quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Divagações de Fernando: O cinema é o divã

É muito importante que quebremos nossos preconceitos artísticos.

Cena de "Noites de Cabíria" de Federico B(F)ellini
Bellini* e Bodard* acho que devem ser zuados por serem intelectualóides. Veja, eu conheço dois filmes do Bodard e vi que têm valor estético e tal, porque me fizeram refletir e me tocaram de uma maneira sensacional, as minhas sensações, digo

Eu admito uma incapacidade de gostar de Almodóvar, porque um cara no cursinho era tão cheio de si, parecia ser o moderninho do mundo, saca aqueles que se acham na crista da onda do cinema, menos do que apreciam a parada para si mesmos.

Penélope Cruz e Pedro Almodóvar
Tipo, parecem que gostam para falar que gostam e não porque são tocados pela obra. Daí eu ter muita dificuldade com Almodóvar e é foda isso, porque a professora de espanhol da facul, é doente por Almodóvar. Ela mostrou um filme dele que não saiu aqui, acho que se chamava Tacones Vermelhos ou Distantes*, não lembro mas a tradução era tipo o barulho dos tamancos e tal e eu achei absurdamente bom. Me perdi no roteiro várias vezes e fiquei pensando comigo mesmo que cabeça poderia conceber uma história tão boa e bonita com interpretações monstros, mulheres de uma personalidade marcante pra caralho e de diálogos destruidores.

Mas, lá de baixo veio o preconceito: "Almodóvar é tudo! Que se dane o cursinho hoje eu vou ver o filme do Almodóvar pela oitava vez!!!!” e o bosta do muleque queria prestar RI (Relações Internacionais) hoje faz Ciências Sociais lá na facul. Quando ele me viu, virou a cara, mas eu fui falar com ele e disse que tava fazendo aula de cinema de optativas. Ele olhou de um jeito arrogante e perguntou: "O que você entende de cinema, Fernando?". Acentuando o RRR, tipo Ferrrrrrrnando!!!!!

Eu abreviei a conversa dizendo que graças a Deus sabia muito pouco e o que tenho aprendido se devia ao blog – comentei pra ele isso – ele deu uma risada, meio que meneando a cabeça e disse: "Sei, blog de cinema Ferrrrrrrnando? Sessões? UAuahuahauahu...."

Daí ele perguntou o que eu tava fazendo falei que era RI (Relações Internacionais) e saí fora. Disse que precisava escrever sobre um filme pro blog. Ele deve ter ido assistir algum outro filme do Almodóvar pra comentar nas roda de amigos e ter o que falar é claro, muito importante que se tenha o que falar hoje em dia!!!!!

Então, acho que o ambiente – e o Sessões tem colaborado para isso – é um fator que exerce uma influência pesada na nossa apreciação e julgamento. De qualquer forma, tenho tido uma boa experiência com Almodóvar mas ainda não me sinto seguro para escrever sobre ele. Às vezes ele me parece mais um pintor do que um cineasta e eu acho que gosto mais de escrever sobre filme do que falar das cores de uma tela. O foda é que o Kurosawa é pintor, mas a abordagem dele em sonhos me cativou a ponto de eu rascunhar umas coisas sobre ele.

Cena de "Os Sete Samurais" de Akira Kurosawa
Woody Allen é um fodão que pra mim poderíamos passar completamente sem. Não li nada sobre ele, não vi nenhum de seus filmes e discordo frontalmente daqueles que o amam. Acho uma bosta, mas desconfio que se eu compreender a obra do cara minhas resistências a ele se reduziriam pra casa do zero. Ou não posso continuar odiando porque não é o meu gosto estético.

Mas eu luto todo o dia contra o meu preconceito a alguns filmes e a algumas abordagens estéticas. Importante isso, meu professor falou muito sobre os filmes do Tarkovski e outros filmes de arte, aqueles bem cansativos, e depois terminou a aula com uma frase que se contrapunha a tudo que ele havia dito. Em conclusão, disse ele: "é maravilhoso e não é pra qualquer espectador". Detestei a conclusão porque me soou elitista. Expus isso. E ele rodopiou longamente e caiu no mesmo lugar....afirmando que era inescapável...essa condição....

"Vai tomar no cuú", pensei!!! Depois balanceei, porque talvez ele tivesse razão. Deixei quieto tava tarde pra caralho e eu tinha uma hora de viagem de volta pra casa ainda......

Cena de "Solaris" de Andrei Tarkovski

Eu torço para que chegue um dia em que os limites do cinema sejam reduzidos a nada. Não seja possível mais diferenciar um filme de ficção científica de um documentário nem um filme de arte de um filme comercial, nem de arte sacra da profana.

Fernando Moreira dos Santos
Sessões

Agora veja mais divagações, agora durante a colação de grau do profissional de relações internacionais:



Edição e Publicação: Vitor Stefano e Leandro Antonio. O texto foi extraido de um e-mail longo, inteligente e diariamente corriqueiro de Fernando Moreira dos Santos.

Glossário:

* Bodard = Referência sessônica ao diretor francês Jean-Luc Godard.
* Belini = Referência sessônia ao diretor italiano Federico Fellini.
* Tacones Lejanos ("De Salto Alto") de Pedro Almodóvar

3 comentários:

  1. Este é o Fernando. Sessônico, filósofo e grande amigo. Parabéns pelo belo texto e pela formatura. Temos um diplomata entre nós!!!!

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  2. Que orgulho desse rapaz! Parece que foi ontem que ele ficava na classe cortando o cabelo sem nem tirar o boné da cabeça, mas não, já se passaram 10 anos!!

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  3. O Fernando é isto aí. Um caos culturete. É contestador, mas cheio de heranças e apegos.

    Leandro Antonio
    Sessões

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