segunda-feira, 8 de março de 2010

Sessões entrevista Laís Bodanzky

Laís Bodanzky é a melhor diretora brasileira da atualidade. Foi capaz de obras maravilhosas que deixaram marca no cinema nacional como 'Chega de Saudades' e 'Bicho de Sete Cabeças'. Agora lança 'As Melhores Coisas do Mundo', com estréia prevista para 16 de abril de 2010, inspirado no livro 'Manos' de Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto. Ela convesou com Sessões sobre Leis de Incentivo, Preconceito e, obviamente Cinema. Acompanhe a entrevista abaixo:

Sessões: Queria que você contasse um pouco se você acha que tem muito preconceito ainda com mulheres dirigindo e como você vê este campo atualmente.
Laís Bodanzky: Na verdade eu não sinto preconceito. Do público ou da equipe?

S: Então, por não haver muitas diretorAs mulheres fazendo filmes. O Oscar nunca premiou uma mulher como melhor diretora. Parece um tabu. Queria saber o que você acha, se você acha que é isso mesmo? Como você sofre isto ou não chegou a sofrer este tipo de preconceito.
L.B.:
Bom, não. Acho que se eu sinto isto, às vezes, é muito sutil. Porque o preconceito, às vezes fica no subtexto, não é tão claro. Então deixa dúvida, "Será que é? Será que não é?". Às vezes não é só a questão de que eu seja mulher ou não, é ser mulher somada a outras coisas. Em relação ao Oscar nunca ter premiado uma diretora, claro que tem um número muito maior de diretores do que diretoras, então matematicamente a chance de uma mulher é menor, mas ao mesmo tempo o momento das mulheres na direção está num crescente. Mas é um crescente que ainda é igual ao espaço da mulher na sociedade como um todo. E de uma certa forma, a sociedade vai absorvendo isto e veja os seus primeiros sinais de reconhecimento. Se isso não aconteceu ainda com o Oscar, uma hora naturalmente isto vai acontecer, e é um fato que tem de ser ressaltado sim, não é para deixar passar batido, não. É uma conquista. Assim como, por exemplo no cinema brasileiro, eu admiro muito Tizuka Iamazaki, que foi a primeira mulher a dirigir que depois do Cinema Novo. Um cinema dominado pelos homens, por uma turma, com um olhar masculino muitas vezes, onde sempre teve a mulher a musa inspiradora, tratada com um jeito distante, não participativo. A Tizuka foi uma primeira mulher a quebrar isso, muito forte, muito parruda. Agora, isto não significa que toda mulher tem que ter esta característica forte, parruda para enfrentar o mundo. Não é isso. Claro que a primeira a ganhar um Oscar, que é um lugar de mercado, envolve muito dinheiro da indústria cinematográfica, com certeza, será uma mulher muito forte. Que deixará um marco e, normalmente a partir daí, abrirá um caminho para outras diretoras. Eu me sinto, por exemplo, fazendo cinema com mais tranquilidade do que com certeza a Tizuka fez, quando ela fez 'Gaijin - Os Caminhos da Liberdade'. Eu faço cinema com tranquilidade porque existe a Tizuka. Então eu não sinto tanto preconceito, talvez ela tenha sentido. Então, ela é a verdadeira guerreira.

S.: Ela foi uma desbravadora!
L.B.: Isto, desbravadora exatamente. E isso não acontece só no cinema como em todas as àreas, conquista da mulher no mercado de trabalho, tão dedicada quanto os homens e ter o seu trabalho tão reconhecido quanto o dos homens de igual para igual. Isso cada vez mais vai se tornando natural, mas é uma conquista mesmo, é uma transformação da sociedade, um tranformação do comportamento, da estrutura familiar. A sociedade está sempre em transformação. E uma transformação significativa é esta, a mudança da estrutura familiar e a mulher no mercado de trabalho e sabendo que ela tem... de igual para igual, não tem essa conversa.

S.: Antes de focar nos seus filmes, quero saber de você, qual sua opinião sobre as leis de incentivo ao cinema no Brasil, em geral?
L.B.: Eu acho fundamental para manter a nossa indústria, para manter a máquina realmente funcionando e girando com a diversidade necessária. O cinema de um país é na verdade a memória audiovisual de um país. Isto fica registrado ou guardado na cinemateca, hoje na internet. Então isto é um registro da nossa memória, é quem nós somos e como nós pensamos. A Lei do Audiovisual garante que esse registro (não só o entretenimento e o cotidaino das pessoas) seja amplo, não seja de uma nota só, que corresponda de fato a diversidade da nossa sociedade. Então, um dos principais motivos por que eu defendoa lei de incentivo é que ela garante esta pluralidade. Várias possibilidades no documentário, na ficção, em um filme infantil, filme experimental, filme que quer dialogar mais direto com o público, ela dá este espaço para que todo mundo tenha esta forma de expressão. Claro que a Lei do Audiovisual ela hoje, eu acho que é uma lei bem madura, porque ela sofreu muitas críticas da própria classe cinematográfica, a gente tem a Ancine que é uma agência reguladora que faz muito bem o seu papel. Acho que o Brasil com a Lei do Audiovisual tem um estímulo para sua indústria que nos torna um país pró-cinematográfico também.

