terça-feira, 9 de março de 2010

A Queda do Império Romano

Cadê o cinema italiano com glamour e com tanta produção de grande qualidade? Porque os filmes italianos não tem mais a mesma quantidade e qualidade de anos atrás? Cadê os novos Antonioni, Scola, Fellini, De Sica? Porque o cinema italiano morreu? Morreu?



Talvez você me diga que temos nos últimos tempos ótimos filmes italianos como 'A Vida é Bela', 'Cinema Paradiso' e 'O Quarto do Filho' e diretores maravilhosos como Bernardo Bertolucci, Roberto Benigni, Giuseppe Tornatore e Nanni Moretti. Infelizmente não há muito mais do que isso, vindo do país que já foi referência em todo o mundo. Parece-me que esse espaço, que antigamente era disputado com o cinema francês, hoje é totalmente dominado anos-luz a frente pelo país de Godard e Truffaut.

A Itália teve o auge de seu cinema no pós guerra. Teve grande êxito com suas comédias, porém no país da bota havia também espaço para o retrato de uma sociedade em crise. Aí apareceram obras-primas que até hoje são consideradas os ápices do cinema mundial, como '8 e 1/2' e 'A Doce Vida' de Fellini, 'Ladrões de Bicicletas' de De Sica, 'A Aventura' de Antonioni e 'Roma, Cidade Aberta' de Luchino Visconti, entre muitos outros que são grandes clássicos e representam o Neo-Realismo Italiano. Houve também a época conhecida por western spaghetti, que deixou marca com Sérgio Leone. Fazia-se ótimo cinema comercial e de arte. Não podemos esquecer de Mario Monicelli e suas comédias da vida real. Tempo bom que não volta nunca mais.

Os anos 80 foi quase um abismo cinematográfico, no que diz respeito ao cinema comercial que apenas foi salvo pelo lindissimo e, merecidamente, cultuado 'Cinema Paradiso' de Giuseppe Tornatore, que recentemente lançou 'Baaria'. Veja cena final, marcante aos que já assistiram essa ode ao cinema. Um marco (quase) único dessa década.


A partir dos 90, houve uma certa melhora, com obras como 'O Carteiro e o Poeta' e com o grande trunfo de 'A Vida é Bela', onde Roberto Benigni consegue fazer da guerra uma comédia, vencendo quase todos os prêmios que concorreu, merecidamente. Será lembrado para sempre ao lado dos grandes. Mas foi muito pouco para a retomada ao topo do cinema.

Até os atores do país banhado pelo Mediterrâneo sumiram dos grandes eixos. Hoje a atriz italiana mais conhecida é Monica Belucci e é inegável a sua beleza, porém não pode-se dizer o mesmo sobre seu talento. Não existem mais atores como Marcelo Mastroianni e Sophia Loren, que além de serem lendas do cinema italiano, são estrelas mundiais. Há duas películas recentes que deixam essa deficiência muito clara: 'Não se Mova', onde Sergio Castellitto dirige e interpreta. A peronsagem principal é a esplêndida Penélope Cruz, queridinha de Pedro Almodóvar e 'Chá com Mussolini' que é estrelado por Cher e Judi Dench. Aí percebemos que os astros de outrora deixam saudades.



Os únicos cineastas italianos que me chamam atenção atualmente são Bernardo Bertolucci e Nanni Moretti. Bertolucci foi capaz de fazer grandes obras, até primas como 'O Último Tango em Paris', porém não mais exclusivamente na Itália. Radicado nos Estados Unidos e Inglaterra ele fez suas maiores obras: 'O Conformista', '1900' e o consagrado 'O Último Imperador', vencedor de 9 Oscars, inclusive melhor filme e diretor. É o diretor italiano de mais prestígio dos últimos anos, sem medo de arriscar e de peregrinar por gêneros diversos. Tem também em sua filmografia os ótimos 'O Pequeno Buda', o quase épico 'O Céu Que Nos Protege' com John Malkovich e Debra Winger, 'Beleza Roubada' com a linda Liv Tyler e 'Os Sonhadores', sua última produção. Infelizmente (ou felizmente) parece que ele já um diretor do mundo e cada vez menos italiano.

Já o ator e diretor Nanni Moretti se especializou em dramas pessoais. Fez muito sucesso com filmes de arte e venceu prêmios como Leão de Ouro em Veneza com "Sogni D'oro", Urso de Prata em Berlim com "A Missa Acabou" nos anos 80. A partir do aparecimento do primeiro ministro Silvio Berlusconni, tornou seu cinema uma voz política contra o novo Mussolini. Com muita densidade levou a Palma de Ouro por "O Quarto do Filho", com muito sarcasmo e dramaticidade superou relacionamentos e criticou arduamente o primeiro-ministro em "O Crocodilo". Silvio Berlusconni, também muito criticado no ótimo documentário "Viva Zapatero" da comediante Sabina Guzzanti, certamente tem um tanto de culpa pela decadência do cinema em seu país. Com medidas de diminuição da liberdade de imprensa, o 'dono da Itália' faz-se presente como um ditador e inibidor da liberdade de expressão. Moretti quase sempre atua em seus próprios filmes e, tal qual Woody Allen, faz, em geral, a si próprio nos filmes. Por conta disso, seus filmes tem muito de autobiográfico, criando um estilo próprio e único no, hoje, pobre cinema italiano. Nanni é meu diretor italiano preferido hoje em dia. Quem ainda não conhece, procure. Mas falta muito pra chegar no topo. Muito mesmo...



