segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Biutiful

Nome Original: Biutiful
Ano: 2010
Diretor: Alejandro González Iñarritu
País: México e Espanha
Elenco: Javier Bardem e Maricel Álvarez.
Prêmios: Melhor Ator (Bardem) no Festival de Cannes e no Festival de Goya.
Biutiful (2010) on IMDb
 

O sofrimento nunca vai passar enquanto vivermos numa selva de dor e maldade. Se o mundo é bonito, só é bonito porque a sua essência foi bonita, mas agora, com tanta dor, não podemos sentir essa beleza. Na união de cores, de raças ou de credos, unidos estamos montando um mundo cheio de belezas invisíveis, amores odiosos e bondades maléficas. A vida é muito mais bela se enxergarmos o além, além do que os limitados olhos humanos conseguem ver. Não há mais esperança. A vida é bonita e é bonita. Pra quem? Só ser for bunita.

De tristezas e confusões vive Uxbal. Rosto cansado de tanto sofrer, filhos que sofrem por uma família inexistente, a ex-mulher, Marambra, que o rodeia como uma roda gigante, com altos e baixos inexplicáveis ou compreensíveis com o rótulo de bipolaridade. Uma vida de complicações e ilegalidades contornadas pela metástase que já toma conta de suas entranhas. De sua urina sangrenta saem todas as almas que vê diante da morte. E tudo por dinheiro. Um dom, uma vida, uma história que só vive por conta de alguns Euros no bolso. Negocia com chineses que vivem em porões dignos de ratos, distribui o trabalho para africanos ilegais e lucra com comissões que não podem curar nenhum câncer. O câncer é a sociedade: preconceituosa e intolerante, corrupta e corruptível.



A parceria de Bardem e Iñarritu é uma das combinações que mais gostaria de ver nas películas dos últimos tempos. O ator é visceral e o diretor mostra as vísceras da forma mais crua sem ser explicito. A interpretação viva unida ao amargor dos temas do diretor das catástrofes sociais só poderia dar em um filme denso, pesado, lindo e amargo. Um elenco de apoio excelente, com atores não tão conhecidos, mas que ornam com o peso que há na vida vista em Biutiful. Iñarritu é o retratista da crise da sociedade global. Vimos Bardem numa Barcelona linda no filme de Woody Allen, agora temos outra visão de que nem tudo são flores, Penelopes e Johannsons. O mundo está mais cheio de Uxbal, Marambra e de morte. Mas mesmo não vendo de perto “A Sagrada Família” de Gaudí, temos a família como ela é. É uma beleza estranha mesmo, assim como se dizer Biutiful.


Chega a causar mal estar. A Barcelona que vemos nos livros de arquitetura, dos belos vilarejos, do histórico futebol, da história de independência, está estuprada pelas lentes de Iñarritu. O que vemos é uma metrópole como todas, cheia de desrespeito, de tristeza, de barracos e ilegalidades. Um Barcelona paulista, multicultural, multirracial e mutilada. E não culpemos a diversificação por essa destruição. A raça que faz tudo acontecer é a que faz tudo desaparecer. Não importa se zulus, guaranis ou mongóis, o que importa é que desde que o mundo é mundo ele morre a cada dia. Não estaremos vivos para morrer com ele, mas já conseguimos sentir um pouco dessa amargura quando vemos os filmes do Iñarritu, um mestre. Uxbal é o retrato de uma humanidade de amores brutos e só sabe viver perturbado e correndo atrás do próprio rabo buscando explicações para perguntas retóricas. O fim dessa torre de Babel se aproxima e no olhar da criança se renova a esperança de ver o fim mais belo. De dentro da cova.


Vitor Stefano
Sessões

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