S.: Primeiro sobre o 'Bicho de Sete Cabeças'. Como foi uma estreia com um filme tão arrebatador em prêmios crítica e público? Como foi a ideia? Já vinha amadurecendo? Foi muito tempo de pesquisa? E como foi a escolha do Rodrigo Santoro para protagonista?
L.B.: Na verdade esta consciência sobre o significado do filme eu tenho mais agora de que na época. Na época ele foi bem recebido pela crítca, pelos festivais, pelo público, mas não acredito que tenha sido uma coisa tão arrebatadora como você está dizendo. Eu acho que é um filme que tocou as pessoas na época do lançamento, mas a diferença é que ele continuou tocando independente do lançamento. Tem gente que assiste o filme hoje pela primeira vez e se emociona tanto quanto. Um filme atemporal. Acredito que a força dele é a longo prazo. Agora eu consigo enxergar isto e entender. E eu fico muito feliz, para falar a verdade. Quem não ficaria? Mas era um filme que naquele momento tinha um risco grande, pois foi muito difícil conseguir apoio para ele. Mas ele tem o frescor de um primeiro filme não só meu, mas de toda uma equipe, uma geração, meus colegas de trabalho que também estavam ali fazendo cinema pela primeira vez, longa. Assumindo posições estratégicas dentro da equipe pela primeira vez. Inclusive o Rodrigo, que mesmo com o nome muito importante que ele já tinha na época , ele pisou num terreno que ele desconhecia completamente e ele sabia também de que o filme estaria nas costas dele. E ele veio consciente disto e muito sério com o trabalho para dar conta do peso desta estrutura. Na verdade, a escolha do Rodrigo não foi pelo nome dela, mas pelo talento dele que eu reconheci não exatamente pelas novelas, mas por um trabalho específico 'Hilda Furacão'. E quem me abriu o olho foi o Paulo Autran, que havia lido o roteiro e tinha trabalhado com ele na minissérie e falou que ele era um garoto muito talentoso e inteligente que combina com esse personagem. Aí eu fui assistir, porque eu confesso que quase não vejo TV, eu não sabia quem era o Rodrigo, então eu o conheci em 'Hilda Furacão', e ali eu entendi quem era o Rodrigo e vi que ele seria a pessoa perfeita para o personagem e fiz o convite.

S.: E se Paulo Autran falou assina embaixo, né?
L.B.: Também porque eu sempre admirei o Paulo e ele é uma pessoa muito importante na minha vida.

S.: Teve uma mudança muito grande para o estilo de Bicho pra Chega de Saudade. São filmes totalmente diferentes. Como foi esta mudança “brusca” e como você viu o público que admirou 'Bicho de Sete Cabeças' e que depois viu 'Chega de Saudade'?
L.B.:
Eu acho que são públicos totalmente diferentes. Às vezes coincide, outras vezes não. E cinema também é feito de segmentos. Você tem um filme feito para aquele segmento da sociedade ou para outro. O 'Chega de Saudade', nitidamente, é um filme feito com um foco específico de público.E de fato um público bem diferente do 'Bicho de Sete Cabeças'. Então, eu entendo na verdade como um cineasta que faz aquele filme ou faz um outro e de uma certa forma a expectativa era “Um Bicho de Sete Cabeças 2”, provavelmente. O que para mim não seria um enriquecimento profissional. Poderia ser um sucesso também, mas eu como cineasta procuro também desafios para mim. E, o 'Chega de Saudade' é um filme muito mais complexo que o 'Bicho de Sete Cabeças' e eu aprendi muito fazendo-o. Eu acho um filme muito mais maduro na construção das suas personagens, na sutileza da construção do roteiro do que o Bicho que tem uma estrutura um pouco mais nítida, límpida e explícita. Já o Chega não, ali é um bordado, um mosaico muito bem costurado e deu muito trabalho para fazer isso. Aprendi muito e acho que o meu aprendizado no Bicho e fui para o Chega com um desafio maior e eu sinto que a somatória destas minhas duas experiências agora está nas Melhores Coisas, que é também um filme diferente dos dois, mas que eu também sinto como mais um passo na frente. Sinto que amadureci com estas experiências. São desafios diferentes, mas conquistas diferentes, mas com conquistas.

