sábado, 2 de janeiro de 2010

Blade Runner - O Caçador de Andróides

Nome original: Blade Runner
Diretor: Ridley Scott
Ano: 1982
País: Estados Unidos
Elenco: Harison Ford, Rutger Hauer, Brion James, Zhora e Daryl Hannah.
Prêmios: BAFTA – Melhor Figurino, Direção de Arte e Fotografia
Blade Runner - O Caçador de Andróides (1982) on IMDb

UM TRANSBORDAMENTO DE BELEZAS E DE EMOÇÕES



Uma coruja. Um unicórnio. Uma pomba branca. Esses três animais aparecem em Blade Runner. E são a sua essência, pois representam*, respectivamente: o conhecimento racional e a morte; a pureza e um jogo divino chamado existência; o amor e o que o homem tem de eterno ── sua alma.

Los Angeles, 2019. O clima é sombrio; a chuva, incessante. Lixo, fogo e fumaça estão por todos os lados. A destruição e o abandono são evidentes e demonstram o mal que nós, seres humanos, fizemos ao nosso planeta. Pessimismo? Talvez mais do que isso: constatação.

Estamos no futuro. Contudo, paradoxalmente, voltamos à escravidão. O homem cria andróides para um serviço sujo e perigoso: explorar e colonizar outros planetas. Algumas dessas máquinas têm características semelhantes e até superiores às da maioria dos seres humanos. No entanto, falta-lhes a principal delas: a capacidade emocional. Mas isso pode ser resolvido, porque as emoções podem ser aprendidas. Há, porém, outra dificuldade ── esta, sim, terrível: o curtíssimo tempo de vida desses andróides. Tempo, tempo, tempo, tempo...

Por isso, eles decidem invadir a Terra. Estão em busca desse tempo que lhes foi negado. Querem mais vida. Exigem mais vida. Os andróides são seis. Dois morrem. Sobram quatro: Roy (Rutger Hauer), Leon (Brion James) e as deliciosas Zhora (Joanna Cassidy) e Pris (Daryl Hannah). Além deles, existe Rachael (Sean Young, igualmente deliciosa), que não sabe exatamente o que é. Andróide? Ser humano? Ambos?

Deckard (Harrison Ford) é o policial encarregado de “retirá-los” do caminho. Motivo: os andróides não podem habitar o nosso planeta. Até aqui, tudo bem ── afinal de contas, ele é pago pra isso. Entretanto, Deckard apaixona-se por Rachael. Eis o problema. Agora, ele tem diante de si a coruja, o unicórnio e a pomba branca. Não os animais, mas o que estes representam, seus símbolos. O que fazer, Deckard? As questões pedem respostas. E o tempo é reduzido.

Blade Runner é considerado por muitos especialistas o melhor filme de ficção científica já realizado. Isso não é pouco, contudo ele é certamente ainda mais do que isso. É, sem dúvida, um dos cinco melhores filmes de todos os tempos, independentemente de gênero. A maravilhosa trilha sonora de Vangelis, as imagens futuristas (hoje, meio retrôs, porém ainda assim extremamente belas), os figurinos ousados, o roteiro inteligente e as atuações impecáveis fizeram dele um clássico: exemplar: perfeito. Rigoroso e harmonioso.


Foi dirigido brilhantemente pelo inglês Ridley Scott em 1982. Embora o título remeta à idéia de ação, é um filme reflexivo e enigmático. Tudo nele parece ser contido, reprimido. Mas no fundo tudo nele é exuberante, há um transbordamento de belezas e de emoções.

Blade Runner é uma das mais delicadas, sensuais e trágicas histórias de amor do cinema.

Paulo Jacobina
Sessões

* Excertos do Dicionário de Símbolos ── de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant ── 20ª edição, Editora José Olympio.

4 comentários:

  1. Nós é que agradecemos!

    Confesso que eu sempre tive o anseio de publicar um texto sobre este filme no Ao Sugo desde a fundação do blog, todavia, é muito difícil. É absurdamente difícil escrever sobre algo que amamos. Como diz o Alottoni Jovem Nerd, dá medo de estragar essa nossa paixão pelo tema… E aí topo com este texto do Paulo Jacobina, excelente.

    Como disse no Ma Che Polpetta e no corpo deste artigo lá no Ao Sugo, espero que assim possamos aprimorar as reflexões sobre cinema e literatura… e, por que não, sobre quadrinhos, filosofia e demais temas que abordamos aqui e lá no Ao Sugo. Espero que com esta parceria possamos levar aos leitores de ambos os blogs aquela pulga atrás da orelha, que despertemos (mais) nos nossos leitores a vontade de exercer uma das melhores características humanas, o ato de imaginar.

    Para finalizar, estamos à disposição, sempre. Bons sonhos.

