quarta-feira, 20 de abril de 2011

O Círculo

Nome Original: دايره‎ (Dayereh)
Diretor: Jafar Panahi
Ano: 2000
País: Irã, Itália e Suiça
Elenco: Nargess Mamizadeh , Maryiam Palvin Almani, Mojgan Faramarzi, Maedeh Tahmasebi
Prêmios: Leão de Ouro, Prêmios da FIPRESCI, Unicef, OCIC Award - Honorable Mention e Sergio Trasatti Award do Festival de Veneza e FIPRESCI Film of the Year no Festival de San Sebastián.
Dayereh (2000) on IMDb


Roda roda roda. Sai do lugar, mas o fim é sempre o mesmo. Considero o cinema iraniano um dos mais difíceis do mundo. Não que as temáticas sejam complexas e mirabolantes ou mesmo são dotados de narrativas incomuns e nunca vistas, não. O cinema iraniano é complexo por um único motivo: a cultura é totalmente diferente do Ocidente. Não temos base, não nos vemos lá apesar de estarmos em plena era da comunicação, da facilidade da informação e do conhecimento global. Mas o Irã não nos trás nenhuma referência que tenhamos o mínimo contato. Apenas sabemos que as mulheres usam burcas, só. O cinema é uma arte universal e amplamente disseminada e ver os costumes e a cultura através da tela grande é um dos melhores aprendizados que podemos ter, devendo filtrar bem para não cairmos apenas nos clichês e nos estereótipos. O cinema vai além, não é? Infelizmente por trás daqueles véus, há muitas histórias que não podem ser contadas. Mas no cinema pode, mesmo que sejam em nuances.


“O Círculo” vai além de uma roda gigante que roda e não sai do lugar. Vemos na tela uma sucessão de mulheres divididas em capítulos e com histórias parecidas. Cada uma com seu drama mas todas sob a influência do medo de viver naquele país. Vemos um país de homens e de mulheres submissas, sem direitos. Um ser humano sem direitos é menos do que uma ovelha sem seu pastor, andando livre pelo pasto. Viver com a sombra do medo é a pior tortura que os humanos poderiam ter. Não me venham falar em direitos humanos, a liberdade é um direito da vida. Soltem os pássoros, deixem os animais livres, abram as porteiras, libertem os presos, tirem as burcas, andem nus à frente do palácio de Ahmadinejad . Nossos dramas são inócuos quando vemos que há tanta podridão como essa no mundo. Gritos de “LIBERDADE! LIBERDADE! LIBERDADE!” são comprimidos e perdidos dentro do peito escorado pelas armas da ditadura.


Jafar Panahi está preso por sua voz. Por conta do cinema. O cinema fez um prisioneiro. Não no sentido lúdico, as jaulas da prisão obscuras são verdadeiras e cheiram esgoto. O limbo das paredes se misturam à pele e transformam o bicho homem em túneis subeterrâneos cheios de ratos e baratas. A busca pelo dinheiro faz das mulheres se prostituem e vendem os filhos, em rainhas da liberdade. Contraverter sua própria essência em prol da busca pela liberdade faz delas mártires silenciosas em busca de explicações do que a mente humana, condicionada pela própria cultura, é capaz de fazer. Gritos mudos saem aos montes nos becos de Teerã.

“O Círculo” não me agrada como cinema puro. Há muitos cortes, uma narrativa dispersa e lenta, atuações sem brilho. Mas é exatamente o brilho de não tê-lo que incomoda, que força nossa mente a buscar explicações do inexplicável. A arte é universal, mesmo que seja regional. O cinema iraniano é um tapa na cara dos Aialotlas, escarra no Ahmadinejad, destrói os costumes arcaicos, olha pro futuro, mas o passado e o presente ainda estão lá e é de lá que querem fujir. Nesse caso a fuga é a melhor saída. O aborto é necessário para dar vida às mulheres por baixo dos véus que cegam e prendem.

Vitor Stefano
Sessões

P.S.: Esta é uma expressão de solidariedade do Sessões ao diretor Jafar Panahi que está preso por conta de sua expressão cinematográfica e política. Continue fazendo seu cinema “obsceno”, enfrentando de frente o Governo e exibindo ao mundo, do seu jeito, o que é a realidade do seu país.

P.S.2 : Talvez de nada valha, mas assinei uma petição pela libertação do diretor Jafar Panahi. Assine também - http://www.petitiononline.com/FJP2310/petition.html

Um comentário:

  1. Muito bem, Vitor! Adorei o post!
    Vou um pouco além, acho que o grande trunfo do cinema iraniano ou das produções de qualquer outra nação ao qual o nome já soe estranho nos ouvidos de cá, não são as diferenças culturais e sim suas semelhanças em qualquer esfera. Ou seja, o paralelo é mais rico que o paradoxo neste sentido. Sabemos que lá as mulheres andam de burca, mas sabemos também que estas mulheres têm anseios, amam, amam os filhos e o marido, têm sua religião, respiram, descobrem-se... E por mais que as questões culturais sejam muitíssimo determinantes e, por alguns consideradas até naturais, há uma série de explicações que não podem mais ser fundamentadas nas ideias que o homem já vislumbrou. Sociologia, política, dogma, tudo isto parece pequeno ainda quando o objeto de anális e é este enorme grão de areia no universo - o ser humano. Ainda há longos caminhos. Por hora, assinem a petição e assistam a "O Círculo".

    Leandro Antonio
    Sessões

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