quarta-feira, 23 de março de 2011

O Enigma de Kaspar Hauser

Nome Original: Jeder für sich und Gott gegen alle
Diretor: Werner Herzog
Ano: 1974
País: Alemanha
Elenco: Bruno S., Walter Landengast, Brigitte Mira, Herbert Achternbusch, Michael Kroecher entre outros
Prêmios: Grande Prêmio do Júri, Prêmio FIPRESCI e Prêmio do Juri Ecumênico em Cannes
O Enigma de Kaspar Hauser (1974) on IMDb

É com este relato que o espectador é induzido a testemunhar o universo do “achado” Kaspar :

“No domingo de Pentecostes do ano de 1828 recolhemos na cidade de Nuremberg uma criatura abandonada que, mais tarde chamamos de Kaspar Hauser. Ele mal sabia andar e só pronunciava uma frase. Depois contou-nos que logo após nascer viveu preso num calabouço. Ignorava o mundo exterior e a existência dos seres humanos, pois lhe deixavam alimento à noite enquanto dormia. Não tendo noção do que era uma casa, uma árvore ou a fala... até que um homem entrou onde ele jazia. O mistério de sua origem nunca foi esclarecido.”

“Você não escuta este grito horrendo ao redor e a que chamam de silêncio?”

Um esclarecimento a fazer é que aqui não farei uma análise ou comentário padrão do filme. O que mais interessa, desta vez, é o recorte, a ilustração. Tirem suas conclusões e assistam ao filme. Cada um por si e Deus contra todos.



A vida é absoluta. A natureza humana é mutante. E o que se quer dizer com isto? Todo humano é igual enquanto ser que vive, respira, reproduz, envelhece e morre. O que diferencia os seres humanos é, em suma, seu condicionamento diante das suas experiências. Já é repertório de muitos autores e de muito copy and paste as questões que relacionam natureza e cultura, natureza e política. Mas, este que vos fala, não tinha visto isto ainda tão claramente estes ensaios se não no diálogo entre Lord Stanhope e Kaspar durante o maior clímax social da vida do protagonista – uma festa. Quando Kaspar é provocado em meio às pessoas a dizer alguma coisa com espontaneidade. Ele verdadeira e simplesmente e com todo o respeito que consegue decodificar, afirma:

“Vossa Senhoria, a única coisa interessante em mim, é a minha vida.”

Momento poético sem dúvida. No entanto, o que pode haver de interessante em um homem além da vida? Tenho uma resposta: Suas paixões e representações advindas do convívio em sociedade. É, haverão de existir outras respostas plausíveis... Estou aguardando!

Por falar em momentos poéticos, não há como abandonar o momento em que Kaspar ensaiando a sua nova habilidade – as primeiras letras – escreve ao Sr. Daumer:
“Há alguns dias eu semeei meu nome com pés de agrião. E eles pegaram bem. E isto me deu tamanha alegria que mal posso expressar. Mas, ontem ao voltar do passeio notei que alguém entrou no jardim e espezinhou meu nome. Chorei por muito tempo então resolvi semear de novo.”

O que é o ser humano e o que nos diferencia das outras espécies animais? Por que chora, por que espezinha o nome dos outros, por que concebe a arte? E sobretudo, por que pergunta?

Leandro Antonio
Sessões

Um belo ensaio sobre o filme está disponível na página do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa

Para fazer download deste e de outros filmes de Werner Herzog clique aqui.

7 comentários:

  1. Assisti ontem no módulo O Ser Humano e Sua Inserção Social na faculdade. O filme é bastante monótono, mas é rico como fonte de discussões antropológicas e psicossociais, estou, neste mesmo momento, preparando um escrito sobre o mesmo :)

    ResponderExcluir
  2. New World Blog! Curti o comentário rápido e certeiro.

    Lucas, não consegui achar o filme monótono não, mas verdade que seu ritmo é lento, mas ainda assim, acredito que Herzog acertou, pois este era o tempo para gurgitar a história enquanto o filme ainda acontecia diante dos seus olhos. Digamos que saí feliz da sessão e me impressionei sobretudo com a poética dos diálogos.

    Obrigado pelos comentários.

    Leandro Antonio
    Sessões

    ResponderExcluir
  3. Muito boa a escolha do trecho do circo. Pois ela mostra por meio de metáforas o que povoava o pensamento da sociedade europeia no início do século XIX, fruto da Revolução Francesa e das teorias positivistas. Bom, espero que a humanidade tenha caminhado de lá pra cá.

    ResponderExcluir
  4. Oi, Anônimo!
    O Enigma de Kaspar Hauser é um filme que apresenta algumas cenas bastante significativas, a mim parece que Herzog optou pela ilustração de contextos e conflitos dessa Europa do século XIX. Escolhi a cena do circo, pois, ali há também uma alusão ao Positivismo - o que era desconhecido da ciência poderia considerado aberração, ou seja, a explicação metafísica ou teológica já não era, necessariamente, absoluta.
    Valeu pelo comentário!

    Leandro Antonio
    Sessões

    ResponderExcluir
  5. Belíssimo comentário, Lê. Não vi ainda esse filme, porém Herzog é daqueles que devemos ver tudo, desde os clássicos, aos que ficaram perdidos pelas décadas. E a temática, como você colocou, nos parece algo grandioso!

    Obrigado pela dica!

    ResponderExcluir
  6. Olá, Vitor!
    Valeu o comentário. Herzog certamente vale o passeio. Dos clássicos aos perdidos. Gostei do termo perdido. Dá até para sugerir ao Armando uma Lista de 10 Perdidos.
    Aquele abraço.

    Leandro Antonio
    Sessões

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...