quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Pelé Eterno



Nome: Pelé Eterno
Diretor: Anibal Massaini Neto
Ano: 2004
País: Brasil
Elenco: Edson Arantes do Nascimento
Prêmio: Award of the City of Rome no Festival de Cannes
Pelé Eterno (2004) on IMDb


Pelé: Futebol e... Estética?

Nas palavras de Romário, Pelé "com a boca fechada é um poeta". Poeta futebolistico imortalizado por Carlos Drummund nas reverentes palavras: "Difícil não é fazer mil gols como Pelé. Difícil é fazer um gol como Pelé". Caetano por Pelé disse "love, love, love". Para Jorge Ben "o nome do rei é Pelé". A Rainha da Inglaterra se curvou e lhe conferiu o título de Sir da Ordem do Império Britânico. Além de tudo, artilheiro quando a mulherada está em campo. Se é Pelé na terra e Deus no céu faça sua prece pois o anjo negro dará uma goleada em seus problemas!

Estava caminhando pela Avenida Ana Costa em Santos quando me deparei com um tumulto galante. Homens de gravata, jornalistas, mulheres bonitas, gente que não se vê pelos bares do Gonzaga pelas três da manhã bebendo itaipava. Fazendo as contas, na época estava com dezesseis anos. O Cine Roxi (hoje parte do monopólio Cinemark) era o palco para mais uma aparição do negão que conferiu a Vila Belmiro sua fama. E estava lá: Pelé, eterno? (Gabriel, ex ou atual, pensador diria que eu e o Pelé morreriamos da mesma forma). Era a pré-estréia do documentário "Pelé Eterno" que só fui assistir ontem, seis anos depois. Foi única vez que vi Pelé.

Assistindo as imagens do "deus negro" dá até orgulho de ter sido um torcedor mirim do Santos e ter terminado no Santos depois de ter virado a casaca várias vezes e, por fim me descomungar do futebol. Não me tornei ateu, mas em matéria de esporte, agora, sou agnóstico.

O que se reconhece nos lances de Pelé é uma tênue linha que separa o esporte da arte, um brilho absurdo e incontrolável, uma alegria descomunal que promove o desejo de sair gritando pela rua, um singelo gosto de partilhar a nacionalidade de um gênio da bola. Há nos lances de Pelé um certo lirismo, uma canção inaudível que retumba em direção as redes. Em seus passos, em seus passes, existe um timbre totalmente híbrido, uma conversa com Villa-Lobos, Machado de Assis, Nélson Rodrigues, Chico Buarque, Ziraldo, Tom Jobim. Nas aparições de Pelé há um quê de Vargas, de Mandela, de Obama. Embaixador dos campos verdes, colecionador de cifras, de gols, de vitórias, um homem para a glória. Há no futebol um brilho eterno que poderá ressoar na mais fervilhante permanência estética, uma fornalha impiedosa que soviéticos, suécos, chilenos e africanos aplaudiram, um caldo manchado de sangue, suor e lágrimas de uma nação, de um planeta e de um século XX em desibinida contradição.

Mas há também em Pelé o estigma do herói, do rei, do uno. O meia-atacante mais famoso, o jogador de futebol mais importante de todos os tempos é um dilema atropológico, um problema filosófico, um dilacerar literário. Tornou-se uma figura mítica, soberana, trancendente, tornou-se um herói. Pelé parou a guerra? Foda-se! No dia seguinte ela foi retomada. Mostraram ao mundo um mártir, um deus fabricado pelo talento e pela indústria do futebol. Virou então atração do circo das diversões públicas, o estádio de futebol. Esteve na distração de muitos povos e contrubuiu indiretamente, ou diretamente, para a manutenção do regime de horror dos militares no Brasil: "Pra frente Brasil!". Pelé levava consigo o mastro da vitória e empurrava a devoção pública em frente, rendidos à magia do futebol prodígio do Leão do Mar e da Seleção Brasileira. Colocou o Brasil no auge, no centro dos flashes, deu força a identidade nacional. Fez jus a tríade futebol-mulata-caipirinha. Há na trajetória de Pelé o indício da configuração de um arrebatador amor ao futebol, ocorre a formação de uma santificação deste esporte nas palavras "paixão nacional", tornar-se-ia então heresia máxima demonizar o futebol e seus enlaces. Com sua fama, seu dinheiro, o "rei" tentou empresas, tentou o cinema (tópico pitoresco em sua biografia), tentou a música (lamentavelmente), experimentou, pasmem, a política como ministro dos esportes quando implantou a polêmica "Lei Pelé". Eis que assim seria o Maracanã um coliseu anacrônico e a Vila Belmiro um palco de ensaios para um teatro esplendoroso e magistral. Em exacerbada relevância estaria o futebol em patamar de "pão e circo".



