sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Que Horas Ela Volta?


Nome Original: Que Horas Ela Volta?
Ano: 2015
Diretor: Anna Muylaert
País: Brasil
Elenco: Regina Casé, Michel Joelsas, Camila Márdila, Karine Teles e Lourenço Mutarelli
Prêmios: Melhor Ficção na mostra Panorama no Festival de Berlim e Prêmio especial do Juri de Atuação (Regina Casé e Camila Márdila) no Festival de Sundance.
Que Horas Ela Volta? (2015) on IMDb


Carta aberta à Anna Muylaert.

Olá Anna. Primeiro quero te parabenizar por ter feito o melhor filme de 2015. Pode parecer exagero para quem, por acaso, ler essa carta, achando ser um delírio desse que vos escreve ou mesmo seja um pedante puxa saco em busca de fama, mas você fez um filme perfeito. Claro que o cinema é uma arte coletiva e todos envolvidos merecem essas láureas, mas você é a diretora dessa obra, então sob ti cairão os elogios. Aliás, “Durval Discos” e “É Proibido Fumar” deram amostras de que em algum momento você atingiria o ápice. Ele chegou e pruma mulher que brilhou numa indústria tão machista e excludente. Indústria... termo feio para o que encaramos como arte, mas infelizmente a realidade é mais cruel do que gostaríamos. Mas não quero cair em polêmica sobre sexismo, equidade ou preconceito. Você está entre os maiores.

Assim que “Que horas ela Volta?” terminou, enxugando as lágrimas pensei: é um retrato do atual Brasil. Mas não só isso... é do Brasil em que as famílias são divididas em cômodos. Das famílias que nem conversam mais durante o jantar, a não ser pelo celular. Dos pais que perderam o interesse mutuo e convivem por status uma vida medíocre. Numa casa em que a empregada faz parte da família, mas só da porta da cozinha pra “lá”. Um país que busca a igualdade – não tão igual assim. Um país em que andar de cabeça erguida é sinônimo de arrogância. País de mães que abdicam de cuidar de seus filhos para “financiar” a vida deles, nem que outras sejam as "mães". Do país que vive pra pagar contas e não ter retorno. Do país em que se admira, inveja e menospreza ao ver um nordestino vencer na vida. Um país em que ainda existem sonhos. “Que horas...” tem tantas camadas que não pode ser simplificado, nem resumido. Ele é um filme pra ser visto, sentido, vivido. Eu vi amigos no filme, eu vi histórias das quais ouvi falar... Eu me vi. E me envergonhei, soltei alguns risos nervosos, ri e chorei de felicidade, me emocionei com Val, com Jessica. Com o afeto. Com a rebeldia. Com a ousadia. Eu me emocionei pois há vida ali.

E que elenco! E falar o quê de Regina Casé? Ela conseguiu quebrar muitos paradigmas. Eu nunca fui muito fã de seu trabalho na tevê, mas não deixei esse pré-conceito me impedir de ir ao cinema. Ela ganhou um fã. Depois de dois minutos de Val na telona Casé estava desmontada e eu só via Val. Val, uma personagem tão rica. Gestos expansivos, frases impactantes e hilárias, uma ingenuidade digna de um jogo de xicara de café. Uma mulher comum, mas é por mulheres assim que o mundo é feito e anda. E como vocÊ descobriu Camila Márdila? Que menina expressiva, intensa, parruda. Sua Jessica é o Brasil que evoluiu, que quer dar a cara a tapa e que não baixa a cabeça. Vai e faz! Ela é a juventude, que cai, levanta e segue em frente, sem medo de portas fechadas. Ela é molecada que vai mudar o país. Karine Teles faz Barbara com uma destreza ímpar. Nós entendemos e logo depois odiamos a patroa. É o Brasil que vai falir, que está acabando, do conservadorismo que está na moda, mas jajá volta pro lugar que merece. Carlos é Mutarelli. Mutarelli é Carlos. Ele é um gênio e na tela temos aquele homem sombrio, com movimentos obscuros que chega a causar medo. Michel Joelsas já brilhou em "O Ano em que Meus Pais Sairam de Casa", cresceu e aqui, Fabinho, é a ponta de esperança de uma família existir, um menino bom e muito bem criado por Val, sua mãe. Uma família rica. Uma empregada. Uma filha. Um mar de dúvidas racham as estruturas já rachadas.

Anna, pra finalizar, além de aplaudir, quero agradecer. Queria ter o poder de convencer todos meu amigos, para que convencessem todos seus amigos e assim sucessivamente a verem “Que Horas Ela Volta?”. O filme merece todo clamor que vem recebendo da crítica, mas merecia que mais e mais pessoas vissem o filme. É um filme universal, que conversa com patrões, empregados, mendigos e milionários. Você dissecou o país em duas horas. Que os brasileiros ganhem duas horas de entretenimento, reflexão e emoções que “Que Horas Ela Volta?” geram. Como escrevi lá em cima, é o melhor filme do ano até agora. Já na lista de melhores filmes nacionais existentes. Que você siga em frente fazendo o que sabe. Fazendo a gente se reconhecer na tela. Fazendo a gente se sentir mais vivo, sentindo o coração bater mais forte.

Grande abraço desse fã.





Vitor Stefano
Sessões

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