando que um dia é seguido do outro e por aí vai. Mas ao conhecer Jun, ele passa a se importar, mesmo que nem sempre demonstre, com aquele rapaz jovem e que tanto o lembra: perdido, sozinho e claramente de bom coração.
É possível encontrar também, no modelo adotado pelo diretor, uma nostalgia pelo presente por contar com o aparecimento de um ‘anti-herói’ com características ‘existencialistas’ e não ter “a família feliz na cidadezinha do interior, a normalidade e a ausência de qualquer comportamento divergente na vida cotidiana” (1). Tira-se a autonomia do interior, o ponto distinto que funcionava como uma expressão alegórica de conforto e uma certa segurança. “No entanto, ainda que não seja o caso confundir uma pessoa com o que ela pensa ser, essas auto-imagens são certamente bastante relevantes e constituem uma parte essencial de uma descrição mais objetiva ou de uma definição. Mesmo assim, parece possível que as realidades mais profundas tenham pouco a ver com quaisquer dos nossos estereótipos culturais de anos rotulados e definidos em termos de décadas e gerações” (2).
Com o que foi apresentado até o momento, verifica-se que Roberto passa a mudar sua postura e observando-se a passagem: “Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens são finalmente forçados a enfrentar com sentidos mais sóbrios suas reais condições de vida e sua relação com outros homens” (3), é possível afirmar que ele teve sua ‘aura de santidade’ subitamente ausentada, percebendo que não poderia compreender a si mesmo no presente sem confrontar-se com essa ausência. Com isso, o cenário, a realidade de Roberto desintegrou e metamorfoseou-se em algo irreconhecível, surreal, uma construção móvel que se agita e muda de forma sob os pés dele. Antes disso, entendia que tudo o mais nele que não era considerado atraente para as pessoas era reprimido de maneira drástica, ou deteriorado por falta de uso, ou nunca ter uma chance real de se manifestar. Estava estranhamente empenhado em esconder muito de sua própria luz sob um punhado de argumentos irrelevantes, tendo como razão, supõe-se, existir um lado escuro desta luz que ele não era capaz de suprimir. Tendo uma vaga consciência deste fato, todavia, sentia-se profundamente constrangido e amedrontado, a ponto de preferir ignorar ou negar sua própria força e criatividade a olhar de frente suas virtudes e conviver com elas.
O argentino, apoiado indiretamente pelo chinês, colocou-se a trabalhar, mover-se, cultivando, comunicando-se, organizando e reorganizando a natureza e a si mesmo. O sonho do visitante passou a transformar-se em um projeto nas mãos de Roberto, a fantasia de encontrar o tio, as idéias mais exóticas e extravagantes viraram realidades, ativando e nutrindo novas formas de vida e ação. O protagonista adotou uma postura ativa, de forma a não ser mais vítima passiva das mudanças impostas por sua rotina. Entendeu que estabilidade significa morte lenta, uma vez que o sentido de progresso e crescimento era o único meio disposto para saber, com certeza, que estava vivo. Para sobreviver na modernidade, necessitou assumir a fluidez e a forma aberta dessa sociedade. Com luta e esforço atingiria o almejado fim.
Homens e mulheres modernos precisam aprender a aspirar à mudança: não apenas estar aptos a mudanças em sua vida pessoal e social, mas ir efetivamente em busca de mudanças, procurá-las de maneira ativa, levando-as adiante. Precisam aprender a não lamentar com muita nostalgia as ‘relações fixas, imobilizadas’ de um passado real ou de fantasia, mas a se deliciar na mobilidade, a se empenhar na renovação, a olhar sempre na direção de futuros desenvolvimentos em suas condições de vida e em suas relações com outros seres humanos(4).
Mas certamente já se trata aqui de uma mudança da realidade para Roberto e Jun, tendo como mais significativo, segundo a perspectiva do filme, o valor paradigmático dos personagens, que apresentavam traços em comum, relacionando-os segundo a própria natureza solitária. Tudo gira em torno das distinções e semelhanças dos dois: as primeiras culturais, e as últimas comportamentais.
Os personagens romperam com todos os laços que os subordinavam a ranços, exprimindo (“act out”) seus conflitos, em vez de reprimirem ou sublimá-los. Deixaram de cultivar uma superficialidade protetora nas relações emocionais. Passaram a ter capacidade de sentir pesar, desvinculando-se da ira contra objetos amorosos perdidos (no caso de Roberto, a mãe; no de Jun, a noiva), revivendo experiências felizes e/ou que as guardem na memória. Liberaram sentimentos intensos e defesas contra ira e privação oral. Para Roberto, de forma mais marcante, a verdade tornara-se nua e foi “forçado a enfrentar quando perdeu tudo o que os outros homens podiam tirar-lhe, exceto a própria vida(5).
Quando foram forçados a enfrentar as novas condições de vida e suas relações, Roberto e Jun desacomodaram-se e uniram-se para combater o que lhes afligia. Essa união gerou energia coletiva capaz de alimentar uma nova vida em conjunto, possibilitando contato com os mais íntimos recursos individuais.
Em uma sociedade que tem horror à velhice e à morte, o envelhecimento implica um terror especial para os que temem a dependência e cuja auto-estima requer a admiração geralmente reservada à juventude, à beleza, à celebridade ou ao encanto pessoal” (6), e Roberto, até encontrar-se com o chinês, tinha suas esperanças declinadas, abortadas e ignoradas, não possibilitando um bom relacionamento consigo mesmo e com as pessoas que demonstravam gostar e se interessavam por ele. Paralelamente, Jun somente tinha sua sensação de auto-estima aumentada quando se ligava, mesmo que na memória, a figuras admiradas e fortes, seu tio, cuja aceitação era por ele muito desejada e por quem precisava sentir-se apoiado; embora empreendesse suas responsabilidades cotidianas e chegasse mesmo à distinção, a felicidade o iludia e a vida freqüentemente não era digna para ser vivida.
Mas o que era mascarado aqui é o fato de que esses movimentos espirituais, culturais e transcendentais entre os dois personagens, pelo seu explosivo poder, são apenas bolhas na superfície de um imenso caldeirão sociocultural que vem esquentando e fervendo há mais de séculos. No entanto, há a possibilidade radical de que os conceitos de períodos e personagens, no fim das contas, não correspondam a nenhuma realidade, formulados em quaisquer termos e/ou categorias, e essa realidade coletiva das vidas abrangidas seja impensável, não podendo jamais ser descrita, caracterizada, rotulada ou conceituada.