S.: Um dos nossos colabores, Leandro Antônio, é um muito fã de Elza Soares. Como foi trabalhar com ela?
L.B.: Foi incrível! Por que a Elza ela é uma trabalhadora. Não tem tempo feio, não tem preguiça. Uma pessoa que ama a vida! E em 'Chega de Saudade' o tema também é esse. Como dialogar com a vida que caminha e ao mesmo tempo caminha para um fim em queum certo momento o corpo já não aguenta mais, mas a mente está totalmente fértil. E como sentir-se vivo, sentir-se feliz, a busca e o desejo pela vida. O 'Chega de Saudad'e para mim a tradução é: são pessoas que frequentam o salão porque desejam a vida. A vida não é fácil, a vida tem problemas, tem seus dramas. Mas você pode escolher se você quer fingir que nada existe e ficar em casa e ligar a TV, ou você vai pra vida real e diz que está pronta pra o jogo para o que der e vier, coisas boas e coisas ruins, mas você ali de fato está vivo. As pessoas que frequentam o salão de baile são as que querem viver todos os papéis, avida está ulsando nas veias e a Elza representa exatamente isso. Eu fiquei muito emocionada quando a conheci. Pelo trabalho dela eu já a tinha encontrado ao vivo e na época do roteiro que eu conversava com o Luiz (Bolognesi) eu citava muito a Elza. Então além de ser uma grande cantora, ela é uma pessoa, uma personalidade muito significativa.

S.: Agora sobre 'As Melhores Coisas do Mundo'. Já sabe quais são as melhores coisas do mundo?
L.B.: São muitas, podemos fazer uma lista!

S.: O título 'As Melhores Coisas do Mundo' pode remeter a 'Todas as Mulheres do Mundo', de Domingos de Oliveira. Há alguma relação?
L.B.: Não, foi uma coincidência. O título também me surpreendeu, por que a gente escolheu seis títulos e colocou no site da Warner para uma votação. O público votou e ganhou disparado 'As Melhores Coisas do Mundo'. Eu mesma fiquei assustada, pensei: Que loucura o título que ganhou. E na hora que ganhou eu parei para pensar: "É tão engraçado", aquela coisa óbvia que quando alguém aponta, você diz: "É claro, por que eu não pensei nisto antes?". O título combina, na verdade, com filme que retrata o universo adolescente. Na adolescência a gente vive extremos, tudo é muito absoluto, ou é o melhor ou é pior, não tem meio termo e por isso eu faço a brincadeira: tudo é uma grande tragédia ou uma grande alegria. O grande amor é o grande amor da sua vida. Tudo é torto e a sensação é de que o mundo vai acabar amanhã. A sensação é de urgência. Então, este título era uma frase que já estava no roteiro, sempre existiu, e não é à toa que tanta gente se identificou com ela.

S.: Como foi a emoção de ver 'As Melhores Coisas do Mundo' pela primeira vez?
L.B.: Na verdade eu assisti lá no Cine Color, que é o laboratório, é o melhor lugar para assistir um filme, pela qualidade da imagem, pela qualidade do som. Então eu não podia ter recebido o filme de maneira melhor, com a qualidade máxima que ele tem. Eu mesma não tinha assistido ainda com imagem e som juntos. Foi a primeira vez. Eu havia assistido ainda no off line , tudo com baixa qualidade. Ontem quando assisti pela primeira vez, eu senti que o filme tem tônus, foi esta a sensação que eu tive: Um filme com tônus. Ele é forte, digo tecnicamente mesmo, além da história ser forte, ele tem um impacto visual e sonoro que deixa o filme com tônus e foi esta a sensação que eu tive.


Um dia após a Academia premiar a primeira mulher com o Oscar de Melhor Diretora para Kathryn Bigelow por 'Guerra ao Terror' e no dia Internacional da Mulher, uma entrevista com nossa diretora mais competente é um singela homenagem do Sessões às mulheres. Laís representa muito bem a mulher, o cinema e as melhores coisas do mundo. Parabéns e muito obrigado Laís, e a todas as mulheres desse e de outros mundos!

Muito obrigado!

Sessões

3 comentários:

  1. Carpe diem! O dia Internacional da Mulher.

    Leandro Antonio
    Sessões

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  2. òtima entrevista, Vítor!
    É muito legal ver um blog produzindo conteúdo jornalístico relevante. É o futuro do jornalismo.
    O cinema da Laís é bom, porque ela é um dos poucos cineastas brasileiros que dirige com o coração.
    Como poucos, ela consegue impor emoção nos fotogramas.
    Felizmente a discussão sobre mulheres diretoras vai caindo no vazio. Elas chegaram, ficaram e estarão sempre lá. Mulher sabe dirigir sim e logo isso nem será mais assunto.
    Parabéns pela matéria!
    ABs!!!

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  3. A entrevista com a Laís foi como conversar com um amigo. Obvio, um amigo novo, que lhe causa felicidade extrema ao ouvir a voz, tremedeira quando falei e admiração pelo que faz. Foi muito bom ouvir alguem que faz um ótimo cinema e que me causa grande admiração.

    Laís, foi um prazer inenarravel conversar com você, conhecer um pouco mais de seu trabalho.

    O Sessões está a disposição para o que você quiser, quando você quiser. Certamente foi nossa melhor entrevista.

    Quando se imagina entrevistar algum dos grandes do cinema, como ela é, já se imagina uma pessoa enjoada, cheia de trejeitos, um verdadeiro mala. Bom, como disse acima, pensei estar falando com uma amiga.

    Quero cada vez mais ver 'As Melhores Coisas do Mundo' e tudo que for de Bodanzky.

    Muito obrigado!

    Vitor Stefano
    Sessões

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