sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Homem Elefante

Nome original: The Elephant Man
Diretor: David Lynch
Ano: 1980
País: EUA
Elenco: Antony Hopkins, John Hurt, Anne Bancroft e John Gielgud.
Prêmios: Indicado a 8 Oscars e Bafta de Melhor Ator, Direção de Arte e Filme.
O Homem Elefante (1980) on IMDb
A qualidade de ver as pessoas além das aparências não são condicionadas pelos tempos vividos nem pelas condições sociais, ela reside, sobretudo no interior do ser humano de forma latente sem manifestação em todas as pessoas.

Mais uma brilhante forma de mostrar o homem como ele é em profundidade em suas mais diversas facetas.

O homem elefante é um filme do mais cultuado da atualidade Sr. David Lynch que narra o verídico caso do Sr.Joseph Merrick (no filme chamado de John Merrick) que sofreu de uma doença conhecida como síndrome de Proteus(em referência ao deus grego que se metamorfoseava em monstro para fugir daqueles que vinham lhe perguntar sobre o futuro),apesar de alguns especialista também falarem em neurofibromatose .A doença se caracteriza pelo surgimento de deformações na pele,que crescem de forma desproporcional no rosto e em partes do corpo deixando seus portadores com a aparência de aleijões.

O filme se inicia com uma sessão de Freak Show em que ,anões,mulher peluda,Homem que sopra fogo são aos poucos introduzidos em cena e os policiais interditam a prática e afirmam que esse tipo de espetáculo deve acabar por ser uma forma de se aproveitar das pessoas com este tipo de deficiência. Neste meio, porém está um médico –Frederick Treves(Anthony Hopkins) que fica interessado em assistir o show intitulado de O Homem Elefante - John Merrick (John Hurt).

Não obstante, o médico é impedido por aquele que se auto intitula o dono-sócio do homen elefante Sr.Bytes (o que já denota certa falta de escrúpulo) e é obrigado a pagar mais para vê-lo.Após perceber que Bytes tem tratado o homem elefante de forma humilhante e degradante o médico, então passa a cuidar de John Merrick e a trata-lo como uma pessoa normal levando-o para o Hospital.

O homem elefante então passa a ser o espetáculo, da aristocracia vitoriana ao invés de ser sujeito a um freak show circense.Todos vão visita-lo,todos tornam-se amigos e ao mesmo tempo John Merrick vai mostrando sinais de uma humanidade muito mais além daqueles que o cercam.

No entanto, alguns arruaceiros invadem o quarto de John e o forçam a novas humilhações, ao que o Sr.Bytes o toma de volta pra si -refere-se ao homem elefante por “meu tesouro”- e o leva para a Bélgica para de novo ser sua fonte de renda em show de bizarrices. Embriagado, Sr.Bytes espanca e trancafia o homem elefante numa jaula com macacos e com a ajuda de outros freaks consegue fugir e voltar para a Inglaterra.


Lá é levado a uma peça de teatro por sua amiga Sr.Kendal (Anne Bancroft) e ao final da peça é ovacionado de pé por todos os presentes. De volta a clínica termina uma maquete da igreja de São Filipe e realiza o maior desejo de sua vida: Dormir como todos dormem,deitado.Em virtude do tamanho e do peso da cabeça dormir deitado para o homem elefante significaria quebrar o pescoço.E ele dorme.

David Lynch
As cenas iniciais são as mais lynchianas do filme por trazer a possível referência à morte ou ao sexo com elefante da mãe de John Merrick.Além disso a forma que a cena é montada tende a levar o espectador àquele conhecido e estranho universo de "Cidade dos Sonhos", "Últimos dias de Laura Palmer" ou "A Estrada Perdida",embora,a sensação seja só passageira. Essa abertura retoma pelo meio do filme num pesadelo do Homem Elefante.

A questão moral
A meu ver,ao fazer esse filme a ideia era não mostrar a animalidade de uma pessoa do ponto de vista de sua aparência exterior, mas enfatizar aquilo de pior que há em nós mesmos quando o assunto é aquilo que não se conhece, quando se está diante do outro e ele é extremamente diferente, medonho e abominável.

O próprio John Merrick em um chá vespertino reconhece isso em sua fala a mais um casal dos vários da aristocracia inglesa que vieram lhe visitar para depois, quiçá, contar a experiência aos amigos mal conseguindo conter horror que sua aparência lhe causava:

“As pessoas se assustam com aquilo que não conhecem. Eu também não entendo. A minha mãe era tão bonita”

O que salta aos olhos é o dilema que cerca o Dr.Treves que se pergunta em tom de crise existencial se não houvera ele se transformado em um Sr.Bytes,isto é,justamente aquele que humilhava o pobre homem por expô-lo ao público e, de alguma forma,ter feito famaàs expensas da desgraça do homem elefante já que como acadêmico e médico sua fama aumentara e de certa forma ele se assemelhou ao fazer de John Merrick um objeto mudando o público mas da mesma forma criando um certo espetáculo sobre a condição do doente.

Se do ponto de vista da moral Dr.Treves se compara ou não com o algoz Sr.Bytes fica a cargo do telespectador determinar. Eu acredito que por ter tido esse insight o Dr.Treves está acima de Bytes moralmente porque ele se questiona sobre seus atos serem certo ou errado e no final acaba por despertar uma relação de amizade e respeito.