Porém talvez não seja essa a discussão e sim o sumiço de filmes do país da macarronada. Espero que seja uma loucura de minha cabeça e que recebamos vários comentários contrários, demonstrando que o cinema italiano está em grande fase, só não chega ao Brasil por problemas de distribuição. Num mundo globalizado acho impossível isso ainda acontecer, mas espero estar errado. Vemos, atualmente, muito mais filmes de países com muito menos tradição, como produções iranianas, argentinas, japonesas ou espanholas do que italianas no Brasil. Certamente houve um crescimento dessas e de outras produções audiovisuais no mundo, mas a italiana parou no tempo.

É triste que uma das maiores culturas cinematográficas da história se reduza a tão pouco. Ainda mais triste quando vejo que Tinto Brass se utilizará das técnicas usadas em "Avatar" e será o primeiro diretor a dirigir um filme pornô em 3D. Talvez as lágrimas sejam o melhor modo de demonstrar que a queda do império romano é iminente e sem as megalomanias e bizarrices de "Calígula". Os últimos filmes genuinamente italianos que chegaram por aqui e fizeram um bom sucesso foram: "Estamos Bem Mesmo Sem Você" de Kim Rossi Stuart, "Meu Irmão é Filho Único" de Daniele Luchetti, "Vermelho como o Céu" de Cristiano Bortone, "Gomorra" de Mateo Garrone e "Caos Calmo" de Antonio Luigi Grimaldi. Espera-se mais da terra dos imortais Antonionni e Fellini. Eu espero.

Vitor Stefano
Sessões

6 comentários:

  1. Parabéns pela proposta e cuidado com o blog, caro Vitor

    conheci agora e estou lendo, serei seu seguidor! abs

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  2. Sono d´accordo con te, Vitor! O cinema italiano ficou meio que estigmatizado no pós-guerra, e toda produção que fugiu um pouco desta temática, causa estranheza, com poucas exceções. É isso aí, parabéns pelo tema!

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  3. O cinema italiano do pós-guerra teve uma legião de cineastas autores únicos na história do cinema.
    Você mesmo citou vários deles. Uma geração fantástica, que sempre será o topo. Depois deles só dá para cair mesmo.
    Todos tinham em comum um apurado senso de que estavam compondo uma obra autoral, onde um novo filme sempre parecia complementar o anterior.
    Este componente parece não caber mais no cinema atual, pulverizado em filmes que buscam provocar sensação imediata nas platéias.
    A despeito disso, acredito que alguns italianos têm conseguido criar sua obra, como Tornatore, Moretti, Bertolucci (embora este pertença à geração passada).
    Os italianos têm essa urgência artística e, mesmo numa fase de baixa como a atual, sempre podemos esperar que algo muito bom venha de lá.
    Parabéns pelo post. É legal levantar essa questão.
    Abs!!!

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  4. Olá Vitor,
    texto muito bom e pertinente com a atual produção cinematográfica italiana. O último filme italiano que assisti foi Gomorra, de lá pra cá o que tem chegado às telas são comédias pouco apetitosas. Torço para que a maré baixa passe logo, tenho certeza que tem muita gente boa por lá precisando só de um empurrão.

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  5. Thiago Estavaringo9 de março de 2010 08:03

    Todos esses momentos de queda nas produções cinematográficas dos mais variados países, deixaram marcas tão profundas, que suas retomadas vieram de forma grandiosa. É só analisarmos os fatores que impulsionaram os diversos movimentos cinematográficos na história, no Brasil, por exemplo, tivemos uma queda muito grande na produção no início da década de 90 e essa repressão impulsionou o cinema brasileiro de tal forma que chegamos na qualidade que temos hoje em dia.

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  6. Acho que esta dita "queda" se dá pelo fato de que o cinema italiano da década de 1950 e grande parte da década de 1960 era um cinema de muitas boas produções alvancadas por uma indústria que na época era muito forte. Nunca procurei de fato saber ou pesquisar os motivos desta decadência, acredito que certamente há um universo de ingredientes envolvidos. De 1980 para cá, o mundo se surpreende com uma coisa aqui outra acolá do que se produz na Italia e é engraçado como trabalhos como os trabalhos de mais destaque deixam no público que teve a oportunidade de assistir uma Itália de antes, um sentimento de nostalgia daquele cinema de antes.

    Leandro Antonio
    Sessões

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