Contribuição de MATEUS MARQUES TOZELLI para o Sessões direto de Brasília.



(1) JAMESON, FREDRIC. Pós-Modernismo – A lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Editora Ática, p. 286.
(2) JAMESON, FREDRIC. Pós-Modernismo – A lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Editora Ática, p. 287.
(3) MARX, KARL apud BERMAN, MARSHALL. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar – A aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 88.
(4) BERMAN, MARSHALL. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar – A aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 94.
(5) BERMAN, MARSHALL. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar – A aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 104.
(6) LASCH, CHRISTOPHER. A Cultura do Narcisismo – A vida americana numa era de esperanças em declínio. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1983, p. 66.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Exuberante Deserto

Nome Original: Adama Meshuga’at
Diretor: Dror Shaul
Ano: 2006
País: Israel, Alemanha, França e Japão.
Elenco: Tomer Steinhof, Ronit Yudkevitz, Shai Avivi, Pini Tavger e Henri Garcin.
Prêmios: Urso de Prata no Festival de Berlim, Prêmio do Grande Juri no Festival de Sundance e Melhor Direção de Arte, Música, Filme e Som da Academia Israelense de Cinema.
Exuberante Deserto (2006) on IMDb


O conceito de Kibutz é de uma comunidade agrícola criada em Israel como conceito de vida em conjunto baseada no socialismo e no sionismo. É considerado por muitos uma das melhores experiências de vida comunitária já ocorrida na história e é tido como a base da, hoje reconhecida, força da comunidade israelita por seus preceitos e senso de ajuda mutua. Muito bonito se não fosse irreal. Toda vida em comunidade é cheia de percalços, inverdades e dificuldades. Não há como ter um modelo de vida em grupo que não tenha problemas, obvio, mas quanto mais fechada, mais dúvidas quanto a sua idoneidade. Quem sou eu para julgar o problema dos outros, mas em “Exuberante Deserto”, quem o faz, quem conta essa história é Dror Shaul através de seu alter-ego Dvir em um kibutz nos anos 70.