A amizade é retratada pela atriz de teatro senhora Kendal que é uma das primeiras da alta sociedade inglesa á ir conhecer o Sr.John Merrick e a sua visita é muito especial porque acaba por trazer à tona a sensibilidade e gentiliza que se encontra abaixo do corpo deformado de John eles têm uma agradável conversa em que falam de teatro e recitam Shakespeare.


O filme traz a temática do apego a vida,da confiança,da esperança sem deixar de ser um filme atual por mostrar a baixeza de caráter, o oportunismo e preconceito social em relação aquilo que foge a normalidade, além de ser uma dura crítica à hipocrisia social de qualquer época. Até hoje, quem nunca parou no trânsito para contemplar um acidente que atire a primeira pedra.Eu não consigo precisar o que vem a ser isso mas me parece uma espécie de voyeurismo sádico de ver no outro sofrendo motivo de imenso prazer. De certa forma é um filme que alerta para aquilo que há de diferente na vida social e isso pode se estender, inclusive, à minorias,étnicas,raciais,de genêro,religião,sexuais e culturais. Quantas pessoas já não foram tratadas como homens elefantes por se vestir diferente ou por pensar diferente ou por terem tal ou qual deficiência física?

Desconfio que o mundo atual esteja repleto de homens elefantes e o comportamento pode ser tanto à lá Sr.Bytes quanto à lá Sr.Treves.É importante que consigamos responder com sinceridade a pergunta se o que importa a sociedade é a aparência física ou a grandiosidade do caráter e da personalidade.

A atuação
O que me fascina na forma do Antony Hopkins atuar é que ele tem um jeito gentlemen de ser. Parece um lorde inglês e na verdade é. Só pra dar um exemplo embora não precise dadas as atuações em "Vestígios do Dia" e a Trilogia do Hanibal. Uma cena bastante relevante para ver a qualidade do ator é nas cenas em que há uma tomada com o rosto do ator e ele tem de chorar. Isso acontece quando o Dr. Treves vai pela primeira vez, assistir ao espetáculo do Homem elefante.Sua expressão é esta.Rola uma lágrima.A noção de quão abominável e o quão dura deve ser a vida de John Merrick nos é dada por uma única lágrima.


Não podemos deixar de reconhecer o poder de encenação daquele que representou o próprio protagonista o Sr. John Hurt consta que a maquiagem era pesada e levava mais de dez horas para ser feita o que forçou o ator a desenvolver um jeito próprio de andar equilibrando o peso do corpo com o da cabeça.

A parte mais emocionante é quando da perseguição por uma porção de pessoas que correm atrás de John no metrô para vê-lo de perto.

Nesta ocasião, o homem elefante dá um grito lancinante de silenciar a todos.


“No! I’m not an elephant.
I’m not an animal.
I am a humam being
I am a man”

E por fim a brilhante Anne Bancroft aqui não mostrando suas belas pernas como em a "Primeira Noite de Um Homem", mas correspondendo à altura do papel.

A música final é de autoria de Samuel Barber e é o Adágio para Cordas que também foi usado por Oliver Stone em Platton um filme a ser comentado em data futura.

Polêmica
Há um texto interessante no The Guardian sobre uma jornalista que analisa o que é/foi verídico na vida de Joseph Merrick e compara com o que foi retratado no filme.Ela acaba concluindo que o homem elefante real foi de uma grandiosidade de caráter muito maior que o do filme.

Acho questionável.

Fernando Moreira dos Santos
Sessões

4 comentários:

  1. Fê, este filme é muito importante para a história da filmografia cinematográfica da história dessa arte chamada cinema.

    A história em si é inspiradora. O homem elefante vai além de um ser com a síndroem de Proteus, adentra a sociedade massacrada com o ideal da perfeição, do normal, do belo, do estereotipado. Gostamos do belo porque alguem determinou o que deveriamos gostar e todos nós seguimos. Principalmente na cultura ocidental, temos a necessidade de determinar tudo, de tabular tudo, de saber tudo (e julgar todos com nossos pseudoconhecimento do que é a ética e respeito pelo ser oposto).

    Lynch faz aqui, ao lado de "Uma História Real" seu filme mais "normal". Normal em linearidade da história... Mas a verdade é que aqui ele começou a aparecer para o mundo e ser reconhecidamente um dos grandes diretores da atualidade, podendo mostrar seus devaneios sem medo, sem pressão e com seu toque de loucura transcendental. Aliás, esse filme que me cativou a ser fã de Lynch.

    Fê, parabéns pela leitura e pelas críticas ao ser humano que apesar das boas intenções, é marcado pela obscuridade que rege nossas ações!

    Vitor Stefano
    Sessões

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  2. Faz lembrar um homem elefante que conheci. Era doce, gentil com quem conseguia se aproximar, tinha dois empregos, graduado na universidade. Em mim ele ganhou um admirador anônimo. Ficava pasmo! Parecia que a sociedade em todas as suas tentativas e seus olhares incomodados não conseguia lhe roubar a naturalidade. Me perguntava! Como ele percebia a realidade? Afinal, ele estava lá de pé, sentado, correndo atrás do que o mundo corre.

    Me acostumei com aquela feiúra e imaginei que ele não tinha nada de horripilante em nenhuma gaveta de sua casa ou embaixo de sua cama. Tudo estava ali ofertado em uma bandeja, desafiando, encarando: Você volta a cara quando olha para mim? Você volta a cara quando passa por si?

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Sou um grande fã do Lynch e o que me torna tão fã dele além de seus filmes incriveis é como fico surpreso a cada vez que vejo um novo filme dele.Esse é genial.

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