terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Sessões entrevista Paulo Halm

Paulo Halm, carioca de 1962, formado pela Universidade Federal Fluminense, é conhecido por seu vasto curriculo em roteiros, principalmente nos filmes 'A Maldição do Sanpaku' (1992), 'Quem matou Pixote?' (1996), 'Pequeno Dicionário Amoroso' (1997) e 'Amores Possíveis' (2000). Com o roteiro de Olhos Azuis (2009) lhe valeu o Prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Paulínia. Neste ano estreia na direção de longa metragens com 'Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos', com Caio Blat e Maria Ribeiro. Veja a entrevista, que também encontra-se no site do filme http://historiasdeamorofilme.com.br/ , deste gênio do roteiro e desbravador da arte de dirigir, Paulo Halm.



Sessões - Como foi a transição de roteirista consagrado para diretor iniciante?
Paulo Halm - Dirigir é um projeto anterior à minha formação como roteirista. Sou formado em cinema pela UFF, e desde os primeiros momentos da faculdade eu perseguia a direção, dirigi e co-dirigi alguns filmes. Virar roteirista foi uma forma de me profissionalizar em cinema, pois desde sempre entendi que precisaria ter uma atividade que me sustentasse. Sou oriundo de uma familia de classe media baixa suburbana e desde jovem tive claro a questão de sobrevivência. Como eu sempre escrevi e, segundo diziam, bem, entendi que o roteiro seria o campo ideal para trabalhar. Mas eu exerci várias funções em filmes, antes de me firmar como roteirista: fui assistente de produção, assistente de direção, ralei muito em set. E paralelamente à minha carreira como roteirista nunca abandonei a perspectiva de dirigir, aliás, realizei uns oito curtas metragens, muitos deles premiados no Brasil e no exterior, fiz documentários para televisão, etc. De modo que não foi nem por acaso nem inesperado realizar um longa. Por outro lado, a grande dificuldade foi conseguir escrever um projeto para mim mesmo. O trabalho como roteirista escrevendo para terceiros acabava me concentrando muito tempo e cabeça e eu não tinha projeto. O engraçado ( e dramático ) nessa história é que invariavelmente os roteiros que eu escrevia ganhavam premios, editais, viravam filmes e eu não tinha como concorrer, não tinha o meu projeto, daí ficava com aquela invejinha: poxa, também quero. Mas aí o "também quero" virou o "também posso". Eu sentia que tinha competencia e experiencia para fazer meu proprio longa. Até que fiquei um período desempregado e aproveitei para me dedicar aos meus projetos pessoais. Numa só tacada eu escrevi tres projetos, entre eles o roteiro do Histórias de Amor duram apenas 90 minutos. Graças ao meu trabalho como roteirista eu conheci a Heloisa Rezende, que havia produzido vários roteiros que eu tinha escrito, como Achados e Perdidos e Casa da mãe Joana. A Helô era e é uma das mais requisitadas produtoras executivas do Brasil, mas há tempos ela estava querendo produzir um filme dela, pela sua propria produtora. Ela sabia do meu desejo em dirigir um longa e me propôs uma sociedade. Ela produziria e eu dirigiria. Ela leu o roteiro do Histórias e se encantou, decidiu produzí-lo. Então ela começou a correr atrás dos recursos e finalmente o filme foi realizado. Foi uma experiência ótima porque, apesar de sermos ambos estreantes, éramos dois profissionais veteranos e qualificados, de modo que tudo deu certo e foi feito sem sobressaltos, com calma, de forma bem agradável. Mas o fato de dirigir um longa ( e outros, já estou preparando meu novo longa que espero rodar no proximo semestre ) não significa que abandonei a carreira como roteirista, tanto que, desde que terminei as filmagens do Histórias já escrevi tres roteiros. Minha intenção é manter ambas carreiras.

