sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Nossa Música - Parabéns Godard

Nome Original: Notre Musique
Diretor: Jean Luc Godard
Ano: 2004
País: França / Suiça
Elenco: Sarah Adler, Nade Dieu, Rony Kramer, Simon Eine.
Prêmio: Filme do Ano pela Crítica do Festival Internacional de San Sebastián.
Nossa Música (2004) on IMDb



Eu tinha ficado –sem nenhum motivo aparente – com uma vontade inescapável de ir no cinema ver aquele filme.

Tinha visto a sinopse e não sei se alguém segue essa fórmula mas quando a sinopse é especialmente horrível é um sinal de que seremos espectadores de um filme maravilhoso.


Teorias bizarras à parte,pautado nessa crença marquei o dia com minha namorada e me lancei à jornada.O cinema ao qual fomos,agora me escapa,mas posso garantir que era um daqueles da Avenida Paulista cuja a média dos filmes em cartaz são para um público diferenciado – e digo,isso,sem nenhuma conotação pejorativa.

Nossa música,Notre Musique, o nome me pareceu algo pomposo,o som das palavras me agradaram. Eu, muito jactante, repetia, feito um homem culto na fila: N-O-T-R-E M-U-S-I-Q-U-E, e aquilo ecoava belamente no ar como se fosse uma pluma.

O espaço físico do cinema era vergonhoso.Acho que ali as sessões não passavam de mais de 20 pessoas, já me referi ao fato de que o público era, com efeito, diferenciado, mas não achava que existiam salas para 20 pessoas.

De qualquer forma nos acomodamos,a cadeira tinha divisórias fixas,minha namorada já começou a chiar o que me irritou um pouco. Oras, fomos ver um filme lindíssimo, pensava eu, de modo que ali num era nenhum espaço intímo para abraços ou encostar cabecinha no colo. Afinal,tratava-se de um filme de Jean-Luc Godard, e embora eu tenha passado um parte considerável da minha vida achando que falava Bodard, até aquele dia inclusive, sabia que o diretor era importante.

Por fim sentamo-nos, a sessão encheu obviamente (20 pessoas e Bodard) de repente, a tela escureceu e logo entramos naquela atmosfera diferente e complexa.

Entre cenas de horror, desumanidade, catástrofes, guerras, sangue, dor, violência intermeadas por momentos de completa escuridão e súbitas explosões acompanhado por pesadas notas de piano clássico. "Nossa Música" se divide em três partes e esse era o Inferno.

A segunda parte é o purgatório, aqui a coisa se complicou, uma espécie de conferência, da qual o próprio Godard faz parte, acompanhado por jornalistas em que se mostram imagens de quadros e se faz citações dostoievskianas – tinha um cara que falava várias línguas dele eu gostei!!!



Me lembro que nesta ocasião eu num entendi completamente nada. Uma porque as falas eram muito rápidas e a legenda idem, outra porque as frases eram longas e cheias de voleios retóricos, às vezes herméticos, minha namorada levantou a cabeça e segredou baixinho: “Num tô conseguindo ler a legenda”. Eu dei de ombro mas, concordei.

A terceira parte era o Paraíso com a protagonista andando na beira de um lago com uns soldados atrás.

Depois disso veio o fechamento do filme. As luzes se acenderam, eu me espreguicei - num sei se de raiva ou de exaustão - olhei pra trás e que vi foi realmente algo notável.

Um monte de gente com rosto cheio de admiração. Eles meneavam a cabeça levemente pra cima e pra baixo como se dissessem, de si para si, que obra de arte!!! Que obra de arte!!!

O ambiente tem uma influência significativa nos nossos atos. Acabei por fazer o mesmo:

Coloquei as mãos no maxilar inferior, comecei a menear a cabeça para cima e para baixo.
Exclamei pra mim mesmo: Que obra de arte!!!!Que preciosidade....

Bodard é sofisticadíssimo!!! Sem dúvida. Vida longa ao Bodard.

Não entendi o filme mas salvei as aparências.

Parabéns e obrigado Godard!!!!!

Fernando Moreira dos Santos
Sessões

2 comentários:

  1. Que talento para crônica.
    Lembro muito bem da experiência de Notre Musique para mim. Eu fui ao saudoso Top Cine, que também ficava na Avenida Paulista, só passava filmes cult. Quando do anúncio do fechamento, o que veio à cabeça foi: "Minha primeira vez com Godard!". Foi curiosa também aquela cena à tarde, éramos três naquela imensa sala de cinema, um casal e eu. Lembro que demorei um tempão para sair da poltrona. Parece que meu cérebro tinha se exaurido, mas ao mesmo tempo saí tendo a certeza de que tinha visto uma das maravilhas do mundo. Entendi que entender o filme pouco importa, chorei e vi que o apreciar cinema nem sempre deve passar por processos racionais.

    Leandro Antonio
    Sessões

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  2. Porra, Fernando... achei incrível esta incursão bodardriana. O biscoito é fino, mas o paladar tá fora do Tostines. Assistir a parada, não entender, mas gostar do efeito, não faz mal a ninguém. Muitos filmes são assim. Até prefiro esses do que a linearidade vazia das produções comerciais.

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