Essa curiosa dialética entre moribundos críticos da "arte futebolística" e os apaixonados defensores da bola na rede praticamente se anula em momentos cruciais. Vibrações, poemas, entorpecimento dão a contradição um ar de requinte, uma malícia que de tão perfeita se justifica religiosamente. A sacralização de Pelé e nossos outros inquestionáveis artistas das quatro linhas coloca o espetáculo público em intrínseca sintonia com o espírito nacional. O futebol é identidade nacional e Pelé é seu monumento mais místico. Nenhum artista da nação tupiniquim projetou nossa alegria ao mundo tal como Pelé.

Falo das tabelas com as canelas dos adversários, falo do "gol que não foi mas deveria ter sido", dos quatro chapéis, do gol aos trinta segundos, do drible em cinco adversários, das matadas no peito, dos "peixinhos", do tiro certeiro, da malandragem, do raciocínio rápido, da coerência, da força, dos passes imprevisíveis, da unanimidade criativa. Falo de imagens que se tornaram imortais, falo de um absurdo, de um furacão, de um rojão. Falo do jogador que teve um sua trajetória um banquete da bela arte futebolística. E falo, além de tudo, de um futebol que não se vê mais, que se perdeu pisoteado pelas pernas tortas de Garrincha, atropelado pelas bicicletas de Leônidas da Silva, que morreu em imagens incolores.

Outro espetáculo nos jogos era a torcida que ao comando espontâneo do "maestro" Pelé silênciava, gritava e aplaudia maravilhada. Talvez o mais aplaudido pelos jogadores e torcidas adversárias. A sinfonia de Pelé nos E.U.A. faz com que a platéia invadisse o campo, Pelé expulsa o árbitro de campo, Pelé é atração turística. Pelé virou lenda, a lenda virou Pelé.

E enquanto Pelé é Blockbuster, Garrincha é Cine Cult.
Enquanto Pelé é fanfarrão, Ayrton Senna é humanista.
Por um lado Pelé é único.
Por outro é mais um brasileiro.

E agora José?
Curvar-se, repudiar ou aceitar?

O povo brasileiro precisa de bola na rede e cerveja gelada, e eu, eu "quero ver gol".
Mas no fundo, no fundo, será mesmo que o Haiti não é aqui?

"Essa escada é pra ficar aqui fora"...

Mateus Moisés
Sessões

2 comentários:

  1. "Num tempo...
    Página infeliz da nossa história,
    Passagem desbotada na memória
    Das nossas novas gerações.
    Dormia...
    A nossa pátria mãe tão distraída
    Sem perceber que era subtraída
    Em tenebrosas transações.
    Seus filhos
    Erravam cegos pelo continente,
    Levavam pedras feito penitentes,
    Erguendo estranhas catedrais.
    E um dia, afinal,
    Tinham direito a uma alegria fugaz,
    Uma ofegante epidemia
    Que se chamava carnaval.
    O carnaval, o carnaval!"

    Chico Buarque de Hollanda

    No Guarujá tem aeroporto?
    Rs!

    Mateus Moisés
    Sessões

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  2. comecinho do comentário me fez lembrar o epsódio do Chaves em que a Vila vai ao cinema para ver o filme do Pelé. Só um parênteses!
    O século XX produziu seus reis e rainhas por meio da novidade tão bem estudada e explorada nas universidades dos ditos países desenvolvidos. Ainda o pão e circo, mas os "monarcas" tornam-se o centro deste circo e referência para o provo-do-mundo. Nenhum nasceu nobre, se fizeram reis por que o mundo os quis ver como tal.
    Séculos se passaram e não vejo novos reis e rainhas aparecendo e nem acredito que aparecerão neste século XXI. Será que rei-sol não tem mais lugar na Terra e as correntes foram quebradas?

    Leandro Antonio
    Sessões

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