S - Pelo que pude observar nos trailers e trechos de Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos e percebe-se um que de Almodóvar. Cores fortes e não conseguir definir de qual gênero o filme é, vai de drama a comédia. Está certa essa inspiração ou é por acaso?
P.H. - Se vc vir o filme, talvez até ache outras semelhanças com o Almodovar, que é um cineasta que eu gosto, mas que não é minha referencia. Da mesma forma que muita gente vê coisas do Woody Allen no filme. Aliás, o filme não tem cores fortes, ao contrário, nossa palheta de cores se aproxima mais de tons pastéis, esmaecidos, pálidos. Nossa referencia ( minha como diretor, e em consonância com o diretor de fotografia Nonato Estrela e a diretora de arte, Renata Pinheiro ) foi uma fotografa chamada Nan Goldin, que justamente trabalha com essa tonalidade. Buscamos também criar um visual que remetesse à novelle vague, algo meio cool, blasé mesmo. A questão do filme transitar da comédia pro drama e vice-e-versa é anterior ao Almodovar, penso que ela tem mais a ver com Billy Wilder e com Jean Renoir, cujos filmes jogavam muito com a capacidade de emocionar e divertir (vide se meu apartamento falasse ou Stalag 17, de Wilder ou A regra do Jogo e a grande ilusão, de Renoir). Na verdade, não acho que um filme tenha que ser engessado num unico gênero, acho que, da mesma forma que a vida, um flme deva ter momentos divertidos e momentos densos, nada impede isso, pelo contrário, deve se buscar essa alternância pois ela traduz mais fielmente a vida.

S - Como foi dirigir Caio Blat, um dos melhores ator brasileiros dessa geração e um dos que mais atue no nosso cinema?
P.H. - O Caio é sem duvida o melhor e mais completo ator da geração dele, além de ser uma pessoa inteligente e super camarada, companheiro. Escolhi o Caio pelo seu talento e também por ser o ator com a idade mais proxima do personagem, beirando os 30 anos. Curioso que este foi o primeiro papel adulto que o Caio fez. Pela sua compleixão fisica e pelo aspecto jovial, acaba que o Caio é escalado sempre para fazer papeis de garotos, de quase adolescentes. No Histórias ele faz um homem com dificuldades em amadurecer, que se apega desesperadamente a uma juventude que vai lhe escapando dos dedos, é um personagem em crise existencial. E ele se entrega ao personagem com uma dedicação e carinho extraordinários. Sua performance é arrebatadora. Penso que 50% do trabalho de um diretor seja escolher bem o seu elenco. O personagem é construído no roteiro, mas por melhor que seja o roteiro, é só um arcabouço, um esboço, é uma coisa idealizada. O ator traz suas experiências, suas vivências, preenche as lacunas do personagem, o transforma num ser humano, real. A construção do Zeca pelo Caio é uma aula de interpretação, É toda contida, baseada em pequenos gestos, pequenos toques, e principalmente, pela força do olhar. O jeito como ele olha a cena, os demais atores, a si proprio, é brilhante. É um grande ator e eu tive muita sorte de poder contar com ele no meu filme de estréia.

S - Como você vê a Lei Rouanet e a escolha dos projetos agraciados com incentivos governamentais?
P.H. - Vc está fazendo uma pequena confusão. A Lei Rouanet não contempla o cinema. O audiovisual é mantido por mecanismos de incentivo da chamada Lei do Audiovisual, com suas diferentes formas de renuncia fiscal. Nosso filme foi produzido com recursos oriundos do Programa cultural da Petrobras e com apoio do fundo Ibermedia, que é uma agencia de fomento que contempla projetos de países ibero-americanos. Posteriormente, já na fase de finalização, fomos agraciados com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, da Ancine-Finep. Ou seja, é um filme se não integral mas majoritariamente produzido com recusos publicos. Obviamente eu defendo esse sistema. Entendo o cinema, como as demais artes, parte essencial da formação da identidade nacional e que faz parte da estratégia de nossa afirmação como país e nação. Deve ser entendido como objeto de políticas publicas do Estado, da mesma forma que a educação. Além disso, é uma atividade que gera renda, emprega milhares de pessoas, tanto na produção como nas areas de distribuição e exibição, portanto é uma atividade econômica fundamental que também deve ser alvo de políticas públicas, da mesma forma que a industria, a agricultura e outras areas da nossa economia que recebem e sempre receberam insumos e incentivos governamentais.