    Victor Hugo
    Ao Sugo

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  2. Parte I
    O presente e o futuro em Blade Runner


    A primeira vez que vi o filme foi na Mostra Internacional de cinema do Sessões realizado há dois anos,na ocasião,entretanto não cheguei a perceber as conexões que ligavam o futuro ao presente o que só ocorreu na terceira apreciação da película de onde,aliás, veio a idéia para este texto.





    A coisa mais interessante em Blade Runner é a construção do futuro com base no imaginário presente. O que significa dizer que sejam quais forem os ângulos pelos quais analisemos o filme teremos a presença das características básicas da sociedade atual. Em uma palavra: filme sobre o futuro reflete problemas presentes, portanto,deve servir para uma reflexão da história contemporânea.



    No contexto em que se passa o filme temos um tempo futuro (2019) e um local definido (Los Angeles).Portanto,passados 20 anos do século XXI vemos toda a estrutura globalizada de uma metrópole dominada por tecnologias,propaganda,corporações de oligopólio,carros voadores,aglomeração de pessoas,enfim,o que os estudiosos do mundo de hoje chamariam de aldeia global,globalização,mundialização econômica ou a expansão do capitalismo financeiro e seus desdobramentos na sociedade que no jargão técnico recebe o nome de “externalidades”.



    No meio de tudo isso o policial Deckard (temporariamente afastado do emprego por depressão) é chamado para caçar alguns andróides .No futuro das lentes de Ridleyy Scott os homens com donos da tecnologia criaram rôbos a sua forma e semelhança,assim como deus criou os homens a sua imagem e semelhança.Ocorre que esses seres foram produzidos não para viverem mas para trabalharem,porque como se sabe o trabalho dignifica o homem e por conseguência sua criação.No planeta terra somente restou a escória,a elite e os ricos habitam outros planetas,a terra não passa de uma colônia.Os andróides que podem fazer tudo que o homem faz se rebelem contra o tempo de suas vidas,auto-desligando-se ao fim de 4 anos.

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  3. Parte II

    Saindo da narrativa e entrando nos pontos de contato entre o mundo lá de 2019 e o mundo hoje de 2010 vemos que o presságio do diretor é bastante pessimista.Não creio que em nove anos cheguemos a devastação completa das florestas tropicais,extinção das espécies vegetais e animais ou aquecimento global nos termos do filme.Deckard sonha em ganhar dinheiro para comprar um unicórnio artificial para si como forma de se livrar um pouco da solidão.Em quase todas as imagens ao ar livre sente-se um ambiente enfumaçado,de ar pesado e quase sempre escuro.



    A cidade de Los angeles é sinonimo de globalização"aqui se fala todas as línguas:japones,alemão"alguém fala em alguma altura do filme.Demograficamente alcançamos o píncaro do aumento populacional e mais,a diversidade de culturas,tribos,estilos e modos de vida.A quantidade de gente é notável na cena de perseguição em que a andróide morre caindo sobre os vidros da loja em slow motion uma cena muito forte pela sua força dramática.



    A questão da solidão,talvez aquele sentimento besta,tão comum atualmente para comigo,de se sentir sozinho cerceado por milhares de pessoas,sólitária formiga no formigueiro é retratada pelo projetista J.F Sebastian que cria amigos em forma de brinquedos para preencher o vazio.J.F Sebastian ainda dá um toque de ironia pelo fato de ser portador de uma doença que o envelhece precocemente:Mal de Matusalém em contraponto com as suas criações que o matam por ter lhes programado para apenas 4 anos.



    Por último fica a idéia da exclusão humana,no tocante à convivência de um mundo ao mesmo tempo dominado pela tecnologia de ponta e a marginalização.Parece querer com isso dizer que a razão não evolui pari passu com a moral;nem a técnica no mesmo ritmo que emoção.O andróide que salva a vida de Deckard no final ensina isso.O desejo irrealízavel de querer ser humano.Quisera ser um nexus-6.



    Fernando Moreira dos Santos

    Sessões

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  4. “Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
    Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
    É que Narciso acha feio o que não é espelho
    E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
    Nada do que não era antes quando não somos mutantes”
    (Caetano Veloso – Sampa)

    Blade Runner é dos questionamentos mais profundos e um de seus tantos e belos viéses é a incerteza. Nem os olhos, metáfora da verdade, percepção e humanidade autêntica remetem a um veredito certo, pontual e infalível.

    Diálogos em um primeiro momento dispensáveis, que têm diante de um olhar mais atento e um cérebro humano num momento orgásmico, a aceitação do convite à dúvida.

    Entre tantas indefinições, fumaça, entulhos, gente e não-gente abarrotar-se de um pensamento do que é passado, do que é tempo, do que é constiuir-se humano e do que é possibilidade. A tentativa de vislumbrar e incorporar, a cada fração de segundo coisa tão corriqueira, e talvez por isso tão fugaz a percepção, a transformação.

    A transformação nada perde e faz triunfar a dúvida, certezas devem ser dissolvidas com o fechar da porta do elevador.

    Assustador!

    Leandro Antonio

    Sessões

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