Dvir é considerado por todos como o menino rebelde da comunidade. Perto de fazer seu Bar Mitzvah, órfão de pai, vive numa espécie de internato, onde estuda e dorme no colégio, mas tem acesso a visitar a casa nas tardes. Suas costumeiras fugas noturnas são para cuidar da mãe, Miri, doente e com passagens em hospitais psiquiátricos. O mistério de como seu pai morreu ainda é uma busca para Dvir. Ao atingir os 13 anos as crianças tornam-se útil à sociedade, motivo de orgulho e produtividade para o kibutz que vivem. Miri tem picos de melhora, principalmente quando da possibilidade de seu namorado epistolar passar duas semanas com ela em sua casa. Após aprovação dos membros da comunidade, ele vem. Ela parece curada. Dvir sorri, vê nele a possibilidade de melhora, de ter um pai. Mas isso não dura. A mãe entra num parafuso sem fim, num poço sem agua, numa viagem sem volta. Dvir faz tudo o que pode para salvá-la. Passa o verão, outono, inverno e primavera. Miri está afundada. Dvir nunca desiste. Quer ver a dor da mãe longe. Mas porque tanta dor? Por quê? Porque não fugir daquela prisão em forma de coletividade? Porque está tão presa num lugar cheio de adultérios, zoofilia ou mesmo assassinos frios? Por quê?


Nunca diria que todo kibutz era como “Exuberante Deserto” mostra, mas desde a evolução para homo-sapiens as causas individuais sobrepõem-se às do grupo. A opressão de viver em uma comunidade onde todos são donos de tudo impede que haja uma atitude desmedida, uma vontade querida, um desejo conquistado. Isso é a oposição da liberdade. O comunismo é a privação da liberdade? Bom, a questão é complexa e sem resposta correta. Não há liberdade sem pensamento livre e é por aí que “Exuberante Deserto” tem sua importância. Um roteiro que poderia ser mais profundo, mas por retratar uma realidade que poucos viveram, tem a medida certa para conseguirmos sentir o viver dentro de um kibutz e sob a vigilância de todos. Claro que nessas sociedades antiidealistas que vivemos hoje também estamos sob os olhos de todos, mas podemos fazer o que quiser. Sim, temos privações, mas ao menos podemos sentir a possibilidade de viver em liberdade. O deserto dos outros é mais exuberante do que os nossos.


Vitor Stefano
Sessões

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Drive

Nome Original: Drive
Diretor: Nicolas Winding Refn
Ano: 2011
País: EUA
Elenco: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks, Oscar Isaac, Christina Hendricks.
Prêmio: Melhor Diretor no Festival de Cannes.
Drive (2011) on IMDb



Quando do lançamento de “Drive” disseram de tudo: “o melhor filme do ano”, “nunca vi nada tão ruim”, “que filme apelativo”, “é estilo do Tarantino”. Bom, se é estilo Tarantino eu fiquei com o pé atrás e só agora vi o filme do dinamarquês Nicolas Winding Refn. Apesar de arrebatar quase 40 prêmios em todo o mundo, ser considerado o filme cult da temporada, a associação ao diretor pastelão me fez ter um certo receio em busca-lo. Mas aqui estive diante do filme mais cool feito nos últimos anos. Um acerto monumental.

Ao vermos nos primeiros minutos um filme sobre um motorista, fica quase impossível não compará-lo a “Taxi Driver”. Mas com um pouco mais de tempo vemos que o personagem principal, interpretado por Ryan Gosling, faz um tipo absolutamente impar que pode ser um invisível e pode ir de uma fraternidade de dar inveja ao Papai Noel a uma soturnidade de dar raiva no tinhoso, que deixa o expectador com a mente aberta a ele conseguir ser um cavalheiro romântico ou um matador sanguinário. Tudo pode vir daquele ser. A vida desse motorista muda completamente com a chegada de um vizinha em sua vida, que com seu filho, conseguem tirar alguma expressão daquele misterioso ser. A partir daí, tudo pode acontecer.