S - Como se forma um grande roteirista?
P.H. - Falando sobre minha formação, disse que eu desde sempre escrevia, e de acordo com as criticas, escrevia bem, daí buscar nas areas que formam a atividade cinematográfica aquela que eu pudesse atuar com maior facilidade. Mas é preciso que se entenda que o roteirista não é um escritor. O seu trabalho, ainda que se utilize de recursos literários, não é produzir uma obra literaria, e sim, através desses recursos, construir um produto audiovisual, onde o texto não possui tanta relevancia. Daí eu falar sempre que o roterista não é um escritor, e sim um cineasta - só que a sua participação se dá num momento em que o filme existe apenas no papel. Mas o roteiro não é uma produto em si, é parte de um processo que só termina e existe quando vira filme. Portanto, para se tornar um roteirista, é preciso conhecer e muito a linguagem cinematográfica. Entender de enquadramentos e de montagem, e tambem de produção. Não que um roteiro tenha que indicar tal ou qual lente, pelo contrário, nem deve. Mas o roteirista precisa recriar com palavras as imagens que posteriormente serão produzidas nas filmagens. Portanto, deve fazer parte da bagagem do roteirista um conhecimento muito grande de cinema, ver muitos filmes, estudá-los do ponto de vista de suas narrativas e da sua construção dramatúrgica. Ao mesmo tempo, tem que dominar a narrativa e portanto, ter um amplo conhecimento das formas narrativas anteriores ao cinema, no caso, a literatura e o teatro. E claro, escrevendo muito, e de preferencia bem ( por mais que isso possa soar contraditório com o que disse anteriormente ). Para escrever bem é preciso ler e muito. Recomendo sempre as pessoas que querem se aventurar na área do roteiro que vejam muitos filmes, de preferência nacionais, e leiam os clássicos. Mas também quadrinhos e poesia. E musica e pintura. E fotografia...

Agradecemos a entrevista com um dos maiores roteirista do nosso cinema, Paulo Halm. Vejam agora o trailer de sua primeira produção como diretor que estéia nos cinemas dia 26 de fevereiro, 'Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos'.
Equipe do Sessões

4 comentários:

  1. Paulo é certamente um dos maiores nomes do nosso cinema, e assim como Escorel, pouco reconhecido. Tem um vasto curriculo de roteiros que vão de problemas sociais, como Pixote a comédias popularescas como Casa da Mãe Joana. Versátil e amável. Certamente foi a melhor entrevista que o Sessões já teve. Cuidadoso com as respostas, interessado com as perguntas e atencioso com as nossas dúvidas. Certamente um marco na vida do Sessões.

    Muito obrigado Paulo e certamente veremos 'Histórias de Amor...'

    Vitor Stefano
    Sessões

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  2. Bela entrevista! Embora sem postagens há quase um ano, vale a pena dar uma passada no blog do Paulo Halm: http://paulohalm.blogspot.com/.

    Leandro Antonio
    Sessões

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  3. A sessão foi muito boa. O cinema abarrotado de gente, todo mundo chorando de rir. Superou minhas expectativas (e dos amigos que estavam comigo na sessão)!

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  4. Eu concordo com a Rafaela! a sessão foi ótima, o filme tem cenas hilárias! Eu esperava mais drama do que comédia, mas não foi bem assim. O Paulo Halm estava lá e apresentou o filme, um amor. Caio Blat e a Maria Ribeiro também. Eu recomendo muuuuuuuito e assistiria novamente com mais amigos, sem dúvida (e para eu repetir um filme assim no cinema, tem que ser muito legal mesmo!)

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