sexta-feira, 25 de março de 2011

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo

Nome Original: Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo
Diretor: Karim Aïnouz e Marcelo Gomes
Ano: 2009
País: Brasil
Elenco: Irandhir Santos
Prêmios: Melhor Fotografia e Direção no Festival do Rio e Melhor Som, Prêmio FIPRESCI e Terceiro Prêmio Gran Coral no Festival de Havana.
Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (2009) on IMDb



Trabalho... trabalho … trabalho... Eu preciso disso pra sobreviver, não é apenas um modo de acumular riquezas, é como conseguirei sobreviver às agruras que o mundo nos impõe. A monotonia dos mesmos gestos, das mesmas paisagens e das mesmas pessoas dão sentidos à minha vida , mas isso só acontecia porque ainda não conhecia minha galega. Ah, galega... Tudo perde sentido quando me lembro de você. O sol brilha mais forte, o vento uiva o perfume de sua pele molhada, o tempo voa quando estou com você e quando não estou, parece que os deuses do amor querem provar que a saudade que sinto é maior que meu amor por um deus qualquer. Galega, como eu conseguirei ficar 30 dias longe de ti, no meio desse mato sem mato, dessa terra sem gente, desses rochedos eternos no horizonte? Minha vida não tem mais sentido. Trabalhar me dá angústia por não poder tê-la ao meu lado nas 24 horas do dia. Mas não se esqueça jamais: Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo.


Com o passar dos dias, tudo vai ficando ainda mais difícil. Nada muda, as rochas perderam o sentido, as flores, que tu tanto ama, aparecem repentinamente à minha frente mesmo nesse deserto inóspito. Não há ninguém. O som do meu carro só toca músicas de amor, maravilhosas que me faz lembrar de quem eu menos deveria pensar. Não agüento nem ouvir os refrões porque a dor da distância de quem se ama é monstruosa. Não porque não te ame mais, pelo contrário. O meu ódio por mim mesmo por ainda amá-la, mesmo depois de ter sido acachapado sem esperar é mortal. Um pé na bunda é inesquecível, ainda mais quando sentimos que amor cresce quando o perdemos. Ou quando perdi o juízo por amar mais você do que a mim mesmo. Ai... é amor... é amor... Música desgraçada. Amor é o cacete. Mas agora a verdade é que Viajo Porque Preciso, Não Volto Porque Ainda te Amo, sua vaca.

Aiiii... Essa viagem está melhor do que eu poderia imaginar quando a comecei. Estou queimando meus carmas, meus fantasmas, meus demônios. Estou na ativa novamente, como um verdadeiro alfa. Visito feiras onde as maiores pechinchas são por mulheres baratas, cheias de vidas, histórias e muito amor para me dar. Amor... é, quem diria que o sentido do sentimento poderia mudar em tão pouco tempo. Cada vez mais meu pensamento não existe para você. Você é apenas um resquício de um passado que estou terminando de enterrar, só falta por a cal e o fogo para exorcizar o mal que você fez ao deixar um homem que tanto lhe amou. Sua vagina nunca mais será querida, tenha certeza disso. A podridão do mundo recairá sobre tudo que você tocar! Saiba, aqui, todas as mulheres me querem e eu quero todas. Não entenda isso como uma vingança barata, ela sairá cara pra você! Aqui sou eu mesmo. Aqui sou livre para fazer o que quiser. Se quiser pular de um penhasco em busca do sonho maior da humanidade de voar, eu o farei, porque você não me prende mais nessa mesquinha vida pacata que vivia ao seu lado. Viajo quando eu quiser, e volto quando eu bem pensar.



“Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” é a maior expressão de verdadeira arte dentro do cinema. De impactante estranheza inicial as imagens feitas para um documentário e adaptadas a um roteiro inventivo da maravilhosa dupla Aïnouz/Gomes, narrado em off com a dramaticidade teatral por Irandhir Santos formam uma ficção experimental, envolvente e angustiante. Aliás, o fato de não vermos o geólogo José Renato é de uma delicadeza impar, pois os cenários desérticos, as fotografias desfocadas e a narrativa descritiva nos fazem imaginar as ações como quisermos. Quase como ouvir histórias pelo rádio. Incluir termos técnicos de uma profissão tão improvável em filmes e transformar frases de caminhão e músicas brega em poesia é outro trunfo da dupla. “Viajo...” é mais que um retrato de um homem provando do sabor da perda e tendo que aprovar sua masculinidade perante si própria. É o retrato do maior medo do ser humano: a solidão. A viagem só durará até quando a solidão permitir. E o amor, ah, o amor... Quem saberá descrever esse sentimento tão falado e tão pouco exercido. Não Viajo, Porque Não Sei o Que é o Amor.

Vitor Stefano
Sessões

5 comentários:

  1. Ai, ai...
    Viro tiete quando os sessônicos deixam estourar uma veia literária cá e outra acolá.
    Percebam o ritmo em dois pontos catedráticos do texto de Vitor Stephano:

    "A monotonia dos mesmos gestos, das mesmas paisagens e das mesmas pessoas dão sentidos à minha vida , mas isso só acontecia porque ainda não conhecia minha galega. Ah, galega..."

    "Sua vagina nunca mais será querida, tenha certeza disso."

    Sempre surpreendente. Vitor você é um querido.

    Abraço

    Leandro Antonio
    Sessões

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  2. Opa, retificando: Vitor Stefano com F de F.....
    Desculpa gravar erradamente o nome do criador.

    Leandro Antonio
    Sessões

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  3. O Vitor é um poeta... suas resenhas são sempre ótimas.
    Com relação ao filme, eu diria que não me lembro de outro aproveitamento de materiais reciclados como nele...
    A sustentabilidade chegou ao cinema!
    Os diretores aproveitaram fotos, sobras de seus documentários, juntaram a um narrador talentoso e, como mágica, produziram uma obra de arte.
    Claro que sem a tonelada de talento que ambos tiveram em elaborar um roteiro engenhoso, nada disso aconteceria.
    'Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo' é brilhante, um dos melhores e mais inventivos filmes brasileiros de todos os tempos. É a prova de que nossa criatividade também pode ser impressa em celulóide.
    Parabéns pelo post!
    Abs!!!

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  4. olá!
    será que vc não saberia como obter cópia do filme?
    minha monografia está sendo sobre ele, mas só tive oportunidade de vê-lo nos cinemas e e festivais.
    abraços

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  5. "Sinto amores e ódios por você. Sinto amores e ódios repentinos por você."Este filme fala sobre a angústia que a saudade causa. Fala sobre a tentativa inútil de fugir do amor que se leva consigo pra onde quer que vá. Fala da fragilidade do mundo perfeito que criamos perante a triste realidade. Fala do olhar do apaixonado que se embriaga com a repetição das coisas na ausência daquilo que realmente deseja.Um filme poético,com uma bela fotografia e trilha sonora

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