Gosling é uma estrela, a maior da Terra de Holly nos dias atuais. É só tropeçar, dar uma olhada nos pôsteres e lá está. E com muito mérito, pois é muito versátil. O elenco de apoio também é valioso, principalmente pela ótima Carey Mulligan e Albert Brooks, mas é Ryan que rouba toda a cena. Não conhecia absolutamente nada desse diretor, porém é um nome certo a ficar de olho nas suas próximas investidas. E “Drive” não é mais um, é um filme que em pouquíssimo tempo estará nas prateleiras de cult, adorados, amados, mesmo com pouca gente tendo-o visto, mas que sabe dizer que é bacana, que curte, usa a camiseta e fala que o filme é FAN-TAS-TI-CO. Quem sabe estamos diante de um novo “Clube da Luta”, “Laranja Mecânica”, “Cães de Aluguel” ou “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”. Pode ser... Pode ser muito mais...

Vitor Stefano
Sessões

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Intocáveis




Nome Original: Intouchables
Diretores: Olivier Nakache e Erick Toledano
Ano: 2011
País: França
Elenco: François Cluzet e Omar Sy.
Prêmios: Cesar de Melhor Ator (Omar Sy) e David di Donatello de Melhor Filme Europeu.
Intocáveis (2011) on IMDb


Sabe aquela sensação de após subirem os créditos do filme e você fica extasiado, numa sensação de leveza e paz, onde parece que não há mais ninguém em seu entorno e a sua vida está em segundo plano após as imagens que você acabou de ver. Sabe quando você perde a noção dos problemas, afazeres, preocupações que lhe pareciam vitais, que tomavam todo o seu pensar antes de sentar à poltrona, mas em questão de instantes eles parecem tolos e superados. Não sei se isso já aconteceu com vocês, mas “Intocáveis” conseguiu fazer isso comigo. 

A história do milionário Philippe teria tudo para ser um poço de boçalidade, na busca pela sobrevivência como uma erva daninha esperando a graça divina da morte para superar a tetraplegia. Cuidadores cultos, cursados, “bom-moço” estiveram sempre ao seu lado para deixar a vida de alguém que só se move do pescoço pra cima ainda mais monótona. Quando aparece Driss, o filme, a história, a vida de Philippe muda completamente. Ele, interessado apenas num documento para garantir o seguro desemprego, cativa com seu jeito non-sense, visceral, autêntico e, acima de tudo, não piedoso à condição do contratante. Apesar de seu aspecto pouco confiável e que gera certo receio de sua equipe de apoio por ser negro, africano, ex-prisioneiro, Philippe, apesar de sua incapacidade é o senhor de seu destino e faz com que Driss seja seu ajudante para dar banho, tirar e por na cadeira de rodas, levar para tomar um ar ou segurar o telefone enquanto fala. A história de cada um tenderia a rumar cada um para a sua morte – lenta ao tetraplégico e fatalmente rápida ao imigrante, mas por razões que não são controláveis, eles se salvam, tornam-se um só, tornam-se intocáveis.


Um sucesso de público nunca antes visto na história do cinema francês. “Intocáveis” bateu todos os recordes da história da França por ser um filme comercial na medida exata. Agora que você leu “filme comercial” e torceu o nariz, não o faça de modo algum, esqueça a Hollywood que tanto nos proporciona filmes rasos e vazios. O filme dirigido por Olivier Nakache e Eric Toledano é a perfeição em forma de cinema. Num cinema tão rico como o francês, não me julgue por não estar falando de Godard, Truffaut ou Resnair, mas seus filmes são profundos e por vezes não conseguem atingir a gregos ou troianos. Já Intochables é um mistério. Não há como não ver e sair do cinema com a sensação que descrevi no primeiro parágrafo. É impossível. E tudo ainda fica melhor quando um roteiro “perfeito” é feito por atores que estão e estarão eternamente marcados com os personagens.

Já vimos muitos atores fazendo personagens debilitados e que deram um show, como Javier Barden em “Mar Adentro”, Al Pacino em “Perfume de Mulher” ou mesmo o francês Mathieu Amalric em “O Escafandro e a Borboleta” e François Cluzet entrou nesse grupo. Maravilhoso e preciso. Mas é impossível não ficar agraciado, porque não apaixonado, apenas com a figura de Omar Sy dominando a tela. É um tipo de mistura perfeita que chega a uma receita que você ama, sempre tenta, mas nem sempre dá 100% certo. “Intocáveis” deu muito certo então vou anotar no meu caderno, ter na minha videoteca, ver de novo no cinema, ver semper que passar na televisão. É um filme que estará eternamente intocável em minha memória.



Vitor Stefano
Sessões
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