quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O Escritor Fantasma

Nome Original: The Ghost Writer
Diretor: Roman Polanski
Ano: 2010
País: França, Alemanha e Reino Unido
Elenco: Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Olivia Williams e Kim Catrall
Prêmios: Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim, Melhor Ator (Gregor), Trilha, Diretor, Filme, Design de Produção e Roteiro no Festival do Cinema Europeu, entre outros.
O Escritor Fantasma (2010) on IMDb


Não vivemos da realidade exalada do dia a dia e de nossas memórias. Conhecer todo o íntimo passado é uma tarefa nada fácil e escrevê-la é ainda mais complexa. Saber exatamente tudo a nosso respeito é uma tarefa complexa, reviver o passado alheio é uma saga. E se escrever a história de um ex-primeiro ministro inglês envolvido com crimes de guerra e que está com sua reputação em crise, foragido no EUA, invariavelmente rumará a tornar-se torna um caso de polícia. Já o é, pois o predecessor McAra morreu subitamente de causas não naturais. Agora um novo ghost writer tem essa missão quase impossível. Não sabemos e nem saberemos seu nome, mas do que importa se ele é apenas um fantasma em busca das mentiras mais soturnas.

Adam Lang vive envolto em uma redoma de complicações políticas, problemas pessoais e mistérios criminais, mas nada disso tira de seu rosto, onipresente e confiante, o sorriso falso que todos políticos compram numa loja que só eles tem acesso. Estuprar seu passado para um mero desconhecido que substitui seu braço direito, que morreu há pouco de causas pouco aceitáveis, faz com que Lang oscile de temperamento, verdades e certezas. Encalacrado de pessoas de confiança, tem em Amélia Bly, secretária, sua válvula de escape - seja profissional ou sexual. Sua mulher, Ruth,  vê todo o circo de camarote enquanto há um mero estranho escrevendo as suas memórias. Quem diria, Ruth. A politizada de começo de namoro, a estrela ofuscada pelos caminhos obscuros que trilhou seu marido. Quem diria.

Polanski conseguiu extrair o fino de “O Fantasma”, livro de Robert Harris. Livremente inspirado em Tony Blair, o personagem de Adam Lang tem reviravoltas, fugas e polêmicas - um político típico. O escritor, a cada descoberta se vê ameaçado e amedrontado pelas verdades encobertas. Mas a verdade é de quem? A politica é um meio sujo. Todos vivemos num meio sujo. Nossas memórias estão sujas. Limpá-las daria trabalho demais para um vida só. É como tentar limpar uma casa no meio do deserto de areia.

Excelente roteiro e direção. As locações nos dão impressão de isolamento - uma clara menção à prisão domiciliar em que Polanski dirigiu o filme. A cor cinza predimona na fotografia, causando um angustiante suspense. McGregor e Brosnan foram as escolhas perfeitas. Enquanto lia o livro podia imaginá-los atuando, escrevendo uma autobiografia de verdades mentirosas. Verdade esta que está nos pequenos detalhes. O elenco ‘não famoso’ cai como uma luva no pandemônio que tem uma solução surpreendente, apesar de não precisarmos saber exatamente o que ocorreu. E não posso deixar de lembrar de Alexandre Desplat que é um ás quando o assunto é trilha sonora. Polanski continua em alta performance.

Não há verdade pura, apenas mentiras mal guardadas. A política é o centro do mundo da mentira. E se você está lendo isso, deve ser porque estou morto, assim como o escritor, Lang e todos os outros. Nossos rastros sempre ficarão em detalhes invisíveis a olho nu. Morremos para não conhecer a verdade que escondemos.



Vitor Stefano
Sessões

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