segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dossiê Almodóvar

Pedro Almodóvar Caballero não é apenas o maior cineasta espanhol da atualidade. Ele é sinônimo de cinema. Almodóvar virou adjetivo e ultrapassou as barreiras da tela grande.

Assim como Don Quixote, Almodóvar vem de La Mancha e como seu conterrâneo, um pobre fidalgo, vem de uma família humilde e batalhadora. Com o intuito de torná-lo padre, seus pais o enviaram a um colégio católico porém ele foi educado no cinema. Hitchcock, Buñuel, Bergmann, Fellini foram seus verdadeiros professores.

Inspirado pelos 'professores' largou tudo e foi para Madri em plena ditadura franquista, contragosto de sua família, já com o intuito de tornar-se diretor de cinema. Porém a vida não é tão fácil assim. Franco havia fechado a Escola Nacional de Cinema, mas nem isso o fez abandonar seu sonho. Tornou-se funcionário da Telefonica e por 12 longos anos manteve-se trabalhando para financiar sua paixão. E chegou lá. Com seu primeiro salário comprou sua primeira câmera Super-8. Ainda trabalhando na telefonia, fez seus primeiros curtas, sempre com temática sexual acentuada, temas religiosos e chocou. Conseguiu exibições em circuito alternativo e destacou-se.

A partir de seu primeiro longa, 'Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão' faz de sua filmografia uma leitura da vida muito particular e externou como poucos e teve em 'Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos' seu primeiro grande sucesso. Dirigiu muitos dos grandes atores espanhois da atualidade como Antonio Bandeiras, Javier Bardem, Blanca Portillo, Rossy de Palma, além de suas musas Victória Abril, Carmem Maura e agora Penélope Cruz e sabe como poucos tirar o melhor dos atores e criando personagens memoráveis.

Com a criação de sua produtora, El Deseo, encontrou em seu irmão, Augustín, o seu Sancho Pança. Seu melhor amigo, fiel companheiro, maior compreendedor da complexidade das produções almodovarianas e, nas horas vagas, produtor de seus filmes. Eles tem uma relação de completa cumplicidade. Com a produtora eles tem toda a liberdade para fazer cada obra de arte sem intervenção dos estúdios.

Amadureceu com seus filmes. A cada nova película sente-se mais o clima almodovariano só de ver as imagens. É muito característico o uso de cores forte e quentes, objetos em cena como se fossem um ator, mostrando a Espanha em seus mínimos detalhes. Além de ter como característica principal, decifrar as mulheres. A feminilidade está presente em todos seus filmes, até em 'Má Educação' que tem um núcleo basicamente masculino ou em 'Abraços Partidos' que tem uma visão do ponto de vista masculino. Um olhar, a sutileza, um close. Almodóvar consegue penetrar nas mulheres sem tocá-las. Ele faz delas um poema de amor e de paixão. Atingiu seu ápice com os filmes 'Tudo Sobre sua Mãe' e 'Fale com Ela', mas para tentar entender esse gênio, é necessário conhecer toda sua tragetória para admirá-lo cada vez mais.


Filmografia:

1980 - Pepi, Luci, Bom e Outras Garotas de Montão
1982 - Labirinto das Paixões
1983 - Maus Hábitos
1984 - Que Fiz Para Merecer Isto?
1986 - Matador
1987 - A Lei do Desejo
1988 - Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos
1990 - Ata-me!
1991 - De Salto Alto
1993 - Kika
1995 - A Flor do meu Segredo
1997 - Carne Trêmula
1999 - Tudo Sobre Minha Mãe
2002 - Fale com Ela
2004 - Má Educação
2006 - Volver
2009 - Abraços Partidos

Mesmo com o assédio, não se vendeu para os grandes estúdios de Hollywood, mantendo-se fiel à sua produtora El Deseo, onde tem toda a liberdade para fazer cada obra de arte. Homossexual assumido, sofreu e talvez ainda sofra com o preconceito que o mundo persiste em ter. Chegou a escrever livros totalmente sexuais e hilários, à la Bukowski (que tem um conto seu incluso em 'Fale com Ela'), como Patty Diphusa e Fogo nas Entranhas que não se tornaram e nem se tornarão filmes, ao menos não seus, visto que ao longo de sua carreira deixa cada vez mais sutil seus toques perversos e sexuais. Tomara alguem compre os direitos de filmá-los pois são hilários.

Há uma frase que descreve o modo como Almodóvar deixou de ser um cineasta marginal e tornou-se um dos maiores expoentes do cinema: "O importante é sobreviver e manter a paixão". Após toda essa biografia, ao menos tentem entender e apreciar a obra desse gênio.


Vitor Stefano
Sessões

3 comentários:

  1. Irreverente, amoral, inteligente, libidinoso, cômico. Não o tenho como um de meus diretores preferidos, mas sem dúvida ele é um dos melhores do mundo. Hoje não se pode falar na história do cinema espanhol e quiçá mundial sem comentar a figura de Pedro Almodóvar.

    Atualmente, seu filme Abraços Partidos está em cartaz há dois meses nas salas da cidade de São Paulo, o que significa no mês de dezembro uma grande surpresa, pois nas férias, as salas de cinema não dão conta de comportar uma enxurrada de "filmes de férias de todos os anos" e mantém os donos das salas de cinema felize$.

    Tudo isto digo para reforçar que Almodóvar é indiscutivelmente um fenômeno, além de ser surpreendente a cada filme, pois tem demosntrado que mantém a sua essência e sua "paixão" com versatilidade e maturidade.

    Gostar dele ou não? Almodóvar certamente deixa claro em seus trabalhos que esta é uma decisão do soberano expectador.

    Leandro Antonio

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  2. Almodovar é realmente um artista ímpar. Ainda que algo melodramático, novelesco é uma alma latina. Não sei se faz sucesso na Europa, especialmente nos paises nórdicos. Que me perdoem os puristas e literatos, mas não consigo deixar de associar Almodovar ao nosso literato Josué Montello, recém falecido. Meio intelectual, meio brega, chegado a um tema novelesco, me lembra sempre o cineasta. Passo da paixão à raiva em horas durante a leitura, mas li todos...

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  3. Não vi todos os filmes do almodovar mas sem duvida, Tudo Sobre Minha Mãe sem duvida é um filme lindo, intenso e estupidamente intrigante!

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