segunda-feira, 7 de junho de 2010

Utopia e Barbárie

Nome Original: Utopia e Barbárie
Diretor: Silvio Tendler
Ano: 2009
País: Brasil
Elenco: Eduardo Galeano, Cacá Diegues, Franklin Martins, Denys Arcand, entre outros.
Sem Prêmios.

Começo minha reflexão sobre Utopia e Barbárie com a imagem do “Anjo da História” de Walter Benjamin em que o anjo avança em direção ao futuro com o rosto voltado ao passado e vê uma única catástrofe que cada vez mais se junta aos seus pés.O anjo,então,sente vontade de parar e reunir tudo aquilo que foi despedaçado e estilhaçado durante os tempos mas,mais forte que ele,sopra uma tempestade do paraíso que arrasta suas asas e o impele,inexoravelmente para o futuro.Esta tempestade é o que chamamos Progresso.

A metáfora é parte da nona tese sobre a história do grande crítico literário e pensador judeu do século passado e aparece no documentário de Silvio Tendler.

Com efeito, Utopia e Barbárie é uma ode ao conhecimento humano, um canto sobre os heróis da saga humana,um afresco sobre a formação de novas idéias e um compêndio de como as sociedades se definem e decidem que caminho tomar.

Etimologicamente,Utopia refere-se à um “não lugar”,denota aquilo ou aqueles que estão fora da realidade,um sonho irrealizável,um ideal ou algo que jamais será alcançado.Barbárie,indica selvageria,brutalidade e nos tempos remotos servia para designar os agrupamentos que não tinham a Grécia como matriz cultural lingüística.Contudo,mais importante do que o sentido das palavras é o significado que elas adquirem na história.

O filme,delineado de 1968 aos dias atuais,apresenta imagens e relatos de uma metade de século que dificilmente será esquecido já que foi o plano de ação de duas forças ideológicas que cada qual a seu modo queriam moldar o mundo que seria ressignificado.



Essas duas forças não são opostas nem a utopia,nem a barbárie são conceitos filosóficos puros e logo,não permitem abordagens em termos de materialismo histórico,são antes irmãs gêmeas,que invadem os corações e as mentes dos homens criando ideários coletivos e fabricando,assim,o que somos.

Utopia e barbárie mostra os campos de concentração nazistas, traz o relato infernal da bomba atômica, lembra os heróis destruídos, os golpes de Estados, as torturas de um tempo sombrio e depois, não pra agradar, mas talvez para conscientizar,mostra os relatos de poetas,diretores e políticos,o orgasmo que sacudiu o planeta em 1968,a brochada que se seguiu com o fim da URSS e a inimaginável hipótese de um Oriente Médio pacífico com crianças israelenses e palestinas estudando na mesma sala de aula,cantando e conversando como amigos.

O filme deixa um riso no canto da boca de quem assiste, uma vez que cria uma memória, no mínimo irônica, por mostrar de fato de que, de um lado a utopia individual, socialmente expressa em ideologia dá origem à barbaridades homéricas e de outro a própria barbárie toma a direção que leva a um horizonte utópico tudo dentro do tempo da senhora História

Neste sentido, vale a pena transcrever a definição da história que o brilhante jornalista Uruguaio, Eduardo Galeano, metaforiza:

"Com muito sangue,com muitas lágrimas,aprendemos que o tempo da História não é o nosso tempo.Que a história é uma senhora lenta,caprichosa,às vezes louca,muito difícil,muito complicada,muito misteriosa.Muito mais misteriosa do que nós cremos que ela seja.E que não nos dá a mínima bola.Que não nos obedece,Porque o tempo dela é um tempo infinitamente maior que o nosso.”

Utopia e barbárie é uma obra em que todos nós estamos inseridos,queiramos ou não,vivemos ativamente ou contemplativamente,os ativos tendem a sonhar com algo melhor;os contemplativos tendem a se concentrar no hoje. Aqueles desejam o futuro porque o presente,de certa forma,não está agradando,não se coaduna com o espiríto do tempo;estes olham e passado e pensam em conservar o que já conseguiram.Os utópicos caminham em direção à utopia,dois passos dão,dois passos ela se afasta;aceleram e o horizonte acelera de igual maneira;Os bárbaros querem parar - porque a estrada do desenvolvimento humano é esburacada-quando param o mundo para com eles.Então,ao fim e ao cabo,a utopia serve para que se esteja sempre caminhando e a barbárie é um pedra na qual ,amiúde,os homens tropeçam.



Pos scriptum protestum: A coisa que me incomodou, enormemente, depois que sai do cinema foi a constatação da quantidade ridícula de salas de exibição que o filme estava passando.Contei três,no início,mas quanto fui assistir só estava passando em um:Cine Bombril.Em conversa com especialistas descobri que isso se deve à basicamente três coisas:Distribuição,Produção e Exibição.A produção é irretocável,a distribuição e a exibição deixaram muito a desejar.

Deveria ser alvo de críticas contundentes os órgãos de áudio visual deste país e a própria secretária de cultura do estado de São Paulo que atribui pouca atenção aos grandes esforços(o filme demorou 20 anos para ser produzido) com a desculpa de que não há demanda.Eu gostaria de dizer que acho isso uma coisa completamente lamentável.

Porcaria americana enche todas as salas do país,documentário bom,aparece em três salas do Estado mais rico.É necessário um pouco mais de barbárie para com os Avatares para que possamos construir nossa própria Utopia.Definitivamente não consigo compreender porque tanta dificuldade em se ver isso,uma vez que não é necessário muita inteligência para ver que porcaria é porcaria e biscoito fino é biscoito fino!

Sílvio Tendler configura-se,portanto,simultaneamente o maior documentarista do país e também o maior cidadão em ostracismo imerecido.Ostracismo que vale lembrar, é uma palavra grega para mandar para fora da pólis os indesejados.Quão alto os gregos me fazem rir!!!Civilizadíssimos,mataram Platão depois foram dominados pelos Bárbaros e com razão:A república que condena seus próprios artistas tem alguma coisa de podre que,cedo ou tarde,atrai os Bárbaros.

Morte à esperança utópica!!!!!
Viva a imbecilidade das nossas instituições audivisuais!!!
Viva ao mercado que amputa o cinema nacional!!!
Viva....

Fernando Moreira dos Santos, Enraivecido!
Sessões de Cinema

2 comentários:

  1. Preciso ver este filme e tirar minhas conclusões, que logicamente, terão muito menos embasamento.

    Quanto ao pos scriptum:
    Avatar é um bom filme; Sim, temos problemas e as pessoas, em uma maioria de que eu faço parte, não são cultas e nem querem entendimento profundo do que quer que seja. O mundo seria melhor se as pessoas saíssem ao cinema buscando documentários e verdades que forças maiores procuram esconder ou buscar incessantemente por uma dita cultura? Não sei, hipóteses, hipóteses, hipótes...
    Por muitas vezes amo o ordinário sobre todas as coisas e rogo pra sair de retro, todo assunto que seja dominado por um especialista. Quero a desespecialização e o gozo.

    Leandro Antonio
    Sessões

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  2. Agora já vi o filme e consigo algumas conclusões. Saí da sala de cinema com uma ótima impressão da minha ignorância. Tenho que aprender e apreender mais. Uma miséria é que tudo é recorte e simplificação. Vou investigar possibilidades de correr atrás das totalidades. A dicotomia é uma forma bastante utilizada no recorte e didatização e devo dizer que "Utopia e Barbárie" é uma das mais pontuais que estes ouvidos cabaços já registraram.

    Leandro Antonio
    Sessões

    Leandro Antonio
    Sessões

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